quarta-feira, 11 de outubro de 2006

O ABORTO

Do volume II do Diário de Miguel Torga

Coimbra, 28 de Abril de 1942

O tecto do velho casarão hospitalar só não caiu porque isto da matéria às vezes resiste muito.
Era na hora da aceitação. a ficha pedia respostas curtas e concretas.
- Profissão?
- Meretriz.
- Filhos?
- Oito.
- Quantos?
- Oito.
- E todos desde que ...
- Todos.
Serena, como se tivesse dito uma coisa sem qualquer importância, continuou de pé, encostada à parede.
- Sente-se.
- Com licença.
Amparou a barriga desmedida, acomodou-se no banco, e continuou a responder.
- Abortos?
- Nenhum.
- Nenhum?!!
Não, senhor.
- Então, mas na sua vida?!...
- Nenhum. Nunca quis.
- E os filhos? Vivos ou mortos?
- Vivos.
- Criados lá?!
- Lá.
Até as paredes pareciam tremer de comoção. Segura, só ela, desgraçada, mas com a sua folha de mãe corrida e plena.
- Muito bem. Suba.
O nono filho nasceu como o de qualquer mulher honrada, e ela teve alta esta manhã.
- Vou mandar-lhe umas coisas - não se conteve o coração comovido de um colega - Quero auxiliá-la. Isto é tudo uma miséria, mas, é preciso que ao menos a gente só assine vencido.
- Não - respondi-lhe eu, a olhá-lo bem - Se quer de facto ajudá-la, não faça isso. siga-lhe o exemplo, e nem mesmo vencido assine.

3 comentários:

Diogo Taveira+ disse...

Caro Joaquim, Paz e Bem.
Realmente, este texto é explícito o suficiente para que se faça qualquer comentário. E por isso, só venho cá dar-lhe um abraço, saber se está tudo bem.
Um abraço em Cristo,
Diogo

joaquim disse...

Caro Diogo
Obrigado pela visita e pelo abraço.
Está a chegar o tempo, em relação a este assunto do aborto em que os cristãos têm de assumir se o são verdadeiramente, ou apenas de nome.
Rezo por ti e pelo discernimento da tua vocação.
Abraço em Cristo do
Joaquim

António disse...

muito bem!