Lembro-me que, tendo eu umas mãos grandes, a minha mulher sorria ao ver os nossos filhos deitados na palma de uma das minhas mãos.
Tão frágeis, tão à mercê do mundo, tão sensíveis a tudo quanto à sua volta acontece, e no entanto tão confiantes naqueles que os rodeiam.
Penso então neste Menino que é Natal para cada um de nós e fico extasiado perante o amor de Deus.
O Deus Pai que nos criou e nos conhece bem melhor do que nós nos conhecemos, que conhece as nossas qualidades e os nossos defeitos, que percebe as nossas infidelidades e inconstâncias, ama-nos de tal modo que confia absolutamente em nós.
Se assim não fosse, como daria Ele o Seu Filho ao mundo, não para nascer como um rei de poder imenso, mas com a fragilidade de um recém-nascido que em tudo depende dos seus pais, daqueles que o rodeiam, que se deixa tocar e se sente confiante nas mãos dos homens que O tocam.
Este Filho que tem logo, desde o inicio da Sua vida no mundo, de fugir para não perecer pela maldade dos homens.
Este Filho que, tendo nascido como nós, é também um recém-nascido frágil e à mercê de tudo aquilo que qualquer homem queira fazer d’Ele.
Que amor, que humildade, que simplicidade, que entrega, é este nosso Deus em tudo o que se revela.
Podemos imaginar Aquele Menino nos braços de Sua mãe, na palma da mão de Seu pai na terra, e percebemos toda a fragilidade e simplicidade com que se entrega.
Transportemo-nos para o aqui e agora.
Outro tanto não é a Eucaristia?
Não se faz Ele pedaço de Pão, que colocado nas nossas mãos fica ao sabor da nossa vontade?
Não é Aquele pedaço de Pão nas nossas mãos, tão frágil como aquele Menino nos braços de Sua mãe?
Queria tanto conseguir explicar o que sinto, o que me vai na alma, o que me vai no coração, mas não encontro palavras, talvez porque não haja palavras, ou talvez porque qualquer palavra já seja demais para transmitir o que é o amor, a humildade, a simplicidade de Deus.
Perdemo-nos às vezes em discussões intermináveis sobre as coisas de Deus, tentamos fazer vingar os nossos pontos de vista, queremos mudar os outros com as nossas palavras e não entendemos que enquanto não alcançarmos a humildade, enquanto não nos deixarmos atingir pela simplicidade, enquanto não formos feitos de amor, nada do que dissermos fará sentido, nada do que dissermos transmitirá Deus aos outros, nada do que vivermos será testemunho de Deus em nós.
Se Jesus Cristo não fosse assim, Homem de pé no chão, feito de oração, amor transmitido em palavras simples, mais humilde do que os humildes, vergando-se à vontade dos homens, alguma vez as Suas Palavras teriam chegado tão longe?
Não, com certeza que não, porque o Pai nos conhece tão bem, que sabe muito bem que só na fragilidade os homens são tocados, só na simplicidade os homens melhor entendem, só na humildade os homens se tornam Homens.
Saberemos nós, verdadeiramente, alguma coisa de Deus, para além de sabermos que Ele nos ama e quer a nossa Salvação, a nossa felicidade?
Provavelmente não, mas afadigamo-nos em construir tantas vezes um deus à nossa medida, um deus que sirva a nossa vontade, que nem nos apercebemos que se a nossa vontade for o amor, for a humildade, for a simplicidade, Ele fará sempre a nossa vontade.
Então façamos nós ao contrário agora:
Façamo-nos nós recém-nascidos nos braços de Deus, deixemos que Ele nos coloque na palma das Suas mãos, façamo-nos frágeis, humildes, simples, e assim confiadamente abandonemo-nos n’Aquele que tudo pode e nada de mal nos acontecerá, e as nossas vidas serão testemunho, e os nossos gestos serão amor, e o nosso viver será humildade, e as nossas palavras serão simplicidade, porque serão d’Ele que fala por nós, tal como a mãe e o pai falam pelo seu filho que ainda não sabe falar.
Então poderemos dizer em Igreja e com a Igreja:
Vem Senhor Jesus, que eu quero renascer em Ti, por Ti e para Ti.
Monte Real, 24 de Dezembro de 2009
