Uma das graças que Ele me quis conceder, (muito importante particularmente para mim), foi o despertar de um amor forte e constante à Igreja.
E quando me refiro à Igreja, refiro-me à Doutrina, ao Santo Padre, aos Bispos, aos Sacerdotes, aos Diáconos, às irmãs e irmãos, consagrados ou não, que caminham em Igreja.
Quando afirmo que é uma graça particularmente importante para mim, digo-o porque quero agora fazer uma revelação, que há alguns que me lêem já conhecem, e que constitui um testemunho que, espero eu, possa ajudar outros que vivam nas mesmas circunstâncias.
Com efeito esta minha caminhada desde 1997 é feita, como já afirmei, com a minha mulher, só que, por motivo de um anterior matrimónio meu, não nos era possível celebrar o Sacramento do Matrimónio em Igreja.
Ao fim de nove anos de um processo no Tribunal Eclesiástico, em que tudo colocámos nas mãos de Deus aceitando o veredicto qualquer que ele fosse, pudemos em 2006 celebrar o Matrimónio, que tanto desejávamos.
Mas se esta celebração foi o selo de Deus na nossa vida de casal, de família, de vida como igreja doméstica, os anos que vivemos esperando esta bênção de Deus, foram de uma riqueza espiritual extraordinária, por isso afirmava que esta graça do amor à Igreja, se revelou tão importante para nós, para mim.
Nunca em momento algum me senti excluído, me senti colocado de lado, me senti inútil à Igreja que me acolhia.
Cantei no coro da minha paróquia, colaborei em tudo o que me foi pedido, nunca recusando “emprestar” a minha voz, dando o testemunho da minha vida, falando da Palavra de Deus, da riqueza da oração permanente, sobretudo em encontros de jovens, a quem gosto muito de falar, até por causa da minha experiência de vida.
Foi-me até pedida colaboração em reuniões organizadas pela Diocese, acompanhando Sacerdotes e falando da minha experiência no acolhimento, ao que, depois de lembrar a minha situação, acedi de coração aberto e agradecido.
Tive momentos de “intensidade” espiritual maravilhosos, quando, por exemplo, perante a impossibilidade da comunhão eucarística do Pão Sagrado, me deixava envolver interiormente, numa comunhão espiritual, por essa presença amorosa de Deus, que nunca abandona os que O procuram de coração aberto.
Também nunca me excluí, ou seja, por vergonha, respeito humano, ou qualquer outro sentimento, que nos leva muitas vezes a pensarmos que somos excluídos, quando afinal somos nós mesmo que nos afastamos.
E esse amor à Igreja é vivido sempre em desejo de comunhão, porque só assim ele tem sentido.
Tive e tenho dúvidas, não concordava e não concordo com certas coisas, mas sempre colaborei e colaboro em tudo o que me é pedido e é nessa colaboração que partilho os meus pensamentos, as minhas dúvidas, e é em comunhão com todos que pretendo ajudar a construir uma Igreja mais fraterna, mais viva, mais actuante, mais alegre, numa palavra, mais cristã e católica.
Não criticava, nem critico por fora a Igreja, e se por acaso o fazia, ou faço, mercê das circunstâncias, nunca deixava, nem deixo de reafirmar a minha comunhão e a minha obediência de amor à Igreja de Jesus Cristo.
A Igreja fez e faz sempre parte das minhas orações diárias.
Outra graça maravilhosa que o Senhor quis derramar na minha vida foi o perdão, ou seja, perdoar, pedir perdão e reconhecer o Seu infinito perdão.
No inicio, era-me muito difícil conceber que Deus me perdoasse de tanto mal que tinha feito, aos outros e a mim.
Durante uns tempos esse sentimento perseguia-me, e infiltrava-se no meu coração como que dizendo: “ Faças tu o que fizeres, é tarde, pois são tantos e tão grandes os pecados que não têm perdão”.
Depois da minha primeira confissão, (passados quase 30 anos da última que tinha feito), num primeiro momento a paz foi indescritível, o sentir do amor de Deus tomava conta de mim, e durante algum tempo vivi em paz com Deus e comigo próprio.
Mas as dúvidas regressaram, e se o perdão de Deus me parecia ponto assente, o meu perdão ao meu passado, parecia-me impossível e se umas vezes, e eram tantas, o passado me regressava ao pensamento em força, era para me atormentar causando-me vergonha, ou pior ainda uma certa complacência, um certo gosto.
A luta era difícil e muitas vezes quase me impedia de crescer, de caminhar para Deus.
Um dia, durante uma adoração ao Santíssimo Sacramento pedi ao Senhor Jesus que me concedesse essa graça do perdão, não só de o receber, mas de o dar aos outros e a mim próprio.
Confesso que não me lembrei muito mais desse pedido e só passado algum tempo me apercebi, por qualquer facto que recordei do passado, que a paz estava presente nessa recordação e que o passado já não tinha qualquer efeito pernicioso em mim.
Mais, dei por mim a louvar o Senhor pelo meu passado, na convicção de que, se não o tivesse vivido, provavelmente seria agora um cristão “morno”, cumprindo estritamente a lei nos seus “mínimos”, não me apercebendo, nem vivendo a graça maravilhosa que é a presença de Deus nas nossas vidas, que é o Seu amor infinito por cada um de nós e que se faz real no dia a dia das nossas existências.
Claro que todo o outro perdão, (o dar, o pedir, o aceitar), passaram a fazer parte constante da minha vida, o que perante tantas vicissitudes porque passei, (a dada altura perdi tudo o que tinha materialmente), foi o bálsamo mais pacificador da minha vida.
A vontade de querer perdoar levava-me a rezar por aqueles que me tinham magoado, e também por aqueles que eu magoei.
Durante uns tempos essas orações pareciam-me “falsas”, ou seja, no meu coração eu pedia a Deus por eles, mas no meu intimo sentia que não “desejava” esse bem que então pedia.
Mas a graça de Deus precisa apenas da nossa abertura de coração, e assim lentamente, carinhosamente, o Senhor ia colocando no meu coração uma reconciliação, uma paz em relação a essas pessoas e a esses factos, e a vontade de rezar cada vez mais por eles, para além da certeza de que se um dia precisassem de mim, eu não lhes negaria a minha ajuda.
E assim descobri a maravilha de perdoar e pedir perdão, descobri que muitas coisas correm erradas nas nossas vidas porque nos agarramos a rancores e ressentimentos, que envenenam a nossa existência e não nos deixam viver em paz, não nos deixam sequer amarmos inteiramente aqueles que nos são próximos, porque em nós vivem sentimentos de “desamor”.
Todo este caminho levou-me à oração constante, perseverante, umas vezes mais consciente e outras vezes mais distante, mas no entanto sempre oração que lava o coração e alimenta a alma, alimenta o ser.
“Descobri” a graça da oração de louvor nas adversidades, nas provações, agradecendo a Deus por elas e oferecendo-as pelos outros mais sofredores do que eu.
Quantas vezes nestas orações de louvor o Senhor me respondia de imediato, aliviando os meus sofrimentos ou colocando em mim forças para enfrentar as provações, forças que eu desconhecia viverem em mim.
Tanto para dizer, tanto para testemunhar, tanto para agradecer ao Senhor da Vida que nunca nos abandona e nos abraça no Seu amor eterno.
(continua)






