sábado, 31 de dezembro de 2011

ANO NOVO, NOVA VIDA

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Senhor,
para o ano vou ser melhor!

Vou rezar cada vez mais,
e amar mais o meu irmão,
vou compreender melhor,
os que não me compreendem,
vou ser mais coração,
do que frieza de pensamento,
vou partilhar mais o que me dás,
com aqueles que nada têm,
vou ser mais Igreja,
vou ser mais Tu,
do que eu,
para que toda a gente Te veja.

Vou mudar tanta coisa,
Senhor,
que tenho nos meus planos,
que tenho na minha vontade,
que tenho no meu querer,
que vou ser muito diferente,
à vista de toda a gente.

É isso que queres,
não é Senhor?

Que eu seja mais,
o que acho devo ser,
que tome cada vez mais conta,
da minha forma de viver,
que mude a minha forma de amar,
para encontrar a felicidade,
não é,
Senhor?

O que me dizes,
Senhor?

Ah, afinal
basta-me fazer a Tua vontade!


Marinha Grande, 31 de Dezembro de 2011
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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

É SEMPRE ASSIM...

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É sempre assim, todos os anos, (ao longo destes 62 anos ou desde que me lembro de mim), nos dias 24 e 25 de Dezembro.

Envolvida na enorme alegria do Nascimento de Jesus Cristo, na vivência do eterno amor de Deus por nós, “ataca-me” uma saudade de ser criança, de ser rapaz, uma saudade de viver o Natal em família, “preocupado” apenas em sentir a alegria do encontro, a serenidade da noite, a beleza da celebração e dos seus cânticos próprios, a paz reflectida nos rostos daqueles que se abraçam na Missa, à saída da Missa e na chegada à casa de cada um.

Logo de manhã, nesses dias, era muito difícil controlar a ansiedade de saber esperar a chegada dos meus irmãos mais velhos.
(É assim, julgo eu, com as famílias grandes como a minha de nove irmãos, dos quais sou o mais novo, com uma diferença de quase dezoito anos do primogénito.)

Mesmo sabendo que só lá para o fim da tarde os meus irmãos haveriam de começar a chegar, os meus olhos e até as minhas pernas, não cessavam de me conduzir ao portão de entrada, para tentar identificar cada carro que passava, na esperança de que fosse um deles a entrar por aquele portão.
Por vezes era frustrante, porque havendo carros iguais, à alegria do reconhecimento ao longe, sucedia-se o desapontamento da identificação ao perto.

Eram dias de uma envolvência de paz e alegria, perfeitas!

O meu pai, (por vezes parecendo noutros dias mais “longe” pelos seus muitos afazeres), tornava-se perto, muito perto de nós, numa alegria incontida que o fazia ter um sorriso de ternura e orgulho naquela sua família.

A minha mãe, sempre atarefadíssima na preparação das muitas refeições, (ceias, almoços, jantares), até porque os mais velhos já tinham filhos, não deixava de, (pelo meio de uns “ralhetes” por causa da muita excitação), dar uns beijos molhados de lágrimas saudosas e orgulhosas dos seus filhos.

E lá para o meio da tarde começavam os beijos e os abraços daqueles que iam chegando e daqueles que já tinham chegado, com as consequentes conversas sobre o crescimento dos mais novos e os negócios dos mais velhos.

Mais novo, eu, corria de um lado para o outro, temendo sem dúvida perder algum momento de toda aquela alegria.

Vinha então aquele jantar especial, (supostamente mais frugal, por causa da Comunhão na Missa do Galo), em que o barulho se fazia ouvir mais do que as conversas de cada um.

Vestidos os casacos lá íamos em “procissão” para a Igreja, no frio que sempre se fazia sentir, (que saudades tive desse frio na noite de Natal passada na Guiné), para participarmos na Missa do Galo, mas, (pelo menos eu), com o pensamento voando para os embrulhos coloridos que por nós esperavam na sala junto ao Presépio.

Família de “cantores”, (com algumas poucas excepções), os cânticos eram cantados a plenos pulmões, muito especialmente o “Adeste Fideles” final, e mesmo não sabendo latim, nada se notava porque os “sons” eram iguais!

Regressados a casa, depois dos abraços e beijos de Boas Festas, juntávamo-nos na sala de jantar, (à volta de uma mesa decorada com motivos natalícios, tendo o Presépio ao topo da sala), e rezávamos unidos a oração que o nosso pai fazia e que envolvia sempre o Pai Nosso, que o Filho nos ensinou, no Espírito Santo.

Então a minha mãe e o meu pai distribuíam os seus presentes a cada filho e a cada neto, seguindo-se a alegre confusão de cada um dos filhos fazer a sua própria distribuição de presentes numa profusão ruidosa de beijos, abraços, exclamações de alegria, e afirmações de: “era mesmo isto que eu queria”!

A ceia era então servida no meio da algazarra, (aqui e ali controlada com uns avisos mais ou menos sérios da minha mãe), e terminava sempre connosco à volta da mesa cantando toda a espécie de músicas de que nos íamos lembrando naquele momento.

A alegria era imensa e nunca conseguiria descrever o que todos aqueles momentos significavam e ainda significam para mim e julgo que para cada um de nós.

Ao almoço do dia de Natal, repetia-se a mesma cena, porque se a alegria e a harmonia tinham por breves momentos adormecido, fruto do cansaço, já estavam bem acordadas e faziam-se sentir em toda a sua força.

Confesso, que nem sei bem, mesmo em criança, se me eram mais queridos os presentes que recebia ou o estar com toda a família naquela alegria imensa!

Mesmo depois de feita a tropa na Guiné, casado e com filhos, (com os meus pais ainda vivos), acredito, porque me lembro, de que toda aquela ansiedade alegre ainda tomava conta de mim naqueles dias.

Até mesmo nos demasiados longos anos que vivi afastado da Fé, afastado da Igreja, o Natal, (aquele Natal), era para mim um tempo de excelência e de reencontro com Deus.

Não tenho dúvidas que, quando Jesus nasce assim nos corações, eles ficam marcados para sempre e mesmo que se afastem por uns tempos, acabam sempre por regressar ao amor, ao verdadeiro amor que nos vem de Deus.

Diz-se por aí que o Natal é das crianças!

Parece-me antes que, para se viver o Natal temos de nos fazer crianças, não no sentido da idade, mas no sentido da simplicidade, ou seja, num acto de puro amor abrirmos o coração ao infinito amor de Deus que se faz Um como nós, para que a nossa vida seja completa.
«Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância» Jo 10,10

Ao aceitarmos o amor do Pai, na Pessoa do seu Filho Jesus Cristo, que se faz Um como nós, deixamo-nos tomar por esse amor e pelo poder do Espírito Santo derramado em nós, teremos então de ser amor para os outros também.

É sempre assim, todos os anos, nestes dias 24 e 25 de Dezembro, tenho saudades de ser criança, quero fazer-me criança na simplicidade, mas tantas vezes me deixo ser “demasiado crescido”, e não consigo verdadeiramente, (tanto quanto queria), viver e ser Natal para mim e para os outros.

Que o Deus Menino, amor eterno, a todos nos abençoe.


Marinha Grande, 26 de Dezembro de 2011
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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

CONTO DE NATAL 2011

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Jacob Jordaens



Era meia-noite e a discoteca já tinha bastante gente.

Pelo menos os seus amigos estavam todos lá, conversando e rindo animadamente.

Pediu uma cerveja e aproximou-se deles tentando entrar na conversa, para ver se conseguia animar-se um pouco.

Alguma coisa estranha estava a acontecer naquela noite, que o impedia de estar à vontade, de “sentir” a noite, de se abandonar ao riso e ao divertimento.

Uma das suas amigas puxou-o para dançar e ele lá foi, um pouco a contragosto, pois estranhamente, (ele que tanto gostava de dançar), não lhe apetecia naquele momento.

Ainda tentou, obrigou-se mesmo a abanar o corpo ao som da música, mas não, não era aquilo que ele queria, hoje decididamente não lhe apetecia dançar.

Aproximou-se do balcão, pediu mais uma cerveja e pensou que o que lhe faltava era beber mais uma ou duas cervejas, pois logo aquele desconforto, aquela sensação de incómodo, aquela preocupação que não sabia explicar, havia de passar e seria sem dúvida mais uma noite bem divertida.

Os seus amigos estranhavam-no e perguntavam-lhe insistentemente se havia algum problema com ele, pois parecia não estar ali com eles, mas noutro sítio qualquer.

Já ia na terceira ou quarta cerveja, o seu estado de humor não melhorava nem um pouco, e ele já pensava que não podia beber mais, porque senão, em vez de se divertir, ia apanhar uma bebedeira, que era coisa de que ele francamente não gostava.

Pôs as mãos sobre os ombros dos amigos, disse umas graças, deu umas gargalhadas, mas tudo lhe soou a falso.

Que coisa, caramba, o que é que se passava que o impedia de estar à vontade e de se divertir?

Foi dar uma volta até ao sítio exterior onde os fumadores matavam o vício, mas não havia maneira de se libertar daquela sensação de desconforto, daquele sentimento de que não era ali que devia estar.

Voltou para dentro e forçou-se mais uma vez a ir ter com os amigos, a prestar-lhes atenção, a exigir de si mesmo participar nas conversas.

Mas nada, nem pouco, nem muito, a sua situação, a sua atitude, o seu interesse e divertimento, mudavam para melhor.

Olhou para o relógio.

Parecia estar ali há uma eternidade, e afinal tinham passado apenas quarenta minutos.

Sabendo-se muito perto de onde morava, desistiu de se forçar ao divertimento, disse boa noite aos amigos, e regressou num instante a casa.

Abriu a porta e foi recebido pelos seus pais e irmãos mais novos, que alegremente o abraçavam e acarinhavam.

Olhou para o seu pai, que lhe disse num tom terno:
Fizemos-te falta esta noite, não foi?

Percebeu então a razão do seu mal-estar!

Era noite de Natal e apesar da insistência do seu pai para ele ficar em família, tinha decidido que seria a primeira vez que passaria essa noite fora de casa, a divertir-se com os amigos.

Olhou para dentro de si, e percebeu um sorriso de criança no seu coração.

Intimamente orou dizendo:
Obrigado, meu Deus, porque me fizeste encontrar o sentido desta noite de Natal!



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FELIZ E SANTO NATAL

PARA TODAS E TODOS OS QUE VISITAM ESTE ESPAÇO
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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

«ELE NÃO ERA A LUZ, MAS VINHA PARA DAR TESTEMUNHO DA LUZ»

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«Ele não era a Luz, mas vinha para dar testemunho da Luz.»
Jo 1, 8

Ao ler este versículo do Evangelho deste passado Domingo, confrontei-me com o pensamento de que tantas vezes não o tenho presente na minha vida, e em tantos momentos, tocado pelo orgulho e pela vaidade, quase me julgo a “luz”.

Tantas coisas leio, tantas coisas estudo, tantas coisas digo e escrevo, (por vezes apreciadas por outros), que me esqueço da minha inutilidade e me julgo mais do que aquilo que sou, ou sou digno sequer de ser.

E poderia eu alguma vez ser testemunha do amor, se o amor não me tivesse sido dado e escolhido primeiro?

E poderia eu alguma vez falar das coisas de Deus, se não fosse Ele a colocar as palavras em mim?

E poderia eu alguma vez testemunhar as maravilhas que Ele fez e faz na minha vida, se Ele não me concedesse essa graça?

Como tem agora ainda mais sentido a oração que o Espírito Santo colocou um dia no meu coração e eu rezo todos os dias:
«Mãe, ensina-me a ser nada, para que Cristo seja tudo em mim.»

Mas será que esta oração não se tornou rotina em mim, e apenas a rezo sem nela meditar, e sobretudo sem a viver verdadeiramente?

Que neste Tempo do Advento em que o Senhor me quis chamar a atenção para este versículo da Bíblia, eu saiba reduzir-me ao nada que sou, e perceber verdadeiramente que se alguma coisa faço ou testemunho, não sou eu que o consigo por mim próprio, mas sim Ele que está em mim e de mim se serve, e que eu só tenho que Lhe dar graças por isso.

Tudo e sempre para a glória de Deus!



Marinha Grande, 12 de Dezembro de 2011
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sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

«EU ESTOU À PORTA E BATO…»

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«Eu estou à porta e bato…»*

E eu surdo,
nada ouço!

Os ruídos do mundo
ecoam alto nos meus ouvidos,
e não me deixam ouvir
o Teu chamar.

Mesmo assim,
pergunto-me:
pareceu-me ouvir bater?
Mas logo me respondo:
não deve ser nada importante,
deixa-me continuar,
o que eu estava a fazer!

Envolto no mundo que me abraça
distraio-me da vida,
da verdadeira vida,
aquela que quero viver,
e que por mim passa,
só porque não Te ouço bater!

O ruído do mundo aumenta,
faz-se constante,
imperioso, instante,
já não me deixa pensar,
mas apenas me deixa seguir,
por onde ele quer,
para onde me quer levar,
perdido num caminho,
em que me deixo conduzir.

Tropeço, caio,
é cada vez mais difícil,
conseguir-me levantar.
Arrasto-me penosamente,
perdido nas paixões e vícios
das quais já não me consigo,
por um momento sequer,
libertar.

Num momento fugaz,
(porque Tu não me abandonas),
ouço um bater suave,
à porta da minha vida.

Abro-Te a porta,
deixo-Te entrar.

Trazes contigo a paz,
o caminho, a verdade,
fazes-me encontrar a vida,
que me dás em liberdade.

Lentamente,
atenua-se o ruído,
cresce a confiança,
é mais fácil o levantar,
o rir,
o caminhar,
encho-me de esperança,
e aceito a vida,
porque em Ti,
me queres salvar.

«Eu estou à porta e bato…»*

Entra, Senhor,
ceia comigo,
que eu ceio contigo!

Façamos a festa juntos,
a festa de Te encontrar,
para que eu possa viver no mundo
a vida que Tu me queres dar…



* Ap 3, 20

Monte Real, 9 de Dezembro de 2011
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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

COISAS DE JESUS

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Jesus morreu por nós,
nós gostamos de Jesus.
Jesus está numa cruz,
cruz bonita.
Bonita é Maria,
Maria é mãe de Jesus.
Jesus é Deus,
Deus do mundo.
Mundo tem sempre uma Missa,
Missa é o sítio onde está a cruz.

Marinha Grande, 06.06.2006



As "coisas" de Deus são simples, muito simples, porque é na simplicidade do amor que Ele se nos revela.

E as crianças, na sua simplicidade, interpretam a "simplicidade" de Deus com olhos de amor puro.

O tempo do Natal, é um tempo que nos deveria fazer simples no amor aos outros.
«Recebeste de graça, dai de graça.» Mt 10, 8

Por isso, chamando-nos à simplicidade, aqui deixo um poema do meu filho André, escrito quando tinha 8 anos de idade.
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terça-feira, 29 de novembro de 2011

«QUE DEUS ESPERAMOS NÓS?»

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Ontem, na Missa da tarde da minha Paróquia da Marinha Grande, o sacerdote que presidia à celebração, fazia-nos esta mesma pergunta durante a homília.

E foi-nos conduzindo nesta reflexão, que despertou em mim a vontade de meditar sobre tão importante pergunta.

Com efeito, vivendo o Advento, tempo de espera, mas também de reflexão, de conversão, para o encontro com o Senhor, devemo-nos perguntar:
«Que Deus espero eu?»

Espero um deus por mim idealizado, por mim “construído”, enfim, um deus que sirva os meus propósitos, os meus desejos, as minhas vontades?

Espero um deus que se “dedique” a dizer sim a tudo o que eu lhe pedir?

Espero um deus que me faça importante aos olhos dos outros, que me faça ser reconhecido pelos outros?

Espero um deus que não me dê missões, “obrigações”, ou necessidades de reflectir e meditar naquilo que faço?

Espero um deus que se “contente” com um simples, “eu acredito”, mas que não me “incomode” com orações e celebrações?

Espero um deus que “perceba” que uma coisa é a minha relação com ele, outra coisa é a minha relação com o mundo?

Espero um deus que me dê “presentes”, que me dê tudo o que quero e julgo ser importante para a minha vida, que me dê o peixe, em vez de me ensinar a pescar?

Espero, enfim, (porque a lista seria longa demais), um deus que nasça igual aos homens, mas que não passe pela Paixão, nem a Morte, mas apenas a Ressurreição?

Se é este deus que eu espero, estou enganado, porque o Deus que nasce da Virgem Maria, e se faz Homem, em tudo igual a nós, (excepto no pecado), é um Deus que “apenas” tem amor para dar.

E esse amor é tão universal, tão infinito, que não se esgota em mim, mas se derrama, em tudo igual, em todos os outros, em todo o tempo e em qualquer lugar.

O Deus que vem ao meu encontro, é um Deus que me liberta de mim próprio, se eu com Ele me quiser encontrar.

É um Deus que nunca me faltará com nada do que verdadeiramente preciso para viver e ser feliz, mas que muito raramente são as coisas que eu julgo, (na minha ignorância e pequenez), importantes para isso mesmo.

É um Deus que me mostra o Caminho, que me revela a Verdade, que me dá a Vida, mas que a nada me obriga, pois tudo faz por amor.

É um Deus que me conduz e ampara, mas não dá os passos que devem ser meus, nem toma as decisões que eu devo tomar.

É um Deus que não quer fazer de mim alguém diferente dos outros, mas quer sim, (por minha vontade própria), fazer-me mais igual aos outros, mais irmão, mais comunhão com todos.

É um Deus que não me quer mudar naquilo que sou, (foi Ele, aliás, que assim me criou), mas quer sim que tudo o que me deu, eu saiba aproveitar para, dando-me mais a Ele me dar mais aos outros, e assim fazendo a Sua vontade encontrar a plenitude da vida que Ele me deu.

Se é este o Deus que eu espero, sou feliz, porque Ele vem, já veio, e só espera que eu me deixe encontrar por Ele, para me dar e fazer viver o verdadeiro Natal.


Nota:
Texto “provocado” pela homília do Padre Pedro Viva, Vigário Paroquial da Paróquia da Marinha Grande, na Missa de ontem.
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terça-feira, 22 de novembro de 2011

PREPARANDO O ADVENTO

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Uma das muitas coisas que o meu pai me ensinou ao longo da minha vida, foi a pontualidade, e, com a pontualidade, o saber esperar.

Quando se é pontual, espera-se sempre que os outros também o sejam, e por isso a espera é sempre uma certeza de que os outros chegam e não vão faltar ao encontro.

Mas nós homens, com as nossas fraquezas e imponderáveis, falhamos muitas vezes os encontros, porque somos impedidos pelas mais diversas razões, e, mesmo quando comparecemos, chegamos muitas vezes atrasados.

Com Deus não é assim!

O Senhor Jesus “comparece” sempre ao encontro, é sempre pontual, e basta nós querermos verdadeiramente encontrarmo-nos com Ele, para Ele logo se fazer presente.

Curiosamente, entre nós homens, aqueles que são muito pontuais até costumam chegar adiantados ao encontro marcado.

Pois com Jesus ainda mais, porque lendo Ele o nosso coração e percebendo o nosso desejo, a nossa vontade de com Ele nos encontrarmos, logo se faz presente, esperando por nós de braços abertos.

Mas nós, os homens pontuais, somos muito exigentes com essa pontualidade, e por isso mesmo, se os outros não chegam à hora marcada, damos-lhes pouca tolerância, e passado um tempo de espera, desistimos do encontro.

Já com o Senhor Jesus, isso não se passa, pois para além da sua “pontualidade” ser uma constante, (porque Ele sempre está à nossa espera), nunca desiste do encontro connosco mesmo que cheguemos muito atrasados, mesmo até que faltemos inúmeras vezes ao encontro.

Aliás, Ele veio ao mundo, fez-se igual a nós em tudo, (excepto no pecado), precisamente para isso, para se encontrar connosco e nos mostrar o caminho da salvação, por isso mesmo a Sua espera por nós é uma espera permanente, constante, a fim de nos encontrar, para nos conduzir à felicidade eterna na Sua presença.

Por isso mesmo, também a nossa espera para o encontro com Jesus é uma certeza tão infalível da Sua presença, e assim, apenas O devemos esperar também em serena alegria, preparando-nos em tudo para O receber, e encontrando-nos com Ele, O seguirmos sempre e em tudo.

Vêm estas palavras, a propósito da chegada do Tempo do Advento já no próximo Domingo, que poderíamos reconhecer como o tempo da espera na ansiosa alegria, que se concretiza infalivelmente, se assim o desejarmos.

É difícil e inquietante esperar quando se tem dúvidas do que se espera, ou se receia que o esperado não apareça.

Agora, quando se espera por Aquele que se faz sempre presente, que nunca falta ao encontro, e que traz “apenas” o amor, a paz e o bem para nos dar, essa espera é uma tranquilidade, uma serenidade, uma alegria, que só é ultrapassada quando o verdadeiro encontro com Ele se dá, e enchendo-nos por completo, transforma esse encontro em vida plena, em «vida em abundância» (Jo 10,10), para que «a nossa alegria seja completa». (Jo 15, 11)


Vem Senhor Jesus,
nós Te esperamos em ansiosa e serena alegria.
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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

JESUS, A SAMARITANA, A VISITA PASTORAL DO NOSSO BISPO

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A passagem bíblica (Jo 4, 1-30) que nos é proposta, para iniciar a caminhada dos grupos de Lectio Divina, como preparação para a visita pastoral à nossa paróquia, do nosso Bispo, D. António Marto, relata-nos o encontro de Jesus Cristo com a Samaritana, junto ao poço de Sicar.

É com certeza uma passagem bem conhecida de todos, mas sempre que a lemos, sempre que a meditamos, sempre que a rezamos, podemos encontrar “coisa” nova, porque a Palavra de Deus é sempre viva, é sempre vida.

Hoje podemos perceber esta passagem como uma catequese, um modelo, um “guia de instruções”, que o Senhor Jesus nos dá para, guiados pelo Espírito Santo, sermos obreiros da evangelização.

Jesus faz-se encontrado com aquela mulher, junto ao poço, não como alguém superior, não como alguém que vai ensinar o que quer que seja, mas como uma pessoa “normal”, cansada, carente, que necessita do outro.
A sua primeira atitude é pedir, «Dá-Me de beber», e não se preocupa em nada com as regras sociais estabelecidas, com distinção de classes sociais, ou com outras “vergonhas” que pudessem existir.

Rompe assim com um possível distanciamento com aquela a quem se dirige, e provoca nela a curiosidade de tentar perceber quem é aquele homem que dela se aproxima sem medo, e sem receio do que possam dizer.
Esta atitude de Jesus, transmite à mulher, para além da natural curiosidade, uma firmeza de carácter, que leva á confiança naquele que assim se lhe dirige.

A curiosidade leva ao diálogo, porque a mulher precisa de perceber o porquê daquela atitude de Jesus.
Jesus aproveita então para lhe falar de algo que parece ser muito bom, algo que está disponível, mas que vai para além do normal do dia-a-dia.

Obviamente, a incredulidade faz-se presente na mulher, e ela opta por querer apenas “ver” o que é visível, por isso regressa à água do poço e à impossibilidade de a tirar sem um balde.
Mas Jesus, que já prendeu a sua atenção, vai agora abrir-lhe “o apetite” para algo que é muito maior do que a água do poço, e com a firmeza das suas palavras, fá-la ansiar por uma vida que ela quer reconhecer como a verdadeira vida.
E a mulher não resiste e pede a Jesus que lhe dê “aquilo” tão extraordinário de que Ele fala.

Mas para que a vida do dia-a-dia se conforme com a verdadeira vida que o Senhor dá, é preciso mudança de vida, mudança de prioridades, mudança de atitudes, é preciso conversão, e Jesus mansamente, sem julgamento, nem condenação, coloca-a perante as fraquezas da sua vida.
E a mulher reconhece-se na sua fragilidade, na sua fraqueza, e o seu coração abre-se à presença d’Aquele que lhe mostra o caminho.

Perante esta abertura da mulher, Jesus revela-se e o encontro dá-se, confirma-se e quando este encontro acontece, a vida muda, renova-se e deixa de ser vida individual, para passar a ser vida para os outros também, daí a necessidade que a mulher tem de ir contar aos outros a alegria, a novidade, que agora habita nela.

Pelo seu testemunho os outros aproximam-se, encontram-se também com o Senhor, e percebem então que já não é pelas palavras da mulher que acreditam, mas porque também se deixaram encontrar por Jesus Cristo.

Tantos passos e no entanto tão simples, que nos levam a pensar que testemunho damos nós, cristãos católicos, que atitudes tomamos nós, quando falamos aos outros de Jesus Cristo.

Quem procuramos nós para falar de Jesus?
É que somos tão “corajosos” a falar de Deus com aqueles que estão connosco em Igreja, mas sê-lo-emos também com os que estão á “beira do poço”?

E quando o fazemos, tomamos nós a atitude de quem tudo sabe, de quem tudo quer ensinar, ou aproximamo-nos humildemente e ouvindo, aproveitamos, guiados pelo Espírito Santo, para colocar Deus no dia-a-dia daquele com quem falamos?

E damos nós verdadeiro testemunho de tudo o que falamos, ou somos como o velho provérbio:
«Bem prega Frei Tomás, faz o que ele diz, não faças o que ele faz»?

Precisamos, enquanto comunidade paroquial, perceber se estamos fechados na nossa comunidade, ou se nos abrimos àqueles que estando fora, o Senhor chama à comunhão.

Precisamos perceber, se os sabemos acolher de tal modo, que eles sintam que precisamos deles, que eles percebam que a comunidade anseia pela sua vinda, pela sua comunhão, porque só assim se “faz” Igreja.

E precisamos entender que, sozinhos, por nós próprios, nada conseguimos, mas apenas em comunhão com Deus e com os irmãos, e que esta comunhão só se realiza em Igreja, na celebração dos Sacramentos, na vivência diária da fé, na prática da oração individual e colectiva.

A visita do nosso Bispo pode ser um momento para nos colocarmos perante as nossas fragilidades, mostrando o que fazemos, o que fizemos, e esperando a palavra do pastor que nos oriente no que havemos de fazer.

Coloquemo-nos à “beira do poço”, mostremos o que somos, e acolhendo o Senhor D. António Marto, com ele encontremos caminho para continuarmos e dando testemunho na cidade do nosso encontro, outros se aproximem, não por aquilo que dizemos ou fazemos, mas porque, pela graça do Espírito Santo, testemunhamos Jesus Cristo, vivo e presente no meio de nós e em nós.


Marinha Grande, 3 de Novembro de 2011


Nota:
Estamos a preparar na Paróquia da Marinha Grande, a Visita Pastoral do Senhor D. António Marto, Bispo de Leiria-Fátima a realizar em Fevereiro.
Este texto é fruto da minha colaboração no Boletim da Paróquia, "Grãos de Areia".
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