segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

O PALCO DAS JMJ

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Ao princípio, confesso, também eu “embarquei” na critica ao valor apresentado para a construção do palco e respectivos arranjos para realizar as JMJ.

Claro que poderíamos invocar apenas a frase de Jesus Cristo - «Sempre tereis pobres entre vós» (Mc 14, 7) – e fazer dela a interpretação que nos conviesse para “justificar” este gasto.

Também podíamos justificar o tal valor comparando com tudo aquilo que tem sido investido ao longo do tempo em eventos vários e falando do seu retorno, como, por exemplo, o “Websummit”, concertos de rock, etc., e facilmente perceberíamos que o número de pessoas que se esperam nas JMJ é, impressionantemente, maior.
Ainda podíamos argumentar com a obra para o futuro e como ela serve para reabilitar e dar outra utilização àquele lugar.
Enfim poderíamos arranjar todos os argumentos e comparações necessárias para satisfazer as nossas consciências, justificando o tal valor a investir.

Mas, por mim, prefiro regressar à frase de Jesus - «Sempre tereis pobres entre vós» (Mc 14, 7) – e tentar tirar dela um sentido para o valor que vai ser investido, um sentido mais espiritual e ao mesmo tempo caritativo.

Os ensinamentos de Jesus Cristo e, obviamente, a Doutrina da Igreja, como não podia deixar de ser, voltam-se para os pobres, para os mais necessitados, e não são apenas aqueles pobres e necessitados de ajuda material, mas também aqueles que se desesperam, que estão sós, que são “pobres” espiritualmente, que não encontram o verdadeiro sentido da vida, o amor de Deus.
Ora, por isso mesmo, a consciência cristã tem que estar sempre voltada para estes pobres necessitados, (dos quais também nós fazemos parte em algumas alturas das nossas vidas), e assim, o ser cristão, ou melhor, o ser discípulo de Cristo, passa por aprender, para melhor conhecer Deus e assim melhor amar os outros, ajudando-os nas suas necessidades, sejam ela quais forem, materiais ou espirituais.

E é verdade, por todos constatada, que os jovens, (e não só os jovens), são, neste tempo, constantemente “bombardeados” por supostos valores que estão bem longe da solidariedade, do amor, da caridade.

Reuni-los, então, à volta do Papa Francisco, em comunhão de Igreja, ouvindo a palavra do Vigário de Cristo na terra, reflectindo sobre tudo o que ele lhes irá dizer e que os levará a comentar entre si essa verdade, encontrando caminho para o amor de Deus e, tocados por Ele, se tornarem verdadeiros discípulos de Cristo que pretendam levar a sério a imagem de São Paulo para a Igreja e assim sendo para a sociedade - «Assim, se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros» (1 Cor 12, 26) – será, com certeza, um valor inestimável que ultrapassará em muito o tal valor monetário da referida obra.

E os jovens, como sempre se afirma, são o futuro, e se o futuro puder ser moldado no amor aos outros, na caridade aos outros, em comunhão de Igreja, então o futuro será bem mais esperançoso do que agora se apresenta.

Então e todos serão “tocados” por esse amor de Deus e por Ele se deixarão conduzir?
Com certeza que não, infelizmente, mas uma parte com certeza que o será e assim poderá mudar algo que não se antevia e aqueles que, por acaso, neste encontro não encontrarem Cristo, não deixarão de ficar com a semente que mais tarde poderá florescer e tornar-se fruto neles, para eles e para todos nós.

Já estou a ver quem me estiver a ler a pensar que eu “vivo nas nuvens”, que isto é muito bonito mas não passa de palavras escritas, mas a verdade é que eu, por exemplo, também não me preocupava com os outros, nem com Deus, mas a semente que tinha sido plantada no meu coração acabou por dar fruto e, hoje em dia, mesmo sendo pecador, sou diferente e preocupo-me e tento ajudar os outros, não só materialmente, mas também espiritualmente, em tudo aquilo a que Deus me chama.

Claro que, gostaria de ouvir a “minha” Igreja dizer, claramente, que não seria preciso gastar um valor tão elevado para fazer um palco e um altar com a dignidade suficiente para receber o Papa e as JMJ, mas também penso que não compete à Igreja tal decisão.
Claro que, não sendo engenheiro nem arquitecto, acredito que talvez se pudesse fazer “coisa” mais simples, embora digna, não gastando a tal verba anunciada.
Claro que, nos tempos que hoje vivemos no nosso país, nos podemos perguntar se não irá alguém usufruir, ilegitimamente, de parte da mesma verba.

Mas no fundo o que realmente importa é o fruto espiritual, e não só, que virá destas JMJ, e esse está nas mãos de Deus que semeará, regará e fará crescer a planta da fé, para depois dar fruto e fruto que permaneça, para bem de todos nós e maior glória de Deus.

E para que assim seja, também são necessárias as orações de cada um de nós, pedindo que o Espírito Santo se derrame abundantemente sobre os jovens e sobre a humanidade.

O resto são cousas do mundo.



Marinha Grande, 30 de Janeiro de 2023
Joaquim Mexia Alves

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

A BELEZA DO AMOR OU O AMOR É A BELEZA

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Habituados a ver a beleza como algo visível aos olhos humanos, quedamo-nos a maior parte das vezes apenas pelo aspecto exterior, não nos preocupando de perceber se a beleza exterior é acompanhada pela beleza interior.

Poderíamos dizer que a beleza interior é o amor.
E, realmente, o amor não é visível, ao olhar humano.
Até muitas vezes os gestos, atitudes e palavras que usamos para expressar o amor, são, infelizmente, frequentemente falsas, mascaradas, apenas para atingir um qualquer fim em vista.

Curiosamente, quando pensamos na beleza humana exterior, (aferida pelos padrões da sociedade), reparamos que essa beleza é muitas vezes acompanhada com tiques de “superioridade”, de arrogância, de superficialidade.
Claro que isto é uma generalização e que, felizmente, também há muitos casos em que a beleza exterior é muito bem acompanhada com a beleza interior.

Então como “aferir” a beleza interior, ou seja, o amor?
Sabemos, aqueles que acreditam em Jesus Cristo, que o Seu amor é o único perfeito, completo, total e eterno.
É, portanto, no amor de Deus que podemos perceber a dimensão do nosso amor.

É sabido que o amor é doação, entrega de si mesmo, é a procura da felicidade do outro, dos outros, pois a felicidade dos outros leva-nos à nossa felicidade, e que só assim o amor se torna verdadeiramente amor.
Não são as “promessas de amor” ou as palavras que são o amor, porque nos lembramos de imediato que promessas e palavras leva-as o vento.

Amar é “respirar” o viver de Deus e em Deus!

Realmente só em Deus encontramos o verdadeiro amor e só deixando-nos tomar por esse amor podemos amar verdadeiramente.

O amor transforma!
Até o nosso fraco amor humano, quando nos toma, nos faz mudar para agradarmos à pessoa amada.
E como é belo e edificante ver duas pessoas que se amam verdadeiramente, procurando fazer-se mutuamente felizes.

Quanto mais, portanto, o amor de Deus em nós nos transforma, nos enche e preenche, e nos faz termos uma pequena parcela do divino, do divino amor que a todos ama sem condições.
É que tomados por esse amor de Deus, vamos procurar amar todos os outros, até mesmo aqueles que não nos amam ou nos querem mal.

Impossível?
Não, porque a Deus nada é impossível e por isso mesmo nada é impossível ao amor de Deus em nós.
E quando assim acontece com alguém que conhecemos, nem sequer reparamos na beleza exterior, se a mesma existe ou não por padrões humanos, porque a beleza do amor nessa pessoa torna o seu interior tão belo, que essa beleza se transmite, se sente, se vê, se vive exteriormente.

Então percebemos que a beleza do amor de Deus em nós também nos torna belos em Deus, porque o nosso todo, exterior e interior, é tocado por Deus e tudo o que Deus toca torna-se belo por amor.

Por isso o amor é belo e por isso a beleza é o amor de Deus!



Monte Real, 24 de Janeiro de 2023
Joaquim Mexia Alves

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

CONVERSAS NO CAMINHAR I

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Provocação - Coloca-te perante ti e pergunta-te seriamente que caminho estás a fazer neste encontro com Deus que queres para a tua vida.
Reflexão - Terei que examinar verdadeiramente o que me motiva, o que me apaixona, a verdade da procura no meu coração.

P - Então fá-lo sem medo, entregando-te ao Espírito Santo, para que Ele te guie e te mostre com a verdade os passos que dás em frente e os passos em que retrocedes.
R - Em primeiro lugar quero acreditar que me move o amor de Deus, o amor a Deus, a vontade de fazer a sua vontade.

P - Mas porquê? Para te satisfazeres, para te sentires bem, ou por achares que estás a fazer o que é devido para seguires Cristo?
R - Pois, o problema está muitas vezes aí. Será que o faço para me sentir bem, para me sentir “aconchegado” pela presença de Deus, ou então, também, por achar que Ele precisa de mim e fica contente por eu fazer o que faço ou querer fazer o que Ele quer?
É tão estranho reconhecer que talvez as minhas razões não sejam as melhores!

P - Não te preocupes com isso e abre o teu coração, a tua alma. Deixa que saia de lá aquilo que tantas vezes se calhar não tens coragem, ou mesmo até tens vergonha perante ti próprio de admitir.
R - E se eu olho para trás e reconheço que o meu caminho afinal está errado, ou melhor, que o faço por motivos que não são os verdadeiros, os mais puros?

P - Estás aqui, não estás? A tentar abrir o teu coração e o teu ser perante Deus e perante ti, por isso tens que reconhecer que nem tudo pode estar errado, ou seja, que no profundo do teu coração está Deus que te quer guiar ao seu encontro.
R - Sim reconheço isso. Se não houvesse em mim uma ânsia de ser o que Ele quer, com certeza não me perguntaria porque faço o caminho ou como faço o caminho.

P - Exactamente. Então o que te incomoda?
R - Sabes que uma das coisas que me é difícil de perceber, ou melhor de viver, é esta “capacidade” para escrever e, por exemplo, fazer oração.

P - Porquê?
R - Porque embora reconheça que tudo vem dEle, mesmo assim acho ou penso que tenho algum mérito nisso e isso incomoda-me, porque queria ser completamente liberto de tudo isso para não me ufanar, não me sentir “especial”!

P - Se isso te incomoda significa que dentro de ti a tua consciência te alerta para o perigo da vã glória, e isso é bom, porque também significa que Ele mesmo te alerta, mas te dá a mão.
R - Mas eu não queria “deleitar-me” com elogios, com referências, com parabéns! Queria que não os houvesse, (será que queria mesmo?), ou então que lhes fosse completamente indiferente.
Vês esta divisão que vive em mim, que me marca. Nem sequer ter a certeza se quero ou não quero essas atitudes para comigo?

P - Mas quando recebes esses elogios, essas referências, achas que te são devidas? Achas que são fruto apenas de ti, do que podes ou consegues fazer sozinho?
R - Não, claro que não! Claro que reconheço que é Ele que faz em mim, mas de algum modo sinto que fui "escolhido" e isso orgulha-me como se eu tivesse algum mérito nisso.
E depois dizem-me para me entregar, para tudo confiar, mas estas dúvidas de pureza de intenções não me largam, parece que não me deixam libertar do meu eu, do eu com o qual eu me parece não sei lidar.

P - Poderás não saber lidar tão bem, mas repara que ao te permitires reconhecer tudo isso, significa que no fundo te estás a abrir a Ele e que Ele te vai guiando no caminho que queres caminhar.
Sabes bem que a sua misericórdia é infinita e que Ele te conhece melhor do que tu te conheces, por isso sempre tens a sua mão a levantar-te para Ele.
R - Sabes, apetece-me tantas vezes abandonar tudo! Não é abandonar Deus e o caminho que vou fazendo, mas sim todas as coisas em que estou envolvido e ser apenas mais um entre todos, sem intervenção pública, sem dar a cara.
Mas quando penso nisso fico sempre apreensivo e dividido entre fazê-lo para me libertar ou fazê-lo para me pedirem que não o faça?
E se seu estiver errado e Ele quiser que eu faça o que faço porque realmente me chamou para o fazer?

P - Não te sei responder, mas, no entanto, digo-te que confies e te abras a tudo o que possa acontecer. Se não te chamarem, não te imponhas. Se não te perguntarem, não opines. Se não quiserem precisar de ti, não te faças “necessário”. Não queiras impor a tua presença como se ela fosse necessária. Se Ele quiser que O sirvas de qualquer modo, Ele te chamará do modo que melhor entender e tu irás entender que é Ele que te chama.
R - E isso não me irá “doer” se por acaso não for chamado? Não irei criticar e julgar porque não me quiseram usar para servir? Serei capaz de estar com alegria onde outros estiverem a fazer o que eu fazia?

P - Tens que confiar e rezar permanentemente. Não dizes tu que é preciso invocar sempre o Espírito Santo? Então fá-lo com todas as tuas forças e pede-lhe para Ele te guiar e ajudar a suportar tudo aquilo que humanamente te possa magoar, embora no fundo saibas que isso é apenas caminho de crescimento, caminho de encontro com Deus.
Só comungando com os outros, só alegrando-te no que os outros fazem de bem, serás comunhão também com Deus e assim aquilo que te parecia impossível de ultrapassar, será ultrapassado e, pelo menos em relação a isso, alcançarás a paz.
Mas não penses que tudo fica resolvido, porque o teu caminho de aprendizagem é longo e difícil, e por muito terás ainda que passar. Mas anima-te porque Ele está a moldar-te segundo a sua vontade.




Marinha Grande, 19 de Janeiro de 2023
Joaquim Mexia Alves

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

DIÁLOGOS COM O SENHOR DEUS 24

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Apetecia-me perguntar aquilo que muita gente Te pergunta: Porquê eu, Senhor?
Podia responder-te de forma simples perguntando porque não tu e sim outro qualquer.

Eu compreendo, mas por vezes é tão difícil entender e aceitar.
Sabes bem, porque sabes que Eu sou “apenas e só” amor, que nunca poderia “atribuir” problemas ou sofrimento a ninguém.

Mas porquê, Senhor? Porquê o sofrimento?
Faz parte da condição humana. Repara que o corpo humano é perecível e frágil.
Assim, mesmo que não tivesses doença nenhuma ao longo da vida, quando o corpo começa a envelhecer é normal que tenha problemas, dificuldades, dores, sofrimentos, enfim.
Lembra-te, também, que para além do sofrimento físico existem também os sofrimentos “sentimentais”, emocionais, porque dada a condição de fraqueza do homem pecador, os ciúmes, as traições, a má-língua, etc., etc., também provocam o sofrimento ao longo da vida.

Mas pode existir um sentido no sofrimento?
Não, meu filho, não se pode atribuir um sentido ao sofrimento como se ele fosse coisa boa.

Mas pode-se tirar um sentido do sofrimento. Como?
Repara que Jesus Cristo enquanto Homem, sofreu tudo o que há para sofrer, desde o sofrimento físico, ao mental, sentimental, até à morte e morte de Cruz, como escreve Paulo.
E repara que Ele não desejava o sofrimento, por isso mesmo naquela hora pediu ao Pai que afastasse dEle “aquele cálice”.
Contudo aceitou o sofrimento porque lhe deu um sentido e um sentido extraordinário.
Já que o ia viver ofereceu-o inteiramente pela salvação do Homem.

Devo então desejar o sofrimento para oferecer pelos outros?
Não, meu filho, não deves tu nem ninguém desejar o sofrimento seja porque razão for.
Mas já que o sofrimento é inerente à vida é aceitá-lo, combatendo-o com certeza pelos meios à disposição, e oferecê-lo pelos outros que sofrem também ou que ainda não Me quiseram encontrar.
Então o sofrimento terá um sentido e mesmo no meio da tribulação trará paz e tranquilidade porque se reveste de amor aos outros.

Obrigado. Tens sempre razão, obviamente, porque eu sinto o que me dizes quando aceito o sofrimento e o ofereço pelos outros.
Unidos à Cruz de Cristo todos se tornam obreiros da salvação dos homens pela Minha graça e pelo Meu amor.




Monte Real, 10 de Janeiro de 2023
Joaquim Mexia Alves

sábado, 31 de dezembro de 2022

BENTO XVI

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“Morreu-me” alguém muito próximo!
Um sentimento de orfandade percorre-me e faz-me vir as lágrimas aos olhos.
Morreu Bento XVI!



Morreu, com certeza, serenamente, como serenamente viveu.

Aquele a quem apelidaram de tanta coisa, acabou por surpreender o mundo com a sua humilde renúncia e até esse gesto quiseram distorcer chamando-lhe fraqueza.
Um homem com uma espiritualidade tão profunda e verdadeira, não podia deixar de tomar essa decisão se ela não fosse a vontade de Deus colocada no seu coração.
Acredito que como Cristo, (sentindo-se um nada em comparação com Ele), deve ter rezado por todos eles, pedindo ao Pai que lhes perdoasse porque não sabiam o que diziam, o que faziam.

Mas nada disso interessa agora, mas sim a certeza de que a Igreja tem mais um Santo no Céu.

Tanto deu à humanidade em Igreja e tão pouco dela recebeu.

A sua vida narrada em livros é um poema de amor a Deus Nosso Senhor.
Um poema de amor carregado de inteligência, de doação, de humildade, de joelhos no chão.

Agarro-me aos seus livros, aos livros que dele falam, e guardo-os no coração para que neles perceba como é verdadeiramente ser discípulo de Cristo.

O Papa, digo-o com toda a sinceridade, que mais marcou a minha vida.
Comecei por, infelizmente, deixar-me levar por uma comunicação social manipulada e doentia, mas cedo me apercebi de como estavam errados e de como este homem era uma bênção para a Igreja e para a cristandade.
Depois tive a graça de o ver a escassos metros de mim em Fátima, (ia jurar que os nossos olhares se cruzaram), com ele rezámos as Vésperas e a sua timidez, a sua humildade, a sua concentrada espiritualidade tocaram-me profundamente.

Direi mesmo que Bento XVI marcou uma etapa da minha vida em que decidi que tinha de fundamentar a minha fé, tinha que aprofundar o meu ser cristão, tinha, sobretudo, que conhecer melhor Deus até ao ponto em que Ele se me desse a conhecer.

Por isso este sentimento de orfandade que agora sinto.
Apenas colmatado pela certeza de que se ele me falasse agora, diria como Maria disse naquele dia - «faz tudo o que Ele te disser» - porque só Ele interessa e só Ele é o Caminho, a Verdade e a vida.

“Morreu-me” Bento XVI!
Aleluia!
Temos mais um Santo no Céu!



Marinha Grande, 31 de Dezembro de 2022
Joaquim Mexia Alves

ANO VELHO ANO NOVO

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Ano velho – Estás muito esperançado que vai correr tudo bem!!

Ano novo – Nem por isso. Sabes que já desconfio muito das promessas feitas nesta época.



Ano velho – Há um ditado muito antigo que diz, “promessas leva-as o vento”!

Ano novo – Pois é! E parece-me bem que a maioria das promessas feitas neste tempo são mesmo levadas pelo vento passados uns escassos sete dias.



Ano velho – Deixa lá, que ainda me lembro bem das promessas que fizeram há um ano e olhando para trás vejo bem como o vento as levou.

Ano novo – Sabes, querido ano velho, o que me incomoda é que uma grande parte das promessas que fazem, sobretudo aqueles que se dizem cristãos, são promessas de dietas, de bem-estar físico, de procurar mais dinheiro e mais bens, mas poucas são de amar mais e melhor, de seguir verdadeiramente Jesus Cristo, ajudando os outros, por exemplo, de passar de “cristão de nome” a discípulo de Cristo.



Ano velho – Realmente esse tipo de promessas são em muito menor número e infelizmente rapidamente são esquecidas, tirando algumas raras excepções. Eu sei porque tive oportunidade de verificar isso durante o meu “reinado”.

Ano novo – Eu acredito que muitas dessas promessas são feitas com desejo sincero, mas rapidamente são envolvidas pelo mundo e substituídas por consciências que se moldam à sua própria vontade.



Ano velho – Sem dúvida. Acomodam-se, digamos assim.

Ano novo – O problema, quanto a mim que ainda sou novo nestas lides pois só agora vou começar, é que me parece que dão o “estatuto de cristão” como adquirido, cumprindo preceitos pelos preceitos, e não tanto cuidando de perceber que os preceitos só têm sentido vividos no amor e postos em prática no amor.



Ano velho – Ó meu menino ano novo, a verdade é que se deixam levar por ideias mundanas tais como, não é a mim que compete cuidar dos outros, para isso é que há instituições de assistência, etc., etc.

Ano novo – As instituições existem, mas por si só não conseguem resolver todos os problemas permanentes dos necessitados, sobretudo, no amor, na companhia, na alegria do encontro e, sobretudo, no anúncio da Boa Nova.



Ano velho – Que bom seria que todos aqueles que se dizem Igreja tivessem bem presente aquela palavra de São Paulo: «Assim, se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros; se um membro é honrado, todos os membros participam da sua alegria.» (1 Cor, 12, 26)

Ano novo – Essa seria uma promessa bem bonita de todos fazerem, “ser mais Igreja”, com tudo o que ela implica em adoração, em oração, em testemunho, em amor, em doação de si mesmo.



Ano velho – Costuma dizer-se que Deus demorou sete dias para fazer o mundo e o homem, por isso tenhamos esperança que, iluminados pelo Espírito Santo, as promessas cumpridas de uns levem outros a procurar promessas novas, que tragam Deus aos homens, que parecem querer cada vez mais rejeitá-lO, arvorando-se em “pequenos deuses”.

Ano novo – Se tu, querido ano velho, vives essa esperança quando terminas o teu tempo, então eu, que agora começo, tenho que viver ainda mais essa esperança, e por isso me entrego nas mãos de Deus pedindo que durante o meu tempo a humanidade encontre o caminho de Deus, encontre o amor, encontre a paz, encontre a verdadeira vida que só Deus pode e dá a cada um que O procura e a Ele se entrega.



Ano velho – Até logo, ano novo, vemo-nos na eternidade!

Ano novo – Até já ano velho, sem ti não haveria ano novo, e se formos vividos por Cristo, com Cristo e em Cristo, a eternidade em amor será sempre a realidade da grande promessa de Deus.




Marinha Grande, 31 de Dezembro de 2022
Joaquim Mexia Alves

A todos quantos visitam este espaço um Novo Ano cheio das bênçãos de Deus.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

O NATAL JÁ PASSOU!!?!

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Passou o Natal!
Já lá vai!
Para o ano há mais!

Pois, o problema é esse mesmo, ou seja, colocar nas nossas cabeças e nos nossos corações que o Natal já passou e só para o próximo ano ele volta.

Esquecemo-nos que o Natal «cresce em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens» (cf Lc 2, 52)

Esquecemo-nos de que o Menino se vai fazer Homem e nos vai olhar olhos nos olhos e dizer-nos como todo o amor, «Segue-me» (cf Mt 9, 9)

Esquecemo-nos que o Menino se vai fazer Homem e vai «orar por nós instantemente, e o suor vai tornar-se como grossas gotas de sangue, que caiem na terra.» (cf Lc 22, 44)

Esquecemo-nos que o Menino se vai fazer Homem e vai dar a vida por nós e mesmo na Cruz há-de pedir por nós dizendo «Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem.» (cf Lc 23, 34)

Esquecemo-nos que o Menino se vai fazer Homem e na Cruz vai dizer a Sua mãe, «Mulher, eis aí os teus filhos» e a cada um de nós, «Eis aí a vossa mãe» (cf Jo 19, 26-27)

Esquecemo-nos que o Menino se vai fazer Homem e entregar-se totalmente por nós até dizer no derradeiro momento, «Tudo está consumado». (cf Jo, 19, 30)

Esquecemo-nos que o Menino se vai fazer Homem e, depois de ter morrido na Cruz, vai ressuscitar e dizer a cada um de nós, «Mas ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo.» (cf Act 1, 8)

Não, o Natal não passou, o Natal não volta apenas para o próximo ano.

O Natal está entre nós e só vivendo-o no dia a dia, sendo testemunhas dEle em todos os momentos e em todos os lugares, o Natal é Natal e, como se diz na gíria popular, o “Natal será sempre que o homem quiser” pela graça de Deus.

Santo Natal a todos na alegria do Deus Menino que se vai fazer Homem para nos salvar.



Marinha Grande, 26 de Dezembro de 2022
Joaquim Mexia Alves

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

CONTO DE NATAL 2022

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Aproximava-se o Natal e a inspiração não vinha.

Desde há mais de dez anos que em cada Natal escrevia um Conto que, volta e meia, relia e se espantava como tinha tido tal inspiração.

A verdade é que, normalmente, quando se aproximava o Natal, numa qualquer madrugada acordava às seis ou sete da manhã, (o que tantas vezes lhe acontecia), e, sem perceber como ou porquê, a história para o Conto surgia no seu coração, no seu pensamento.
Depois era só escrever, mais tarde, e ao tempo que escrevia iam surgindo as frases encadeadas.

Mas este ano, nada!
O tempo estava a acabar e nem uma “luzinha” sequer de uma qualquer ideia para o seu Conto de Natal de 2022.

Percorria na memória cenas bíblicas, histórias passadas, episódios natalícios, mas nada, nenhum desses pensamentos lhe transmitia aquela “segurança” que costumava sentir quando lhe vinha ao coração e ao pensamento a trave mestra de cada Conto de Natal.

Bem, pensou ele, chegou ao fim este ciclo de Contos de Natal.

Acabaram-se as ideias, acabaram-se as razões, ou, simplesmente, haverá outro modo de escrever sobre o Natal, porque a escrita para ele, era um contínuo processo em que as palavras iam aparecendo conforme escrevia.

“Arrumou” os pensamentos na “gaveta mental” dos Contos de Natal e decidiu procurar outro modo de escrever o Natal.

Naquela madrugada de 24 de Dezembro, mais uma vez, acordou às seis da manhã.
Seria para rezar, certamente, porque o Conto de Natal já estava “arrumado” na memória.

Foi então que ouviu dentro de si uma voz que lhe dizia.
Queres um Conto de Natal, Joaquim?

Ficou em silêncio com receio que aquele momento acabasse de repente, mas no seu coração apenas dizia sim, mil vezes sim.

Novamente ouviu, ou sentiu, no seu coração aquela voz que lhe disse:
Pois bem o teu Conto de Natal este ano, Joaquim, sou Eu!

És Tu, Senhor? - Perguntou sem perceber.

Sim, Joaquim, sou Eu!
O teu Conto de Natal este ano sou Eu naqueles que sofrem.
O teu Conto de Natal este ano sou Eu naqueles que nada têm.
O teu Conto de Natal este ano sou Eu naqueles que estão doentes.
O teu Conto de Natal este ano sou Eu naqueles que estão presos.
O teu Conto de Natal este ano sou Eu naqueles que estão em guerra.
O teu Conto de Natal este ano sou Eu naqueles que estão abandonados.
O teu Conto de Natal este ano sou Eu naqueles que estão desesperados.
O teu Conto de Natal este ano sou Eu naqueles que estão sós.
O teu Conto de Natal este ano sou Eu naqueles que são perseguidos.
O teu Conto de Natal este ano sou Eu naqueles que são ofendidos.
O teu Conto de Natal este ano sou Eu naqueles que estão traumatizados.
O teu Conto de Natal este ano sou Eu naqueles que não têm esperança.
O teu Conto de Natal este ano sou Eu naqueles que não têm amor.
O teu Conto de Natal este ano sou Eu naqueles que Me afastam.
O teu Conto de Natal este ano sou Eu naqueles que não acreditam.
O teu Conto de Natal este ano sou Eu naqueles que cantam, apesar de todas as dificuldades, «glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade.»

Abriu os olhos, sorriu, e disse numa prece do seu coração:
Que lindo Conto de Natal, Senhor! Só podia ser escrito por Ti!




Marinha Grande, 19 de Novembro de 2022
Joaquim Mexia Alves 


Com este Conto de Natal desejo a todos que visitam este espaço um Santo Natal na alegria de Jesus Cristo Nosso Senhor!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

SOU O ESPÍRITO SANTO!

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No vazio, na escuridão, no nada, procuro afanosamente o Tudo que me dá vida.

Ouço uma voz que me diz: O que procuras tanto e com tanto esmero? Queres ajuda?

Do alto da minha auto-suficiência, respondo com algum desdém: Não vale a pena, obrigado. Eu sei encontrar o que procuro.

Mas a voz insiste e pergunta-me novamente, incisivamente: Olha que uma ajuda nunca se recusa. Se quiseres eu estou aqui para te ajudar, porque sei bem o que procuras.

Já um pouco incomodado respondo, contendo a irritação: Obrigado. Mas, por favor, deixa-me agora para que eu não me distraia na minha procura.

Fixo os olhos ao longe, tento vencer a escuridão do vazio, tento preencher o nada, mas não há uma luz, um sinal, um leve sentir, que me faça encontrar o Tudo que procuro.

Olho para o lado e vejo a voz que me sorri com o sorriso de amor mais belo que um dia vi.

Então escondo o olhar, baixo a cabeça, o mais humildemente que me é possível e também com alguma vergonha de ter desdenhado da ajuda oferecida, e digo muito baixinho: Podes me ajudar, então?

A voz aproxima-se de mim, pede-me que lhe dê a mão, (surpreso reparo que é uma Pessoa), e diz-me ternamente: Deixa-te tocar, abre o teu coração, vê com os olhos do coração, sente com o amor para além do teu, deixa-te envolver e vais ver o que procuras.

Pouco a pouco o vazio vai-se enchendo de algo a que só posso chamar amor, a luz rompe as trevas e deixa-me ver a maravilha da criação, o nada já não é nada porque agora é o Tudo!

Deixo-me ficar ali estasiado, querendo que aquele momento nunca acabe, mas se torne vida em mim para sempre.

Ouço a voz que me diz: «Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põe em prática.»

Olho para a Pessoa que é a voz, sinto-a viva dentro de mim, e pergunto: Quem és Tu?

Não me reconheceste? Sou o Espírito Santo, Aquele que te faz encontrar o Tudo que procuras.



Monte Real, 15 de Dezembro de 2022
Joaquim Mexia Alves

sábado, 10 de dezembro de 2022

«PREPARAI O CAMINHO DO SENHOR»

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«Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas.» Mt 3, 3

No Advento somos chamados a preparar o caminho do Senhor, a endireitar as veredas desse caminho que devemos percorrer todos os dias.

O que nos ocorre rapidamente é o Sacramento da Penitência, mas a verdade é que muitas vezes ficamos por isso mesmo, ou seja, confessamo-nos e “descansamos” na certeza do perdão de Deus.

Mas um Sacramento nunca acaba na sua celebração, antes pelo contrário, continua porque é vida de Deus em nós e como tal não se finda na absolvição, no caso do Sacramento da Penitência, mas continua no processo do propósito de emenda, que não pode ser apenas um propósito, mas uma realidade vivida no dia a dia.
A Eucaristia, por exemplo, também não acaba no “fim da Missa”, mas sim vive em nós e é vida em nós em cada dia.

E nós temos tantas “curvas” no caminho para o Senhor que precisamos de endireitar!

Pedimos perdão e recebemos o perdão de Deus.
Mas perdoamos nós?
Já perdoámos a quem nos ofendeu ou já pedimos perdão a quem nós ofendemos?
Rezamos, verdadeiramente, o Pai Nosso?

Somos Igreja, afirmamos nós, mas temos sempre em conta que «se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros» cf 1Cor 12, 26
É que o caminho do Senhor, as suas veredas, estão cheias de membros que sofrem física, material e espiritualmente, e “endireitar” essas veredas é, sem dúvida, ajudar todos aqueles que necessitam de ajuda, seja ela qual for.

E onde depositamos nós a nossa “segurança” no caminho para o Senhor?
É na Doutrina, na Lei, nos preceitos da Igreja?
Se é, muito bem, mas é por obrigação, por imposição, ou por amor?
É que o Senhor nada impõe, “apenas” ama.
Então a nossa “segurança” tem que ser o amor de Deus em nós e é nesse amor e por esse amor que a Doutrina, a Lei, os preceitos da Igreja se tornam vida em nós, se tornam caminho do Senhor.

«Preparar o caminho do Senhor, endireitar as suas veredas», é caminho de santidade, para a santidade, pela graça de Deus.

Mas ser santo não é ser melhor do que os outros, aos olhos dos homens.
Ser santo é ser cada vez mais para os outros, no amor de Deus, fazendo a vontade de Deus.

E quem em nós prepara o «caminho do Senhor e endireita as suas veredas»?
Apenas o podemos fazer se nos deixarmos conduzir pelo Espírito Santo, porque é Ele que nos mostra tudo o que precisa ser preparado, tudo o que precisa ser endireitado.

Entregues assim ao Espírito Santo deixemos que Ele faça do nosso coração uma “manjedoura de amor», onde nasça todos os dias Jesus Cristo, nosso Salvador, porque Ele «renova todas as coisas». Ap 21, 5



Marinha Grande, 10 de Dezembro de 2022
Joaquim Mexia Alves



domingo, 4 de dezembro de 2022

AS FLORES DO MEU JESUS!

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Era um dos dias de que ela mais gostava.

Era o dia de andar pelo seu pequeno jardim apanhando as flores para colocar na igreja.
Era a missão que lhe tinham dado na sua paróquia e ela gostava muito de a cumprir.
Tratava do jardim com todo o esmero para ter sempre as flores mais bonitas para enfeitar a igreja.
Mesmo quando não tinha flores no jardim, ia à florista e escolhia com toda a minúcia as flores mais belas para colocar nos seus arranjos na igreja.

Era um momento muito bom, porque enquanto apanhava as flores e as colocava no cesto, ia cantando uns cânticos de que se lembrava, sempre com um sorriso na cara, repetindo baixinho para si mesma: São as flores para Ti, meu Jesus!

Pegou no cesto já cheio de flores, de cores da natureza, e abalou para a igreja para repor os arranjos florais que eram a sua mais querida missão.
Um arranjo frente ao altar, outro frente ao ambão e outro, (aquele em que punha mais dedicação), junto ao sacrário, que tinha de ser pequenino, porque ali o espaço não abundava, por isso escolhia sempre as flores mais belas e viçosas para aquele lugar.
Eram as flores de Jesus, como ela dizia com alegria.

Àquela hora ela sabia que não estava ninguém na igreja, pelo que podia fazer o seu trabalho sem ser incomodada.
Assim que chegou dirigiu-se ao sacrário e ali fez uma pequena oração de entrega do seu trabalho a Jesus.

Alegremente deitou “mãos à obra” e, pelas suas mãos, os arranjos de flores iam ganhando beleza e harmonia.
Para Jesus sempre o melhor, pensava ela no seu íntimo.
De vez em quando colocava-se de pé, dava uns passos atrás e apreciava o seu trabalho, para depois voltar e rearranjar aquilo que não lhe parecia tão bem.
Tinha tempo e paciência, porque como ela pensava, era um trabalho para Deus, mas também para que quem visse, se sentisse envolvido na beleza que Deus coloca nas coisas da natureza.

Findo o trabalho e depois de ter aprovado aquilo que os seus olhos viam, foi sentar-se frente ao sacrário para rezar um pouco ao “seu” Jesus das flores.
E ia-Lhe dizendo entre murmúrios: 
Sabes, Jesus, sou assim probrezita, tenho pouco para dar, mas estas flores e este jeito que Tu me deste, coloco-o assim ao Teu serviço.
Não tenho grandes estudos, sou assim simples, mas olha, o que tenho Te dou, apesar das minhas fraquezas e pecados.

Colocou a cabeça entre as mãos e ficou ali a gozar aquele momento, sozinha na igreja.

Ia jurar que alguém se tinha sentado ao seu lado e, sem se voltar para o lado, entreabrindo os olhos viu um vulto acolhedor.
Sentiu um toque no ombro e ouviu uma voz que lhe dizia: 
Minha filha, tu dás-me tudo o que tens e isso a mim me chega vindo de ti. Cada um tem a sua missão e garanto-te com todo o meu amor que isto que fazes por mim e a pensar nos outros também, é tão importante para mim como o teu irmão sacerdote que celebra, como a tua irmã religiosa que ensina, como as tuas irmãs e irmãos catequistas, como qualquer um que serve em Igreja a Deus, servindo os outros.

Rolaram-lhe duas lágrimas pela cara, mas eram lágrimas de paz, de amor, de alegria.

Ousou então abrir os olhos e percebeu que afinal estava sozinha na igreja.
Olhou para o sacrário, abriu os olhos do coração, e disse em voz alta: 
Obrigado meu Jesus. Porque Te incomodaste a falar comigo? Como Tu és bom, meu Jesus!

Ia jurar que, quando ia a sair da igreja, tinha ouvido novamente a mesma voz a dizer-lhe: 
Para Mim tu és a mais bela flor das flores que tu Me deste!





Marinha Grande, 4 de Dezembro de 2022
Joaquim Mexia Alves

sábado, 26 de novembro de 2022

O ADVENTO - A ESPERA

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“Bem podes esperar sentado”.

Estava eu a pensar no Advento e vem esta frase ao meu pensamento.

O Advento é, também, um tempo de espera, e por isso esta frase é a antítese do Advento.
E por variadíssimas razões

Esta frase faz subentender que aquele ou aquilo que se espera não vai aparecer ou acontecer.
No Advento a espera é uma certeza do que vai acontecer, porque Aquele que se espera já está entre nós e apenas temos que tomar consciência disso mesmo.

A frase leva-nos a pensar que o melhor modo de esperar é sentado, para não nos cansarmos, porque não vale a pena ir ao encontro do que se espera.
No Advento, pelo contrário, a espera não se faz sentado, nem sequer de pé.
Faz-se caminhando, procurando para encontrar O que se espera, dando a “mãos aos pastores” para ir ao encontro de Quem se espera.

E a frase leva-nos também a pensar que aquela espera é estática, ou seja, nada temos que fazer para que aquele que esperamos ou aquilo que esperamos apareça ou aconteça.
No Advento somos levados a ser activos, a purificar os nossos corações, a nossa vida, a sermos ainda mais uns para os outros, para que Aquele que esperamos seja vida em nós.

A frase pressupõe uma espera solitária, a sós, sem companhia.
No Advento a espera faz-se em Igreja, ou seja, com todos os que esperam como nós, para que, ajudando-nos uns aos outros, encontremos Aquele que se espera e nos alegremos, unidos, com esse encontro.

Na frase percebe-se que aquele que se espera está longe e pode até nem sequer chegar.
No Advento Aquele que se espera já está connosco e mais do que isso, faz caminho connosco e ensina-nos o caminho a fazer para O encontrar, Ele que está sempre disponível para se fazer encontrado.

A frase ainda revela uma certa tristeza, um certo desânimo em relação à concretização da espera.
No Advento a espera é uma constante de ânimo, de alegria serena, porque Aquele que se espera já está entre nós e nos enche de paz, de alegria, de amor.

No Advento podemos então mudar a frase:
Bem podes esperar caminhando, porque Aquele que esperas, já caminha contigo e Ele mesmo se faz encontrado contigo.




Marinha Grande, 26 de Novembro de 2022
Joaquim Mexia Alves

sábado, 12 de novembro de 2022

SER PADRE

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Abriu os olhos de madrugada e percebeu de imediato que a noite sono estava acabada.
Era Domingo, tinha Missas para celebrar, mas não tinha a mínima vontade de se levantar.
Uma vergonha, um medo, uma impotência, tomavam conta dele e naquele momento a sua vontade era desaparecer para ninguém saber dele.

E ele não tinha culpa nenhuma!
Sempre se tinha mantido fiel à sua entrega a Deus e à Igreja e, tirando as fraquezas e faltas normais de qualquer ser humano, tinha sido sempre fiel ao compromisso sagrado que tinha proferido no dia da sua ordenação.
Por causa de uns quantos colegas padres que se tinham deixado levar pelo mundo, sofria agora na pele a ignomínia que, afinal, não lhe podia ser assacada.
Que vergonha, meu Deus, que vergonha!

Deixou-se ficar deitado e pensou que o melhor era rezar na intimidade do seu quarto.

O seu primeiro pensamento e oração foi para as vítimas daquele horror que até tinha dificuldade de pensar.
Senhor Jesus, Tu que só tens amor para dar, olha por todos estes jovens que foram vítimas do terrível pecado de alguns dos teus filhos que a Ti se consagraram, e protege-os, guarda-os no teu coração.
No amor do Pai, derrama o Espírito Santo em cada um, para que Ele os ilumine, os guie e afaste deles todos os traumas que com certeza sofrem, de modo que possam viver a vida que lhes deste, em paz, amor e felicidade que só Tu podes dar.

Depois, não sem alguma repulsa, (a sua humanidade era mais forte), não pode deixar de pensar nos seus colegas padres, (até tinha dificuldade em os ver assim, nessa condição), rezou por eles também.
Senhor Jesus, Tu que és perdão e o teu amor é sempre maior que o nosso pecado, toca o coração destes teus filhos padres que se deixaram cair no pecado, para que reconheçam os seus terríveis actos, se arrependam sinceramente e façam um verdadeiro propósito de emenda.
Peço-te, Senhor Jesus, para que esse arrependimento e propósito de emenda seja real e sincero, eles mesmo se acusem e se apresentem aos tribunais da Igreja e da sociedade para serem julgados pelos seus horrorosos actos.
E, perante isso, perdoa-os, Senhor, e recebe-os como ovelhas perdidas que encontraram o seu Pastor.

Infelizmente nada se alterava na sua disposição de se levantar e enfrentar o dia, porque pensava em todos aqueles com quem se ia cruzar, e que o iriam julgar e condenar nos seus pensamentos e opiniões.
Que vergonha, meu Deus, que vergonha!

Estendeu a mão para a mesa de cabeceira e apanhou o terço que lá estava, acreditando que a Mãe do Céu havia de interceder por ele e ajudá-lo a sair daquele sofrimento mental que estava a viver.
Embora fosse Domingo, decidiu meditar nos mistérios dolorosos por achar que eram mais “apropriados” à situação que estava a viver.

Antes de começar a rezar veio ao seu coração uma pequeníssima frase: Imitar Cristo.

A oração e a agonia de Jesus no Horto das Oliveiras
Oh, Jesus, também eu rezo e me agonio ao pensar nestes terríveis actos.
Pesam-me como se fossem meus, mas percebo que talvez esteja a pensar mais em mim e no que possam dizer de mim, do que nas vítimas e na tua Igreja.
Eu rezo e agonio-me, afinal, por mim, mas Tu rezaste e agoniaste-Te por todos nós.
Tem piedade, Senhor, das vítimas, daqueles que cometeram tais actos e de todos nós.

A prisão e flagelação de Jesus Cristo
Oh, Jesus, também eu estou “preso” nestes meus pensamentos que me tolhem e não me querem deixar viver o meu sacerdócio.
Também eu me flagelo com a vergonha e o medo que neste momento vivem em mim.
Mas Tu, Senhor, foste realmente preso, tiraram-Te a liberdade e fizeram-Te sofrer física e mentalmente suplícios sem fim, e Tu o deixaste fazer por todos nós, por mim.
Tem piedade, Senhor, das vítimas, daqueles que cometeram tais actos e de todos nós.

A coroação de espinhos
Oh, Jesus, também eu parece que sinto cada olhar, cada palavra sussurrada, cada conversa que se cala na minha presença, como “espinhos” que me atravessam o pensamento e me toldam o raciocínio.
Mas Tu, Senhor, foste ferido realmente por todos os espinhos que afinal eram e são os pecados de todos nós, que Te magoam, não por Ti, mas porque sabes que quando pecamos nos afastamos de Ti e nos condenamos a nós próprios.
Tem piedade, Senhor, das vítimas, daqueles que cometeram tais actos e de todos nós.

A subida de Jesus ao Calvário carregando a Cruz
Oh, Jesus, também eu tenho o meu “calvário” para subir e a minha cruz para carregar e, diferentemente de Ti, apetece-me agora desistir de o fazer.
Mas Tu, Senhor, carregaste a tua Cruz que afinal era a soma de todas as nossas cruzes, subiste ao Calvário sem um queixume, sem vergonha, sem medo, porque o fizeste por todos nós pelo infinito amor que nos tens.
E eu até penso em desistir da minha cruz quando sei bem que Tu estás sempre disposto a carrega-la comigo.
Tem piedade, Senhor, das vítimas, daqueles que cometeram tais actos e de todos nós.

A crucificação e morte de Jesus
Oh, Jesus, também eu me parece que sou “crucificado” no “altar” da opinião pública.
Também eu parece que “morro” quando me lembro, (e como poderia eu esquecer-me?), deste horror que abala a Igreja.
Mas Tu, Senhor, entregaste-Te assim, total e completamente, para seres crucificado e morreres por cada um de nós.
E dessa tua entrega nasce também a vida, a vida eterna, que dás a todos aqueles que Te seguem deixando-se morrer em Ti para em Ti ressuscitarem.
Tem piedade, Senhor, das vítimas, daqueles que cometeram tais actos e de todos nós.

Acabou a Salve Rainha, fechou os olhos, e deixou-se ficar mais um pouco deitado, mas sentiu que a paz se ia instalando nele e que as forças anímicas iam voltando.

Abriu os olhos e perante as frestas da janela percebeu a claridade do dia.
Quis ver nessa claridade a luz que Deus lhe dava para perceber que devia oferecer tudo aquilo que sentia pelas vítimas e pelos que cometeram tais pecados.
E isso confortou-o e deu-lhe forças para se levantar, pensando que de algum modo imitava Cristo ao oferecer-se para sofrer tudo aquilo que injustamente pensassem dele.

Já com um sorriso na cara veio à sua memória uma frase que um dia tinha lido e era mais ou menos assim:
Ser Padre
é isto tão somente,
não ser de si,
mas ser de Deus,
para ser de toda a gente.




Marinha Grande, 12 de Novembro de 2022
Joaquim Mexia Alves

terça-feira, 1 de novembro de 2022

SER SANTO

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SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS

(Parafraseando Florbela Espanca)

SER SANTO


Ser Santo é ser mais humilde, é querer ser o menor
Dos homens! Viver como quem beija!
É ser mendigo de Deus e dar como quem seja
Pertença do Reino do Alto para além da dor!

É ter mil desejos de amor
É saber muito bem o que se deseja!
É ter cá dentro uma Luz que flameja,
É ter mãos que se dão e asas de louvor!

É ter fome, é ter sede permanente de Deus infinito!
Por elmo, a Palavra de Deus, os sacramentos, enfim...
É fazer de tudo uma oração como um só grito!

E é amar a Deus perdidamente
É ter o Corpo, o Sangue e a Vida de Cristo em mim
E testemunhá-lo com alegria a toda a gente!




Marinha Grande, 1 de Novembro de 2022
Joaquim Mexia Alves

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

A PRESENÇA!

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Entrou na igreja com a curiosidade do costume.
Desde jovem que nada tinha a ver com a fé, nem sequer era assunto que minimamente lhe interessasse, mas gostava de visitar monumentos, sobretudo igrejas antigas, e ver as suas maravilhas.

Parou no corredor central e reparou que por cima do altar estava um “objecto” que parecia de ouro e prata e no seu interior tinha uma “rodela” branca.
Isso trazia-lhe alguma reminiscência de memória sem, contudo, conseguir identificar especificamente o que era.
Viu diversas pessoas na igreja sentadas, ajoelhadas ou de pé, mas o que lhe fez mais impressão foi o silêncio que se “sentia”, e que não era constrangedor nem incómodo, era um silêncio de … amor!
Sorriu interiormente quando pensou nesta coisa de um “silêncio de amor”.

Para não incomodar ninguém, sentou-se num banco disposto a ver dali os quadros, imagens, e outras peças de arte, que estavam na igreja, pois esse era o motivo principal da sua visita.

Passado pouco tempo percebeu que havia uma pergunta que não lhe saía da cabeça: O que é isto?
Obviamente a pergunta tinha a ver com o tal “objecto” que estava em cima do altar.
A pergunta era insistente e não lhe saía do pensamento.
Baixou a cabeça para ver se se conseguia concentrar na finalidade da sua visita, mas a única coisa que aconteceu foi que a pergunta que o “atormentava” mudou para: Quem é isto?
Caramba, pensou ele, “quem” já envolve pessoas ou pessoa, o que quererá isto dizer?

Sem perceber muito bem porquê, deu consigo de joelhos a olhar fixamente o tal “objecto” sobre o altar e para grande surpresa sua a pergunta agora era bem mais especifica: Quem és tu?
Não teve dúvidas que a pergunta era dirigida ao tal “objecto” e que era ele próprio que a fazia.

Fechou então os olhos e deixou de se incomodar com a pergunta que continuava, no entanto, bem presente na sua cabeça e curiosamente parecia-lhe, também, no coração.
Perdeu a noção do tempo e quando reabriu os olhos reparou que um sacerdote estava a retirar o tal “objecto” e a guardá-lo, (nesse momento lembrou-se do nome), no sacrário.
Estranhamente apeteceu-lhe pedir para que o deixasse um pouco mais de tempo sobre o altar.

As pessoas começaram a sair da igreja, mas ele sentado, com a cabeça entre as mãos, de olhos fechados, ia deixando passar o tempo.
Sentiu um toque no seu ombro, abriu os olhos, e viu o sacerdote que, sorrindo, lhe perguntou se estava bem e se precisava de alguma coisa.
Ouvi-o perguntar se ele se queria confessar, ao que ele admirado perguntou - confessar? - e seguidamente o sacerdote disse que talvez quisesse apenas conversar.

Disse que sim e o sacerdote sentou-se a seu lado perguntando sobre o que quereria conversar.
Naquele momento ele pensou que não tinha nada para dizer, mas a verdade é que começou a contar a sua vida, como em criança tinha sido obrigado a frequentar a catequese e tinha ido a algumas Missas, e como se tinha afastado totalmente de Deus e da Igreja, mas o que mais o espantava é que à medida que falava, a memória trazia-lhe nitidamente tudo o que tinha aprendido nessa altura e teve repentinamente a resposta à sua pergunta “quem és tu?” que surgiu muito claramente num nome, Jesus!

O sacerdote ouvia-o atentamente com uma cara que parecia estar reflectir profundamente em tudo o que ele dizia, mas ele olhando para o relógio percebeu que tinha um compromisso importante e deveria sair dali quanto antes.
Disse então ao sacerdote que tinha de ir embora mas perguntou se poderia voltar noutro dia para continuarem a conversa.
O sacerdote, com um sorriso, respondeu-lhe que sim, que ele estava sempre por ali, por isso que ele estivesse à vontade e o procurasse quando regressasse à igreja.

Uma paz muito grande envolveu-o.

Levantou-se, agradeceu, e à saída reparou que o sacerdote se tinha ido ajoelhar frente ao sacrário.

O sacerdote ajoelhado frente ao sacrário com lágrimas nos olhos rezava:
Oh, Jesus, como Tu fazes tudo tão bem.
Sabes bem que me ando a debater com estes sentimentos de dúvida, de angústia, de querer abandonar a Igreja, envergonhado com o que se passa, de já quase não acreditar nos sacramentos, e então chamaste este homem, este irmão perdido da fé, para me fazeres perceber que estás realmente aqui presente e que tocas as vidas daqueles que de Ti se aproximam.
Obrigado, Jesus, pela paz que me estás a dar, pela certeza que renasce em mim de Te querer servir servindo em Igreja, obrigado pelo amor que derramas em mim.
E perdoa-me, Senhor, por ter duvidado.
Como Tomé, só Te posso dizer: Meu Senhor e meu Deus.




Marinha Grande, 27 de Outubro de 2022
Joaquim Mexia Alves

sábado, 22 de outubro de 2022

O CAMINHO

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Caminhava rapidamente pelo caminho, cabeça levantada e os olhos fixos na meta almejada, sem se querer distrair com mais nada que não fosse a sua caminhada.

De repente uma pedra no caminho, (que não viu por levar os olhos fixos na meta a alcançar), fê-lo tropeçar e cair no chão.
Magoou-se um pouco, sujou as roupas, mas levantou-se rapidamente e prosseguiu a caminhada.

Num instante recomeçou o passo apressado e os seus olhos fixaram-se ainda mais no fim do caminho.
Pareceu-lhe ouvir umas vozes a seu lado que lhe diziam para ter cuidado, mas não quis parar nem dar atenção a essas vozes, pois só a caminhada e o atingir a meta era importante para ele.
O problema é que subitamente lhe faltou o chão e ele caiu com alguma violência num buraco do caminho que tinha alguma profundidade.
No fundo do buraco deteve-se um pouco para recuperar da queda, e depois com grande esforço, conseguiu sair do buraco e voltar ao caminho.

Esperou um pouco para perceber se estava bem e recomeçou a andar no mesmo passo apressado em que tinha vindo até então e sempre com o olhar fixo no seu destino.
Novamente lhe pareceu ouvir umas vozes que lhe diziam para se preparar, mas como tal não fazia sentido e ele achava que não precisava de ninguém, fechou os olhos para se concentrar e continuou a caminhar.

Sentiu então que algo não estava bem e, quando abriu os olhos, encontrou-se cercado por uma escuridão imensa, por umas trevas que não o deixavam ver nada, nem sequer o caminho que pisava.
Parou e disse interiormente, no meio daquelas trevas, que percebia e reconhecia agora que se devia ter preparado melhor, que devia ter trazido coisas importantes, como uma luz, pois realmente há dia e noite e sem luz é impossível caminhar.
Estava tão arrependido!

“Afundou” os olhos na escuridão e pareceu-lhe ver ao longe uma ténue claridade.
Começou a caminhar com todo o cuidado, tacteando o caminho passo a passo, e apercebeu-se que a claridade ia aumentando, de tal modo que passado mais algum tempo já estava o caminho novamente iluminado e, portanto, possível de prosseguir.

Mas não recomeçou imediatamente a caminhada.
Sentou-se no chão e decidiu reflectir sobre o caminho que tinha feito até aquele momento.

Em primeiro lugar lembrou-se do velho ditado que diz que a “pressa é má conselheira”, percebendo que é melhor caminhar com calma e seguro, do que freneticamente e sem segurança.
Recordou-se da pedra onde tinha tropeçado e imediatamente reconheceu que, não olhando para o caminho e com os olhos fixos apenas na meta, não era possível ver os obstáculos que o caminho tinha.

Reflectiu então sobre a queda no buraco reconhecendo que uma das razões era a mesma pela qual tinha tropeçado, mas também que devia ter dado ouvido às vozes que lhe diziam para ter cuidado.
Se o tivesse feito, provavelmente não teria caído no buraco.

Por fim deteve-se a pensar na escuridão, nas trevas que o tinham envolvido e foi obrigado a reconhecer que, mais uma vez, não tinha dado atenção às vozes que lhe diziam para se preparar, percebendo que para fazer o caminho é sempre preciso uma preparação para o enfrentar.

Levantou-se do chão e foi então que reparou que à sua volta estavam muitos como ele, que caminhavam o mesmo caminho e lhe estendiam os braços e diziam para caminharem todos juntos.
Ao princípio teve a reacção de pensar, como sempre, que era capaz sozinho, mas depois percebeu que caminhando com todos, todos se ajudariam a levantar se tropeçassem e caíssem, que seria bem mais fácil saírem dos buracos em que caíssem, e reparou também que muitos deles tinham luzes e que as partilhavam com os que não tinham.

Sentiu-se bem naquela companhia e partiu novamente, agora acompanhado pelos outros e no ritmo que os mais lentos tinham, para poderem ir todos unidos.

Sorriu e pensou para si mesmo: Estou no bom caminho!

Pois é, Deus chama-nos a fazer o caminho para Ele, mas quer que o façamos em paz e tranquilidade.
Deus quer que olhemos para Ele, mas também que olhemos para o mundo e para o chão que pisamos, porque é neste chão que vivemos por enquanto.
Se olharmos para o mundo em que vivemos podemos evitar muitas vezes as “pedras de tropeço” que o mundo nos apresenta.
E o caminho que Deus nos propõe, Ele mesmo nos diz que tem armadilhas do inimigo, os buracos em que de quando em vez caímos, mas que se ouvirmos a Sua voz e a voz daqueles que Ele coloca ao nosso lado, poderemos evitar esses buracos.
E, claro, há sempre momentos em que as trevas, nesta caminhada para Deus, nos querem envolver, por isso nos devemos preparar para o caminho de Deus, servindo-nos de tudo o que Ele nos deixou, sobretudo a Palavra de Deus e os Sacramentos que são a Luz que nos ilumina e vence as trevas.
Ah, e depois o caminho de Deus é um caminho individual, mas também colectivo, porque Ele serve-se dos outros que nos acompanham para nos ajudar a caminhar, como nos chama também a estar sempre prontos para ajudar aqueles que precisam de nós para caminhar.
Por isso a Igreja é o caminho seguro!

Percebamos também que se Deus é nossa “meta”, embora Ele esteja no fim à nossa espera, também está sempre, ao mesmo tempo, connosco a caminhar o caminho que Ele mesmo nos dá.

Por isso caminhemos sem medo porque a Luz já venceu as trevas!



Marinha Grande, 22 de Outubro de 2022
Joaquim Mexia Alves

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

EM IGREJA, HUMILDEMENTE

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Seria muito mais fácil dizer que assim não pode ser, que é tudo uma vergonha e abandonar, sair, deixar de ser Igreja, do que humildemente envergonhar-me porque alguns, (uma minoria), cometeram actos inomináveis, inclassificáveis, terríveis, de uma dimensão para além de toda a condenação, e manter-me firme percebendo que a Igreja não é do homem, mas de Deus, e que o homem é pecador e muitas vezes se deixa cair no mal.

E então não devo criticar, denunciar, fazer tudo para levar a julgamento aqueles que cometeram tais actos inclassificáveis e aqueles que os acobertaram, para que enfrentem as consequências dos seus actos?

Claro que sim que devem ser levados a julgamento, não só na justiça canónica, mas também na justiça civil, para sofrerem as consequências daquilo que fizeram conscientemente, porque tais actos não podem ser, de modo nenhum, classificados de inconscientes ou passíveis de alguma desculpa seja ela qual for.

E em primeiro lugar, nós Igreja, que nos envergonhamos de tais actos embora não cometidos por nós, devemos ter sempre presente nas nossas orações e preocupações as vítimas, não só na sua vida presente, mas também em tudo aquilo que marca definitiva e indelevelmente as suas vidas também no futuro.

Mas o nosso Deus é um Deus de misericórdia, que à nossa humanidade por vezes até nos parece “exagerada”, mas a verdade é que não há pecado que, perante o arrependimento sincero e propósito de emenda, não seja perdoado
Se assim não fosse não seria Deus, porque então o seu amor teria limites, o que a própria essência de Deus nega.

Devemos também, por isso, rezar pelos prevaricadores, para que tenham consciência dos actos praticados, deles se arrependam verdadeiramente, e se apresentem perante a justiça da Igreja e da sociedade civil, humildemente aceitando as penas a que forem condenados
Rezemos para que sejam eles mesmos a apresentar-se, acusando-se a si próprios, para que a Igreja que um dia disseram querer servir, em Deus, por Deus e com Deus, se continue a mostrar isenta de culpa, que realmente não lhe pertence

E nós Igreja viva, saibamos humildemente reconhecer que alguns que connosco eram Igreja, cometeram tais actos que nos envergonham, mas que sendo nós igreja, continuamos a acreditar e a viver a Fé na Santíssima Trindade, única razão de ser da igreja.

Com serenidade aceitemos até as recriminações e até os insultos que a nós, que nos mantemos fiéis a Cristo, poderão ser feitos, rezando por aqueles que os fazem e sabendo que Deus não faltará àqueles que nEle confiam e esperam.

De coração sangrando, mas cheio de compaixão, mostremos com o nosso testemunho verdadeiro, “que uma árvore não faz a floresta”, e que Deus é infinitamente maior do que o pecado de cada um.

Só em Deus, em Igreja, encontraremos razões e forças para ultrapassar estes terríveis tempos, e só em Deus, em Igreja, encontraremos a paz e a salvação prometidas em Jesus Cristo.




Marinha Grande, 17 de Outubro de 2022
Joaquim Mexia Alves

sábado, 8 de outubro de 2022

NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO DA MARINHA GRANDE

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Por estes dias realiza-se na paróquia da Marinha Grande a Festa da Padroeira, Nossa Senhora do Rosário.
Ontem antes da Missa e Procissão pelas ruas da Marinha Grande, tirei uma fotografia à imagem de Nossa Senhora do Rosário, belamente enquadrada por flores e luzes.

Ao ver a fotografia foi-me suscitada a seguinte reflexão.

Nesta fotografia está contido todo o centro da nossa Fé Cristã.

Ao lado da imagem está o ambão, onde é proclamada a Palavra de Deus, o Verbo que é Deus.

A imagem representa Aquela, a Senhora do Rosário, em quem encarnou o Verbo, o Deus que «se fez Homem e habitou entre nós». (cf Jo 1, 14)

O Verbo viveu entre nós como Homem e entregou-se por nós «até à morte e morte de cruz», (cf Fil 2, 8), como está bem representado na fotografia pelo grande crucifixo que preside na nossa igreja matriz.

Mas o Verbo, o Deus feito Homem, disse que «ficaria sempre connosco até ao fim dos tempos», (cf Mt 28, 20), e por isso também na fotografia se vê o altar em que todos os dias, pela transubstanciação do pão e do vinho no Corpo e Sangue de Cristo, Ele está realmente e verdadeiramente connosco sempre e para sempre.

Ainda podemos reparar que a imagem de Nossa Senhora do Rosário está de lado, para que o centro seja sempre a Cruz de Cristo, a Cruz em que Ele nos deu a Sua Mãe como Mãe de todos nós. (cf Jo 25-27)

Tudo isto se quisermos ver com os “olhos de Deus” aquilo que Ele mesmo nos mostra.

Que Nossa Senhora do Rosário nos guie e por nós interceda sempre, para que unidos a Ela, caminhemos todos os dias e em cada momento, ao encontro de Jesus Cristo «fazendo tudo o que Ele nos disser». (cf Jo 2, 5)

Obrigado Mãe, obrigado Senhora do Rosário.

Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.




Marinha Grande, 8 de Outubro de 2022 
Joaquim Mexia Alves

terça-feira, 27 de setembro de 2022

AQUI ESTAMOS SENHOR! 88

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Mais uma tarde na Tua presença, Senhor, mais um momento de graça na vida que me deste.

O que entendo eu por «Crer em Deus»?
O que significa para mim «Crer em Deus»?

Não pode ser um simples acreditar que Deus existe, porque isso não teria, digamos assim, importância na minha vida do dia a dia.
O «Crer em Deus» tem que ir mais além do que “apenas” acreditar.

Se acredito que Deus existe, tenho que acreditar que isso tem toda a importância na vida que Ele me deu, porque acreditar em Deus é também acreditar que Ele é o Senhor de tudo e assim é o Senhor da minha vida, pois Ele sendo Deus é o «Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis».
E se Ele criou a minha vida, então a minha vida pertence-Lhe e, pertencendo-Lhe, só se realiza plenamente se ela for um reflexo da Sua vontade.
E para eu saber qual é a Sua vontade para a minha vida, tenho que ter uma relação com Ele, uma relação em que, procurando sempre conhecê-lO cada vez mais, melhor posso saber o que Ele quer de mim e para mim, ou seja, qual a Sua vontade para a vida que Ele me deu.

Então o «Crer em Deus» para além do acreditar é uma vivência, uma relação, uma procura, um encontro, uma entrega e uma dádiva.
Então o «Crer em Deus» é toda a vida que Ele me deu em todas as coisas e em todos os momentos e, sem a entrega dessa vida, o «Crer em Deus» não se torna verdadeiro.
«Crer em Deus» é assim vida e vida que se faz segundo a vontade de Deus e, se se faz segundo a vontade de Deus, recebe sempre da abundância de Deus, que não se esgota no pensamento humano, nos planos humanos, nas vivências humanas.

«Crer em Deus» é um imperativo livre para que a vida, a verdadeira vida, realmente aconteça.
E é um imperativo livre porque Ele mesmo nos criou em liberdade, mas se não Lhe entregarmos a nossa vida em amor, como pode Ele preenchê-la com a Sua abundância se Ele respeita sempre a nossa liberdade?

Então o «Crer em Deus» é um caminho na busca da verdade que é Deus e da vida que é Deus.

Obrigado, Senhor Jesus, porque Tu és o Caminho, a Verdade e a Vida.



Garcia, 26 de Setembro de 2022
Joaquim Mexia Alves