quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

CAMINHO DE QUARESMA V

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Este tempo de Quaresma é sempre o tempo ideal para caminharmos num deserto isento de ruídos, de imagens, de impressões, de certezas adquiridas, enfim, de tudo aquilo que muitas vezes nos mascara para nós próprios.

É por isso um tempo de entrarmos em nós, de nos conhecermos verdadeiramente, de percebermos realmente como somos e como reagimos, e, como em tudo isso que somos ou aparentamos ser, discernir se temos ou não Cristo em nós, ou melhor, se somos verdadeiramente discípulos de Cristo.

Para isso é preciso um exercício de profunda humildade, porque para reconhecermos as nossas poucas ou muitas virtudes é fácil e aceitamo-las de imediato, mas já para reconhecer as nossas fraquezas, os nossos defeitos, a dificuldade é enorme e por vezes temos dificuldade para os aceitar e os combater.

E, obviamente, é sempre difícil sermos verdadeiros connosco próprios, sobretudo no que diz respeito ao que não está bem, ao que não é bom, por isso, nessa viagem pelo deserto que devemos fazer de nós próprios, não poderemos ir sós, mas sim acompanhados, ou melhor, envolvidos e deixando-nos conduzir pelo Espírito Santo.

E o Espírito Santo, com todo o Seu infinito amor, convencer-nos-á do pecado em nós (Jo 16, 8), mas ao mesmo tempo levar-nos-á ao arrependimento, à confissão, ao propósito de emenda.

Porque só convencidos do pecado, só convencidos de que realmente somos pecadores, não como um exercício de, digamos, autoflagelação, mas como um exercício de verdade, podemos perceber como o pecado nos aprisiona e, ao mesmo tempo, como Deus nos quer libertar de todo o mal, e assim, levar-nos ao arrependimento, para no Seu amor encontrarmos o verdadeiro amor e a salvação.

«Arrependei-vos e acreditai no Evangelho» Mc 1, 15

Como podemos nós arrepender-nos se não nos reconhecemos pecadores?
E se não nos arrependemos, como podemos nós acreditar no Evangelho?

Acreditando no Evangelho, ou seja, fazendo do Evangelho a nossa prática de vida, («Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática.» Lc 8, 21), seremos então discípulos de Cristo guiados pelo Espírito Santo no deserto que quisermos percorrer e, então, encontrar-nos-emos connosco próprios e conhecendo-nos, percebermos e vivermos Cristo em nós.

Senhor,
conhecendo-me verdadeiramente saberei como sou nada.
No entanto, na humildade de me reconhecer pecador, entrego-me a Ti, e em Ti posso ser tudo o que Te aprouver, mesmo sendo nada.
Amen.





Marinha Grande, 28 de Fevereiro de 2024
Joaquim Mexia Alves

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

CAMINHO DE QUARESMA IV

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Fechamos os olhos, deixamos que a música, o Requiem de Mozart nos entre pelos ouvidos, passe pela nossa mente e chegue ao nosso coração.

Deixamo-nos tocar por Deus que deu ao homem tais talentos que o leva compor música de uma tal grandeza que percebemos que vai para além da humanidade, pois transporta-nos para outro espaço que não dominamos, mas antes vivemos numa profunda interioridade.

Talvez até uma lágrima ou outra despontem nos nossos olhos, mas deixamo-las correr, deixamos que elas lavem pelo menos por um escasso tempo tudo o que é fealdade no mundo.

Sim, não faz mal nenhum deixarmo-nos transportar para um universo de melodia, de força, de energia, de algo que nos leva a perceber, atendida as necessárias e percebidas diferenças, como este conjunto de notas musicais nos levam a viver o universo criado por Deus, entre estrelas, planetas, galáxias que perfeitamente se encaixam umas nas outras.

Pelo menos a mim a música, esta música, leva-me sempre ao encontro com Deus, porque esta perfeição apenas pode ser graça d’Ele ao homem.

E o caminho de Quaresma?

Por este tempo efémero, como é o nosso tempo físico, deixo que o meu caminhar no deserto seja acompanhado por esta música, por esta exaltação que sinto, porque ao ouvi-la me sinto pequeno, um quase nada e me maravilho pensando como é possível que um homem, ser tão finito no tempo físico, ser capaz de compor algo que vai para além do tempo e se transporta e nos transporta para todo o tempo.

Eterno e infinito é Deus, mas quando Ele nos criou à Sua imagem e semelhança, também nos fez participes dessa Sua eternidade, (se com Ele quisermos viver para sempre), e a música, esta música como outras de grandiosidade inquestionável, tornam-se também quase eternas, porque vindas d’Ele para o homem, podem levar o homem para Ele, ao reconhecer que tudo o que é bom nos vem apenas e só de Deus.

De olhos fechados, levado pelos passos da música, apenas abro o coração e repito sem cessar, num silêncio que não quer quebrar a harmonia:

Aqui estou, Senhor!
Leva-me pelo deserto, guia-me no caminho, dá-me a mão, faz-me viver o Teu amor, a Tua graça.
Perdoa-me porque tantas vezes não vejo a beleza da Tua criação, a beleza e perfeição de tudo o que criaste para o homem e pelo homem.
Ensina-me a encontrar-Te em mim, no amor, na humildade, na entrega, na doação.
Leva-me à oração contínua como se fosse música para os Teus ouvidos.
Faz de mim o quiseres e faz-me viver cada passo no deserto como uma nota de música em que Te fazes presente para mim e para todos.






Marinha Grande, 26 de Fevereiro de 2024
Joaquim Mexia Alves

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

CAMINHO DE QUARESMA III

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Nestes últimos dias surgiu nas redes sociais uma suposta mensagem do Papa Francisco sobre o jejum.

Basta ler os termos usados na mensagem para se perceber de imediato que a mesma não pode ser do Papa, que é aliás “alvo” de muitas destas mensagens, que são sempre uma deturpação daquilo que ele disse.

O que é interessante, é perceber, do meu ponto de vista, claro, como nos apressamos a dar como certo algo que nos parece afinal mais fácil do que aquilo que a Igreja ao longo dos tempos nos pede como caminho para e com Deus, muito especialmente neste tempo da Quaresma.

Obviamente que um cristão que coloca em prática a Palavra de Deus no seu dia a dia, que se deixa guiar pelo Espírito Santo, sabe perfeitamente que o jejum, ou seja, a contenção na comida, a abstinência de comer carne, etc., não tem “efeito” na nossa vida a não ser que seja acompanhado com uma verdadeira interioridade espiritual, com uma forte vontade de contrição e conversão, com um entregar-se decididamente à vontade Deus, e que, se assim for, nos abre sem dúvida nenhuma aos outros, sobretudo àqueles que mais necessitam, seja material ou espiritualmente.

Porque o Espírito Santo conduz-nos sempre à caridade, não à “caridadezinha”, mas à caridade/amor, que é sempre doação de cada um ao outro, em Jesus Cristo.

E a caridade não se impõe, é livre, é vontade de cada um e como tal não se pode reduzir a um preceito apenas, mas sim, que esse preceito, essa prática, seja vivida como fonte de vida, como entrega a Deus nos outros, com a alegria serena de quem quer fazer a vontade de Deus, porque acredita que só vivendo assim pode alcançar a vida plena prometida por Jesus Cristo, desde sempre e para sempre.

E a caridade que não se impõe, que é livre, que é vontade de cada um, só o é verdadeiramente na medida em que estamos em comunhão com a Caridade perfeita que é Deus em todas as coisas, e assim, não procuramos apenas cumprir um preceito, mas sim porque queremos procurar e encontrar Deus na doação da nossa vontade, na doação de nós próprios.

E, (sem grandes “teologias” para as quais não tenho conhecimentos), os preceitos, as práticas existem para nos lembrar que, se queremos viver em plenitude a vida que Deus nos dá, apenas o podemos fazer em comunhão com Ele, e essa comunhão com Deus é sempre, mas mesmo sempre, comunhão com os outros, não só em Igreja, mas também com todos os que ainda não estão, não são, Igreja.

É tão mais fácil procurar mensagens, frases, atitudes, que parecem aliviar-nos de uma qualquer “carga” que nos parece colocarem em nós.

Mas em Deus e com Deus nada se faz por obrigação, mas sim por amor, porque se amamos, ou queremos amar verdadeiramente Deus, então tudo em nós é feito por amor, para que esse amor seja cada vez mais completo e mais vida em nós.

Então, digamos assim, não há preceito, nem prática, como obrigação imposta, mas sim como caminho que procura cada vez mais o amor de Deus para sermos de Deus e com Deus e em Deus para os outros.

Quanto à tal falsa mensagem do Papa Francisco, que realmente nos chamou a atenção, mas de modo bem diferente, para uma prática de jejum correcta, nada trouxe de novo, digamos assim, porque se realmente entrarmos no nosso íntimo, se inquirirmos o nosso coração, se nos deixarmos guiar pelo Espírito Santo, imediatamente percebemos que o jejum só tem sentido quando vivido na caridade e na entrega a Deus e aos outros.

Até porque essa tal falsa mensagem passa a ideia de que não precisamos de fazer jejum nem abstinência se formos “bonzinhos” para os outros!







Marinha Grande, 22 de Fevereiro de 2024
Joaquim Mexia Alves

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

CAMINHO DE QUARESMA II

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Voltava eu do campo quando vi aquela multidão numa rua de Jerusalém.

Vi-me num instante no meio daquela gente que ululava como possessa, perante um Homem que transportava uma cruz.

O Homem estava desfigurado, ferido, ensanguentado, era a imagem de um desprezado, de um proscrito, de um condenado e, no entanto, emanava d’Ele uma força, uma bondade que eu não conseguia entender.

Arrastava-se penosamente com o peso da cruz, e a sua face estava coberta de sangue que provinha de uma coroa de espinhos que tinha colocada na cabeça.

Era uma imagem desoladora e eu vivia um misto de pena e receio, ao mesmo tempo que sentia um desejo de O ajudar, mas o medo dos soldados ali presentes impedia-me de o fazer.

Absorto nos meus pensamentos sobre tudo o que aquilo significava, senti-me agarrado por dois soldados que, sem nada me perguntar, me obrigaram a ajudar Aquele Homem a transportar a Sua cruz.

Incapaz de reagir dei por mim a colocar a Sua cruz nos meus ombros e a seguir Aquele Homem na Sua caminhada para a crucificação.

Não conseguia perceber se a cruz me pesava mais do que o sentimento que tinha de me sentir também invectivado por aqueles que O ofendiam, quando eu afinal nada tinha a ver com tudo aquilo.

Coisa estranha, pensei eu, sentia aquela cruz como um pouco das cruzes da minha vida que tantas vezes me recusava a carregar.

Quanto mais caminhávamos, com grande dificuldade, mais o meu coração se ia enchendo de compaixão por Aquele Homem, que eu não conhecia, mas sentia como Alguém muito próximo de mim.

Chegados ao Calvário, Ele olhou para mim com os olhos mais doces que alguma vez eu tinha visto e senti-me envolvido num amor para mim incompreensível, mas que eu percebi bem que vinha d’Ele.

Fiquei ali, extático e sem reação, a olhar para a crucificação, para a agonia d’Aquele Homem, que eu sentia no meu coração inexplicavelmente, até à Sua morte, antecedida de um pedido de perdão ao Seu Pai por todos aqueles que O matavam.

No caminho de regresso a casa senti a voz d’Aquele Homem que me dizia docemente:
Simão de Cirene, obrigado por Me teres ajudado a levar a Minha cruz. Fica a saber que nela estava também a tua cruz do dia a dia e que, de agora em diante, serei Eu que te ajudarei a carregares a tua cruz todos os dias.

Do meu coração apenas saía um contrito obrigado, Senhor, obrigado!

Ah, Senhor, quisera eu ser Simão de Cirene, mas por vezes nem a minha cruz eu quero levar!




Marinha Grande, 20 de Fevereiro de 2024
Joaquim Mexia Alves

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

CAMINHO DE QUARESMA I

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Prostrado no chão, sinto o peso dos meus pecados e arrasto-me como um penitente à procura de perdão.

Ouso levantar os olhos e vejo-Te, Jesus, de pé, com a bondade estampada no rosto e os braços abertos para mim.

Perguntas-me cheio de amor:
Porque estás assim prostrado no chão, vergado com todo esse peso que colocaste nos teus ombros?

Eu nem ouso olhar-Te, mas respondo num murmúrio envergonhado:
É a minha vergonha, Senhor, o peso dos meus pecados quando não fiz a Tua vontade e me afastei de Ti.

Ouço novamente a Tua voz que ecoa no meu coração dizendo-me:
Mas meu filho, Eu já te libertei de todo esse peso. Sei do teu arrependimento, da tua contrição, por isso já te perdoei no Meu coração.

Olho-Te então novamente e digo com voz suplicante:
Senhor, mas este peso parece que não me deixa levantar, parece que me abate e não me deixa viver a vida que Tu me queres dar.

A Tua voz torna-se ainda mais amorosa, se tal é possível, porque ela está sempre repassada de amor eterno:
Levanta-te, vamos! Quero-te aqui Comigo, nos Meus braços, junto ao Meu coração, deixando-te envolver no Meu perdão, no Meu amor.

Levanto a cabeça e vejo a Tua mão estendida para mim, chamando-me do chão onde teimava em permanecer.

Dou-Te a mão e Tu, Jesus, puxas-me para Ti, encostas-me ao Teu peito e, com um sorriso lindo, dizes:
Meu filho, foi para isto que Eu vim, para carregar as tuas fraquezas na Minha Cruz, para me entregar inteiramente por ti e assim te libertar do peso do pecado que te quer arrastar pelo chão. 
Levanta-te, vamos! Quero que faças Comigo esta viagem pelo deserto do nosso permanente encontro. Deixa-te guiar pelo Espírito que derramo em ti. Coloca um sorriso nos teus lábios, enche de confiança o teu coração, deixa que a esperança te faça caminhar, porque Eu estou contigo e nunca te hei-de deixar.

Levanto-me, reconheço-me pecador, mas isso já não é para mim uma opressão, uma prisão, porque no Teu amor, Senhor, encontrei a libertação, encontrei a salvação.





Marinha Grande, 16 de Fevereiro de 2024
Joaquim Mexia Alves

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

QUARTA FEIRA DE CINZAS E QUARESMA

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É sempre assim desde há alguns anos para cá quando se aproxima a Quarta Feira de Cinzas, a Quaresma.

O meu coração torna-se mais pequeno, ou maior, nem sei bem, e enche-se de uma alegria contida, de uma confiança, de uma esperança, de uma vontade tremenda de entrar em mim próprio e procurar tudo o que está mal e tudo o que está bem, e com os olhos do coração fixados em Jesus Cristo, deixar que o Espírito Santo tome conta de mim e me leve no caminho contrição, no caminho da confissão, no caminho da conversão, que desperta ainda mais em mim, com uma força inabalável.

E se me “cubro” de cinzas nesse primeiro dia de Quaresma, deixo que ao longo dos dias essas cinzas tornem em cinza também tudo aquilo que me entristece por não ter sido capaz de resistir a tanta coisa errada que sempre acabo por fazer.

Não me deleito com as minhas fraquezas, como um predestinado, mas deixo que elas me façam sentir a minha inconstância, a minha infidelidade, o meu pobre amor por Jesus Cristo Nosso Senhor.

Não me derrotam essas fraquezas, não me destroem nem aniquilam, porque colocadas nas mãos do Salvador, com um arrependimento que sempre quero sincero, acabam por me fazer mais forte para as combater, quando elas regressam, e sim, sempre regressam, porque são caminho de conversão de todos os dias.

Mas no fundo das cinzas, quase tapado por elas, há sempre uma réstia de fogo, que é o Espírito Santo que teima em não se apagar, pois só precisa do meu sim, para me reacender e reavivar.

E é então que o coração pequeno por causa das fraquezas que o apertam, se torna ainda maior para poder conter o amor de Deus, que me toca, me envolve, me chama e me salva de mim próprio.

Abençoada culpa, que me mostra o meu pecado, me leva ao arrependimento, e me traz o perdão do meu Deus que deu a vida por mim.

É sempre assim desde há alguns anos para cá quando se aproxima a Quarta Feira de Cinzas, a Quaresma.





Marinha Grande, 14 de Fevereiro de 2024
Joaquim Mexia Alves

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

MAJOR HUMBERTO BORDALO XAVIER

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Sou hoje confrontado com o falecimento do “meu Capitão” Bordalo, que nunca chegou a ser “meu Capitão”, mas era e foi sempre o meu Capitão Bordalo.

Quando fui enviado a comandar tropas guineenses, muito especialmente o Pelotão de Caçadores Nativos 52, conheci em Bambadinca o então Cap. Bordalo, que era o comandante da Companhia de Caçadores 12, constituída também por militares guineenses, enquadrados por oficiais e sargentos da então metrópole.

Ambos temos o curso de Operações Especiais, (ele bem antes de mim), hoje conhecidos como Rangers.

A amizade entre os dois foi imediata e a nossa maneira de ser e de pensar tornou-nos extremamente unidos.

O Capitão Bordalo era um homem simples, sem alardes, (como são sempre os grandes homens), e um combatente extraordinário, que galvanizava as suas tropas por ser sempre o primeiro a liderar, mas também o primeiro a defender aqueles que estavam debaixo das suas ordens e, isso mesmo, incutiu em mim, o que nos trouxe alguns “amargos de boca” com alguns superiores nossos.

Nunca servi directamente sob as suas ordens, mas fizemos algumas operações militares conjuntas da sua C. Caç. 12 com o meu Pel. Caç. Nat. 52.

Numa altura em que as condições de vida a que eu com outros, estávamos sujeitos, o Cap. Bordalo foi o garante da minha “sanidade mental”, com o seu apoio sempre próximo, franco e amigo.

Retenho na memória, há uns anos em Monte Real, quando eu estava ao fim da tarde a jogar ténis no campo frente ao Hotel das Termas e vejo parar um carro e dele sair uma pessoa que me pareceu o Cap. Bordalo.

Achei que não podia ser, mas roído pela curiosidade pedi desculpa ao meu parceiro e fui perguntar ao porteiro do Hotel quem era a pessoa que tinha chegado.
A resposta deu como certa a minha suposição. Não o via desde a Guiné.

Imediatamente pedi ao porteiro que ligasse para o quarto e pedisse ao Capitão para vir à recepção por um motivo qualquer.

Quando nos vimos, demos num abraço em que literalmente lhe peguei ao colo, (o Cap Bordalo Xavier era bem mais baixo do que eu), e ficámos ali não sei quanto tempo abraçados, com as lágrimas nos olhos.

O hall do Hotel estava cheio de gente, que ficou muito espantada por me ver assim abraçado a um homem de barbas.

Passados uns tempos, recebi uma convocatória para um encontro de Rangers em Lamego e decidi meter-me no carro e fazer a viagem.

Quem estava a receber os camaradas de armas era, como não podia deixar de ser, o então Major Bordalo.

Mais um abraço daqueles que faz tremer o chão, e a “obrigação” de imediatamente me fazer sócio da AOE – Associação de Operações Especiais que, com um padrinho como ele, não podia de forma nenhuma recusar.

Seguiram-se anos de vários encontros em Lamego, até que a vida com as suas voltas, não me permitiu, ou eu não me disponibilizei para isso, e deixámos de nos encontrar.

Repetidamente me prometi a mim mesmo que iria a Lamego dar-lhe um abraço novamente e repetidamente o comodismo me “impediu” de o fazer, o que hoje, neste dia, me dói verdadeiramente no coração e na vida.

Podia ficar horas a escrever, a falar sobre o Cap. Bordalo, de como ele era um homem de coração grande, como era um verdadeiro Comandante que comandava pelo exemplo, como era um amigo sempre pronto a me apoiar, mas também a fazer ver os erros que eu ia cometendo, como me safou de levar uma punição pela minha forma de reagir a ordens sem sentido, enfim, de como me fez mais homem, mais militar, mais oficial, mais amigo.

Ontem escrevia sobre as lágrimas.
Hoje as lágrimas são minhas, e sim, um homem chora e eu choro a saudade de um homem bom que tornou a minha vida melhor.

À sua família o meu sentido abraço.

A ti, (agora trato-te por tu), meu Capitão Bordalo, até já, quando nos encontramos no cantinho do céu que recolhe os Rangers no seu eterno descanso.





Marinha Grande, 13 de Fevereiro de 2024
Joaquim Mexia Alves

 


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

OUVIR E FALAR

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«Imediatamente se abriram os ouvidos do homem, soltou-se-lhe a prisão da língua e começou a falar corretamente.» Mc 7, 35

O homem que era surdo e mudo começou a ouvir e a falar.

E muitos de nós, eu incluído, precisávamos de não ouvir e não falar, quando ouvimos dizer mal do outro ou nos entretemos a dizer mal e a criticar os outros.

Quero ver, quero sobretudo sentir, as últimas palavras deste versículo do Evangelho de hoje, «começou a falar correctamente», como uma advertência, como uma chamada de atenção, para mim e para todos os que, como eu, por vezes criticamos sem sentido, falamos mal disto ou daquilo só porque não nos agrada, transmitimos o que outros nos dizem sabendo no nosso coração que estamos a levantar boatos, para já não lhe chamar falsos testemunhos.

E quando escrevo sobre o falar, aplico-o também ao ouvir, porque infelizmente muitas vezes não fechamos os nossos ouvidos às críticas infundadas, à maledicência, às mentiras propaladas.

E o ouvir e o falar são capacidades que Deus nos deu/dá para podermos ser mais comunhão uns com os outros, e, afinal, tantas vezes as usamos para desunir, para criar aversões, enfim, para dividir.
E quem divide é o inimigo, bem o sabemos.

Releio o que escrevi e sinto a dureza das palavras, mas a verdade é que a critica infundada, sem ser para construir, para unir, e, sobretudo a maledicência, são venenos terríveis que nos envenenam por dentro e nem sequer dão ao que foi “atingido” pela maledicência, a possibilidade de se defender, porque dela só poderá ter conhecimento tardio.

Que o mesmo Senhor Jesus que um dia abriu os meus ouvidos e soltou a minha língua para que eu pudesse ouvir e falar, me dê o discernimento, a sensatez, a coragem para recusar ouvir o que não presta e falar o que não devo.





Marinha Grande, 9 de Fevereiro de 2024
Joaquim Mexia Alves

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

O CRISTÃO E A ALEGRIA

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Do livro do Papa Bento XVI, “Jesus de Nazaré – A infância de Jesus”:

«Na saudação do anjo impressiona o facto não dirigir a Maria a habitual saudação judaica Shalom -a paz esteja contigo - mas a fórmula grega khaire que se pode tranquilamente traduzir por Avé como sucede na oração Mariana da igreja formada com palavras extraídas na narração da Anunciação.
Mas é justo individuar neste ponto o verdadeiro significado da palavra khaire: alegra-te!
Com este voto do anjo podemos dizer começa propriamente um Novo Testamento.
A palavra volta a aparecer na noite Santa nos lábios do anjo que diz aos pastores: «anuncio-vos uma grande alegria.» (Lc 2, 10)
Aparece em João por ocasião do encontro com o ressuscitado: «os discípulos encheram-se de alegria por verem o Senhor» (Jo 20, 20)
Nos discursos de despedida, em João, aparece uma teologia da alegria, que esclarece, por assim dizer, as profundezas desta palavra: «Eu hei-de ver-vos de novo! Então o vosso coração há de alegrar-se e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria» (Jo 16, 22)»

Poderíamos acrescentar ainda versículos da Bíblia onde a alegria é citada como uma constante que deve fazer parte inerente do ser cristão.

«E donde me é dado que venha ter comigo a mãe do meu Senhor? Pois logo que chegou aos meus ouvidos a tua saudação o menino saltou de alegria no meu seio» (Lc 1, 43-44)

«Manifestei-vos estas coisas para que esteja em vós a minha alegria e a vossa alegria seja completa» (Jo 15, 11)

«Alegrai-vos sempre no Senhor! De novo o digo: alegrai-vos!» (Fl 4, 4)

Mas quando nos confrontamos com a realidade do ser cristão hoje em dia, é muito difícil reconhecer esta alegria de que tanto nos fala a Palavra de Deus.

Obviamente que a alegria de que nos fala a Bíblia, não é a alegria ruidosa da gargalhada fácil, da anedota engraçada, de um qualquer humor corriqueiro.

Não, esta alegria de que nos fala a Bíblia, é a alegria do amor de Deus, que gera confiança, que enche de esperança, que nos deve preencher totalmente por acreditarmos que Ele está connosco desde sempre e para sempre e que nunca nos abandona.

É a alegria que nos é dada pela confiança de acreditarmos que, como no episódio da cura da sogra de Pedro (Mc 1, 30-31), Ele nos toma pela mão e nos ajuda a ultrapassar as contrariedades, as dificuldades, as doenças, enfim, todas as vicissitudes inerentes à vida, mas que não são, afinal, a vida que Ele mesmo nos dá.

Esta alegria de Deus e em Deus, porque vinda do Seu amor, é contagiante, e por isso é testemunho imprescindível do ser cristão, porque se assim não for, então Deus mais parecerá um peso do que uma libertação, do que a verdadeira salvação.

E esta alegria tantas vezes não se reflecte na nossa face, no nosso sorriso, na nossa calma perante as dificuldades, mas também nas nossas palavras, nas nossas respostas, que são tantas vezes esmorecedoras para os outros, quando nos queixamos por tudo e por nada, quando passamos a imagem de que nada está bem connosco, porque muitas vezes usamos expressões demasiado arreigadas às conversas habituais, sem cuidarmos de perceber que passamos afinal uma imagem negativa da nossa vida.

Isso quer dizer que não devemos ligar às contrariedades da vida, às tristezas, às doenças, etc.?
Claro que não, mas sim não fazer de tudo isso uma espécie de predestinação que é em tudo contrária ao amor e à liberdade que Deus nos dá.

Quando nos deixamos tocar, envolver, iluminar, conduzir pelo Espírito Santo, tudo se modifica e nos faz encontrar razões para lutar esperando e acreditando que em Deus temos sempre a vida verdadeira, que é vida em plenitude, «já e ainda não».

«Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.» Jo 10, 10






Marinha Grande, 6 de Fevereiro de 2024
Joaquim Mexia Alves

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

A FALTA DE FÉ

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«Estava admirado com a falta de fé daquela gente.» Mc 6, 6

Este versículo do Evangelho de ontem, chamou-me a atenção, ou melhor, ficou no meu coração, no meu pensamento.

Como ando a reler a Encíclica Dominum et Vivicantem de São João Paulo II, sobre o Espírito Santo na vida da Igreja e do mundo, este versículo ganhou uma dimensão digamos que ainda mais actual.

«a «blasfêmia» não consiste propriamente em ofender o Espírito Santo com palavras; consiste, antes, na recusa de aceitar a salvação que Deus oferece ao homem, mediante o mesmo Espírito Santo agindo em virtude do sacrifício da Cruz. Se o homem rejeita o deixar-se «convencer quanto ao pecado», que provém do Espírito Santo e tem carácter salvífico, ele rejeita contemporaneamente a «vinda» do Consolador: aquela «vinda» que se efectuou no mistério da Páscoa, em união com o poder redentor do Sangue de Cristo: o Sangue que «purifica a consciência das obras mortas». (DV 6-46)

Ao ler esta passagem da Encíclica e percebendo que cada vez mais o mundo nos quer convencer que o pecado não existe, percebo que “aquele” que nos quer perder nos faz duvidar, afinal, da obra do Espírito Santo que é «convencer-nos quanto ao pecado», para que nos convertamos e acreditemos na salvação em Jesus Cristo.

E para acreditar no Espírito Santo, no Pai e no Filho, é preciso Fé, a Fé que sendo dom de Deus, se faz vida em nós e nos leva a viver segundo a vontade de Deus, afastando-nos da “lei do pecado”, cujo fim é a morte.

Mas se não temos Fé, não acreditamos na Encarnação, Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, não acreditamos no Espírito Santo e não acreditamos no infinito amor do Pai.

E, se não acreditamos no infinito amor de Deus, não acreditamos no Seu infinito perdão, pecamos contra o Espírito Santo, e fechamos a nossa vida à existência de Deus, não Lhe permitindo, perante a nossa falta de arrependimento por não acreditarmos na existência do pecado, que nos perdoe e no Seu amor nos salve da “morte eterna”.

E Deus, que nos criou em inteira liberdade, não pode coarctar essa mesma liberdade que por Ele nos foi dada e, como tal, somos nós que nos condenamos por não acreditarmos em Deus e no seu infinito amor.

Como São João Paulo II nos escreve na referida Encíclica:
«Ora a blasfêmia contra o Espírito Santo é o pecado cometido pelo homem, que reivindica o seu pretenso «direito» de perseverar no mal — em qualquer pecado — e recusa por isso mesmo a Redenção. O homem fica fechado no pecado, tornando impossível da sua parte a própria conversão e também, consequentemente, a remissão dos pecados, que considera não essencial ou não importante para a sua vida. É uma situação de ruína espiritual, porque a blasfêmia contra o Espírito Santo não permite ao homem sair da prisão em que ele próprio se fechou e abrir-se às fontes divinas da purificação das consciências e da remissão dos pecados.» (DV 6-46)

Estaremos também nós admirados, ou melhor, conscientes da falta de fé que parece tomar conta do mundo?



Marinha Grande, 1 de Fevereiro de 2024
Joaquim Mexia Alves

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

A LIBERDADE DE DEUS

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“Depois do fracasso dos primeiros pais o mundo inteiro está às escuras sob o domínio da morte. Então Deus procura entrar de novo no mundo; bate à porta de Maria. Tem necessidade do concurso da liberdade humana: não pode remir o homem, criado livre, sem um «sim» livre à sua vontade.

Ao criar a liberdade, de certo modo Deus tornou-se dependente do homem o seu poder está ligado ao «sim» não forçado de uma pessoa humana.”

(Jesus de Nazaré – A infância de Jesus – Joseph Ratzinger – Bento XVI)


O Papa Bento XVI, no seu livro acima referido, falando do «sim» de Maria, escreve esta frase que me chamou a atenção e me fez reflectir: “Ao criar a liberdade, de certo modo Deus tornou-se dependente do homem o seu poder está ligado ao «sim» não forçado de uma pessoa humana.”

Esta frase dirige-se ao «sim» de Maria, mas, penso eu, pode e deve dirigir-se também ao nosso «sim».

Com efeito e, se bem entendo, a liberdade que Deus a todos dá, de alguma forma “condiciona” a acção de Deus em nós, isto é, sem o nosso «sim», mesmo que seja um silencioso e tímido «sim», Deus “não pode” salvar-nos.

Pode e ama-nos incondicionalmente, claro, mas o Seu amor só se torna vida em nós perante o nosso «sim», o nosso querer viver do e no Seu amor.

E sim, a misericórdia de Deus é infinita, o Seu amor e o Seu perdão, são sempre maiores do que o nosso pecado, mas para que a Sua misericórdia, o Seu amor e o Seu perdão sejam vida em nós, Deus, perante a liberdade que nos deu, “precisa” do nosso «sim».

Por isso o maior pecado, aquele que não é perdoado, é o pecado contra o Espírito Santo, porque é o Espírito Santo que nos revela a imensidade e infinitude do amor de Deus, do Seu perdão, da Sua misericórdia, e se recusamos deliberadamente o amor, a misericórdia e o perdão de Deus, então estamos a “impedi-lO” de nos salvar de nós próprios.

Curiosamente, ou talvez não, o Evangelho de hoje tem o seguinte versículo: «Quem fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe». (Mc 3, 35)

E fazer a vontade de Deus é, sem dúvida, na inteira liberdade que Ele nos deu, dizer «sim» ao Seu amor, à Sua misericórdia, ao Seu perdão, enfim, à Sua vontade que é salvar todos e cada um.





Marinha Grande, 23 de Janeiro de 2024
Joaquim Mexia Alves

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

POR VEZES O SILÊNCIO FALA!

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Numa recente deslocação a Lisboa para falar sobre o Percurso Alpha numa Assembleia Diocesana do Renovamento Carismático Católico, tive a oportunidade de ouvir o ensinamento feito por um sacerdote, no qual ele citou uma frase que tinha ouvido ou lido em francês, e que era mais ou menos assim: “Não fales tanto de Deus se não te pedirem, mas vive de tal modo que to peçam.”

Fiquei com a frase no meu coração e no meu pensamento e já me servir dela duas ou três vezes em que fui chamado a falar sobre a minha vivência da fé.

Com efeito algumas vezes com a ânsia de falar de Deus, (com um certo proselitismo, talvez), acabamos por incomodar, por invadir o espaço dos outros, e as nossas palavras acabam por ter o efeito contrário ao que pretendíamos.

São Paulo avisa-nos para isso mesmo, julgo eu, quando nos diz: «Procedei com sabedoria para com os que estão fora, aproveitando as ocasiões. Que a vossa palavra seja sempre amável, temperada de sal, para que saibais responder a cada um como deveis» Cl 4, 5-6

Regressando à frase que refiro acima, quero perceber que, se realmente vivermos em Cristo, para Cristo e com Cristo, isso será notório na nossa vida e, com certeza, levará outros que assim não vivem a questionar-nos, e mesmo que não seja com perguntas específicas sobre Deus, pelo menos o porquê de assim querermos viver.

Ora essas perguntas, dúvidas, ou até sarcasmos, serão a meu ver, o “aproveitar as ocasiões”, de que nos fala São Paulo, nos versículos acima referidos.

Então já não será uma espécie de “intrusão” na privacidade de outros, mas a resposta às suas perguntas, dúvidas ou qualquer outro tipo de intervenção que nos queiram dirigir.

E isso acontecerá porque afinal vivemos de tal modo a fé que nos move e faz viver, que outros nos pedem para falar do que vivemos.

Se assim vivermos e fizermos, estaremos a entregar-nos ao Espírito Santo, para que seja Ele a colocar as palavras em nós, e não seja a nossa pretensa sabedoria a falar, por vezes, infelizmente, apenas porque nos querermos mostrar.

Ou seja, afinal se vivermos verdadeiramente a fé que nos anima, estaremos sempre a falar silenciosamente com o nosso testemunho de vida, para depois, se para tal formos chamados, colocarmos em palavras a fé que nos move e faz viver.






Monte Real, 16 de Janeiro de 2024
Joaquim Mexia Alves

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

O “PAI DA MENTIRA”

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«Que tens Tu a ver connosco, Jesus Nazareno? Vieste para nos perder? Sei quem Tu és: o Santo de Deus». Mc 1, 24

Ao ler o Evangelho de hoje, (9 de Janeiro), foi-me despertada a atenção para este versículo.

Não sou “obcecado” pelo diabo, antes pelo contrário, julgo que lhe dou a devida importância, mas tendo sempre em mim a certeza de que ele já foi vencido por Cristo e, como tal, devo estar sempre em comunhão com Cristo, estando sempre vigilante, deixando-me guiar pelo Espírito Santo, que sempre me dá e dará a força e sensatez necessária para resistir ao mal, assim eu queira.

Mas este versículo ficou no meu coração e no meu pensamento por o sentir nestes momentos que vivemos no mundo, na sociedade, muito mais como uma pergunta feita pelo mundo, pela humanidade, que se deixa iludir por falsas promessas de bem e prosperidade pelo “pai da mentira” que a todos quer perder e, portanto, não quer ser “incomodada” com a Verdade.

As guerras sucedem-se, o aborto é um genocídio de milhões de vidas inocentes, a confusão dos ditos géneros humanos, a desigualdade entre os homens social e materialmente, a falta de valores, enfim, todo um mundo de coisas e atitudes que tornam o Homem cada vez mais frágil e preso das garras do inimigo.

E por isso esta pergunta faz todo o sentido na visão do mal, do “pai da mentira”, pois ele sabe bem que só em Cristo, por Cristo e com Cristo a humanidade pode encontrar o caminho da salvação e da felicidade.

Por isso e cada vez mais a Igreja precisa de ser unida, precisa de se deixar guiar pelo Espírito Santo e não “dar ouvidos” ao “pai da mentira”, porque só uma Igreja unida no amor de Deus pode conduzir a humanidade ao encontro de e com Deus.

O “pai da mentira” sabe bem que já foi vencido, mas por isso mesmo continua a fazer esta pergunta e nós devemos “responder-lhe” com as nossas orações, com a nossa vivência diária da fé, na Eucaristia e nos Sacramentos, com a nossa contínua vigilância, com a nossa persistência, com a nossa entrega uns aos outros no amor de Deus que nos une em Igreja.

E se assim fizermos também saberemos que a resposta de Jesus será: «Jesus repreendeu-o, dizendo: «Cala-te e sai desse homem».» Mc 1, 25





Monte Real, 9 de Janeiro de 2023
Joaquim Mexia Alves

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Celebração de Natal da Cúria Diocesana de Leiria-Fátima

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Ontem estive na celebração de Natal da Cúria Diocesana de Leiria-Fátima, no Seminário Diocesano de Leiria, que começou com a Eucaristia, celebrada pelo nosso Bispo D José Ornelas, a que se seguiu de um almoço, que reuniu com o nosso Bispo os sacerdotes e leigos que colaboram mais directamente com a Diocese de Leiria-Fátima.

Fui convidado para tal celebração por causa do trabalho que tenho feito com as pessoas que procuram junto do Tribunal Eclesiástico discernimento para eventuais processos de nulidade dos seus anteriores Matrimónios.
Fruto da minha experiência pessoal, decidi colocar ao serviço dos outros o pouco que sei, ajudando-os a perceber se existem razões para invocar a nulidade dos Matrimónios que celebraram em Igreja e que, infelizmente, pelas mais variadas razões, tiveram um fim.

Mas neste texto que agora escrevo não é desse assunto que quero falar, ou melhor, escrever, mas sim, de como é gratificante colocar as nossas experiências pessoais, os poucos ou muitos talentos que Deus nos dá, ao serviço dos outros em Igreja.

Poder-se-ia pensar que não há uma “gratificação” por esse trabalho, para além daquela que, obviamente, temos por servir a Deus em Igreja.

Mas a verdade é que sentir naqueles que ajudamos a alegria de etapas vencidas, sonhos conquistados, caminhos bem percorridos, e viver essas alegrias com eles, é gratificação maior do que qualquer outra que possamos ter.
A felicidade dos outros torna-nos felizes também.

E percebermos que o caminho que fizemos, e que por vezes foi tão difícil, às vezes até angustiante, com momentos em que, se calhar, nos deu vontade de desistir, afinal se converteu em experiências pessoais ricas, muito ricas, que colocadas ao serviço dos outros e dando resultados positivos, nos fazem viver a alegria que desponta nas suas vidas, porque assim foi a vontade de Deus.

É ajudar um pouco, permitam-me o exagero, a que a vontade de Deus se faça nas vidas daqueles que O procuram verdadeiramente, não para obterem apenas umas quaisquer benesses, mas para O viverem em verdade nas suas vidas.

O acolhimento que tentamos fazer com a maior boa vontade, (e às vezes é tão difícil ouvir histórias repetitivas e frustraçóes sentidas), sendo bom para aqueles que servimos em Igreja, é também uma cura enorme para as nossas impaciências, para as nossas atitudes, por vezes, de autoconvencimento, e assim podermos perceber que somos apenas servos inúteis, que fazemos o que nos é pedido e possível, porque é Ele que, afinal e sempre, faz tudo em todos.

Durante a homilia, o nosso Bispo lembrou-nos a história do galo que anunciava o nascer do sol, convencido que o sol nascia por causa do seu cantar, e que, por isso mesmo, começou a cantar quando muito bem lhe apetecia, até que o dono cansado de tanto cantar “fora de horas” acabou por fazer dele um cozinhado.

Também nós às vezes temos a tentação de pensar que Deus “aparece” porque O anunciamos, quando em verdade Deus existe desde sempre e sempre se faz presente, porque é sempre Deus, porque é sempre Amor, e nós apenas podemos e devemos testemunhá-lO e anunciá-lO com os poucos ou muitos talentos que Ele nos dá.

Por isso apenas nos devemos lembrar sempre das palavras de Jesus Cristo:
«Recebestes de graça, dai de graça.» Mt 10, 8






Marinha Grande, 4 de Janeiro de 2023
Joaquim Mexia Alves

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

MAIS UM NOVO ANO

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O ano de 2023 terminou, para mim, com a evocação de um Papa, Bento XVI, que teve grande influência na minha vida de fé, pois, para além de ter mudado muito em mim e na minha vivência diária cristã, “obrigou-me” a estudar, para melhor conhecer e crer em Deus, dando-me fundamentos, como raízes, para alicerçar a fé que em mim vivia e vive.

2024 começa agora com as minhas orações pelo "meu" Papa Francisco, “meu” porque todos os Papas eleitos pela Igreja são os “meus” Papas, e nem podia ser de outro modo.

Se alguém precisa das nossas orações, seguramente os Papas que o Espírito Santo nos dá em Igreja, delas necessitam, porque cada um deles, sendo homens como nós, estão sujeitos a tudo o que a nossa humanidade nos sujeita, e eles, como primeiros pastores, têm que ter sempre em si a graça maior de Deus para nos conduzirem, mostrando-nos o caminho que Deus quer dar à Igreja, segundo a Sua vontade.

O novo ano não é assim tão novo, mas apenas e só mais um ano e, como tal, nada nos traz de diferente, a não ser que nós queiramos ser diferentes, isto é, que queiramos amar a Deus, amando mais os outros do que a nós próprios.

E poderíamos perguntar porquê começar um novo ano falando dos Papas?

Bem, quando falo dos Papas falo da Igreja, e se falo da Igreja falo do Pai, do Filho e do Espírito Santo, falo de Deus.

À medida que os anos vão passando torna-se cada vez mais curto o tempo de O encontrar face à face, e poder apresentar-lhe a vida que vivi, e que, e ainda bem que assim é, Ele conhece bem melhor do que eu.

Espero e tenho a certeza que, no Seu amor e na Sua misericórdia, Ele julga a minha vida com muito mais bondade do que eu a julgo, e até me diz que tenho mais um ano, ou quantos Ele quiser, para me aproximar cada vez mais d’Ele, vivendo no e do Seu amor.

E é isso que eu desejo neste novo ano para mim e para todos, é que no amor do Pai, levados pelo Espírito Santo, sejamos cada vez mais unidos a Jesus Cristo, amando-nos uns aos outros como Ele nos ama em Igreja.

Bom Ano Novo para todos, cheio das bênçãos de Deus.





Marinha Grande, 1 de Janeiro de 2024
Joaquim Mexia Alves

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA DE JESUS, MARIA E JOSÉ

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Neste Domingo a Igreja celebra a Festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José.

Há tempos atrás, consegui ver o filme “Som da Liberdade”, com uma, (mais uma), interpretação extraordinária de Jim Caviezel, o actor que fez o papel de Jesus Cristo no filme “A Paixão de Cristo” e que, segundo o próprio, mudou totalmente a sua vida.

E porque refiro este filme quando me lembro da Festa da Sagrada Família?

O filme retrata com uma crueza e uma realidade impressionantes, o rapto de crianças, que depois são vendidas, usadas e abusadas em redes de pedofilia internacional.

O filme impressionou-me fortemente e por algumas vezes me vieram as lágrimas aos olhos, mais ainda se nos lembrarmos que retrata uma história real.
Deixou-me uma sensação de impotência, raiva, de tal modo que quase me apetecia voltar a ter uma G3 na mão, (como na Guiné), e fazer “justiça” pelas minhas próprias mãos, se tal fosse possível.
Deus me perdoe, porque é muito difícil perdoar a esta gente, que trata assim as crianças.

As famílias daquelas, ou melhor, destas crianças, porque o pesadelo continua com certeza, sofrem horrivelmente este horror e estas crianças, mesmo que sejam resgatadas, não voltam a ser crianças na sua inocência de meninos e meninas.

Celebrando a Festa da Sagrada Família, não posso deixar de pensar nestas crianças e nestas famílias e, levantar uma prece sentida, profunda, emocionada, a Jesus, Maria e José, para que no amor que OS une continuamente, pois é o amor infinito e eterno de Deus, toque estas crianças, estas famílias, para que nesse amor encontrem algum consolo.

Peço também à Sagrada Família, (embora confesso que com dificuldade), que esse mesmo infinito amor toque os corações dos homens que praticam tais actos, os que raptam e os que abusam, para que percebam que a inocência das crianças é intocável, e que «melhor seria para ele que lhe atassem ao pescoço uma pedra de moinho e o lançassem ao mar, do que escandalizar um só destes pequeninos.» Lc 17, 2

Só acreditando na infinita misericórdia de Deus, algum consolo vem ao meu coração perante a recordação desta história, infelizmente sem fim, pois acredito firmemente que estas crianças e estas famílias estão no colo de Deus, embora possam não o saber por agora.

Que a Festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José, nos exorte a sermos mais família de amor e união, nas nossas famílias e na família de Deus, que é a Igreja.





Marinha Grande, 27 de Dezembro de 2023
Joaquim Mexia Alves

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

SER NATAL

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Hoje em dia diz-se e escreve-se muito que “eu sou isto ou aquilo”, conforme as causas que se defendem.

Pois hoje eu quero dizer e escrever que “eu sou Natal”!

Ou melhor, que eu quero ser Natal em mim e para os outros.

Ou seja, quero reflectir, testemunhar o amor de Jesus Cristo em mim, que apenas pode crescer, se eu o viver como amor aos outros.

Eu querer ser Natal assim, quero, mas para isso tenho que tentar sempre e cada vez mais, ser comunhão em Cristo, em Igreja, para reflectir o amor de Deus em mim, aberto a todos os que O querem encontrar.

E só O podem encontrar se eu for servo inútil do Seu amor, porque eu apenas O pude encontrar porque outros O reflectiram e testemunharam para mim.

Por isso eu só posso ser Natal para os outros, porque outros foram Natal para mim.

E esses só foram Natal para mim, porque Jesus Cristo se quis fazer Natal para todos.


«Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados.»





Marinha Grande, 25 de Dezembro de 2023
Joaquim Mexia Alves

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

A “DECLARAÇÃO” DO NATAL

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E depois pensei escrever sobre a recente Declaração do Dicastério para a Doutrina da Fé, (da qual não entendi bem a necessidade, visto haver uma outra de há apenas dois anos), mas o Natal que se aproxima levou-me a pensar mais no «Verbo que se fez homem e habitou entre nós». (Jo 1, 14)

E quis ver Aquele Menino, o Filho de Deus, deitado nas palhas, numa manjedoura, rodeado de Maria e José, numa pobreza mitigada pela incomparável alegria de um nascimento, ainda por cima do Emanuel, o Deus connosco.

E a acompanhá-lO uns pastores, gente da mais baixa extração naquele tempo, que ali, naquela gruta, foram acolhidos para darem graças ao Menino que nasceu para dar a Vida Nova ao mundo que O havia de rejeitar.

E lá veio outra vez a tal Declaração ao meu pensamento e quis perceber que Jesus Cristo, logo no início da sua vida terrena, acolheu e foi acolhido pelos mais escorraçados da sociedade daquele tempo, a par com aqueles a quem a tradição quis chamar reis ou magos.

Mudou a vida daqueles pastores, daqueles reis, daquela gente que foi ver e acolher e ser acolhido por Jesus Cristo, o Filho de Deus feito Homem?

Não sabemos bem, mas sabemos que os pastores começaram desde logo a «glorificar e louvar a Deus», (Lc 2,20), e sabemos também que os ditos reis «regressaram por outro caminho» (Mt 2, 12) a suas casas.

Eu sei que a minha vida mudou quando me deixei encontrar por Ele, e que o caminho que então seguia, mudou para um novo caminho e uma nova vida em Cristo.

E também sei que o peso do meu pecado era enorme e avassalador, mas que tudo isso foi mudado pelo encontro com Aquele Menino feito Homem.
E sei que Ele me abençoou, mas, obviamente, não abençoou o meu pecado, mas o perdoou, quando dele tomei consciência e me arrependi, pedindo perdão.

Então lá volto à tal Declaração, querendo perceber que uma bênção dada a alguém, seja quem for e em que situação esteja, não abençoa o pecado nem a situação de pecado, mas abençoa o pecador e apenas o pecador, para que possa tomar consciência do seu pecado e, arrependendo-se, pedir perdão, para “regressar à vida por outro caminho, glorificando e louvando a Deus”.

Ah, afinal estava a escrever sobre o Natal e de como é imprescindível que o Menino Jesus nasça em cada coração!





Marinha Grande, 20 de Dezembro de 2023
Joaquim Mexia Alves

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

CONTO DE NATAL 2023

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Sentada no cadeirão do lar onde passava os longos dias da sua velhice, sonhava acordada vendo os seus filhos entrarem pela porta daquela sala para lhe darem um beijo de Boas Festas pelo Natal.

Olhava para as suas companheiras e companheiros pensando que alguns deles, coitados, não teriam filhos que os viessem beijar e desejar bom Natal.

Verdade seja dita, pensou ela, que há muito tempo os seus filhos não a vinham visitar, mas o seu coração de mãe, cheio de amor, ia encontrando desculpas para eles não a visitarem.

Coitadas das suas “meninas” e “meninos”, com certeza atarefados nas suas vidas de trabalho, de família, já com filhas e filhos a criar e que, por isso, não teriam tempo para a visitar.

Sorriu ao lembrar-se das suas netas e netos que há tanto tempo já não via e até lhe parecia, (a sua memória já não era muito fidedigna), que talvez houvesse alguns que ainda não conhecia.

Os seus olhos doces encheram-se de lágrimas suaves quando se lembrou da sua antiga casa e do Natal, ainda com o seu homem e aquelas seis filhas e filhos que Deus lhes tinha dado ao redor da mesa, numa algazarra alegre e bem disposta.

Que saudades lhe vieram ao coração ao lembrar-se de todos esses Natais onde se percebia bem como a família ia crescendo sem parar.

Fechou os olhos e numa prece a Deus, pediu por todos eles e também, (embora com algum receio que estivesse a pedir demais), que o Menino Jesus lhe concedesse a alegria de viver esses Natais tão realmente quanto possível.

Regressou à realidade do lar e da sala onde se encontrava, respondeu qualquer coisa, sem pensar, a uma qualquer pergunta da companheira do lado, olhou para o grande calendário pendurado na parede, (também não era preciso ser tão grande, até parece que ali estava para contarem os dias que lhes faltavam para partir definitivamente!!!), e viu que era dia 24 de Dezembro pelo que, pensou ela quase num sonho, ainda havia tempo para a família a vir visitar.

A tarde chegava ao fim e ela, resignadamente, olhou para o crucifixo pendurado na parede e para o pequeno presépio colocado numa mesa de canto, e rezou baixinho:
Obrigado Jesus porque quiseste nascer para nós, quiseste ser igual a nós e até morrer por nós, para nos salvar.
Olha por todos os meus e dá-lhes tanta felicidade como me deste a mim, até mais, eu Te peço, e não deixes que nunca se sintam sós.
Perdoa por me sentir nestes momentos tão só, tão desamparada, mas olha, Jesus, coloco estes momentos na Tua Cruz, dou-tos como presentes no Teu Presépio, oferecendo-os pela conversão, felicidade e salvação de todos os meus.

Aquela oração trouxe uma paz e uma alegria serena ao seu coração e ela sorrindo, pensou: Sou tão feliz por ter Jesus comigo!

Foi nessa altura que a porta da sala se abriu e o seu filho mais velho entrou e chegando a ela beijou-a com toda a ternura dizendo-lhe: Anda, mãe, a empregada do lar já está a fazer-te uma pequena mala para vires jantar e passar a noite de Natal a nossa casa!

Ela nem sabia o que dizer e as lágrimas inundaram-lhe a cara.

À porta de casa do seu filho, depois de sair do carro, beijou-o novamente e de mão dada com ele entrou em sua casa, que afinal era a mesma casa que tinha sido sua.

Ao chegar à sala da casa, ficou completamente rendida à alegria, à saudade, a algo tão inexplicável que parecia lhe “rebentava” qualquer coisa no seu coração.

Ali, naquela sala de tantas memórias, estavam todas as suas filhas e filhos com as suas famílias, que a rodearam e cobriram de beijos e abraços.

Ia jurar que a um canto da sala estava o seu querido marido, sorrindo para ela de felicidade.

Fechou os olhos e rezou: Obrigado Jesus, porque me ouviste e agora me fazes viver novamente o Natal de sempre!





Marinha Grande, 18 de Dezembro de 2023
Joaquim Mexia Alves


Com este Conto de Natal quero desejar a todos quantos visitam este espaço, e às suas famílias, um Santo Natal e um Feliz Ano Novo, cheio das bênçãos de Deus.
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