sexta-feira, 11 de Abril de 2014

OS "RE-CASADOS" SÃO IGREJA (3)

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Quando ia reflectindo, meditando em todas estas situações, a maior parte das vezes tão dolorosas, surgiu-me no coração este versículo: «eram como ovelhas sem pastor» Mt 9, 35

Realmente muitos daqueles que vivem estas situações são como «ovelhas sem pastor».
Procuram acolhimento, ajuda, amor na Igreja e muitas vezes não encontram nada disso, mas apenas evasivas, julgamentos, afastamento.

E no entanto o pastor quer todas as ovelhas no seu rebanho, não quer nenhuma perdida, porque ele é o pastor de todas as ovelhas.                        

O pastor conduz o rebanho, une o rebanho, mas não o faz sozinho.

O pastor do rebanho tem normalmente a ajuda dos cães do rebanho.

Perdoem-me a comparação, mas os cães do rebanho, são a Igreja, são o Papa, os bispos, os sacerdotes, os leigos.

Há ovelhas que se desviam do caminho, que começam a caminhar outros caminhos, que não o caminho do rebanho.
Há ovelhas que ficam enredadas, presas, nos espinhos de alguma silva, de onde não se conseguem libertar sozinhas.

Algumas dessas ovelhas, são sem dúvida os divorciados re-casados.

A missão dos cães, para além de manterem o rebanho unido para ser conduzido pelo pastor, é ir procurar e levar as ovelhas perdidas para o caminho certo, é ir ajudar as ovelhas presas nos espinhos a libertarem-se deles, para poderem juntar-se ao rebanho e prosseguir o caminho guiadas pelo pastor.

Mas que fazemos nós tantas vezes, perdoem-me mais uma vez a expressão, os cães que são Igreja?

Acenamos de longe, de dentro do rebanho, e gritamos: Estás enganado no caminho! Vem para aqui! Vem para o rebanho!

Este acenar de longe, este gritar de chamamento, são os documentos da Igreja que tratam destas situações dos divorciados re-casados, mas que nada fazem, que nada concretizam, arrisco-me até a dizer, para nada servem, se não os colocarmos em prática, se não os concretizarmos com palavras ditas, com gestos realizados, com actos concretos, e com muita oração, muita oração.

Então precisamos, por vezes, de sair do rebanho, (ou mesmo dentro dele), para procurar essas ovelhas, esses irmãos, mostrar-lhes o caminho, e ajudarmo-los a libertarem-se dos espinhos que não os deixam caminhar unidos ao rebanho.

E esses caminhos desviados são tantas vezes outras igrejas, outras espiritualidades, outras ofertas onde irão procurar o que nunca lá conseguirão encontrar: Deus, o amor de Deus, a Verdade que é o próprio Deus.
E esses espinhos são tantas vezes a incompreensão, a indignação perante palavras duras e mal dirigidas vindas de dentro do rebanho, são revoltas, que apesar de serem um tanto culpa própria, não deixam também de ser culpa muitas vezes da parte do rebanho que não soube, ou não quer, (pior ainda), acolher, ajudar, amar.

A imagem dos espinhos é muito interessante.

Os espinhos magoam, ferem, e as ovelhas que estão presas nos espinhos debatem-se para se libertar, mas esse debater acaba por magoar mais, acaba por aumentar as feridas, aumentando o sofrimento.
Mesmo quando libertados dos espinhos, verificamos que nesses mesmos espinhos ficou agarrada alguma lã, ficou agarrado algo que pertence à ovelha que esteve presa.
As feridas abertas, acabam por sarar quando a ovelha volta ao rebanho, e acabam por ganhar a crosta, para que a pele sare por baixo.
Mas caídas as crostas, ficam as cicatrizes, que acabam por recordar os maus momentos.

Realmente, aqueles que vivem estas situações, estão muitas vezes feridos por tantos espinhos.
O espinho do divórcio, o espinho da dificuldade de perdoar ou ser perdoado, (pelo outro ou pelos filhos), o espinho de não ser bem aceite na Igreja onde afinal quer procurar o amor que um dia Deus semeou no seu coração.

E o amor de Deus é imprescindível para que possam perdoar, pedir perdão e serem perdoados.

Essa capacidade, se assim podemos chamar-lhe, de perdoar, pedir perdão e ser perdoado, parte muito da vontade do homem, mas com a fraqueza do homem, se não for iluminada pelo amor de Deus, nunca será um perdão completo, mas sim algo que a memória sempre recordará com mágoa, tristeza e às vezes até ressentimento.

Só amor de Deus pode trazer a paz a esse recordar traumático de um divórcio, e trazer o amor a uma nova relação.

O amor de Deus encontra-se, ou melhor, faz-se encontrado na relação íntima e pessoal com Jesus Cristo, na oração e entrega de cada um, mas também, e sempre, em Igreja, na oração e celebração comunitária, primordialmente na comunhão do Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Mas a estes nossos irmãos está vedada a admissão à Comunhão Eucarística, alimento divino para esse encontro tão pessoal e íntimo com Jesus Cristo.
E isso dói-lhes, magoa-os, porque sentem a necessidade imperativa de receber Jesus Cristo.

Mas não é a comunhão eucarística a única forma de comungar Cristo, ou seja, de permanecer n’Ele, de estar em comunhão com Ele, de sentir a sua presença viva nas nossas vidas, pois como muito bem sabemos, também nos alimentamos do Senhor na Palavra de Deus, como nos afirma a Constituição Dogmática Dei Verbum no seu número 21, «A Igreja venerou sempre as divinas Escrituras como venera o próprio Corpo do Senhor, não deixando jamais, sobretudo na sagrada Liturgia, de tomar e distribuir aos fiéis o pão da vida, quer da mesa da palavra de Deus quer da do Corpo de Cristo.», bem como na oração pessoal e comunitária e nas boas obras que fazemos pela graça de Deus.

No rebanho, nem todas as ovelhas caminham da mesma forma, nem todas as ovelhas se alimentam do mesmo modo, e no entanto o pastor ama todas as suas ovelhas e com todas se preocupa e por todas se entrega.

Temos que ser então nós, Igreja, a mostrar, a testemunhar, a envolver, estes re-casados no amor de Deus, para que mais do que verem a Igreja como uma instituição, com regras e normas, vejam e sobretudo sintam a Igreja como amor de Deus aos homens, a todos os homens, e pela sua própria participação em Igreja acabem por perceber e viver a necessidade da obediência em amor, e parta deles próprios a decisão de não se aproximarem da Comunhão Eucarística, mas vivam a comunhão espiritual, como o alimento divino que o próprio Jesus Cristo lhes dá, porque os ama com amor infinito, como ama todos os homens.

Precisamos então, tantas vezes, de amaciar o nosso coração, de colocar as nossas certezas mundanas de lado, de colocar o amor de Deus no nosso entendimento da Doutrina, das regras e das normas da Igreja, para assim podermos acolher, ajudar e amar estes irmãos que procuram Deus, e se sentem tantas vezes como «ovelhas sem pastor».

Como diz São Paulo na Carta aos Colossenses no capítulo 3 versiculos 12 e 14:
«Como eleitos de Deus, santos e amados, revesti-vos, pois, de sentimentos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de paciência» e ainda «acima de tudo isto, revesti-vos do amor, que é o laço da perfeição.»

Só Deus, só o Espírito Santo nos pode conduzir a encontrar esses caminhos de acolhimento e amor, que esses irmãos tanto procuram e querem encontrar na Igreja.

Só o Espírito Santo nos pode ensinar a sabedoria, sabedoria de Deus, para dizermos as palavras certas, para termos as atitudes certas, que transmitam o amor de Deus, e assim sendo, já não serem palavras nossas, mas palavras inspiradas pela sabedoria divina e assim tocarem os corações daqueles que as ouvem.

Então só na oração pessoal e íntima, na oração em Igreja, na celebração em Igreja, na comunhão eucarística e adoração ao Santíssimo Sacramento, presença viva e real de Jesus Cristo, encontraremos caminho, discernimento, palavras e amor, que o Espírito Santo derramará em nós, para podermos cumprir a missão de acolher e amar essas «ovelhas sem pastor», de tal modo, que se sintam e se vivam como Igreja que são.

Que neste momento de adoração a Jesus Sacramentado, coloquemos nas suas santas mãos todos aqueles que vivendo estas difíceis situações O procuram de coração aberto, para que, abrindo Ele também os nossos corações, possamos ser Igreja que acolhe, que conduz, que ama, Igreja testemunha do amor de Deus derramado em todos os homens.


Joaquim Mexia Alves



Nota:
Por convite do “meu” Bispo de Leiria-Fátima, D. António Marto, orientei no dia 7 de Abril, uma recoleção para sacerdotes, no Santuário de Fátima.
As coisas que Deus faz na minha vida!
Os textos são, obviamente, algo extensos, pelo que os publicarei aqui em diversas partes.
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quarta-feira, 9 de Abril de 2014

OS "RE-CASADOS" SÃO IGREJA (2)

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E um divórcio envolve sempre perdão, perdoar e ser perdoado se se pretende viver a fé cristã em Igreja.

Percebemos assim que, mesmo numa nova relação em que tudo pode correr bem, a marca do divórcio não deixa de existir e como tal pode transportar sofrimento, revolta e falta de compreensão, sobretudo para a vivência de uma fé alicerçada no Deus que é amor, numa Igreja que deve transmitir continuamente esse amor de Deus.

Obviamente, reflectimos aqui sobre aqueles que divorciados são re-casados, querendo viver a fé cristã em Igreja e como tal são confrontados com a Doutrina da Igreja que os impede, sobretudo de aceder à Confissão e Comunhão Eucarística.

«Deus é amor», escreve São João na sua Primeira Carta no capítulo 4, versículo 8
Foi Ele quem nos amou primeiro, pois sem o seu amor não poderia o homem amar, como nos diz S. João na mesma carta 4, 19 «Nós amamos, porque Ele nos amou primeiro.»

O amor de Deus é o amor de inteira doação, de entrega total, pelo seu Filho Jesus Cristo, Nosso Senhor.
Sem este amor doação, não há relação verdadeira, pois quem ama dá-se.
O amor perfeito é então o amor de Deus, o amor de Cristo, que se dá inteiramente por todos e por cada um de nós.
O nosso amor é imperfeito, porque é humanamente fraco, mas também por causa da nossa relação com Deus, é um amor que procura a doação, a entrega, porque vindo de Deus e por Ele abençoado.

Assim, para o homem procurar esse amor que é todo doação, amor imprescindível ao Matrimónio, é necessário que também o primeiro e central mandamento do Matrimónio, seja amar a Deus sobre todas as coisas, amar a Deus mais do que à sua mulher, ao seu marido, aos seus filhos, para que no amar primeiro a Deus, o homem receba do amor de Deus a capacidade de se dar no amor.

Por isso Deus tem que ser a presença constante no Matrimónio.
Tem que ser Aquele que não só abençoa o Matrimónio, mas que o faz acontecer, servindo-se do homem e da mulher para serem sinais visíveis da sua presença no sacramento, melhor dizendo, serem sacramento, serem sinal da presença de Deus na família e na sociedade.

Então e numa nova relação daqueles que mesmo divorciados procuram Deus, daqueles que procuram viver a fé no seu dia-a-dia em Igreja, também Deus está presente?
Claro que Deus não pode deixar de estar presente, porque Deus ama todos os homens, independentemente da condição de cada um, em todo e qualquer momento.
Mas mais ainda, (se assim podemos dizer), numa relação, (mesmo que canonicamente irregular), em que homem e mulher procuram viver o amor de Deus em família.

E essa nova relação em que homem e mulher procuram Deus, e por isso Deus está presente, não significa, obviamente, também, que o amor está presente?
E se está presente o amor, que leva a procurar Deus, então não é esse amor, o amor vindo de Deus?

E se o amor que os une nesta nova relação é também o amor vindo de Deus, então é o amor doação, é o amor que leva à entrega de si mesmo, de cada um ao outro, mas que não fica confinado a eles, pois sendo amor de Deus em cada um, abre-se também aos outros, («aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê» 1 Jo 4, 20), abre-se à comunidade, ou seja, é o amor que ama e une a Igreja, mãe e mestra.

Mas se homem e mulher, nessa nova relação, amam com esse amor de Deus, esse amor de Cristo, amam com doação, com entrega, então amam também com obediência, porque a obediência faz parte do amor a Deus, a obediência em amor, de que Cristo é testemunha perfeita, e assim amam também a Igreja e, por isso mesmo, devem amar tudo o que a Igreja lhes diz, porque é nessa obediência que fazem a vontade de Deus, como Cristo fez a vontade do Pai.

«Tende entre vós os mesmos sentimentos, que estão em Cristo Jesus: Ele, que é de condição divina, não considerou como uma usurpação ser igual a Deus; no entanto, esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo. Tornando-se semelhante aos homens e sendo, ao manifestar-se, identificado como homem, rebaixou-se a si mesmo, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz.» Fl 2, 5-8

Assim, se nós Igreja, (citando mais uma vez o Papa Emérito Bento XVI na Sacramentum Caritatis, «Os pastores, por amor da verdade, são obrigados a discernir bem as diferentes situações, para ajudar espiritualmente e de modo adequado os fiéis implicados.»), soubermos colocar todo o nosso empenho, toda a nossa entrega ao Espírito Santo, saberemos ajudar aqueles que nessas novas relações como casais, sofrem pelo afastamento da Comunhão Eucarística.

E eles saberão, mais do que saberem, sentirão que esse amor que vivem, vindo de Deus, é amor de doação e de entrega, sem dúvida, mas é também amor que leva à obediência, porque só assim ele é verdadeiro amor de Deus.

Então o acto de não comungarem eucaristicamente, é afinal um acto de imenso amor, amor a Deus, amor ao outro, amor aos filhos, amor aos outros, amor à Igreja, testemunha de amor verdadeiro, e afinal e ainda, um sacrifício agradável a Deus, que não deixará de derramar as suas bênçãos e as suas graças sobre essa família.

Compete-nos então a nós, Igreja, saber acolher, saber compreender, saber aceitar sem condenar, saber ajudar aqueles que vivem esse «problema pastoral espinhoso e complexo, uma verdadeira praga do ambiente social contemporâneo que vai progressivamente corroendo os próprios ambientes católicos» como afirma, mais uma vez, Bento XVI na Sacramentum Caritatis.


(continua)
Joaquim Mexia Alves


Nota:
Por convite do “meu” Bispo de Leiria-Fátima, D. António Marto, orientei no dia 7 de Abril, uma recoleção para sacerdotes, no Santuário de Fátima.
As coisas que Deus faz na minha vida!
Os textos são, obviamente, algo extensos, pelo que os publicarei aqui em diversas partes.
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terça-feira, 8 de Abril de 2014

OS "RE-CASADOS" SÃO IGREJA (1)

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Esperamos, com alguma ansiedade, o Sínodo sobre a Família que o Papa Francisco convocou para este ano e o próximo.
Há uma enorme expectativa sobre tudo o que o Sínodo poderá dizer sobre a Doutrina da Igreja acerca da Família, e muito particularmente sobre o Sacramento do Matrimónio e as situações chamadas “canonicamente irregulares”.

Desde João Paulo II, mais especificamente com a Exortação Apostólica Familiaris Consortio, que essas situações entraram na ordem do dia-a-dia da Igreja, não só reafirmando a Doutrina da Igreja sobre o Sacramento do Matrimónio, mas chamando a atenção para o cuidado, a dedicação, que a Igreja, pelos seus sacerdotes e leigos, devem prestar aos leigos que vivem essas situações.
Bento XVI é ainda mais veemente nessa chamada de atenção, particularmente na Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, afirmando:

«29. Se a Eucaristia exprime a irreversibilidade do amor de Deus em Cristo pela sua Igreja, compreende-se por que motivo a mesma implique, relativamente ao sacramento do Matrimónio, aquela indissolubilidade a que todo o amor verdadeiro não pode deixar de anelar. Por isso, é mais que justificada a atenção pastoral que o Sínodo reservou às dolorosas situações em que se encontram não poucos fiéis que, depois de ter celebrado o sacramento do Matrimónio, se divorciaram e contraíram novas núpcias. Trata-se dum problema pastoral espinhoso e complexo, uma verdadeira praga do ambiente social contemporâneo que vai progressivamente corroendo os próprios ambientes católicos. Os pastores, por amor da verdade, são obrigados a discernir bem as diferentes situações, para ajudar espiritualmente e de modo adequado os fiéis implicados. O Sínodo dos Bispos confirmou a prática da Igreja, fundada na Sagrada Escritura (Mc 10, 2-12), de não admitir aos sacramentos os divorciados re-casados, porque o seu estado e condição de vida contradizem objectivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja, que é significada e realizada na Eucaristia. Todavia os divorciados re-casados, não obstante a sua situação, continuam a pertencer à Igreja, que os acompanha com especial solicitude na esperança de que cultivem, quanto possível, um estilo cristão de vida, através da participação na Santa Missa ainda que sem receber a comunhão, da escuta da palavra de Deus, da adoração eucarística, da oração, da cooperação na vida comunitária, do diálogo franco com um sacerdote ou um mestre de vida espiritual, da dedicação ao serviço da caridade, das obras de penitência, do empenho na educação dos filhos.»

Estas pessoas sofrem, sofrem realmente, mais ainda quando nos debruçamos sobre aqueles que querendo viver a Fé em Igreja, se sentem de algum modo colocados de lado, ou, no mínimo, (talvez porque não devidamente esclarecidos), afastados de viver essa fé na sua totalidade.

É difícil a essas pessoas muitas vezes entenderem essa situação, essa posição doutrinal da Igreja.
E é difícil porque são pessoas que vivem normalmente já uma situação de dor interior, uma situação até de indignação porque alguns foram vitimas do divórcio, e como tal, a revolta dentro delas “impede-as” de alguma forma, de terem a paz necessária e suficiente para compreender o que a Igreja lhes diz sobre a sua situação.

O divórcio é algo que marca profundamente aqueles que o sofrem.
É em primeiro lugar uma falha num projecto de vida a dois, (a maior parte das vezes acompanhados de um ou mais filhos), e os projectos que falham na vida de cada um, sobretudo projectos que envolvem sentimento, emoção, a própria vida, marcam indelevelmente essas vidas.
E ao marcar essas vidas, o divórcio torna-se presença constante no dia-a-dia daqueles que o vivem, mesmo até, naqueles que reconstituem uma família, ou seja, aqueles a quem se convencionou chamar re-casados.


Numa nova relação, (sobretudo se houver filhos da relação anterior), o divórcio anterior está sempre presente, porque há a necessidade de manter a relação anterior numa certa concórdia, especialmente por causa dos filhos existentes.
Ora essa necessidade de concórdia, essa “presença” da relação anterior, é real e muito assídua, e de alguma forma faz aqueles que a vivem, reviverem algo que não lhes é de modo algum agradável, mas antes pelo contrário, magoa e fere, porque constantemente lembra o que falhou.
Lembremo-nos ainda, que a parte da nova relação que não teve um divórcio, tem sempre, (somos humanos e a vida entre um homem e uma mulher tem sempre esta parte), sentimentos episódicos em que tende a comparar a vida da relação de agora, com a relação que o outro viveu, com tudo o que isso arrasta de possíveis incómodos, inseguranças, e até ciúmes, o que também se torna real para a parte que viveu o divórcio.

Todas estas situações envolvem uma enorme carga emocional, sentimental, em que os encontros e desencontros estão muito presentes, e em que há uma necessidade absoluta do amor, verdadeiramente amor vindo de Deus, pois só nesse amor de Deus o homem consegue alcançar a capacidade de perdoar, pedir perdão e ser perdoado. 


(continua)
Joaquim Mexia Alves

Nota:
Por convite do “meu” Bispo de Leiria-Fátima, D. António Marto, orientei ontem, 7 de Abril, uma recoleção a sacerdotes, no Santuário de Fátima.
As coisas que Deus faz na minha vida!
Os textos são, obviamente, algo extensos, pelo que os publicarei aqui em diversas partes.
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quarta-feira, 2 de Abril de 2014

DÁ-ME DE BEBER, SENHOR

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Dá-me de beber,
peço-te eu,
Senhor,
dessa água viva que Tu tens,
água que nos dá vida,
água que nos faz viver.


Dá-me de beber,
peço-te eu,
Senhor,
que tenho sede de Ti,
tenho sede do teu amor.

Dá-me de beber,
peço-te eu,
Senhor,
quero a água que me dás,
a água da alegria,
que nos leva à tua paz

Dá-me de beber,
peço-te eu,
Senhor,
que não quero mais ter sede,
que não quero ter mais fome,
mas apenas ser só teu,
sempre teu,
no teu amor.


Marinha Grande, 02 de Abril de 2014
Joaquim Mexia Alves
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terça-feira, 25 de Março de 2014

O SIM MAIS DIFÍCIL DA HUMANIDADE

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Será mais fácil dizer sim ou dizer não?

À primeira vista pareceria que seria bem mais fácil dizer sim.
Dizendo sim, faz-se a vontade do outro e portanto termina por aí tudo o que uma situação exige, ou seja, o outro fica contente, agradado, e nada mais exige de nós.
Ao dizer não, são precisas explicações, são precisos argumentos, para fundamentar o não a algo que nos é pedido, para além de que, apesar de tudo, ainda podermos incorrer no desagrado do outro e numa consequente frieza ou fim de uma relação.
Visto assim, poderíamos então inferir que é mais fácil dizer sim do que dizer não.

Pois, mas não foi assim com a Virgem Maria!

O sim que Ela disse foi bem mais difícil, foi bem mais complicado, do que o não que Ela poderia ter dito na sua liberdade.
Se dissesse não tudo terminaria ali para a sua pessoa, e como o outro neste caso era Deus, a sua relação com Ele continuaria exactamente a mesma, visto que Deus respeita a liberdade de cada um dos seus filhos, porque os ama com amor eterno.

Mas o sim de Maria foi bem mais difícil por muitas e variadas razões.

Primeiro, porque para dizer sim naquele momento, (a algo tão inverosímil), era preciso acreditar com fé firme que aquilo que o anjo Lhe dizia era possível, ou seja, que Deus queria e podia fazer aquilo para que Lhe pedia o sim.

Segundo, porque era preciso acreditar na sua humildade, que Ela era digna daquilo que Deus Lhe pedia, abandonando-se e aceitando a vontade de Deus, apesar de se reconhecer uma simples serva.

Terceiro, porque ficar grávida fora do casamento, quando se sabia que Ela «não conhecia homem» (Lc 1,34), era naquele tempo algo tão grave que podia levar à delapidação, à própria morte.

Quarto, porque perante esse estado de gravidez, aquele a quem Ela tinha sido entregue em casamento, José, podia repudiá-la com tudo o que isso significava naquela sociedade.

Quinto, porque o normal seria que a própria família a repudiasse.

Sexto, porque se fosse repudiada e sobrevivesse teria que, sozinha, alimentar, educar, tomar conta daquele Filho, que nunca seria aceite na sociedade.

Sétimo, porque se tentasse explicar a alguém o porquê do seu sim, apenas se ririam na sua cara e mais do que isso, condená-la-iam por blasfémia ao dizer que estava grávida do Filho de Deus.

E quantas razões mais poderíamos acrescentar, que à luz das nossas humanas fraquezas, “aconselhavam” um não à “proposta” feita.

Portanto, as razões para um não eram incomparavelmente “melhores” do que as razões que poderiam sustentar o sim naquele momento, e não nos esqueçamos que «Ela se perturbou», (Lc 1,29), pelo que não estava “fora de si”, mas sim perfeitamente consciente do momento e do que Lhe era pedido.

Sim, o Sim de Maria, foi o Sim mais difícil da humanidade e, ao mesmo tempo, o Sim mais importante da humanidade e para a humanidade.

Obrigado Mãe, porque «acreditaste, que se ia cumprir tudo o que te tinha sido dito da parte do Senhor.» (Lc 1, 45)

Obrigado Senhor por teres escolhido Maria como Mãe e obrigado Senhor por no-la teres dado como Mãe também.


Marinha Grande, 25 de Março de 2014
Joaquim Mexia Alves
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quinta-feira, 20 de Março de 2014

DIÁLOGO COM O DIABO (9)

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Diz ele: Já não conversamos há muito tempo!

Digo eu: Dispenso bem as conversas contigo.

Diz ele: Pois, mas olha que te deixas muitas vezes levar pelo que te digo.

Diz eu: Lá nisso tens razão e nem fazes ideia como isso me dói quando de tal me apercebo.

Diz ele. Deixa-te disso! Há coisas que até te sabem bem!

Digo eu: Talvez no momento. Mas como não se pode servir a dois senhores ao mesmo tempo, acabo sempre por ficar triste e magoado por não ter servido o meu único Senhor, que não és tu.

Diz ele: Ficas dividido.

Digo eu: Não, não fico dividido! Nunca poderia ficar dividido porque de ti nada quero, mas apenas distância.

Diz ele: Olha que de vez em quando…?

Digo eu: Nem penses! Nunca me dividirás, porque se eu permaneço com Ele e n’Ele, tu nada podes.

Diz ele: Mas por vezes deixas que te afaste d’Ele!

Digo eu: Pobres vitórias as tuas! Passageiras e cada vez menos. As tuas vitórias são efémeras. A vitória d’Ele é para sempre! Agora vai-te e não me incomodes mais.



Monte Real, 20 de Março de 2014
Joaquim Mexia Alves
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quinta-feira, 13 de Março de 2014

TUDO ESTÁ CONSUMADO!

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Quadro de Lazaro Lozano,
na igreja matriz de Monte Real











Naquele dia saiu de casa de cabeça baixa. Parecia que o mundo estava todo contra ele!
Parecia que tudo se tinha assanhado para o desprezar, para não permitir que uma simples boa notícia, uma simples alegria, tocasse a sua vida!
O emprego já era! Por causa disso mesmo a discussão em casa tinha sido violenta, e assim, até aquele refúgio que era sempre para si a sua mulher, os seus filhos, a sua simples casa, parecia-lhe agora também um lugar de martírio, de caras fechadas, de falta de ternura e entendimento!

Olhou para o passeio, para a rua, para as pessoas que passavam por ele, e pensou: Mas para onde raio é que eu vou? Não tenho sítio para onde ir!
Deixou-se andar por ali, perdido entre os homens, vagueando sem motivo, sem sentido, sem rumo. Uma tenaz de fogo apertava o seu peito, um peso enorme abatia-se nas suas costas, uma tristeza profunda tomava conta de si e o desânimo transformava-se rapidamente em desespero.

“O que ando eu aqui a fazer? Que sentido tem esta minha vida?”
As perguntas martelavam-lhe a consciência entorpecida por uma terrível frustração. E quanto mais se questionava, mais lhe voltava aquela ideia, que ao princípio lhe gelara o coração, mas que parecia agora ir fazendo sentido. Se não estava cá a fazer nada, mais valia morrer!

Os barulhos da rua, os carros a passar, as pessoas a falarem, o ruído da cidade, incomodavam-no! Precisava sair da rua para pensar um pouco.
Deu por si a passar em frente de uma igreja. Ele não era homem de Igreja, aliás, nem sequer era homem de Deus, embora tivesse sido educado catolicamente e percorrido todos os passos da catequese.

Lembrou-se, no entanto, que àquela hora ninguém estaria na igreja e por isso seria um bom sítio para se sentar e pensar um pouco, sem nada nem ninguém para o incomodar.
Entrou e nem sequer se deteve a olhar para o interior da igreja, mas apenas se sentou no primeiro banco e, debruçando-se para a frente, ali ficou a pensar.
Quanto mais analisava a sua vida e pensava no presente e no futuro, mais se tornava claro que a ideia de pôr fim à vida era o mais acertado e fazia todo o sentido.
Deixou-se ficar mais um pouco, enquanto a ideia ia ganhando força em si, de tal modo que deixou de ser ideia para se tornar decisão a cumprir.

Tomada a decisão, veio então ao seu pensamento uma frase: «Tudo está consumado!»
Um espanto atravessou-o! Já tinha ouvido aquela frase num qualquer sítio, num qualquer momento importante!
Levantou os olhos e o seu olhar fixou-se no enorme crucifixo que dominava toda a parte detrás do altar-mor da igreja. Lembrava-se agora onde tinha ouvido aquela frase!
Do pouco que ainda recordava da catequese, essa tinha sido a última frase de Jesus Cristo antes de morrer na Cruz.

Que coincidência! No momento em que ele decidia a sua morte, a frase que lhe vinha ao pensamento era a frase de Jesus Cristo ao morrer!
Ficou sem reacção e a cabeça voltou a recolher-se entre as suas mãos, sobre os joelhos.

Foi então que ouviu distintamente, (juraria em qualquer lugar que assim tinha ouvido), uma voz que lhe dizia: «Meu filho, morrer antes do tempo de cada um, só tem sentido se for para morrer pelos amigos!»

Levantou a cabeça, olhou para todos os lados, mas não viu ninguém.
Em voz baixa, com um sentimento de que estava a cometer uma loucura, perguntou: O que é isso de morrer pelos amigos?

Desta vez pareceu-lhe ouvir a voz no seu coração, o que ainda lhe causou mais admiração:
«Morrer pelos amigos é muitas coisas, mas no teu caso é deixares de pensar em ti próprio, nas tuas “desgraças”, nos teus desânimos, e perceberes que aqueles que estão à tua volta te amam e que não é por um momento mau, por uma discussão, que não deixam de te querer e de sentir profundamente a tua falta.»

Deu por si a responder à voz: Não me parece! Aliás se eu desaparecer tudo se torna mais fácil!

Mas a voz insistia: «Pensa um pouco. Com a tua morte constróis alguma coisa? Com a tua morte o amor vence a amargura e a tristeza? Com a tua morte fica alguém mais feliz? Sabes bem que não.»

Então ele respondeu: Sei quem Tu és! Esta voz só pode ser a voz de Jesus Cristo que ouço no meu coração. Por isso Te pergunto se não morreste Tu também? Não Te deste à morte também?

A voz enterneceu-se ainda mais: «Mas meu filho, não fui Eu que causei a minha própria morte! Mataram-me! Eu dei a vida pelos amigos, dos quais tu fazes parte. Repara quantos se unem à volta da minha morte e da minha ressurreição? Não trouxe Eu um bem maior quando morri e ressuscitei?»

Sim, é certo. Isso é verdade, Mas eu não tenho ninguém!, respondeu.

«Tens-me a Mim, que dei a vida por ti. Não dês a tua vida à morte! Se queres dar a vida, dá-a àqueles que te amam e precisam de ti e que em casa te esperam para te abraçar.»

Duas grossas lágrimas caíram-lhe pela face.
Levantou-se decidido a lutar pela vida e dirigiu-se àsaída da Igreja.
Mas antes de sair, voltou-se, fixou a Cruz e disse a meia voz: 
Nunca pensei falar assim contigo, nem sentir o que sinto. Fico admirado comigo mesmo, e por isso Te digo que se estás comigo, então já não tenho medo e a vida tem outro sentido. Obrigado, Senhor Jesus!



Marinha Grande, 13 de Março de 2014
Joaquim Mexia Alves


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sábado, 8 de Março de 2014

SOU TEU, SENHOR! OBRIGADO!

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Porque é que de repente sinto esta necessidade de escrever o que me vai no coração, o que me vai na alma?
Não sei, nem sei bem realmente o que me vai no coração e na alma.
Sei que sinto uma “incontrolável” vontade de dar graças quando surge mais uma provação.
E fico a pensar se essa vontade de dar graças é sincera, ou se é apenas uma “fuga” a pedir protecção para a dificuldade que vou atravessar.

Não há dúvida para mim que o caminho que escolheste para me guiar, Senhor, passa por estas provações, por vezes tão duras, sobretudo para o meu modo de ser.
Mas também percebo que será o único meio de derrubar as minhas fraquezas, os meus orgulhos, as minhas vaidades.

E quanto mais Te dou graças, mais se acalma o coração e mais a certeza de que estás connosco, de que estás comigo, se torna real e verdadeira.
E na tranquilidade da confiança que nesses momentos em mim colocas, se vai fazendo verdade, calma e serenamente, o pensamento de Santa Teresa de Ávila: «Nada te perturbe, nada te espante, tudo passa, Deus não muda, … Quem a Deus tem, nada lhe falta: Só Deus basta.»

Tão agarrado às coisas, tão agarrado ao passado, tão agarrado às emoções, como posso eu dar espaço para Tu me preencheres?
Mas Tu conheces-me e sabes do meu profundo desejo de Te viver inteiramente, e por isso mesmo me ajudas a libertar do que afinal ocupa espaço de “amores”, que não dão espaço ao teu amor.

Mas dói, Senhor, de vez em quando dói muito!
Mas é na dor, afinal, que eu encontro o teu amor!

Vem-nos sempre ao pensamento que morreste por todos nós!
Mas quantas vezes penso eu verdadeiramente que ao morrer por nós, morreste por mim?
Se escutar verdadeiramente no coração, não Te ouço eu dizer naquela Cruz, naquela hora: «Perdoa ao Joaquim, Pai, que ele não sabe o que faz.»
Se olhar com os olhos do coração, não vejo eu o teu olhar, para mim voltado, naquela Cruz, naquela hora, a “dizer-me”: «Morro por ti, Joaquim, porque te amo com amor eterno.»

Deste-me tudo, Senhor!
Queres que eu dê tudo, também, nas forças com que me capacitas para dar.

Então, Senhor, toma tudo aquilo que sou, aquilo que tenho, aquilo que amo, a vida que me deste, mas não por mim, Senhor, mas por aqueles que me deste, por aqueles que todos os dias colocas na minha vida, por aqueles que Te procuram, por aqueles que não Te conhecem, por aqueles que não te amam, por aqueles que nada têm, e sobretudo por aqueles que não Te querem ter, porque a esses tudo falta, porque recusam o teu amor.

Ah, Senhor, e não Te esqueças, (como poderias Tu esquecer-te?), se não fores Tu em mim por eu querer permanecer em Ti, então não serei capaz, então não terei forças, então revoltar-me-ei, então perder-me-ei nas minhas fraquezas e não encontrarei caminho nas provações, não encontrarei sentido para as viver, para as aceitar e para Te dar graças, Senhor, sempre e em todos os momentos.

A Ti, Senhor, toda a glória e todo o louvor, agora e para sempre!


Marinha Grande, 7 de Março de 2014
Joaquim Mexia Alves
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quarta-feira, 5 de Março de 2014

SOU PÓ E CINZA!

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Que pó é este que eu sou?
Sou um pó que pode ser varrido e atirado fora, ou sou um pó que “atingido” pelo Espírito Santo, se faz vida, se faz homem?

Sou o pó da terra de que o Criador se serviu para moldar o homem à sua imagem e semelhança, ou sou apenas o pó da terra que levado pelo vento, se desagrega, se divide, e para nada serve?

Sim, sei que sou apenas pó, mas posso ser pó de construção, útil e agregador, ou apenas pó que destrói, que incomoda e confunde.

E afinal o que é ser pó, nas mãos do Criador?
É ser nada, para que Ele seja tudo em nós!
Ele molda-nos, cria-nos, sopra e dá-nos vida, e depois … depois deixa-nos em liberdade, não deixando nunca de nos amar, para que conheçamos o amor e conscientemente possamos caminhar o Caminho que Ele mesmo nos mostra e oferece.

Ah, Senhor, quero ser este pó que se faz vida nas tuas mãos, vida para os outros, vida para Ti.

E como sou fraco, esquecido, ingrato, deixa, Senhor, que hoje receba as cinzas na minha cabeça, para não me esquecer nunca da minha condição de pó, mas o pó que com o teu amor transformas e se faz vida e alegria na comunhão contigo.

Como Abraão, Senhor, também Te quero dizer: «Pois que me atrevi a falar ao meu Senhor, eu que sou apenas cinza e pó, continuarei.»*

Olha para nós, Senhor, pó da terra que moldastes, não ligues aos nossos pecados, à dureza dos nossos corações, e derrama o teu amor que nos liberta do pecado, que amacia os corações, e mesmo que alguns não Te aceitem, Senhor, tem compaixão, deles e de nós, e salva-nos das nossas fraquezas.

Nas cinzas que hoje vou receber, Senhor, que eu me sinta pó, não um pó desprezível, mas um pó amado por Aquele que «renova todas as coisas»**.



*Gn 18,27
**Ap 21,5

Monte Real, 5 de Março de 2014
Joaquim Mexia Alves


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terça-feira, 25 de Fevereiro de 2014

TEMPO DA IGREJA, TEMPO DO ESPÍRITO SANTO

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Ouço e leio tanta gente que quer à viva força interpretar as palavras, o pensamento do Papa Francisco, muito especialmente sobre a Família, em todas as suas situações.

E no meio de todos os que, avidamente, ouvem as suas palavras e vêem os seus gestos, há aqueles que querem, “excitadamente”, que o Papa Francisco diga exactamente aquilo que eles desejam, seja porque razão for, mas a maior parte das vezes para resolver os seus próprios problemas ou para encontrar apoio para as suas opiniões, faladas e/ou escritas, tantas vezes em desacordo com a Doutrina da Igreja.
E já dão como certo que será assim ou assado, conforme aquilo em que querem acreditar, julgando talvez que com tal posição podem pressionar, interferir, em alguma decisão que possa vir a ser tomada nesse campo da Doutrina sobre a Família.

E, como sempre, perfilam-se alguns considerando-se “vencedores”, não se percebe bem de quê, perante outros, que esses mesmos considerarão “vencidos”, num jogo de em que sobressaem palavras como “conservadores” e “progressistas”.

E eu, confesso humildemente, que não entendo isto!

Alguma vez até agora o Papa Francisco disse algo que não fosse completamente de acordo com a Doutrina da Igreja?
Não penso nas interpretações que alguns fazem, naquilo que cada um julga ouvir ou quer entender, mas tão só nas reais palavras do Papa.

Muitas coisas a Igreja nos ensina e uma delas, sem dúvida, é a paciência que é necessário ter para tomar decisões que impliquem mudanças, no conteúdo e/ou na forma.
Sinceramente, alguém espera que o Papa Francisco ou qualquer outro Papa, anuncie qualquer mudança, sem um estudo ponderado, sem ouvir o Magistério da Igreja, sem uma profunda reflexão orada e meditada?

Por mim, serenamente, ouço, vejo, guardo no coração, e espero, confiando que se houver decisões a tomar, se houver mudanças, sejam elas quais forem, estará sempre “por detrás” o Espírito Santo que ilumina e conduz a Igreja.
E é precisamente essa certeza que me acalma, que me tranquiliza, que me edifica e me faz desde já dar graças ao Senhor por tudo o que vier a ser feito, mudando ou mantendo, pois tudo será para a glória de Deus e assim sendo, só poderá ser bom para o homem.

Com o mesmo amor e a mesma alegria, aceitarei de coração aberto tudo o que a Igreja, pela voz do Papa Francisco, me disser, no tempo próprio da Igreja, que é o tempo do Espírito Santo.



Marinha Grande, 25 de Fevereiro de 2014
Joaquim Mexia Alves
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