domingo, 18 de outubro de 2020

OLHAR E OLHARES

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Hoje, na homilia da Missa Dominical, o Pe Rui Ruivo, Vigário da nossa paróquia, falou-nos do olhar e dos olhares, para além, obviamente, de todo o significado das Leituras e Evangelho de hoje e como elas nos chamam a perceber o que é de Deus, e como tal, o que deve ser prioritário para cada cristão.

Realmente, nunca como hoje, o olhar, os olhares, foram tão importantes nas relações entre os homens.

Usamos máscaras, (e aqui não no significado metafórico, mas real), e como tal, do nosso rosto, das nossas expressões, apenas se vê o nosso olhar, os nossos olhares.

«Pedro respondeu: «Homem, não sei o que dizes.» E, no mesmo instante, estando ele ainda a falar, cantou um galo. Voltando-se, o Senhor fixou os olhos em Pedro; e Pedro recordou-se da palavra do Senhor, quando lhe disse: «Hoje, antes de o galo cantar, irás negar-me três vezes.» E, vindo para fora, chorou amargamente.» Lc 22, 60-62

O olhar de Jesus fez Pedro perceber o seu pecado, a sua negação e levou-o ao arrependimento, ao caminho que era vontade de Deus para ele.

Percebemos então que o olhar, os olhares, são importantes para aqueles com quem nos cruzamos na vida, no dia a dia.

E são tantas as expressões que o demonstram: “os olhos são o espelho da alma ou o olhar é o espelho da alma”, “olha-me nos olhos e diz a verdade”, “tens um olhar triste”, “tens um olhar calmo”, “a sinceridade do teu olhar”, etc., etc.

Então, por maioria de razão, neste tempo de uso de máscaras o nosso olhar, os nossos olhares falam por nós.

Não tenhamos dúvidas que se quisermos, o nosso olhar, os nossos olhares, “contam” aos outros as nossas tristezas e alegrias, a nossa sinceridade e a nossa mentira, o nosso ser e nosso parecer, o nosso acreditar e o nosso rejeitar.

Mais do que nunca o nosso olhar nos olhos de cada um que com que connosco se cruzam, é o testemunho vivo daquilo que somos.

É que é muito difícil olhar com bondade os outros, ao mesmo tempo que, por detrás da máscara, lhe fazemos uma careta de desprezo.

Até se costuma dizer que a tua boca diz uma coisa, mas os teus olhos dizem outra diferente, ou seja, dizem a verdade.

Hoje, nessa mesma Missa Dominical, quando distribuía Jesus Cristo na Hóstia consagrada, (o que normalmente faço com um sorriso franco), pretendia que os meus olhos fizessem passar esse mesmo sorriso, mesmo que a minha boca estivesse tapada pela máscara que obrigatoriamente tinha de usar.

Não sei se consegui, mas acredito que o Espírito Santo, a quem nada é impossível, transmitiu essa mensagem de alegria, de paz e de amor, que é e leva consigo a Comunhão Eucarística.

Daí ficar a reflectir como é importante neste tempo o nosso olhar, os nossos olhares, para que os outros percebam que vivendo em Cristo, o “medo da máscara”, é superado pelo amor de Deus, que nos traz paz, serenidade e certeza de salvação, se a Ele nos entregamos.

Peçamos então a Deus que o nosso olhar, os nossos olhares, reflictam a presença de Deus em nós, o Seu amor em nós, para os outros, como testemunho vivo da nossa fé e do nosso viver com Cristo, por Cristo e em Cristo, no caminho da salvação, que é para todos, em Igreja.

 

Marinha Grande, 18 de Outubro de 2020

Joaquim Mexia Alves 

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

DIÁLOGOS COM O DIABO (14)

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Diz ele: Essas tuas críticas aos outros são muito importantes para mudar as coisas e até para os mudar a eles.

Digo eu: Ainda bem que falas nisso, porque se me elogias é porque essas críticas que faço da “boca para fora” devem estar erradas, com certeza, na minha forma de proceder.

Diz ele: Não, não. São importantes para fazer mudança, tais como aquelas que pensas na tua cabeça sobre os outros.

Digo eu: Agora não tenho dúvidas! Essas críticas são más, da maneira que as faço, principalmente as que faço na minha cabeça. E nada mudam, nem transformam, nem constroem! Só podem vir de ti!

Diz ele: Eu só quero ajudar, para que percebas onde os outros estão errados e assim os poderes ajudar.

Digo eu: Podes enganar-me em muitas coisas, mas nesta já estou a perceber o que faço quando critico publicamente os outros sem discernimento e sem razão. É apenas má língua! Antes de falar tenho que pedir conselho a quem me possa ajudar a ver mais claro.

Diz ele: Não, não. Não precisas de conselhos. Tu já sabes tantas coisas. Por isso és capaz de aferir o que podes criticar e como criticar os outros.

Digo eu: Com elogios desses já te entendo bem! Assim não me enganas! Sozinho não sou nada. Aliás sozinho não te consigo combater, por isso vai-te que desta vez não me enganas e até me ajudaste a perceber que tantas críticas que faço são um péssimo testemunho para os outros.

Diz ele: Tu é que sabes. Mas eu estou aqui se precisares de mim.

Digo eu: Não sei não! Sozinho nada sei, mas Deus ajuda-me a discernir cada momento se a Ele me entregar. Ah, e eu sei bem que estás aí e que eu tenho de estar atento às tuas investidas. Vai-te que eu sou de Cristo e só a Ele pertenço.

 

 

Marinha Grande, 15 de Outubro de 2020

Joaquim Mexia Alves

terça-feira, 13 de outubro de 2020

DIÁLOGOS COM O SENHOR DEUS (19)

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Noto em ti alguma tristeza, meu filho. O que se passa?

 Ó Senhor, então não sabes o que se passa?

 Eu sei, meu filho, mas gostava que me dissesses.

 Sabes, Senhor, é tão difícil às vezes lidar com certas situações que envolvem outros e querer manter o sorriso, a boa vontade, a concórdia.

 Eu sei, meu filho, lembra-te do que passei nas mãos daqueles que Me ofendiam e batiam e no entanto guardei no coração tudo isso e transformei-o em perdão.

 Pois é, Senhor, mas Tu tinhas a certeza de que nada tinhas feito para que tal acontecesse e eu tenho sempre a sensação que nalgum tempo concorri para aquilo que se passa comigo nestas situações.

Mas, meu filho, tu não és perfeito, sabes bem. E os outros também não o são. Aos teus olhos parece-te injustiça, pior, sentes como injustiça, mas para os outros talvez não seja esse o seu sentimento, porque não conseguem perceber as razões que te moveram.

Mas dói, Senhor, apetece desistir, não me preocupar mais com essas situações e viver a vida que me deste em paz, contigo.

E julgas, meu filho, que poderás viver em paz comigo se não estiveres em paz com os outros?

Pois, Senhor, por isso Te digo que é tão difícil!

Olha, meu filho, faz primeiro as pazes contigo, depois tenta colocar-te na pele dos outros, a seguir perdoa as más interpretações dos outros, (afere também se foste claro e transparente), e depois … depois enquanto tentas resolver tudo, coloca nas minhas mãos, reza, confia e espera, sabendo que Eu estou contigo e com os outros também.Hoje é dia da Minha Mãe em Fátima, por isso coloca no seu regaço todas as tuas intenções e situações e não te esqueças que Eu disse: «Mulher, eis o teu filho!» Jo 19, 26

 Obrigado, Senhor, abriste um sorriso no meu coração e na minha boca!

 

 Monte Real, 13 de Outubro de 2020

Joaquim Mexia Alves

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO

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Nas tuas mãos desfias o Rosário

e em cada conta

colocas o operário,

o patrão,

o empregado,

o carpinteiro,

a dona de casa,

todos enfim,

até o desempregado.

 

Nos teus braços o Menino,

olha para todos e sorri,

para o mais velho,

para o mais pequenino.

Aquele a quem todos se deu

encosta-se ainda mais a Ti,

no regaço da Sua Mãe,

Mãe que Ele próprio escolheu.

 

As contas do teu Rosário,

que desfias sem cessar,

são gotas do teu amor,

são pérolas da tua ternura,

que consegues derramar,

em cada um de nós,

que se aproxima de Ti,

para conhecer melhor,

o teu Filho muito amado,

Jesus Cristo,

Nosso Senhor.

 

 

Marinha Grande, 7 de Outubro de 2010

Joaquim Mexia Alves

domingo, 4 de outubro de 2020

PASSEIO PELA MEMÓRIA

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E de repente um passeio pela memória!

Tenho 71 anos e não sei se na sociedade em que vivo sou um velho, um idoso, ou alguém já descartável, como quem já não tem nada para dar.

Não me sinto assim, antes pelo contrário, mas esta sociedade quase me obriga a sentir assim.

 

Nunca se falou tanto em liberdade como agora e nunca me pareceu haver tanta falta de liberdade como agora!

A liberdade de pensamento é coertada pelo “politicamente correcto”, a liberdade do que trabalha é-lhe negada pela pressão do trabalho, a liberdade do ser é abstraída pela “necessidade” do parecer.

 

Ah, no meu tempo!!!

Não, porque o tempo é o tempo, e já não volta, por isso é preciso aproveitar o tempo.

 

Tive uma infância feliz, cheia de amor, de pais fantásticos e de nove irmãos, todos diferentes, mas todos iguais no amor.

E deles foram nascendo sobrinhas e sobrinhos e deles, sobrinhas e sobrinhos netos e qualquer dia sobrinhos trinetos, que francamente já não sei se já tenho.

Quatro filhos, quatro netos, para já, e uma vida cheia.

 

Erros, asneiras, comportamentos indevidos, provocando a vida, provocando Deus e no fim, (deste período, claro), um Deus que me diz estou aqui e sempre aqui estive.

Uma guerra, (que me marcou sem dúvida), e um regressar que ainda talvez não se tenha feito completo, pois ainda percorro muitas vezes, pela noite, as picadas da Guiné.

Claro que a família que me rodeava e rodeia afastam de mim os maiores fantasmas, mas ficam aqueles em que me sinto incapaz ou inútil de ajudar, que tendo sido meus camaradas de armas continuam a sofrer na pele quase todos os dias o abandono a que foram e são votados.

 

Não vás ao hospital, porque lá se estão borrifando para ti.

Já não idade para ser curado, tens apenas idade para morrer!

Drástico, não é, mas tão real!

 

Se julgam que estou deprimido, estão muito enganados, porque a minha esperança está em Deus, e Deus não abandona ninguém!

Aliás, para o coração de Deus, eu sou uma criança, sem idade, sem passado e sem futuro, porque tudo isso a Ele pertence, porque lho entrego nas Suas mãos.

E Ele perdoa o que é para perdoar, e ama incondicionalmente o meu ser e o meu fraco amor.

 

Esquerda, direita, um, dois, parece que estamos na tropa, mas o que verdadeiramente interessa é querer o bem dos outros e hoje em dia a política parece querer apenas o “bem” dos que a utilizam para os seus fins.

 

De derrotismo em mim não há nada, mas sim determinação de não me calar, sobretudo para testemunhar que só em Deus encontrei e todos encontraremos a verdadeira liberdade, o verdadeiro amor.

 

E apetece-me terminar como José Régio no seu “Cântico Negro”: «E o mais que faço não vale nada.»

 

Porque se testemunhar Jesus em mim, como Ele próprio afirmou, também Ele testemunhará junto do Pai, com o Espírito Santo, que eu Lhe pertenço, pela inteira liberdade que Deus me deu.

 

 

Marinha Grande, 4 de Outubro de 2020

Joaquim Mexia Alves

domingo, 27 de setembro de 2020

“MÁSCARAS”!

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Missa dominical das onze horas na igreja matriz da Marinha Grande.

Como Ministro Extraordinário da Comunhão estou sentado junto ao Sacrário, por detrás do celebrante, Pe Rui Ruivo, e vejo, portanto, todos os fiéis sentados nos bancos, cumprindo as normas de segurança à distância permitida e todos de máscara na cara, tal como eu.

Esta imagem impressiona-me, pois com 71 anos, nunca tinha assistido a tal coisa, ou seja, uma igreja cheia de gente com máscaras na cara.

Para além do facto da pandemia, razão de ser de tal imagem, reflicto sobre o que estou a ver, mais numa reflexão espiritual do que no estranho que tudo aquilo me parece.

E o pensamento que me vem ao coração e à mente, é que é tempo, cada vez mais, de deixarmos as “máscaras”!

Este deixar de usar as “máscaras” surge muito claramente como um pensamento espiritual que o Espírito Santo coloca no meu coração e que diz que é sempre tempo, mas mais ainda agora, dos cristãos católicos, deixarem as “máscaras” e afirmarem-se corajosamente como tal, não só na e em Igreja, como muito especialmente na sociedade, que cada vez mais precisa de valores da vida, de valores verdadeiros, de valores de amor a Deus e aos outros.

Não me canso da frase, «vede como eles se amam”, e envergonhadamente penso na máscara que uso por causa da pandemia e nas “máscaras” que uso como cristão católico, que bate no peito, que clama, Senhor, Senhor, mas que não ama ainda Deus e os outros, como Ele nos ama.

Talvez nunca como agora, o mundo precise tanto de cristãos católicos convictos, empenhados, enfim, verdadeiros discípulos e missionários, amando sem medida como Ele nos ama.

E lembro-me daqueles que são perseguidos nos seus países por serem cristãos católicos e que esses sim, talvez devessem usar máscaras para não serem reconhecidos e perseguidos, mas que não têm medo, (ou mesmo que o tenham), retiram as suas “máscaras” e afirmam a sua fé.

Preciso, precisamos, cada vez mais ainda retirar as “máscaras” que ainda tenho, que ainda temos, e amar sem medida a Deus e aos outros, afirmando-nos sempre testemunhas fiéis, “contagiando” os outros com a “pandemia” do amor de Deus.

Só assim poderemos ouvir um dia a tal frase: «Vede com eles se amam»!

 

Marinha Grande, 27 de Setembro de 2020

Joaquim Mexia Alves

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

PERDOAR E PEDIR PERDÃO

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Durante o fim de semana reflectimos e falámos, em Igreja, sobre o perdão e o perdoar a quem nos ofende.

Fiquei a pensar nisso mesmo e percebi que falamos muito sobre perdoar quem nos ofende, (e ainda bem, graças a Deus), mas pouco falamos de pedir perdão a quem nós ofendemos, excepto quando nos referimos ao sacramento da Reconciliação e, claro, nesse caso é para pedir perdão a Deus pelas nossas ofensas.

 

Perguntei-me o que seria mais difícil: Perdoar ou pedir perdão?

 

Assim de repente, para o meu orgulho, pareceu-me que será bem mais difícil pedir perdão do que perdoar.

É que no fundo, e com toda a simplicidade, pedir perdão é reconhecer que errei, que ofendi o outro, enquanto perdoar é, digamos assim, reconhecer, sentir a falta do outro e perdoá-la.

Ora reconhecer os nossos erros, parece-me bem mais difícil do que reconhecer os erros dos outros, por isso também nesta semana ouvimos que «temos de tirar primeiro a trave dos nossos olhos antes de querermos tirar o argueiro dos olhos dos outros».

 

E isso é tão verdade, simplesmente falando, que nós tentamos sempre arranjar desculpas para as nossas faltas, as nossas ofensas, mas raramente procuramos desculpas para as faltas dos outros em relação a nós.

E curiosamente, essas desculpas que tentamos arranjar para as nossas faltas, acabam por implicar sempre o outro, ou seja, o querer transformar o outro no “culpado” da nossa ofensa: Se ele não tivesse feito assim, eu não tinha feito aquilo!!!

Faz lembrar a história do sacerdote que dizia a alguém que se confessava a ele: Bem, agora que já me contou os pecados dos outros, reconheça lá os seus!!!

 

Pedir perdão é um “baixar a cabeça”, não como humilhação, mas como acto de humildade, como um acto de reconhecimento que fomos fracos e ofendemos, (ofender alguém é sempre, para mim, um acto de fraqueza da nossa parte), sem tentar arranjar desculpas para a nossa falta.

 

Mas, curiosamente, perdoar é também um “baixar a cabeça”, um acto de humildade, pois colocamo-nos ao “nível” de quem nos ofendeu, deixando o nosso orgulho de lado.

E perdoar é sempre um acto de fortaleza, sobretudo nos dias de hoje em que se confunde perdoar com fraqueza perante os outros que nos ofenderam.

 

Talvez seja confuso o que escrevo, (até porque não consigo exprimir escrevendo o que sinto), mas isso não me/nos deve impedir de reflectir que muitas vezes não reconhecemos as nossas faltas, desvalorizamo-las e por isso mesmo não pedimos perdão por elas, sobretudo aquelas que nos parecem mais pequenas, “sem importância”.

Ora, penso eu, há-de ser muito difícil perdoar verdadeiramente se não somos capazes de pedir perdão, porque ao longo das nossas vidas somos muitas vezes ofendidos, mas também ofendemos muitas vezes.

 

É preciso, sobretudo, passar das palavras aos actos, ou seja, procurar no nosso íntimo a quem devemos perdoar e procurar quem ofendemos para pedir perdão pelas nossas ofensas.

Só assim, arrisco a escrever, o perdão será completo.

 

E depois pedir perdão a Deus e confiar que Ele nos dará sempre forças, (se quisermos ser sinceros no coração), para perdoar e pedir perdão.

 

 

Festa da Exaltação da Santa Cruz

Marinha Grande, 14 de Setembro de 2020

Joaquim Mexia Alves 

terça-feira, 1 de setembro de 2020

SENSAÇÃO

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Há dias assim em que acordamos com a sensação de que algo não vai correr bem.

São dias em que parece que nem sequer me atrevo a pedir a Jesus para ir ter com Ele sobre as águas, porque tenho já aquela sensação de que me vou afundar.

E depois a sensação perdura, vai tomando conta de nós, e acaba por transformar um dia que seria normal, num dia sem sentido, sem alegria, sem vida verdadeira.

 

Calmamente invoco o Espírito Santo, tento entregar-me a Ele, deixo que Ele me vá aquietando e me fale ao coração, até ouvir o sussurro de Deus: Porque temes homem de pouca fé? Alguma vez te faltei? Vá, acredita e vem ter comigo sobre as águas das tuas inquietações.

 

Fecho os olhos, coloco-me em pé sobre as águas e digo uma velha e rotineira frase mas que agora tem todo o sentido: Seja o que Deus quiser!

 

E vou, primeiro devagar, depois a correr, depois afundo-me, depois a mão d’Ele levanta-me e eu continuo a correr, a andar, semeando a alegria com algumas lágrimas, plantando no meio do bem estar algumas dores, tentando sempre fazer mais o bem do que o mal, e repetindo sempre para mim: Homem de pouca fé!

 

E Ele ri-se e eu rio-me com Ele!

 

De mãos dadas atravessamos campos de flores e desertos de areia, caminhamos sobre o mar calmo e sobre a tempestade alterosa, banhamo-nos na chuva e secamo-nos ao sol, sentimos a brisa suave e suportamos o vento ciclónico, e por fim Ele pergunta-me: Onde está a sensação que sentias hoje de manhã?

 

E eu respondo-lhe com as lágrimas da maior ternura que eu possa ter: Está contigo, Senhor! Ficaste com ela quando Te entreguei o dia que me deste!

 

 

Monte Real, 2 de Setembro de 2020

Joaquim Mexia Alves

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quarta-feira, 12 de agosto de 2020

PANDEMIA

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Entro na igreja, devagar, sem medo, embora o silêncio seja total.

Ponho um joelho em terra e digo cheio de esperança: Bom dia, meu Deus!

 

Dou mais uns passos, subo a coxia lateral, e encontro-me em frente do Sacrário onde pergunto a meia voz: Estás aí, Senhor?

Olho para o lado, vejo a luz acesa e percebo que a minha pergunta foi escusada.

 

Ajoelho-me e benzo-me em nome do Pai que me criou, do Filho que me salvou e do Espírito Santo que me há-de santificar … se eu deixar!!!!

 

Olhamo-nos, sorrimo-nos e pergunto-me interiormente se Lhe poderei dar um beijo apesar da pandemia.

Ele ri-se ao pensar nisso e faz-me rir a mim também!

 

Diz-me então com a sua voz ternurenta: Vem, podes vir beijar-me, que a única pandemia que Eu te posso passar é o amor!

 

Corro para Ele e digo-Lhe cheio de alegria: Ah, Senhor, essa pandemia eu quero!

 

Responde-me Ele abrindo os braços para mim: Esta pandemia só se “cura” contaminando toda a gente!

Deita fora as tuas máscaras, sejam elas quais forem, abre o teu coração, prepara o teu sorriso, deixa que o Espírito Santo te ensine palavras e, depois … depois contamina todos os que encontrares e se quiserem deixar contaminar.

 

Feliz, respondo-Lhe: Sinto-me “doente”, Senhor, da Tua pandemia. Oxalá muitos se deixem contaminar!!!!!

 

 

Marinha Grande, 12 de Agosto de 2020

Joaquim Mexia Alves

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

BRINCAR SOBRE AS ÁGUAS DA FÉ

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Chamas-me de longe e eu salto do barco e fico de pé na água!

Parece que já nada me espanta quando estou contigo!!!

Dou saltos, cambalhotas, corro para Ti, parecendo uma criança que encontrou a plena felicidade!

Nada, nem um bocadinho de mim se afunda naquelas águas calmas em que ao longe, de pé, me esperas de braços abertos.

 

Surge uma pequena onda, quase nada, apenas uma “ruga” na água calma, mas eu hesito e começo a sentir os pés a afundarem-se na água.

Faço um esforço, olho ao longe e vejo-Te perto e redobra a confiança e continuo a minha caminhada sobre a água, alegre e feliz à procura dos Teus braços.

 

Levanta-se o vento, as ondas tomam tamanho e eu já não consigo vencer o medo!

Começo a afundar-me!

 

O meu coração grita-me bem alto: Confia, acredita, vais ver que consegues andar sobre as ondas. Ele espera-te!

 

Mas a cabeça deixa-se levar pelos pensamentos da minha vontade e diz-me com voz forte: Não vês que Ele está longe? Como queres tu chegar perto d’Ele sobre a água? Se Ele quiser, Ele que venha ter contigo!

 

Afundo-me!

A água já me dá pelo peito!

Ainda rezo, mas sem convicção, quase por rotina, e sinto já a água no meu pescoço, pronta para me engolir num todo.

 

Num derradeiro esforço, olho-Te nos olhos que sorriem para mim, estendo a minha mão e grito: Senhor, salva-me!

 

Estendes a Tua mão, agarras a minha, puxas-me para Ti e junto comigo, como crianças, corremos, damos saltos e cambalhotas sobre as águas, sobre as ondas e Tu abraças-me e dizes-me ao ouvido, repassado de amor: Homem de pouca fé!

 

E eu envergonhado, mas feliz respondo: É verdade, Senhor, Tu nunca nos faltas mesmo nas ondas mais alterosas. Obrigado, Senhor!

 

 

Marinha Grande, 3 de Agosto de 2020

Joaquim Mexia Alves


domingo, 2 de agosto de 2020

«À IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS»

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«Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem, à nossa semelhança”. Deus criou o homem à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher» (Gn 1, 26-27).

 

Fomos criados à imagem e semelhança de Deus, mas, (correndo o risco de cometer alguma heresia), reflicto que esta não é uma verdade “final”, ou seja, que o homem para ser à imagem e semelhança de Deus tem de continuar um caminho que cada vez mais o aproxime dessa imagem e dessa semelhança.

 

Quando nascemos somos, mais ou menos, parecidos com o pai ou com a mãe, mas isso não significa que iremos ser suas imagens ou suas semelhanças, não só fisicamente, como, sobretudo, em feitio, em modo de vida, em valores, etc.

Sim somos dotados da inteligência e liberdade que definem “grosso modo” essa nossa imagem e semelhança com Deus, mas essa imagem e semelhança seriam incompletas se não quiséssemos imitar, ou melhor, perseguir a “perfeição” de Deus ao longo das nossas vidas, para assim sermos verdadeiramente Sua imagem e semelhança.

 

«Portanto, sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste.» Mt 5, 48

 

Nós não podemos “melhorar” a imagem e semelhança de Deus, mas podemos melhorar-nos para sermos cada vez mais essa imagem e essa semelhança de Deus e com Deus.

 

De que me serve ser criado à imagem e semelhança de Deus, se não transmito aos outros, se não dou testemunho aos outros dessa imagem e semelhança?

Como posso ser livre, se não considerar a liberdade dos outros, por exemplo?

Como posso amar, se não considerar primeiro o amor de Deus em mim?

Como posso ser semelhante a Deus, se não servir, como Cristo serviu totalmente?

 

Ser criado à imagem e semelhança de Deus é uma verdade absoluta, mas só se completa. (quanto a mim, claro), quando eu tento ao longo da minha vida ser essa imagem e essa semelhança, ou seja, fazer a vontade de Deus, como Cristo fez a vontade do Pai.

 

Com todo este “arrazoado” de palavras reflectidas e escritas, quero no fundo dizer, (sobretudo para mim próprio), que eu não sou criado à imagem e semelhança de Deus, que eu não sou cristão católico, e “prontos”, está resolvido!

 

Quero dizer que sim, que fui criado à imagem e semelhança de Deus, mas que essa imagem e essa semelhança têm que ser vividas todos os dias, nas minhas palavras, nas minhas atitudes, no meu testemunho, em tudo e com todos na minha vida todos os dias.

 

Só assim poderei dizer verdadeiramente que fui criado à imagem e semelhança de Deus.

 

Glória a Ti, meu Deus e Senhor!

 

 

Marinha Grande, 2 de Agosto de 2020

Joaquim Mexia Alves


segunda-feira, 27 de julho de 2020

FALTA DE INSPIRAÇÃO


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Como é possível não ter inspiração para escrever sobre Ti?

Debato-me perante a folha vazia de palavras escritas e apenas me surge a frase: Deus é bom!

Penso então em tantas coisas boas da vida e chego sempre à mesma conclusão: São efémeras!
Deixam saudades, (algumas até doem), boas lembranças, sorrisos de recordação, mas no fundo todas, mais tarde ou mais cedo, acabaram.

Deus é bom!

Mesmo quando, sem percebermos porquê, acontecem coisas más, Deus não deixa de ser bom e de trazer bondade às nossas vidas.
Nem que essa bondade seja “apenas” um “estar aqui”!

Não desejamos nós tantas vezes em que estamos mal, ter alguém ao nosso lado, mas sem dizer nada, sem fazer nada, sem aconselhar nada?
Só Alguém faz isso perfeitamente: Deus!

Ele nem diz – estou aqui – “apenas” dá a sentir a Sua presença muitas vezes de uma forma que nem percebemos, mas nos faz sentir que não estamos sós.
Não exige falar connosco, se não falarmos com Ele, não aconselha, se não pedimos conselho, não dá a mão, se nós não lha dermos primeiro, a única coisa que continuamente tem, é o coração aberto para nós!

Ainda bem que não tinha inspiração, porque assim, mais uma vez pude ver como Deus é bom!



Marinha Grande, 27 de Julho de 2020
Joaquim Mexia Alves
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domingo, 5 de julho de 2020

O AMORIMETRO!!!


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Falou-se ontem na homilia na dimensão do amor, que não se podia medir, como por exemplo, com uma fita métrica!

Claro que logo me apeteceu perguntar a Deus se Ele media o amor e como o media, se havia algo para o medir.
Para meu espanto respondeu-me logo que sim!!!

Então, perguntei eu, mas é um aparelho ou qualquer coisa assim?
Ele divertido respondeu: É o amorimetro!

Bem, pedi eu, explica-me lá, se fazes favor, meu Senhor e meu Deus, se tem uma unidade de medida.
Claro, respondeu Ele, é a intenção do coração!

E a conversa continuou:
Mas tem uma escala?
Não, meu filho, é um contínuo!

Como é isso, perguntei?
Se a intenção do teu coração é amares sem reservas a todos, então entras no contínuo da escala e vais preenchendo o amorimetro!

Oh, Senhor, responde-me depressa, eu já estou considerado no amorimetro?

Olhou para mim, riu-se e disse:
Se tentas amar a todos, amigos e inimigos, como Eu vos amo, então meu filho, já estás decididamente na escala do meu amorimetro!!!!

Complicado, confuso, não: É "apenas" amar como Ele nos ama!



Marinha Grande, 4 de Julho de 2020
Joaquim Mexia Alves

NOTA: Escrito “à conta” da homilia do Pe Rui Ruivo, Vigário Paroquial da Marinha Grande
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quinta-feira, 25 de junho de 2020

CONVERSANDO EM CONFUSÃO


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Fecho os olhos por um pouco.
Estou cansado, Senhor, não fisicamente, mas desta falta de liberdade de não poder ir onde quiser e estar com quem quiser.

Senhor, não vou perguntar porquê, porque confio em Ti e acredito que mesmo daquilo que é mau, Tu retiras sempre um bem.
Podia aproveitar para rezar um pouco mais, mas a inércia toma conta de mim e deixo-me arrastar numas Avé Marias, nuns Pai Nossos, e numa rotina paralisante.

Preciso falar conTigo, assim, olhos nos olhos, contando-Te a minha vida, o que penso, o que gostaria, se calhar até o  meu almoço ou jantar, sei lá, falar e escutar no coração o Teu riso suave dizer-me com o Teu humor, que também Tu estás “confinado” desde o inicio a amar-nos com amor eterno.

Tu sabes, Senhor, que isto são desabafos, momentos em que quero exigir de mim, o estar contigo sempre, já que Tu, sei-o bem, nunca falhas ao nosso lado.

No fundo o que eu Te quero dizer é que Te amo com todo o meu ser, mas queria dizê-lo com mais palavras, com mais expressões, com mais entrega.

Tu bem nos avisaste para não repetirmos palavras, só por repetir, mas sim que abríssemos o coração e o deixássemos fluir em amor por Ti.

Olha, Senhor, Tu sabes o que quero dizer, Tu sabes o que eu sinto, Tu sabes o que eu quero viver.

Não, agora não Te quero pedir nada a não ser sentir o Teu sorriso, sentir a Tua mão, ouvir o bater do Teu coração e deixar-me levar por Ti, pelos vales tenebrosos ou pelas planícies verdejantes, desde que eu me sinta ovelha, (com as outras ovelhas), e Tu o Pastor que me/nos conduz ao silêncio do deserto falado em que ouço a Tua voz e me deixo repousar nos Teus braços.

É uma escrita muito confusa, não é Senhor?

Mas Tu, como sempre, entendê-la-ás e lhe responderás segundo a Tua vontade.

Obrigado, Senhor, amo-Te com todo o meu ser.



Marinha Grande, 25 de Junho de 2020
Joaquim Mexia Alves
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quinta-feira, 18 de junho de 2020

FAÇA-SE LUZ!


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No meio da escuridão, ouviu-se uma voz perguntar: Queres luz?

A escuridão respondeu de imediato: Para quê? Assim não se vê nada por isso está tudo bem!

A voz retorquiu: Mas na escuridão não se pode ver o mal nem o bem!
A escuridão riu-se, e disse: Assim não há problemas. O bem está feito e o mal vai-se fazendo mas ninguém dá conta dele!

Disse a voz num tom bastante duro: Tu escuridão, para além de esconderes o mal, protegendo-o e incentivando-o, nem sequer queres que se veja o bem!

Respondeu a escuridão com um riso demoníaco: Assim, mais tarde ou mais cedo, até os que fazem o bem deixam de o fazer e o mal prevalece!!!

Foi então que a Voz num brado forte ordenou: Faça-se Luz!


Marinha Grande, 18 de Junho de 2020
Joaquim Mexia Alves
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quinta-feira, 11 de junho de 2020

SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO


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Tenho fome e sede, Senhor!
Tens fome e sede de quê, meu filho?

Tenho fome e sede de paz, paz interior, tenho fome e sede de amor, amor doação, tenho fome e sede de alegria, alegria serena, tenho fome e sede de silêncio, silêncio que é a Tua voz, tenho fome e sede dos outros, dos outros que não sei amar como Tu, tenho fome e sede de mim, de mim quando estou em Ti e Tu estás em mim!

E não sabes Tu, meu filho, quem pode matar essas tuas fomes e sedes. que são também fomes e sedes do mundo?

Sei, Senhor, que Tu és o Alimento e Bebida Divinas que mata todas as fomes e sedes!

Então come a minha Carne e bebe o meu Sangue e quando o fizeres, faz-te tu também minha Carne e Meu Sangue para os outros, dando paz, doando amor, repartindo alegria, dando silêncio ouvinte aos que querem ser ouvidos, e dá aos outros tudo o que Te dou a Ti.

Se assim fizeres, meu filho, o Corpo e Sangue de Cristo serão vida em Ti e nos outros!

Obrigado, Senhor, eu não sou digno, mas Tu fazes-me digno de Ti!


Marinha Grande, 11 de Junho de 2020
Joaquim Mexia Alves
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