terça-feira, 25 de junho de 2024

A IMPORTÂNCIA DAS PALAVRAS

.
.






Talvez seja rigoroso demais, mas a verdade é que muitas vezes utilizamos uma linguagem como cristãos católicos que pode induzir os outros em erro, ou melhor, pode não dizer o que verdadeiramente queremos e devemos dizer, enquanto testemunhas de Cristo.

Com toda a facilidade dizemos, por exemplo, que “assistimos à Missa”.
Mas realmente o que nós devemos fazer/dizer é participar, celebrar a Missa, porque a Missa não é um qualquer espectáculo a que se assiste, como uma peça de teatro, por exemplo.
Numa peça de teatro, num filme que vemos, etc., nós não participamos realmente, apenas exprimimos com diversas reacções o que sentimos.

Na Missa/ Eucaristia nós participamos, celebramos, (embora haja um, o sacerdote, que preside à celebração), somos parte integrante da celebração e só assim o Sacramento, digamos assim, tem sentido para as nossas vidas e alimenta a nossa fé.

Dizemos, também, muitas vezes, que pertencemos à Igreja Católica, ou então, pior ainda, quando nos referimos à Igreja para comentar ou opinar sobre determinado assunto da Igreja, referimo-nos a “eles”, como se fosse algo exterior a nós.

Mas realmente e assim tem de ser verdadeiramente, nós somos Igreja.

A Igreja não é o edifício imóvel, embora chamemos aos templos em que nos reunimos, igrejas.
A Igreja é um “edifício divino”, mas feito por homens e mulheres, e, por isso mesmo, move-se em direcção a Deus.

Não é uma questão de pertença, é sim uma questão de vivência, de ser pedra viva da Igreja peregrina.
Por isso, não “pertencemos” à Igreja como se pertence a uma qualquer associação, mas sim, somos Igreja viva, unida em comunhão com Cristo, guiada pelo Espírito Santo, no amor do Pai.

A linguagem que vamos usando, não sendo um problema maior, é, no entanto, muitas vezes redutora e, sobretudo, não espelha a realidade do que queremos dizer em Igreja.
Os exemplos são muitos, mas, para não tornar demasiado longo este texto, refiro apenas mais uma situação.

Desde há uns anos que ajudo irmãs e irmãos a perceberem, quando mo pedem, claro, se haverá razões para um pedido de Nulidade do Matrimónio que celebraram, a esmagadora maioria das vezes, obviamente, quando se dá a ruptura da união, o divórcio civil, e uma nova relação.

É vulgar então ouvir, não só nesses que tal procuram, mas também nos fiéis em geral, (e até a sacerdotes), referirem-se a tal processo como um pedido de “anulação”.
A Igreja não “anula” matrimónios!
Se o fizesse estaria a fazer uma espécie de “divórcio religioso”, (já lhe ouvi chamar isso mesmo), o que é completamente errado e a Igreja não tem poder para o fazer.

O que a Igreja faz, por meio de um processo em Tribunal Eclesiástico, é analisar perante provas, se o Sacramento do Matrimónio foi válido, isto é, se estavam reunidas todas as condições essenciais para que o Sacramento do Matrimónio pudesse ser celebrado e assim ser válido, isto, para descrever de um modo muito simples o que pode dar origem a um processo de nulidade.

Se essas condições não estavam reunidas, (não cabe neste texto descrever tais condições), o Sacramento não foi válido e assim é nulo e sem qualquer efeito, pelo que, por exemplo, aqueles que o celebraram, para a Igreja são solteiros, e não divorciados.

Afinal não custa muito sermos mais rigorosos com os termos que usamos em Igreja, para não criar confusão, nem induzir em erro os outros que nos ouvem.

Assim Deus nos ajude.





Marinha Grande, 25 de Junho de 2024
Joaquim Mexia Alves

terça-feira, 18 de junho de 2024

DIÁLOGOS COM O SENHOR 28

.
.








Estou à espera.
Estás à espera de quê?

Que Ele fale comigo.
Que fale contigo sobre o quê?

Que me responda a tantos pedidos que Lhe fiz.
Ah bem, e já O cumprimentaste, já Lhe disseste que O amas, e O louvaste e honraste com a tua entrega a Ele?

Mas isso Ele sabe muito bem que sim, que O amo, que O louvo, que me entrega a Ele.
Ah, então Ele sabe isso tudo e julgas tu que Ele não sabe do que necessitas?

Pois, isso é verdade. Mas talvez seja preciso lembrar-Lhe, salvo seja, dos pedidos que Lhe faço.
Então, mais uma vez, não julgas que será preciso também lembrar-Lhe de como O amas, O louvas e a Ele te entregas.

Hum, estás a complicar tudo!
Achas que sim, que estou a complicar tudo, ou estou apenas a lembrar-te a ti, do que deves fazer primeiro.

Mas afinal quem és tu que estás a falar comigo e eu não te vejo?
Talvez seja a voz da tua consciência, talvez seja a voz do amor d’Ele em ti, talvez seja o teu eu que a Ele se entregou.

Obrigado! Reconheço que peço muito, louvo pouco e, se calhar, agradeço ainda menos.
Não te preocupes que Eu sou Aquele a Quem tu pedes e o meu amor por ti é infinito, pelo que descansa e não temas, porque Eu sei bem de tudo o que realmente precisas, e nunca te faltarei com nada do que necessitas.

Desculpa, Senhor, que eu estava tão absorto em pedir e receber, que nem me lembrei de dar primeiro o que Te é devido, para depois aguardar com serena confiança o que Tu me quiseres dar.

Vai em paz, meu filho!






Marinha Grande, 18 de Junho de 2024
Joaquim Mexia Alves

sexta-feira, 14 de junho de 2024

SER TESTEMUNHA

.
.






Não podemos falar do testemunho cristão sem falar do Espírito Santo.

Podemos nós dar testemunho de Cristo sem ser o Espírito Santo a dá-lo em nós, ou melhor servindo-se de nós para o dar?

Só depois do Pentecostes, os Apóstolos tiveram a coragem e também as palavras, (Pedro era um homem tão simples onde foi ele arranjar as palavras?) para darem testemunho de Cristo, para anunciarem Cristo, para proclamarem com palavras, gestos e a própria vida o Evangelho, a Boa Nova de Jesus Cristo.

E aqueles que se lhes seguiram fizeram-no também, porque o Espírito Santo foi derramado neles pela imposição das mãos.

É Jesus quem nos diz muito claramente que temos de ser testemunhas da Boa Nova.

Dos Actos dos Apóstolos
«Mas ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo.» Act 1, 8

Portanto, o testemunho dos cristãos é imperativo, é decisivo, para que o Evangelho chegue a todo o lado.

Lembremo-nos da narrativa da Samaritana no Evangelho de São João.
«Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram nele devido às palavras da mulher, que testemunhava» Jo 4, 39

Pelo testemunho daquela mulher muitos foram à procura de Jesus Cristo para O ouvirem e serem tocados por Ele.

Depois … depois o “resto” é com Ele.

«Já não é pelas tuas palavras que acreditamos; nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é verdadeiramente o Salvador do mundo.» Jo 4, 42

Escreve o Frei Raniero Cantalamessa, hoje, Cardeal, no seu livro “Vem, Espírito Criador”:
«Em certo sentido, o Espírito Santo tem necessidade de nós para ser Paráclito. Ele quer consolar, defender, exortar; mas não tem boca, mãos, olhos, para dar corpo à sua consolação.
Ou melhor, tem as nossas mãos, os nossos olhos, a nossa boca.»

Há muitos anos atrás, talvez 1998 ou 1999, numa Assembleia da Pneumavita em Fátima, ao princípio da tarde o Pe Lapa pediu-me que fosse ter com ele ao palco.
Fui, obviamente, e fui surpreendido quando ele me disse que queria que eu desse testemunho da minha vida, da minha conversão, logo a seguir.
Olhei, vi aquele mar de gente e fiquei em pânico.
Eu tinha começado a minha caminhada há tão pouco tempo!

Recorri ao Pe António Fernandes que me levou para trás do palco e rezou por mim.
Depois abriu a Bíblia e leu-me esta Palavra:
«Por isso recomendo-te que reacendas o dom de Deus que se encontra em ti, pela imposição das minhas mãos, pois Deus não nos concedeu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de amor e de bom senso. Portanto, não te envergonhes de dar testemunho de Nosso Senhor, nem de mim, seu prisioneiro, mas compartilha o meu sofrimento pelo Evangelho, apoiado na força de Deus.» 2 Tm 1, 6-8

Aquela Palavra deu-me um ânimo, uma força que eu não conhecia em mim que, ainda para mais, eu não gostava de falar em público.
Ainda hoje em dia, de quando em vez, há pessoas que vêm ter comigo e me lembram esse testemunho.

As coisas que o Espírito Santo faz!!!

Dar testemunho é entregar a vida a Cristo pelo outro, ou seja, é sair de nós próprios, dos nossos medos, das nossas vergonhas e deixando-nos conduzir pelo Espírito Santo anunciarmos com as nossas vidas a Boa Nova de Jesus Cristo.

Já não nos interessa se somos “mal vistos”, se não estamos a viver segundo o que o mundo quer, e já não nos importamos com as eventuais consequências que nos podem acontecer, porque não podemos calar Cristo que vive em nós, porque não podemos calar o amor do Pai que sentimos em nós, porque não podemos aprisionar o Espírito Santo em nós.

E o nosso testemunhar não têm só a ver com o que dizemos, com as palavras que proferimos, arrisco até a dizer que, mais importante do que as palavras, são as nossas atitudes, os nossos gestos, a nossa simpatia, a nossa ajuda aos que de nós necessitam, quer material, quer espiritualmente, e, também, muito especialmente, a alegria com que vivemos e testemunhamos.

Claro que não é a alegria da gargalhada fácil, mas alegria que nos vem de termos Jesus Cristo no coração e assim vivermos a paz e o amor que o Espírito Santo derrama em nós.

Mas São Paulo na Carta a Timóteo que acima referi, fala-nos de termos um espírito que Deus nos concede «de fortaleza, de amor e de bom senso.»

Um espírito de bom senso!

Realmente o nosso testemunho tem que ser percorrido pelo bom senso, o que significa, por exemplo, o não nos impormos, o não deixarmos falar os outros, o não ouvirmos os outros, o não lhes respondermos com um simples e duro “estás errado”, mas sim procurar ajudar o outro a encontrar o caminho que nós já vamos percorrendo.

Há tempos atrás, numa reunião dos Cursos Alpha a nível nacional, ouvi um sacerdote de Braga dizer uma verdade de que muitas vezes não nos lembramos.
Quando estamos a conversar ou a ouvir outros que querem desabafar, pedir conselho, já temos muitas vezes as nossas respostas, da nossa pretensa sabedoria, na “ponta da língua” para responder ao outro, e, por isso, nem sequer quase o deixamos falar, não ouvindo tudo o que nos quer dizer.
Isto é tão verdade!

Há uns anos atrás ouvi uma senhora que queria falar comigo, pedir conselho.
Sentámo-nos e a senhora começou a falar, e não se calava, e eu cheio de vontade de a presentear com algumas “pérolas da minha pretensa sabedoria”.
Ao fim de algum tempo calou-se, olhou para mim, deu-me um abraço e disse-me: eu só queria que ouvissem!
Eu não tinha dito nada!

Numa reunião do RCC de Lisboa ouvi o Pe Victor Gonçalves dizer a seguinte frase que ele tinha lido algures:
«Não fales muito de Deus se não to pedirem, mas vive de tal maneira que to peçam.»

Realmente o testemunho não deve ser forçado, não deve ser, desculpem que o diga assim, como uma arma de arremesso, ou até "chato", mas sim algo que surge das circunstâncias, da oportunidade, do tal bom senso de que fala São Paulo.

O Pe Lapa, nos primeiros tempos do meu regresso a Deus e à Igreja, e, perante a minha ansiedade e activismo, chamou-me a atenção e disse-me fortemente para eu me acalmar e deixar que o Espírito Santo me conduzisse e não eu a querer conduzir o Espírito Santo.

Quantas vezes o fazemos nós, ou seja, quantas vezes não somos nós que queremos ter a condução do que fazemos e dizemos, quando afinal nós sem Ele nada somos.

Lembremo-nos do que referi no início destas palavras:
Nós estamos aqui porque os Apóstolos, cheios do Espírito Santo derramado em Pentecostes, deram testemunho das suas vidas tocadas por Jesus Cristo, pelo amor do Pai.

Nós somos agora, ou devemos ser, esses apóstolos deste tempo, ou seja, devemos dar testemunho de Jesus Cristo, envoltos no amor do Pai e sempre, mas sempre, guiados pelo Espírito Santo.

Não nos esqueçamos que um bom testemunho é sempre evangelizador.

Jesus Cristo diz hoje a cada um de nós:

«Ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em todo o Portugal, na Europa, e até aos confins do mundo.» cf Act 1, 8





Marinha Grande, 11 de Junho de 2024
Joaquim Mexia Alves


NOTA: Texto/notas que preparei para falar de “ser testemunha”, no Grupo de Oração Pneumavita em Lisboa no passado dia 11.

sexta-feira, 7 de junho de 2024

SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

.
.













Deixa, Senhor Jesus, que me abrigue no Teu Sagrado Coração, não para fugir do mundo, mas para resistir ao mundo, deixando-me tomar pelo Teu amor.

Como diz Paulo, nunca conseguiremos compreender minimamente «a largura, o comprimento, a altura e a profundidade», do Teu amor, do Teu Sagrado Coração.

“Apenas” podemos acreditar que Ele está sempre aberto a todos os que O quiserem procurar.

Apetece-me acreditar que a ferida que Te foi provocada pela lança, (provocada por nós, afinal), é a abertura permanente do Teu Sagrado Coração aos que se rendem ao Teu amor.

Deixo-me envolver pelo Teu amor e contemplo o Teu Sagrado Coração que, apesar de ferido pelo nosso pecado, continua a amar infinitamente e a servir de porto de abrigo para o homem pecador.

Ah, se nós homens nos amássemos uns aos outros como Tu nos amas!

Então, esse Teu imenso e Sagrado Coração seria a morada da humanidade, onde apenas reinaria o amor e o ódio não teria lugar.

Faltam-me as palavras, porque o meu amor é fraco, por isso repito hoje e sempre nas minhas orações:
Sagrado Coração de Jesus, que tanto me amais, fazei que eu vos ame cada vez mais!





Solenidade do Sagrado Coração de Jesus
Marinha Grande, 7 de Junho de 2024
Joaquim Mexia Alves

quinta-feira, 6 de junho de 2024

DE REPENTE…

.
.










E de repente vem aquela secura, aquele tempo escuro, em que parece que não Te sinto, não Te toco, em que quero rezar e os pensamentos, as palavras não me saem, em que escrita, sempre tão presente em mim, (presente Teu, sem dúvida), é quase “arrancada a ferros” e não me satisfaz.

E é curioso que muitas vezes isto acontece depois de ter tido uma experiência viva, tocante, emocionante, da Tua presença em mim, tocando-me com o Teu infinito amor, como há poucos dias aconteceu.

Talvez seja, Senhor, para que eu não dê nada como adquirido, nada como se eu fosse merecedor de algo, para que eu nunca desista de Te procurar em mim e nos outros.

Sim, Senhor, mesmo que o tempo seja de secura, seja escuro, a luz da Fé, que um dia semeaste em mim, continua acesa e dá-me a certeza inabalável que Tu estás aqui, dando-me a mão, ajudando-me no caminho de cada momento, de cada dia.

Vem Espírito Santo afasta a secura e a escuridão, abre-me o coração, encharca-me de vida, de amor, de oração, e faz-me ver, faz-me sentir o amor do Pai, a vida no Filho e o Teu encanto, Espírito Santo!




Marinha Grande, 6 de Junho de 2024
Joaquim Mexia Alves

terça-feira, 4 de junho de 2024

«A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR E A DEUS O QUE É DE DEUS» Mc 12,17

.
.




«o imperador e Jesus personificam duas ordens diferentes de realidades, que não devem necessariamente excluir-se uma à outra pois, na sua contraposição, encontra-se o rastilho de um conflito que tem a ver com as questões fundamentais da humanidade e da existência humana. «Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus» (Mc 12,17): dirá Jesus mais tarde, exprimindo assim a essencial compatibilidade das duas esferas. Quando, porém, o império passa a interpretar-se a si mesmo como divino – implícito já na auto-apresentação de Augusto como portador da paz mundial e salvador da humanidade – então o cristão deve «obedecer antes a Deus do que aos homens» (Act 5,29)»
Jesus de Nazaré – Joseph Ratzinger – Bento XVI


Muitas pessoas têm citado a passagem bíblica, «Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus» (Mc 12,17), para de alguma forma tentarem respaldar a feitura e aprovação de leis iníquas, como a “lei do aborto”, “lei do casamento homossexual”, etc., afirmando que o governo, e a feitura das leis, competem aos homens segundo a sua vontade, tentando demonstrar com essa citação que essa seria a vontade de Deus, ou seja, que os homens governassem e fizessem as leis segundo a sua própria vontade.

E realmente Deus, tendo-nos criado em liberdade, não interfere na governação dos homens, mas não “avaliza” todos os actos dos homens que governam e legislam.

Porque sendo as duas esferas, (para citar o Papa), compatíveis, só o são na medida em que o homem reconhece a Deus a primazia sobre o homem e a vida.
E se falarmos então em políticos cristãos, esta verdade tem de ser indestrutível, pois só se é verdadeiro cristão se em tudo na sua vida se der a primazia a Deus.

E o Papa, nesta pequena passagem deste seu livro, mostra-nos com uma perfeita clareza o porquê desta frase bíblica não poder ser “utilizada” para respaldar leis que vão contra a vida, tal como ela foi criada e desejada por Deus.

É que quando o homem legisla sobre o direito à vida, (lei do aborto, por exemplo), e sobre o modo como ela foi desejada e querida por Deus, (lei do “casamento” homossexual, por exemplo), está a transformar-se em “Augusto”, ou seja está a querer divinizar-se e ser senhor daquilo que pertence apenas e só a Deus.

E desta verdade não há, (ou não deve haver), a menor dúvida para qualquer cristão que acredita que o Senhor e Criador da vida é Deus, e que, por isso mesmo, o homem não tem o direito de ir contra a vida que não lhe pertence, e ainda, que todo o cristão perante este tipo de leis deve «obedecer antes a Deus do que aos homens» (Act 5,29).

E assim, mais uma vez, esta verdade torna-se mais premente e obrigatória para aqueles que sendo cristãos, foram chamados ao governo das nações, à feitura das leis dos homens, pois que deveriam assumir essa missão como uma vocação que Deus colocou nas suas vidas, para também aí, (como em tudo), serem testemunhas da fé que afirmam viver.

Quando assim não procedemos, eles, os políticos, e cada um de nós que aceita e segue essas leis, rompemos com Deus, pois estamos a tentar colocarmo-nos em pé de igualdade com Ele, atacando o maior dom do Seu amor que é a vida de cada um, tal como por Ele foi criada e desejada.

Podemos “assobiar para o lado”, podemos fingir que não compreendemos, podemos argumentar milhentas razões para aprovarmos esse tipo de leis, podemos até distorcer a nossa consciência como cristãos, mas no fundo quem segue Jesus Cristo, e com Ele, a Ele e n’Ele comunga, reconhece sempre no seu íntimo, onde Ele habita, que deve sempre «obedecer antes a Deus do que aos homens» (Act 5,29).




Monte Real, 3 de Agosto de 2010
Joaquim Mexia Alves

Por causa do Evangelho de hoje, republico este texto.

sexta-feira, 31 de maio de 2024

FESTA DA VISITAÇÃO DE NOSSA SENHORA

.
.













Vens visitar-me, Mãe?

Eu olho-te e pretendo dizer como Isabel: «E donde me é dado que venha ter comigo a mãe do meu Senhor?» Lc 1, 43

E tu respondes-me, cheia de amor, que me vens mostrar o teu Filho, para que assim eu possa exultar de alegria, também, por encontrar o meu Senhor.

A verdade é que me visitas todos os dias para me mostrares o teu Filho, que habita em mim, quando a Ele me entrego, e deixo que Ele faça morada no meu coração.

Olho-te, fico sem palavras, e apenas contemplo o mistério de amor que é Deus fazer-se Homem em ti, “apenas” porque nos ama com infinito amor.

Olhas-me nos olhos e dizes-me com toda a ternura: Feliz és tu, porque acreditaste. Agora, meu filho, entrega-te inteiramente para que se cumpra em ti a vontade do teu Senhor.

Oh Mãe, respondo eu, ciente da minha fraqueza, mas isso é por vezes tão difícil, e eu sou tão fraco no meu amor e no meu querer viver a vontade do meu Senhor.

Sorris, com esse teu sorriso que inunda o mundo, tomas-me pela mão, e falas-me ao coração: Não te preocupes, porque Ele conhece-te bem melhor do que tu te conheces. Sabe das tuas fraquezas, mas dá-te sempre a mão, quando Lhe rezas e pedes perdão.

Então abro os meus braços para ti, Mãe, e peço-te que venhas morar comigo como foste morar com João.






Festa da Visitação de Nossa Senhora
Marinha Grande, 31 de Maio de 2024
Joaquim Mexia Alves

quarta-feira, 29 de maio de 2024

SOLENIDADE DO SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO

.
.








«Quem realmente come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e Eu hei-de ressuscitá-lo no último dia, porque a minha carne é uma verdadeira comida e o meu sangue, uma verdadeira bebida. Quem realmente come a minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em mim e Eu nele.» Jo 6, 54-56

Sempre me surpreende esta verdade imensa que é o Sacramento da Eucaristia.

Desde que “assistia” à celebração da Eucaristia, (pois não sabia bem o que fazia), até agora em que n’Ela participo verdadeiramente, sempre senti um imenso respeito pelo sagrado, um sentimento de pequenez, um sentimento de estar a viver para além de tudo o que possa entender, um sentimento de entrega, um sentimento de indignidade muito bem expresso na oração «Senhor eu não sou digno que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e eu serei salvo».

Sinto-me, às vezes, como aquela mulher que apenas Lhe queria tocar no manto para ser curada, mas, infelizmente, bem longe da fé que a moveu ao encontro de Jesus.

Há celebrações em que me deixo envolver de tal modo que me parece estar num outro lugar, ou melhor, num espaço para além do tempo e do mundo.

Há momentos a seguir à Comunhão em que me sinto envolvido num tão imenso amor que me vêm as lágrimas aos olhos.

Mas também há outros dias, outras celebrações, em que me deixo perder nas preocupações do mundo, nas distrações da vida, na ansiedade do tempo, às vezes até criticando interiormente a homília mais longa, os baptismos na celebração dominical, as festas da catequese que prolongam o tempo da celebração, o tempo dos avisos, enfim, um nunca acabar de coisas que o meu coração ainda de pedra, se deixa levar pelo mundo, perdendo o encontro tão vivo e rico com Jesus na Eucaristia.

E, quando tal acontece, sinto-me sempre, passado pouco tempo, um ingrato, um fraco, um pobre que não sabe como é rico por ter Jesus consigo.

E depois, por vezes, sou muito formal, ou seja, como se para adorar a Deus, fosse absolutamente necessário estar na presença do Santíssimo Sacramento da Eucaristia, quando foi Ele mesmo que disse que «quem realmente come a minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em mim e Eu nele».

Mas realmente, na minha paróquia, temos pelo menos dois momentos semanais de adoração ao Santíssimo Sacramento da Eucaristia, e estes momentos são vividos em silêncio que por vezes nos parecem tão constrangedores, mas que quando a eles nos habituamos são de uma riqueza imensa.

São dois amigos que se olham, que se amam, e em que Um deles dá tudo ao outro, e o outro, o pobre eu, dá a fraqueza do seu amor, dá a debilidade da sua fé, dá a sua incompleta entrega.

Nestes momentos, por vezes, apetece-me estender-me pelo chão, de cara voltada para baixo e ali deixar-me estar assim, numa atitude de adoração e entrega.
Só não o faço para não chamar a atenção para mim, porque é Ele que é e tem de ser sempre o centro de tudo e de todos.

Enfim, deixei falar o coração, ou melhor, deixei o coração escrever estas palavras que representam muito pouco do que sinto, e menos ainda do Tudo e do Todo que é o Santíssimo Sacramento da Eucaristia.

A Ele toda a honra, toda a glória e todo o louvor.






Marinha Grande, 29 de Maio de 2024
Joaquim Mexia Alves

terça-feira, 28 de maio de 2024

DIOCESE EM REORGANIZAÇÃO PASTORAL

.
.











Vivemos na nossa Diocese de Leiria-Fátima um tempo em que nos confrontamos com a falta de sacerdotes, o que forçosamente leva a pensar na reorganização pastoral das paróquias, vigararias e da própria diocese.

Esta situação não é exclusiva da nossa diocese, e, com certeza, verifica-se também noutras dioceses de Portugal e do mundo, muito provavelmente.

Poderíamos e deveríamos tentar perceber a razão porque as vocações sacerdotais diminuíram tanto na Igreja Católica, sobretudo ao nível do clero secular/clero diocesano.

Obviamente que não tenho competência, nem saber, para querer “dar conselhos”, ou encontrar soluções para a situação, mas posso, reflectindo para mim próprio, analisar, salvo seja, o caminho que se percorre, embora não seja conhecedor de todas as opções e discussões que sobre o tema têm havido.

Mas há algo que me chama a atenção.

As reuniões e encontros sucedem-se, as análises são partilhadas, cada um, (e ainda bem que assim é), dá a sua opinião livremente, mas não parece, a mim apenas, com certeza, haver uma coesão de pensamento, ou melhor, uma identidade do que é a Igreja, e como Ela se edifica através daqueles que são Igreja, movidos pelo Espírito Santo.

É que, se tivermos em atenção o tempo que cada reunião ou encontro duram, em comparação com a oração feita para que esses encontros e reuniões tenham a mão de Deus, a diferença parece-me abissal.

Obviamente que as reuniões e encontros não têm de ter o mesmo tempo de oração como têm de debate, (ou deveriam ter?), mas fora desse tempo de reunião deveriam acontecer momentos vários de oração de toda a diocese por essa intenção, para já não falar da oração particular de cada um diariamente e antes de cada reunião.

Refere-se muito hoje o desejo de regresso à vida das “primeiras comunidades” do cristianismo, mas o que sobressai dessas “primeiras comunidades” é o que vem descrito nos Actos dos Apóstolos e não só: «Eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fracção do pão e às orações.» Act 2, 42

E era precisamente esta “prática” constante que levava os Apóstolos com aqueles primeiros cristãos a discernirem o caminho da Igreja nascente, segundo a vontade de Deus.

Por isso lemos nos mesmos Actos dos Apóstolos versículos como este: «O Espírito Santo e nós próprios resolvemos não vos impor outras obrigações além destas, que são indispensáveis» Act 15, 28

«O Espírito Santo e nós próprios», porque em primeiro lugar é preciso escutar o Espírito Santo, o que se faz primeiramente pela oração, pelo silêncio, pela entrega, pela humildade, pela escuta de Deus e, com certeza, também dos outros.

Mas todos aqueles que são chamados a debater este tema da reorganização da diocese, sacerdotes e leigos, não devem colocar em primeiro lugar os seus planos, muito bem pensados, provavelmente, sem primeiro os colocar nas mãos de Deus, para poderem discernir o que é a vontade de Deus e o que são apenas os planos humanos, que podem estar cheios de saber e de certezas, mas que se não forem do agrado de Deus, de nada servirão e soçobrarão irremediavelmente mais cedo ou mais tarde.

Devemos, com certeza, servirmo-nos das experiências do passado, analisando o que foi bom e o que não resultou tão bem.

Devemos também abrir-nos à novidade, pois o Espírito Santo suscita sempre coisas novas àqueles que a Ele se entregam.

Mas devemos, sem dúvida, entregar-nos à oração contínua, individualmente e colectivamente, pois só com a graça do Espírito Santo encontraremos o caminho que Deus quer para a Sua Igreja no seu todo, e na porção que é a nossa diocese.

A oração deve ser a fonte onde se encontram os planos para a Igreja, deve ser o suporte desses mesmos planos, e não os planos dos homens serem a fonte da oração, ou sequer o suporte da oração.

E ainda mais do que isso, ou melhor, completando isso, devemos ter sempre presente que a cabeça da Igreja é Cristo e que a missão da Igreja é levar Cristo à humanidade e a humanidade a Cristo, e que nós apenas semeamos, porque Ele é que é o verdadeiro Agricultor.

Unamo-nos em oração, nas nossas orações particulares do dia a dia, colocando essa intenção sempre, e unamo-nos em assembleia de fiéis, em Igreja, rezando sempre por essa intenção em cada Eucaristia, em cada Adoração, em cada momento de oração comunitária.

Assim, sem dúvida, chegaremos a um momento em que também poderemos dizer em Igreja: «O Espírito Santo e nós …».







Marinha Grande, 28 de Maio de 2024
Joaquim Mexia Alves

sexta-feira, 24 de maio de 2024

O CAMINHO A VERDADE E A VIDA

.
.

















Dou-Te a mão e partimos vida fora.

Vais-me avisando dos obstáculos que o inimigo vai colocando no caminho e eu, então, aperto-Te a mão com mais força e, todo apoiado em Ti, vou-os ultrapassando com mais ou menos dificuldade.

Por vezes, por culpa minha, largo a Tua mão, e logo caio no primeiro buraco que me aparece no caminho.

Choro arrependido, prometo não mais Te largar, e Tu, com um sorriso imenso e uma paciência infinita, agarras a minha mão, levantas-me e dás-me um novo caminhar.

Cada dia é um novo dia, é um novo desafio, um “novo” renascer, em que Tu sempre presente, não desistes de mim e me amas tão simplesmente.

Quando chega a noite, recostamo-nos os dois, e eu, coloco a cabeça no Teu colo, pego na Tua mão, coloco-a sobre a minha cabeça e deixo-me adormecer assim, envolvido no Teu amor.

Não sei se me fazes uma festa de carinho ou se acordo por mim, mas sei ou quero, que o meu primeiro olhar encontre o Teu olhar, que os meus primeiros pensamentos sejam sempre para Ti, que as minhas primeiras palavras sejam para Te dizer do meu amor, (por vezes tão fraco, Senhor!), que sinto e vivo por Ti.

Às vezes fujo-Te, (como se fosse possível fugir-Te!), mas Tu não cessas de me procurar, como procuraste aquela ovelha que, desgarrada, se perdia pelos meandros da vida.

E quando me encontras, (ou eu me deixo encontrar), parece que o Teu sorriso aumenta, parece que uma alegria infinda toma conta de Ti, e fazes uma festa tão grande, que quase me apetece … fugir de Ti mais vezes!

E então, de mão dada, lá vamos os dois caminhando, umas vezes sorrindo, outras vezes chorando, (sim porque Tu choras comigo, também), umas vezes conversando, outras num silêncio partilhado, mas tendo sempre a certeza de que vais comigo para todo o lado.

Assim sempre conTigo, o caminho é seguro, a mentira desfalece, a morte nada pode porque a vida é mais forte.

E então, eu abro os meus braços para o Céu, e grito cheio de Ti: Sim, Senhor Jesus, Tu és realmente o Caminho, a Verdade e a Vida!







Marinha Grande, 24 de Maio de 2024
Joaquim Mexia Alves

terça-feira, 21 de maio de 2024

REZANDO NO ESPÍRITO SANTO

.
.








Desde há uns anos para cá que sou muitas vezes “convidado” a fazer oração de invocação do Espírito Santo, como ontem à noite aconteceu, quer nos Percursos Alpha, quer com o Renovamento Carismático Católico, quer em momentos de louvor e em outras ocasiões.

Já lá vai muito tempo que o faço e tantas vezes, que quando o sou chamado a fazer já deveria, (humanamente falando), sentir-me à vontade, quase, digamos, com uma rotina que não me ofereceria dúvidas, hesitações ou “nervosismos”.

E, no entanto, de cada vez que sou chamado a fazer oração, sinto-me “incapaz”, ansioso, com os “nervos à flor da pele”, com o receio muito humano de não “dizer coisa com coisa” e, sobretudo, com o medo de que a oração não tenha “efeito” naqueles por quem rezo.

Claro que me preparo para fazer oração, mas é muito mais uma preparação invocando continuamente o Espírito Santo, do que tentar decorar umas quaisquer palavras ou frases, o que realmente nunca faço.

E rezo pedindo o dom da humildade, (para mim que sou tão orgulhoso), o dom da entrega, o dom da simplicidade, e, sobretudo, para que diga, eu o que disser, Deus toque aqueles por quem rezo, porque é Ele que o faz e não eu.

Nos momentos imediatamente anteriores, cresce dentro de mim um tremor que quase me leva a pensar que quando abrir a boca nada serei capaz de dizer, de rezar, e repito então para mim, na intimidade do meu coração, “Vem Espírito Santo”.

Depois, fecho os olhos, começo a oração e o coração acalma-se, desaparece a ansiedade, as palavras vão surgindo em oração, as imagens bíblicas, e não só, vão despertando em mim “motivos” de oração, e eu deixo-me levar, perdendo, por vezes, a noção do tempo e do espaço em que estou.

Quando acabo a oração, abro os olhos e fito os rostos e os olhos de quem está presente, e fico sempre espantado com as reações de cada um, o olhar diferente, o sorriso tímido ao principio e depois já francamente aberto, as lágrimas de paz e serenidade que correm naquelas caras e percebo, então, que é Ele que tudo faz servindo-se de nós.

E, claro, pergunto-me porque é que não é mais fácil para mim todo o processo que me leva a fazer a oração?
E percebo então que assim é para que eu tenha a certeza de que não sou nada, que não sou “importante”, que é o Espírito Santo que reza em mim, nos outros e para os outros.

E fico sempre a pensar como é que Ele se quer servir de alguém tão orgulhoso e vaidoso como eu, para despertar a oração nos outros e para os outros?
Mas descanso, deixo de me preocupar e digo interiormente com toda a simplicidade de que sou capaz: Tu lá sabes o que fazes, Senhor!

Ah, e sejam quantas vezes forem as vezes que oro com os outros e para os outros, o processo é sempre o mesmo, o tremor acontece, a ansiedade faz-se presente, o nervosismo toma conta de mim, o sentimento de incapacidade avassala-me e, finalmente, Ele faz acontecer aquilo que Ele quer, porque eu sou apenas, e assim quero ser, um servo inútil nas Suas mãos, pois tudo deve ser sempre e “apenas” para a maior glória de Deus.

Vem, Espírito Santo!






Marinha Grande, 21 de Maio de 2024
Joaquim Mexia Alves

terça-feira, 14 de maio de 2024

PORQUÊ PEDIR O ESPÍRITO SANTO?

.
.








Neste Domingo celebra-se a Solenidade de Pentecostes.

Porquê pedir o Espírito Santo, hoje e sempre?

Todos nós que somos baptizados recebemos o Espírito Santo pelo Baptismo, (tornámo-nos templos do Espírito Santo), pelo Crisma, e obviamente em cada celebração de um Sacramento em que participamos, celebrando, recebemos também e sempre o mesmo Espírito de Deus que constantemente se derrama na/em Igreja.

Porquê então pedi-Lo novamente, todos os dias das nossas vidas?

Em determinado momento da minha vida trabalhei em Angola, em duas fábricas, uma de tubo de aço e outra de chapa de zinco. Em ambas as fábricas existiam aquilo a que chamávamos tinas de galvanização.
Que me perdoem a explicação os experts na matéria, (e a falta de memória, já lá vão mais de trinta anos), as tinas de galvanização continham zinco em estado líquido, porque eram aquecidas por uma fonte de calor, que mantinha esse zinco nesse estado líquido.
Então, os tubos e chapas eram mergulhados nessas tinas, e, revestidos desse zinco líquido eram retirados e colocados a “secar”, digamos assim.
Obviamente, o aspecto desses tubos e chapas melhorava imenso, pois tornavam-se mais brilhantes, reflectindo a luz que neles incidisse, e, mais ainda, protegia-os da corrosão, da ferrugem, dos elementos exteriores que podiam alterar a sua “essência” e a missão para que tinham sido fabricados.

Ora nós cristãos, alguns de nós ou muitos de nós, somos um pouco assim como essas tinas de galvanização.

Pelo Baptismo recebemos o Espírito Santo e Ele está em nós, mas está muitas vezes como esse zinco líquido nas tinas de galvanização, “inerte”, não sendo utilizado.
Somos cristãos, temos o Espírito Santo, mas Ele não actua em nós, nada transforma, nada converte, sobretudo porque d’Ele muitas vezes não temos consciência e não a tendo, não O deixamos actuar nas nossas vidas.
Assim somos cristãos cinzentos, sem brilho, e nem reflectimos a luz que nos vem de Deus para sermos testemunhas da Luz.

Mais do que isso, não tomando consciência do Espírito Santo em nós, não O deixando actuar em nós, estamos desprotegidos perante as ameaças do mundo, (as tentações, os vícios, os rancores e ressentimentos, etc.), e por isso mesmo nos deixamos corromper, vivendo em pecado, e ao vivermos em pecado não cumprimos a missão que Ele nos deixou, perdendo-nos no mundo e muitas vezes fazendo perder aqueles que nos rodeiam.

Temos o Espírito Santo em nós, mas ninguém O “vê”, porque d’Ele não damos testemunho, porque não deixamos que Ele nos converta, nos transforme e nos guie.

Então este pedir o Espírito Santo todos os dias, (dado que já está em nós desde o Baptismo), é afinal pedir que Ele actue em nós, que Ele nos encha por completo, que Ele nos mostre o caminho, que Ele nos ilumine na Palavra, que Ele nos faça ver com os olhos da fé, (meu Senhor e meu Deus!), que Ele nos converta e conduza, que Ele nos santifique, não apenas para nossa salvação, mas também sobretudo para que sejamos testemunhas da Boa Nova e assim possamos ser “ocasião” para salvação de outros.

Então, para O recebermos, ou melhor, para que Ele seja presença viva nas nossas vidas, precisamos de nos abrir a Ele, porque abrindo-nos a Ele, abrimo-nos ao próprio Deus, e abrir-nos a Deus é abrir-nos ao amor, à conversão, à mudança de vida, é «renascer de novo», é querermos fazer em tudo e sempre a vontade de Deus.

Então, tudo se transforma, porque é Ele que ora em nós, é Ele que lê e medita connosco a Palavra de Deus, é Ele que nos abre o entendimento para que possamos reconhecer Jesus ao “partir do Pão”, é Ele que, dando-nos esse reconhecimento, nos leva a amar como Ele nos amou, fazendo assim de nós filhos de Deus reunidos e chamados a construir a Igreja.

E, afinal, pedir o Espírito Santo é fazer já a vontade de Deus, porque só Ele sabe o que nós precisamos e o que é melhor para nós.

«Digo-vos, pois: Pedi e ser-vos-á dado; procurai e achareis; batei e abrir-se-vos-á; porque todo aquele que pede, recebe; quem procura, encontra, e ao que bate, abrir-se-á.
Qual o pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma serpente? Ou, se lhe pedir um ovo, lhe dará um escorpião?
Pois se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que lho pedem!» Lc 11, 9-13


Vem Espírito Santo,
faz-me dócil às tuas moções, renova-me em cada momento, ora em mim, abre o meu entendimento à Palavra de Deus, faz-me sentir o amor do Pai, faz-me reconhecer Jesus nos Sacramentos, na Igreja, em cada irmã e em cada irmão, faz em mim e de mim a Tua vontade, para que eu seja nada e Tu, Espírito Santo, sejas tudo em mim, em cada momento da vida que Tu mesmo me dás.
Amen.





Marinha Grande, 14 de Maio de 2024 
Joaquim Mexia Alves

terça-feira, 7 de maio de 2024

O LOUVOR LIBERTA

.
.







«Por volta da meia-noite, Paulo e Silas, em oração, entoavam louvores a Deus e os outros presos escutavam-nos.
De repente, sentiu-se um tremor de terra tão grande que abalou os alicerces da prisão. Todas as portas se abriram e soltaram-se as cadeias de todos os presos.»
Act 16, 25-26 - 1ª Leitura de hoje


Tantas vezes na minha vida que, perante problemas, tribulações e preocupações, em vez de pedir, ou melhor, em vez de só pedir, louvo a Deus pela situação que vivo, pedindo que me dê forças para aceitar e, se for de Sua vontade, tudo seja ultrapassado.

E tantas vezes me esqueço o fazer perante tantas situações dessas, e me desdobro em pedir, em me lamentar e até em reclamar.

A verdade é que sempre que, perante tais situações, louvo primeiro a Deus e depois peço ajuda, a paz e a serenidade tomam conta de mim, e assim consigo enfrentar essas situações com confiança e esperança renovadas.

E mesmo que algumas dessas situações não tenham o desfecho que, na minha fraqueza humana, julgo ser o melhor, a verdade é que aceito de coração aberto essas situações e tento tirar delas alguma lição para a vida, guiado pelo Espírito Santo.

A verdade é que sempre que assim procedo, é como se as “portas” e “cadeias” que me querem amarrar a essas situações, deixando-me triste e frustrado, se abram, e assim vivo na confiança e na esperança que me vem de Deus.

E porque não procedo sempre assim em todas essas situações?

Ah, isso não sei, não consigo explicar, mas talvez seja fruto de um qualquer cepticismo, de alguma fraqueza que nesses momentos me “ataca” e eu me deixo cair apenas em mim, olhando para mim, fechando-me em mim e não dando assim “espaço” a que Ele no Seu infinito amor acalme a “tempestade” na minha vida.

Sim, o louvor liberta e, mais do que liberta, enche de confiança, de esperança, de alegria, de paz e de vida.

Louvado sejas, Senhor, porque acalmas os mares revoltos das nossas vidas quando a Ti nos entregamos.






Marinha Grande, 7 de Maio de 2024
Joaquim Mexia Alves

quinta-feira, 2 de maio de 2024

TEMPO

.
.












Não tenho tempo, dizes-me Tu, com esse Teu olhar de quem ensina quem Te quer escutar.

Mas eu não percebo e pergunto-Te como podes Tu não ter tempo, se Tu és o Senhor do tempo.

O Teu olhar fixa-se em mim, o Teu sorriso é agora uma brisa que me toca, e perguntas-me, cheio de amor, se por acaso o meu tempo, o tempo que Tu me dás, também não sou eu que o devo gerir.

Desconcertas-me, mas rapidamente a minha pretensa sabedoria responde, dizendo que Tu sabes bem melhor do que eu o que é o meu tempo e como afinal o meu tempo é Teu.

Não desarmas, e com toda a bondade colocas o Teu braço sobre os meus ombros, e convidas-me a viver o meu tempo como se ele fosse o Teu tempo, para que eu não diga mais de quando em vez que não tenho tempo para Ti.

Eu, pobre de mim, não percebo e com todo o cuidado pergunto-Te o que queres dizer com aquilo que me dizes.

Tu abraças-me, e dizes-me que se o meu tempo afinal Te pertence, apenas me basta oferecer-Te o meu tempo em tudo aquilo que faço no meu dia a dia.

Então pergunto-Te como posso eu fazer isso.

E Tu respondes-me que basta viver o meu tempo fazendo tudo o que faço, como sendo o Teu tempo, acreditando que Tu estás sempre no meu tempo, que é afinal o tempo que Tu me dás

Baixo os braços ou melhor levanto-os para Te abraçar e digo rendido ao Teu amor:
Toma, Senhor, o meu tempo, porque ele é o tempo que Tu me dás, para viver o Teu amor amando sempre em cada tempo a Ti, e em Ti os outros que trazes à vida que me dás.





Marinha Grande, 2 de Maio de 2024
Joaquim Mexia Alves

segunda-feira, 29 de abril de 2024

VINDE A MIM VÓS TODOS ...

.
.






O Teu jugo
é o amor!

Ele não me pesa,
não me abate,
não me menospreza.

Antes me envolve,
me conduz,
me enche de Ti
e da Tua Luz.

A tua carga é a misericórdia,
que me atinge,
me dá a mão e me levanta,
do chão em que me deixei cair,
por causa do meu pecado.

Venha a mim o Teu jugo,
venha a mim a Tua misericórdia
e nas asas do Teu Espírito
partirei à desfilada,
cantando,
dançando
e sorrindo
na ausência das trevas da noite
que em Ti
e por Ti
são sempre madrugada.





Monte Real, 29 de Abril de 2024
Joaquim Mexia Alves

sexta-feira, 26 de abril de 2024

SERVIR DISCERNINDO

.
.










Hoje uma boa amiga decidiu, (depois de conscientemente ter discernido toda a sua situação), sair de um órgão de “governo” de uma organização que serve a Evangelização, órgão do qual também faço parte.

Não saiu por se sentir incomodada ou qualquer outra coisa parecida, mas sim porque, tendo analisado a sua situação percebeu que serviria melhor a Igreja e essa mesma organização de modo diferente, embora com o mesmo empenho que todos lhe reconhecemos.

Este texto não é, no entanto, sobre ela, que não necessita elogios para ser quem é, mas sim sobre a necessidade que devem ter todos aqueles que servem a Igreja em movimentos, obras e serviços, mormente em situações de liderança e organização, de discernir de quando em vez se nos encontramos “agarrados” a um “lugar”, se trazemos algo de novo e construtivo naquilo em que nos envolvemos ou se apenas “estamos ali por estar”.

Muito especialmente discernir se estamos a servir a Cristo em Igreja, ou se nos estamos a servir da Igreja de Cristo para nossa notoriedade ou autorreferência.

Pode pensar-se que tal não acontece, mas a verdade é que há em movimentos, obras e serviços, gente que se “eterniza” nessas funções, acabando por “secar” à sua volta toda a iniciativa, toda uma possível modernidade sã, enfim, até, todo o sopro do Espírito Santo.

Servir a Deus é servir em permanente doação, é dar-se com todos os talentos que Ele próprio nos dá, e, obviamente, perguntar-Lhe constantemente: Senhor, que queres que eu faça?

Servir a Deus é ser-se livre de tudo, (com as óbvias condicionantes da vida de cada um), e por isso mesmo estar sempre disponível para “partir” para onde o Espírito Santo nos enviar, sabendo nós muito bem que Ele nunca nos envia a fazer nada que não seja compatível com o que somos e com o nosso estado de vida.

O único “cargo” que devemos almejar em Igreja e que devemos viver continuamente ao longo das nossas vidas, é o de “lavar os pés aos outros”, tendo sempre Cristo no coração.





Marinha Grande, 26 de Abril de 2024
Joaquim Mexia Alves

quarta-feira, 24 de abril de 2024

LIBERDADE DE DEUS

.
.










Para mim, a liberdade é Cristo.
Só em Deus e no Seu amor eu sou realmente livre.

Ainda me deixo prender por muitas coisas do mundo, mas nos momentos em que me deixo tocar por Ele, em que deixo que Ele realmente conduza a minha vida, então é que me sinto realmente livre, porque me sinto cheio do amor d’Ele e, no amor d’Ele, me sinto amor para os outros.

E no amor de Deus que tudo ama e perdoa, também eu me sinto livre para amar a todos e perdoar, (pedindo perdão também), não deixando que qualquer rancor ou ressentimento me aprisione em sentimentos que me tornam escravo de mim próprio e da vida mundana.

Sim, vivo no mundo e sou tocado pelo mundo, mas tento, no amor e na liberdade de Deus, transformar o mundo, pelo menos o meu mundo, para que não seja ele a conduzir a minha vida, mas estando nele e vivendo nele, me deixe conduzir pelo Espírito Santo que me faz viver no mundo, na liberdade dos filhos de Deus.

Ah, como me faltam as palavras para poder explicar o amor e a liberdade que sinto em mim, quando me deixo conduzir pelo Espírito Santo!

Como quando começo uma oração em voz alta, em comunidade, e ao princípio o receio de dizer coisas erradas, de fazer má-figura, enfim, o medo das coisas do mundo, parece que me prende, mas depois, abandonando-me ao Espírito Santo, deixo que as palavras saiam mais do meu coração do que da minha boca, e então, já não me interessa o que o mundo pensa, já não me interessam, nem me metem medo as palavras, porque sejam elas quais forem, se são ditas no Espírito Santo, alcançam sempre os seus propósitos, e por isso mesmo deixo de pensar em mim, para entrar na liberdade de Deus em mim.

E a liberdade de Deus leva-me a encarar a morte, não como uma prisão ou uma qualquer meta, mas antes e tão só como a passagem desta vida do mundo que ainda me prende, para a vida em Deus que tudo ama e liberta, até do tempo que agora nos confina.

Realmente para mim, a liberdade é Cristo.
Só em Deus e no Seu amor eu sou realmente livre.





Marinha Grande, 24 de Abril de 2024
Joaquim Mexia Alves

domingo, 21 de abril de 2024

COISAS DA MINHA VIDA

.
.









Ontem estive num almoço de convívio dos militares da Companhia Militar, CART 3492, em que servi nas Forças Armadas Portuguesas, numa comissão militar na Guiné, entre Dezembro de 1971 e Dezembro de 1973.

Foi, como sempre, um momento de reencontro, de emoções, de sentimentos, de contar e recontar histórias ininterruptamente repetidas, acrescentando-lhes, por vezes, pormenores que uns e outros vão lembrando, culminadas com fortes gargalhadas ou com sorrisos melancólicos, tendo sempre presente a amizade que nos une, forjada nas situações que vivemos.

Como sempre hoje em dia, gosto de retirar para mim, tudo que acontecendo na minha vida, me dá sinais de Deus ou me leva a percebê-lO em tudo aquilo que vivo.

Já escrevi sobre isto, mas a realidade é que esta amizade que une os Combatentes, tem uma força inabalável, porque nasceu da confiança e da entrega de cada um nas mãos do outro, e vice-versa, pois só assim se pode viver na guerra.

Obviamente que Deus nada tem a ver com a guerra, que é coisa da liberdade dos homens, e obviamente, também, que a guerra não serve para nada, a não ser ceifar vidas de um lado e do outro, porque os homens não foram capazes de se entender.

Mas esta amizade, ou melhor, esta aliança indestrutível dos Combatentes, leva-me a reflectir sobre o ser cristão, o ser Igreja, atendidas, claro está, as imensas diferenças.

Se nós quisermos ser verdadeiros cristãos, verdadeiramente Igreja, deveríamos ter também esta união, sobretudo esta confiança e entrega, primeiro a Deus e depois aos outros, percebendo que só juntos, com Ele à cabeça e guiando-nos segundo a Sua vontade, podemos alcançar a salvação.

Depois percebo que na guerra cada homem se quer, obviamente, salvar, mas também quer que todos os outros que com ele estão se salvem também.

Como cristãos, em Igreja, deveríamos viver e pensar que a nossa salvação só tem sentido quando queremos também a salvação dos outros, e que essa é uma meta que deveremos querer sempre alcançar, em Igreja.

Depois ainda, percebo que esta amizade que une os Combatentes, embora viva sempre em nós, é alimentada nestes encontros, nestas histórias continuamente repetidas, nestes abraços que se dão em abundância.

Também nós cristãos, em Igreja, deveríamos perceber que os nossos encontros com Deus nos Sacramentos e não só, as nossas orações tantas vezes repetidas, os nossos abraços de comunhão, são o alimento da vivência da nossa fé.

Percebo ainda que neste círculo de Combatentes é muito difícil entrar para quem não viveu a experiência da guerra, por muitas razões, e até porque temos muitas vezes uma linguagem própria que não é facilmente inteligível aos outros.

Já em Igreja, como cristãos, as portas têm de estar abertas a todos, e todos devem poder entender a linguagem de Deus, as orações, e a comunhão de amor.

Lembrei-me ainda do louvor, que no fim da minha comissão me foi dado, (na fotografia que ilustra este texto), e sobressaíram algumas palavras, como “cumprimento de missão”, “exemplo”, “alto critério de justiça”, “pronto a colaborar”, etc., etc.

E então, tive que me colocar perante mim próprio, e perguntar-me se também aquelas virtudes que naquele louvor me apontam, mas poderiam apontar, também, em Igreja?

Não para me louvar ou para me destacar dos outros, mas sim porque essas virtudes deveriam ser uma constante no meu ser cristão, no meu querer ser discípulo de Cristo, no meu querer ser Igreja.

Que Deus abençoe todos os Combatentes, sobretudo aqueles que ainda sofrem no físico e no psíquico as vicissitudes da guerra, e abençoe também as suas famílias que com eles, tantas vezes, ainda sofrem também as angústias de um passado.

Que Deus na Sua infinita misericórdia perdoe aos homens que fazem as guerras, (e não me refiro àqueles que por força de servirem as Forças Armadas o têm de fazer), mas àqueles que tendo nas suas mãos a possibilidade de escolher a paz, fazem a guerra, a maior parte das vezes por razões inomináveis.

Que Deus no Seu infinito amor receba as vítimas de todas as guerras passadas e presentes e leve a humanidade a encontrar a paz.






Marinha Grande, 21 de Abril de 2024
Joaquim Mexia Alves