quarta-feira, 18 de março de 2020

QUARENTENA?


.
.











Temos então quarenta dias para serem levados muito a sério.

Não interessa se me estou a referir aos quarenta dias da Quaresma ou aos quarenta dias da quarentena, porque ambos, motivados por razões diferentes, podem servir o mesmo propósito: Tempo para estar mais com Deus, em Deus e por Deus.

Mas a quarentena ajuda-nos ainda mais a pensar na fragilidade da vida e de como “não sabemos o dia nem a hora”, por isso temos de estar preparados.

Perguntamo-nos às vezes porque é que há Mosteiros de Clausura?
A resposta pode ser muito simples: Para adorar, interceder, rezar!

Estamos todos, (ou devíamos estar), em “clausura”, (embora mais “benigna” nas suas regras), por isso mesmo devemos aproveitar para adorar, interceder e rezar e assim juntar as nossas preces às preces desses Mosteiros, porque o mundo precisa, não só por causa da pandemia, mas sobretudo pelo seu afastamento progressivo de Deus, com práticas e hábitos que ofendem uma sociedade verdadeiramente humana querida por Deus.

Talvez o maior vírus não seja o tal corona, mas a indiferença, o egoísmo, a falta de moral, o abandono dos mais fracos, as crianças impedidas de nascer, os velhos e doentes obrigados a morrer, num mundo  onde pelos vistos é mais importante parecer do que ser.

Quarenta dias de oração pedindo a Deus que afaste de nós todos os vírus e que nós saibamos a partir de agora seguir os Seus Mandamentos que são a melhor profilaxia e cura para todos estes males.

Deus é amor, por isso só Deus basta!


Marinha Grande, 18 de Março de 2020
Joaquim Mexia Alves
.
.

segunda-feira, 16 de março de 2020

FRACOS OU FORTES


.
.










Tão fortes que nos julgamos e afinal tão fracos que somos!

Tudo o que sai das nossas mãos, das nossas capacidades, das nossas certezas, acaba por nos fazer perceber que afinal nada somos sem Ti.
Tanta discussão sobre a Ciência e a Fé para afinal percebermos, (se quisermos ser verdadeiros), que a Ciência necessita mais da Fé, do que a Fé da Ciência, embora a Fé possa necessitar também da Ciência.

Ficamos mudos, atemorizados, quase subjugados por uma coisa tão pequena como um vírus, que muito provavelmente é culpa do homem quando quer fazer de Deus.

E afinal todos nós sabemos o que é preciso para enfrentar o flagelo: «Estai preparados!
Arrependei-vos e acreditai no Evangelho.»

Não, não falo do fim do mundo, mas talvez do fim de “alguns mundos” que vamos construindo dentro de nós e dos quais afastamos Deus, por acharmos que Ele nada tem a ver com isso.

Quem se preocupa a transformar “água em vinho” numa festa de casamento, quem se preocupa em “contar os nossos cabelos”, também se preocupa com o todo que nós somos e por isso, sejam quais forem os “mundos” que criemos em nós, devemos sempre chamá-lO a construi-los connosco, ou melhor ainda, é com Ele e segundo a Sua vontade que os devemos construir.

Assim não haverá terror, medo ou subjugação, mas apenas e só amor!

E no amor, no verdadeiro amor de Deus, a vida torna-se eterna!



Marinha Grande, 16 de Março de 2020
Joaquim Mexia Alves
.
.

quinta-feira, 12 de março de 2020

MONTANHA


.
.










Subo ao alto da montanha, abro os braços e chamo: Senhor! Senhor! Senhor!
Só me responde o silêncio, mas eu sei que depois de todo o meu esforço em subir a montanha, Ele com certeza me responderá, pois fui ao Seu encontro.

Faço-me maior ainda, grito ainda mais alto: Senhor! Senhor! Senhor!
E nada!
Nem um sussurro, um ruído, sequer uma brisa que me toque e me faça sentir que Ele está ali.
Tento mais três ou quatro vezes e nada, nem um pequeno sinal.

Desço então a montanha, acabrunhado, triste, pensando, (pobre de mim), que teria merecido nem que fosse um pequeno sinal.

Ao chegar ao sopé da montanha vejo uma grande azáfama, com gente doente, gente com fome, gente sem abrigo, gente que chora simplesmente e no meio de todos está Ele, a trabalhar sem parança, consolando, curando, enxugando lágrimas e com Ele estão muitos também ajudando-O em todo esse trabalho.

De repente, Ele levanta os olhos, vê-me e de imediato acena-me para chegar junto dEle.

Atravesso a multidão e digo-Lhe: Aqui estou Senhor! Que queres de mim?

Olha para mim, põe-me a mão no ombro e diz-me com um sorriso: Deixa lá as tuas montanhas e vem cá para baixo, para perto de Mim, ajudares-Me a distribuir o Meu amor e o amor que eu te dei, pelos outros que mais precisam.
Assim estarás sempre perto de Mim e comigo!

Baixo a cabeça envergonhado e digo num sussurro, abraçando alguém que chora: Obrigado, Senhor!


Marinha Grande, 12 de Março de 2020
Joaquim Mexia Alves
.
.

segunda-feira, 9 de março de 2020

O RIO DA VIDA


.
.








Sento-me à beira do rio vendo as águas passar.

Imagino que este rio nasce do Lado Aberto de Jesus e que esta água viva que por aqui passa lava com certeza todos os meus pecados.
E assim me deixo ficar olhando as águas que correm, desejando que todas as minhas fraquezas sejam lavadas e purificadas naquelas águas.

Passa o tempo inexorável e eu vou sentindo alguma paz mas longe, mesmo muito longe de me sentir purificado, de me sentir perdoado, de me sentir envolvido totalmente na misericórdia de Deus.

É então que escuto aquela voz suave dizer-me ao coração: Entra na água, entra na corrente, deixa-te levar sem resistências. Não fiques na margem sem nada fazer. Toma a decisão e mergulha completamente na corrente da água.

Temeroso respondo: Mas, Senhor, eu não sou grande nadador! Nem sei onde me levará a corrente. Não bastarão apenas uns salpicos da Tua água para eu me sentir perdoado?

E de novo docemente me respondes: Se ficas na margem é porque estás pronto a voltar atrás, estás pronto a sair de perto desta água viva e assim a tua vontade de arrependimento é pouca.

Não, Senhor, respondo eu, quero ser perdoado, quero arrepender-me, quero não voltar a pecar, mas a corrente é tão impetuosa!

É então que me estendes a mão, (como estendeste a Pedro), e me seguras até eu entrar totalmente na água e deixar-me levar pela corrente.

Ao princípio parece que me vou afogar pois a água entra em golfadas pela minha boca e não me deixa respirar, mas lentamente e inexoravelmente a Tua água torna-se no meu respirar e eu sinto-me amado, perdoado, acarinhado, envolto numa paz inexplicável.

Dizes-me ainda com voz forte e amorosa: Cuidado que há escolhos na corrente, mas se te mantiveres mergulhado totalmente na Minha água, a torrente do Meu amor far-te-á ultrapassar e vencer todas essas dificuldades.

Vem-me então ao pensamento uma ideia que me faz sorrir: Ainda bem que não sei nadar, porque assim são os Teus braços que me sustentam e me levam no rio da minha vida!



Marinha Grande, 9 de Março de 2020
Joaquim Mexia Alves
.
.

sexta-feira, 6 de março de 2020

A BARCA DA MINHA VIDA


.
.











Fecho os olhos e deixo-me levar!

A barca da minha vida já há muito tempo partiu, mas só agora, (o que é agora se pensar em eternidade?), me dou conta de que inúmeras vezes ninguém comandou esta barca, ou melhor, fui eu, que não sou ninguém, quem a comandou, e por isso tantas vezes fui ter a portos inseguros, a tempestades horríveis, tantas vezes fui atingido por ventos que dividem, navegando sem rumo, sem direcção, sem sentido.

Um dia entraste na minha barca e calmamente tomaste o leme e navegaste por mares calmos, mas também atravessaste ondas alterosas, abismos profundos, monstros inenarráveis, mas sempre com o Teu sorriso terno, olhavas para mim e dizias  com a voz repassada de amor: Não temas Eu estou aqui!

Mas quantas vezes, apesar de dizer com a boca que confiava em Ti, eu tirei o leme das Tuas mãos e me pus a navegar, precipitando-me sempre em perigos constantes, até reconhecer que só Tu sabes conduzir a minha barca e então gritava-Te, cheio de medo: Salva-me, Senhor!

E, no entanto, este passado torna-se todos os dias presente: Tu a quereres-me salvar e eu a querer-me convencer de que já me salvei!

Já mudei tantas coisas!
Já me libertei de tanto lixo!
Já abandonei tanta ideia errada!
E, mesmo assim, continuo sem saber navegar, ou melhor, sou inconstante na navegação!

Diz-me, Senhor, porque não consigo eu libertar-me de mim próprio, para vazio de tudo ser quem Tu queres que eu seja?

Pacientemente, como sempre, tomas o leme novamente e dizes-me cheio de compaixão: Mas ainda não percebeste que Eu te amo como tu és? Ainda não percebeste que cada vez que Me tiras o leme da tua barca, Eu fico ao teu lado até Tu reconheceres que estás a navegar sem rumo? Ainda não percebeste que toda essa luta diária és tu a fazer o que Eu quero, ou seja, a tentares viver segundo a minha vontade?
Repousa agora por um pouco de tempo que Eu vou-te levando a porto seguro!

Recosto-me na proa da minha vida e adormeço a cantar baixinho: Eu me rendo, eu me rendo, eu me rendo….


Marinha Grande, 6 de Março de 2020
Joaquim Mexia Alves
.
.

terça-feira, 3 de março de 2020

PROCURO UM DESERTO


.
.











Procuro um deserto para a minha quaresma!
Mas o inimigo em vez me tentar no deserto, tenta-me antes a querer fugir do deserto!

Pois é, se me deixar envolver nas minhas coisas, nos meus problemas, na minha saúde periclitante, deixo de ter tempo para entrar no deserto que me livra de tudo isto e me coloca perante mim, e mais do que perante mim, perante Deus.

E eu preciso de me colocar perante Deus!
Preciso olhá-Lo nos olhos, estender-Lhe a mão, (como um qualquer Pedro a afundar), dizer-Lhe ao ouvido ou mesmo gritar-Lhe em voz alta: Senhor que queres que eu faça?

Ah, mas preciso também de estar nesse deserto, liberto dos restos de mim, para ouvir a Sua voz no meu coração dizer-me: Converte-te e acredita no Evangelho!

E eu lá responderei mais ou menos convicto, de que sim, que acredito no Evangelho e Ele lá me responderá cheio de paciência e amor que acreditar no Evangelho é vivê-Lo inteiramente sobretudo naquilo que me é mais difícil.

E eu hei-de perguntar-Lhe, cheio de esperteza humana: E, Senhor, o que será o mais difícil para mim?
E Ele há-de responder-me, com um sorriso de imensa ternura: Precisamente aquilo que não queres mudar em ti!



Marinha Grande, 3 de Março de 2020
Joaquim Mexia Alves
.
.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

DIAS DE PENITÊNCIA


 .
.







Chegaram os dias de penitência!
Este é um tempo que me toca profundamente.
Longe de ficar triste ou acabrunhado, antes pelo contrário, alegro-me no amor de Deus que por todos e por mim se dá inteiramente.

Renasce em mim a vontade de me corrigir, de me entender, de me sentir amado por Deus, de querer ser santo em cada coisa que faço ou penso no meu dia-a-dia.
Penso que para um cristão as tais promessas que se costumam fazer em cada Ano Novo, deviam ser deixadas para a Quaresma, e serem promessas de mudança individuais, certamente, mas as quais terão que ter forçosamente uma dimensão comunitária, isto é, levar-nos aos outros para dar testemunho de Cristo com as nossas vidas.

Arrependei-vos e acreditai no Evangelho!
Deixai os lamentos, os queixumes, os protestos, as amarguras, os ressentimentos e rancores, e acreditai na Boa Nova, acreditai no Deus de amor que se entrega por nós e assim nos enche da confiança, da esperança, que brota do seu amor.
Que a minha penitência seja não me queixar, não permitir o desânimo, não me fechar em mim próprio e nos meus problemas, mas antes abrir-me aos outros e viver com eles as suas dificuldades sejam elas quais forem.

E rezar!
Rezar muito falando com Deus, olhos nos olhos, dizendo-Lhe de mim tudo o que Ele afinal já sabe, e depois fazer silêncio, muito silêncio para O poder escutar no coração.

Dizer-Lhe todos os dias: Aqui estou, Senhor, seja feita a tua vontade!

Chegaram os dias da penitência!
Arrependamo-nos e acreditemos no Evangelho!


Marinha Grande, 27 de Fevereiro de 2020
Joaquim Mexia Alves
.
.


quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

TU, SENHOR


.
.






Tu,
Senhor,
és o inatingível
que toca,
és o intocável,
que atinge!

Tu,
Senhor,
és o longe
que está mais perto,
és o perto,
que por vezes fazemos longe.

Tu,
Senhor,
és o amor
que se sente,
és o sentir
que se ama.

Tu,
Senhor,
és o Tudo,
e isso nos basta!


Monte Real, 16 de Janeiro de 2020
Joaquim Mexia Alves
.
.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

DIÁLOGOS COM O SENHOR DEUS (18)


.
.







Julgas que Me fui embora, que não estou perto de ti?

Não sei, Senhor!
O meu acreditar, o meu querer, diz-me que estás aqui a meu lado, que me abraças, que me falas, que me envolves!
Mas o meu sentir, este sentir humanamente racional, nada me faz sentir, ou melhor, sinto-Te longe, quase como se me dissesses que estou por minha conta!

Mas sabes que isso não é verdade, não sabes?

Não sei, Senhor!
Quero acreditar que não, que não é verdade, que Tu estás aqui como sempre estiveste, mesmo quando eu não estava, mesmo quando eu não estou.

Repara que só o facto de falares coMigo devia mostrar-te que Eu estou aqui e não largo a tua mão.

Está bem, Senhor!
Aceito que assim seja. Aceito que estás aqui, que me tomas pela mão, que me envolves e amas, mas porque não o sinto, Senhor, porque não me sinto em paz?

Olha, meu filho, uma coisa é aceitares que Eu estou contigo agora e sempre, outra é confiares que estou contigo e te ajudo a ultrapassar os maus momentos.
Confias tu, que Eu te ajudo, (assim tu queiras), a ultrapassar as dificuldades, os vazios, os escuros da vida?

Quero confiar, Senhor!
Mas Tu és tão difícil!
Não queres dar sinais, ou então dás mas não os vejo!
Não queres dar soluções, mas dás caminho para as soluções!
Não queres colocar-me ao colo, mas queres fazer-me andar pelos meus próprios pés.
Caramba, Senhor, dá-me só um abraço que me faça sentir a Tua presença e eu poderei descansar em Ti!

O abraço está dado, meu filho, nesta pequena conversa!
Não vês como te sentes mais confiante, mais em paz?
Não sentes essa lágrima que cai pela tua face?
Não sentes esse calor no coração?
Sou Eu, meu filho, descansa, confia e espera, não deixando nunca de fazeres a tua parte.

Devolveste-me o sorriso!
Realmente, Senhor, realmente:
Só Deus basta!


Monte Real, 3 de Janeiro de 2020
Joaquim Mexia Alves
.
.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

UM ADVENTO


.
.










Eu espero-Te
Senhor,
ansiosamente calmo,
coração aberto ao amor,
eu espero-Te,
Senhor!

Eu rezo,
Senhor,
esperançosamente sereno,
pondo de lado o temor,
eu rezo,
Senhor!

Eu louvo,
Senhor,
confiantemente seguro,
de que tudo o que vem de Ti é bom,
eu louvo,
Senhor!

Eu adoro-Te,
Senhor,
abandonado na Tua vontade,
reconhecendo-Te o todo e o tudo,
eu adoro-Te,
Senhor!

Eu amo-Te,
Senhor,
com todo o meu amor,
que me vem …
do Teu infinito amor!


Monte Real, 18 de Dezembro de 2019
Joaquim Mexia Alves
.
.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

CONTO DE NATAL 2019


.
.









A noite estava fria, muito fria! Mais frio estava, no entanto, o seu coração que parecia já nada poder sentir!
Não se dava já ao trabalho de pensar no que tinha corrido mal e porque se tinha deixado empurrar para a rua deixando tudo e todos, família, amigos, enfim, uma vida que tinha tido tantas promessas e afinal em nada tinha tido sucesso.
Nem uma réstia de confiança ou de esperança faziam parte da sua vida agora e o abandono era total, pois não acreditava que ninguém sequer olhasse para ele ou se preocupasse com ele.
Ia caminhando sem alento, sem vontade, (como seria bom morrer!), e hoje ainda mais porque até o vão de escada onde costumava pernoitar tinha sido ocupado por outro mais novo e mais forte com quem ele tinha percebido nem valer a pena discutir.

Ouviu umas vozes. Pareciam-lhe cânticos e percebeu que estava à porta de uma igreja onde acontecia uma qualquer celebração.
Lembrou-se então de que era noite de Natal, mas isso não lhe interessou para nada, pois nada tinha importância na vida que agora vivia, ou melhor, que não vivia!
Pensou tão só que podia entrar e sempre estaria algum tempo resguardado do frio. Quando acabasse a celebração decidiria então onde ir, onde dormir.

Assim fez e entrou!
A igreja estava cheia e as pessoas cantavam e rezavam com alegria com entrega, achava ele.
Coitados, pensou, ainda acreditam em “contos de fadas”!
Teve a impressão de que olhavam para ele, mas como já não lhe interessava o que os outros pensavam dele, sentou-se num banco da igreja, num lugar que estava vago.
Olhou com desdém para o homem que estava a seu lado, mas foi surpreendido por um sorriso e um aceno de cabeça. Muito estranho, pensou ele.

A Missa, claro, era a Missa do Galo lembrou-se ele, que se ia desenrolando sem ele prestar qualquer atenção, a não ser quando o padre estava a pregar dizendo que o Menino Jesus tinha nascido numas palhinhas, numa manjedoura, (e ele logo pensou que era bem bom ter hoje uma manjedoura e umas palhinhas para dormir), que era amor, trazia o amor e que todos se deviam amar uns aos outros … e por aí fora, o habitual.
Riu-se por dentro pensando: Pois claro, olha como eles me amam!!!!

A certa altura todos se ajoelharam e ele, para não dar nas vistas, baixou a cabeça e deixou-se ficar em silêncio.
Sentiu-se bem naquela posição e uma estranha calma, uma quase imperceptível bondade, tomaram conta dele, de tal modo que adormeceu profundamente.
Sentiu que lhe tocavam no ombro, abriu os olhos e viu o seu vizinho de lugar de braços abertos para o abraçar dizendo: A paz de Cristo!
O homem era doido, pensou ele, pois sujo como estava quem é que o havia de o querer abraçar, mas lá se levantou e com alguma vergonha, (coisa estranha nele), lá se deixou envolver no abraço.

A Missa acabou e ele deixou-se ficar para o fim, para gozar um pouco mais do conforto daquele lugar em comparação com o frio da noite.
Quando saiu, sentou-se num canto da escadaria pensando para onde ir, onde dormir naquela noite.
Reparou então que em frente dele, de pé, estava o seu vizinho da Missa que lhe perguntou:
Quer boleia para algum lado?
Riu-se e disse-lhe com um tom um pouco irritado: Acha que tenho algum lugar para onde ir?
Então o homem retorquiu: Hoje é noite de Natal. Eu vivo sozinho, já não tenho ninguém. Tenho uma refeição que preparei à minha espera em casa, mas gostava de a partilhar consigo.
Mau, pensou ele, o que é que este quer???
Mas, curiosamente, o homem inspirava-lhe confiança e mal também não lhe havia de fazer, até porque pior do que ele estava já não podia acontecer.
Levantou-se e com cara de poucos amigos retorquiu: Está bem. Se tanto insiste.

O homem morava ali perto e num instante já estavam no aconchego da casa, mas ele sentia-se mal, sujo como estava, não estava nada à vontade.
O outro percebeu e perguntou-lhe: Quer tomar um banho quente? Somos da mesma estatura e eu arranjo-lhe umas roupas para vestir. Vai sentir-se melhor e depois ceamos.
Tudo aquilo era muito estranho, mas, como dizia o ditado, “a cavalo dado não se olha o dente”.

O seu novo amigo, que entretanto lhe tinha dito chamar-se André, (ao que ele, muito contrafeito, tinha respondido com o seu nome Pedro), entregou-lhe umas roupas lavadas, uma toalha e mostrando-lhe a casa de banho, informou que ia preparar a mesa e a ceia, para comerem quando ele estivesse pronto.
Saiu da casa de banho com uma nova disposição. Aquele banho e aquelas roupas faziam-no sentir bem melhor.
Sentou-se à mesa onde já estava o seu “novo amigo” André e ele perguntou-lhe com um sorriso se podia fazer uma oração antes de comerem.
Claro que respondeu afirmativamente, esperando que a oração não fosse muito longa porque cheirava tudo muito bem e ele trazia fome de muitos dias.

O André benzeu-se, (ele fez o mesmo por vergonha), e disse: Obrigado Jesus por Te teres feito homem como nós para nos ensinares o amor. Obrigado porque me conheces e sabes bem como me é difícil passar a noite de Natal sozinho e assim quiseste trazer o Pedro para me fazer companhia nesta noite. Abençoa-nos, protege-nos e guarda-nos no Teu amor.

Uma lágrima teimosa caiu-lhe pela cara e quando começaram a comer ele iria jurar que ouvia por toda a casa um cântico melodioso: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade».


Natal de 2019
Joaquim Mexia Alves

Com este Conto de Natal quero desejar a todos um Santo Natal na paz e na alegria do nosso Deus que se fez Homem para nos salvar, amando-nos até ao fim.

Nota:
Só depois de escrito o Conto reparei que há no mesmo uma "história escondida" que nos remete para um episódio bíblico.
Quem quiser descubra-o!

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

OVELHA PERDIDA


.
.









Ovelha perdida
num mundo frenético
rodeada de tudo
e no entanto
tão só!

Parece que nada te falta,
tantas coisas tu possuis,
riquezas, amores,
num rebanho de imensidão
a que não faltam pastores.

Chamam-te,
não pelo nome,
mas aos gritos!
Não lhes reconheces a voz,
nem o querer,
nem o sentir,
nem sequer te sentes incluída,
quando chamam
e dizem nós!

Ao longe,
cada vez mais perto,
sentes o amor,
ouves murmurar o teu nome,
misturas-te com todos os outros,
que têm nome também,
sentes-te amada,
pelo Pastor,
e gritas com toda a alma:
Obrigado, Senhor,
fui encontrada!!!



Monte Real, 10 de Dezembro de 2019
Joaquim Mexia Alves
.
.


terça-feira, 26 de novembro de 2019

SER CRISTÃO


.
.








Ser Cristão
é ser coração,
é ser Fé
é ser Razão,
é acreditar
para além do ver,
para além do ouvir,
para além do falar,
para além do fim,
para além de mim!

Ser Cristão
é ser coração,
de Cristo,
por Cristo
com Cristo,
e em Cristo,  
para os outros.


Monte Real, 26 de Novembro de 2019
Joaquim Mexia Alves
.
.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

SINTO-ME OVELHA!


.
.







Sinto-me ovelha,
não já perdida,
mas reencontrada,
pelo Senhor que dá a vida,
e acolhe o pecador.

Sinto-me ovelha,
não já abandonada,
mas acolhida,
desejada,
envolta em Seu amor.

Sinto-me ovelha,
não já ferida,
mas em tudo sanada,
pela paz,
pela alegria,
pelo amor,
do meu Deus e Senhor!


Monte Real, 7 de Novembro de 2019
Joaquim Mexia Alves
.
.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

“PREGAMOR!”


.
.









Pregador
que pregas a Palavra,
de Deus Nosso Senhor,
que é sempre,
e em todos os momentos,
“apenas” e só amor!

Não deverias então,
já que pregas o amor,
chamar-te com toda a razão,
simplesmente
Pregamor!!!

Monte Real, 18 de Outubro de 2019
Joaquim Mexia Alves
.
.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

“QUEM SE HUMILHA SERÁ EXALTADO”!


.
.







Já estou habituado, Senhor!
São cinco da manhã e acordo com frases a bailarem-me na cabeça.
Desisto de dormir e deixo-me levar na meditação da madrugada que já cria rotina em mim.

“Quem se humilha será exaltado”!

E eu penso: Isto não é para mim, que de humildade estamos conversados.
Mas deixo-me conduzir, (assim o espero), e logo me vem o pensamento: Mas eu não quero ser exaltado! Quero permanecer humilhado!
Mas o teu Mestre foi humilhado e depois foi exaltado!?
Pois por isso, digo eu para mim próprio, seria vaidade a mais querer ser como o Mestre!
Além disso o Mestre podia, pode e deve ser sempre exaltado, porque permanece sempre humilde no seu amor totalmente doado.

Ai, Senhor, que luta esta que todos os dias me dás de lutar contra o orgulho, a vaidade, de tal modo que já não sei se sou orgulhoso da luta ou se devo deixar-me ir, confiando na compaixão com que para mim olhas e me acolhes.

Tenho medo de perguntar-Te porque sou eu assim, não vás Tu responder-me com a Tua firme doçura: Porque Eu quero! Quero que percebas em cada momento teu, que sou Eu que faço, que sou Eu que te guio, e que se não fosse esse orgulho, essa vaidade, podias até julgar que era coisa tua ou merecimento teu. Assim na tua luta voltas-te sempre para Mim e Eu cá estou sempre para te abraçar e acalmar nas tuas dúvidas.

Olha, Senhor, não sei se mais alguém entende isto, mas eu entendo para mim e dou-Te graças por me fazeres assim!
Obrigado, Senhor!


Marinha Grande, 18 de Outubro de 2019
Joaquim Mexia Alves
.
.