segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

É SEMPRE ASSIM...

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É sempre assim, todos os anos, (ao longo destes 62 anos ou desde que me lembro de mim), nos dias 24 e 25 de Dezembro.

Envolvida na enorme alegria do Nascimento de Jesus Cristo, na vivência do eterno amor de Deus por nós, “ataca-me” uma saudade de ser criança, de ser rapaz, uma saudade de viver o Natal em família, “preocupado” apenas em sentir a alegria do encontro, a serenidade da noite, a beleza da celebração e dos seus cânticos próprios, a paz reflectida nos rostos daqueles que se abraçam na Missa, à saída da Missa e na chegada à casa de cada um.

Logo de manhã, nesses dias, era muito difícil controlar a ansiedade de saber esperar a chegada dos meus irmãos mais velhos.
(É assim, julgo eu, com as famílias grandes como a minha de nove irmãos, dos quais sou o mais novo, com uma diferença de quase dezoito anos do primogénito.)

Mesmo sabendo que só lá para o fim da tarde os meus irmãos haveriam de começar a chegar, os meus olhos e até as minhas pernas, não cessavam de me conduzir ao portão de entrada, para tentar identificar cada carro que passava, na esperança de que fosse um deles a entrar por aquele portão.
Por vezes era frustrante, porque havendo carros iguais, à alegria do reconhecimento ao longe, sucedia-se o desapontamento da identificação ao perto.

Eram dias de uma envolvência de paz e alegria, perfeitas!

O meu pai, (por vezes parecendo noutros dias mais “longe” pelos seus muitos afazeres), tornava-se perto, muito perto de nós, numa alegria incontida que o fazia ter um sorriso de ternura e orgulho naquela sua família.

A minha mãe, sempre atarefadíssima na preparação das muitas refeições, (ceias, almoços, jantares), até porque os mais velhos já tinham filhos, não deixava de, (pelo meio de uns “ralhetes” por causa da muita excitação), dar uns beijos molhados de lágrimas saudosas e orgulhosas dos seus filhos.

E lá para o meio da tarde começavam os beijos e os abraços daqueles que iam chegando e daqueles que já tinham chegado, com as consequentes conversas sobre o crescimento dos mais novos e os negócios dos mais velhos.

Mais novo, eu, corria de um lado para o outro, temendo sem dúvida perder algum momento de toda aquela alegria.

Vinha então aquele jantar especial, (supostamente mais frugal, por causa da Comunhão na Missa do Galo), em que o barulho se fazia ouvir mais do que as conversas de cada um.

Vestidos os casacos lá íamos em “procissão” para a Igreja, no frio que sempre se fazia sentir, (que saudades tive desse frio na noite de Natal passada na Guiné), para participarmos na Missa do Galo, mas, (pelo menos eu), com o pensamento voando para os embrulhos coloridos que por nós esperavam na sala junto ao Presépio.

Família de “cantores”, (com algumas poucas excepções), os cânticos eram cantados a plenos pulmões, muito especialmente o “Adeste Fideles” final, e mesmo não sabendo latim, nada se notava porque os “sons” eram iguais!

Regressados a casa, depois dos abraços e beijos de Boas Festas, juntávamo-nos na sala de jantar, (à volta de uma mesa decorada com motivos natalícios, tendo o Presépio ao topo da sala), e rezávamos unidos a oração que o nosso pai fazia e que envolvia sempre o Pai Nosso, que o Filho nos ensinou, no Espírito Santo.

Então a minha mãe e o meu pai distribuíam os seus presentes a cada filho e a cada neto, seguindo-se a alegre confusão de cada um dos filhos fazer a sua própria distribuição de presentes numa profusão ruidosa de beijos, abraços, exclamações de alegria, e afirmações de: “era mesmo isto que eu queria”!

A ceia era então servida no meio da algazarra, (aqui e ali controlada com uns avisos mais ou menos sérios da minha mãe), e terminava sempre connosco à volta da mesa cantando toda a espécie de músicas de que nos íamos lembrando naquele momento.

A alegria era imensa e nunca conseguiria descrever o que todos aqueles momentos significavam e ainda significam para mim e julgo que para cada um de nós.

Ao almoço do dia de Natal, repetia-se a mesma cena, porque se a alegria e a harmonia tinham por breves momentos adormecido, fruto do cansaço, já estavam bem acordadas e faziam-se sentir em toda a sua força.

Confesso, que nem sei bem, mesmo em criança, se me eram mais queridos os presentes que recebia ou o estar com toda a família naquela alegria imensa!

Mesmo depois de feita a tropa na Guiné, casado e com filhos, (com os meus pais ainda vivos), acredito, porque me lembro, de que toda aquela ansiedade alegre ainda tomava conta de mim naqueles dias.

Até mesmo nos demasiados longos anos que vivi afastado da Fé, afastado da Igreja, o Natal, (aquele Natal), era para mim um tempo de excelência e de reencontro com Deus.

Não tenho dúvidas que, quando Jesus nasce assim nos corações, eles ficam marcados para sempre e mesmo que se afastem por uns tempos, acabam sempre por regressar ao amor, ao verdadeiro amor que nos vem de Deus.

Diz-se por aí que o Natal é das crianças!

Parece-me antes que, para se viver o Natal temos de nos fazer crianças, não no sentido da idade, mas no sentido da simplicidade, ou seja, num acto de puro amor abrirmos o coração ao infinito amor de Deus que se faz Um como nós, para que a nossa vida seja completa.
«Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância» Jo 10,10

Ao aceitarmos o amor do Pai, na Pessoa do seu Filho Jesus Cristo, que se faz Um como nós, deixamo-nos tomar por esse amor e pelo poder do Espírito Santo derramado em nós, teremos então de ser amor para os outros também.

É sempre assim, todos os anos, nestes dias 24 e 25 de Dezembro, tenho saudades de ser criança, quero fazer-me criança na simplicidade, mas tantas vezes me deixo ser “demasiado crescido”, e não consigo verdadeiramente, (tanto quanto queria), viver e ser Natal para mim e para os outros.

Que o Deus Menino, amor eterno, a todos nos abençoe.


Marinha Grande, 26 de Dezembro de 2011
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14 comentários:

Leonor disse...

ohhh, gostei tanto... E pronto, cá fico eu lavada em lágrimas... beijinho grande tio, cheio de saudades de tudo quanto escreveu...

concha disse...

Amigo Joaquim!
Lindissimo este relato de um Natal bem vivido.
Revi em algumas passagens, também muito do que vivi em criança.No tempo em que estive afastada,mesmo assim mantive a tradição do que recebi em criança e hoje faço um esforço enorme para que nada se perca.É essencialmente isso a melhor herança que poderei deixar aos meus filhos, porque foi a melhor que também me deixaram.
Continuação de Boas Festas

ontiano disse...

Como é verdade o que escreves!

Aqui fica o meu Natal em Angola no longínquo ano de 1963


NATAL

Sozinho
no meu quarto, numa noite destas!

Tão longe o tempo da mocidade,
do sapatinho na chaminé
A que distância
a noite alegre
a recitar versos,
a cantar fados,
a dizer coisas sem importância.

Sozinho
no meu quarto, numa noite destas!

A meu lado,
de repente,
serenos e confiantes,
como se fosse LÁ
e não AQUI,
obedecendo a rito já antigo,
ELES vêm pouco a pouco:
O meu Pai,
a minha Mãe,
os Manos,
a criadagem
e eu, sem peru,
nem Bolo Rei
e até
(que tristeza)
sem versos.

Como derradeira ilusão
no meu quarto vazio,
eu sinto que o coração
se transforma em Presépio
e sereno e grave me ajoelho
e eu e ELES rezamos:

- Graças meu Deus!

- Menino, Te Deum Laudamus!
Bessa Monteiro, 25 Dezembro 63

joaquim disse...

Querida sobrinha Leonor

Obrigado!

Também eu quando escrevi!!!

Um beijo

joaquim disse...

Obrigado Concha.

Sem dúvida que a semente que passamos aos filhos, pode um dia germinar!

Um abraço amigo em Cristo

joaquim disse...

Obrigado António!

Recordações destas aquecem a alma!

Um abraço

concha disse...

Vivo com essa esperança e vou tentando fazer a minha parte.
Porque cá este ano não houve a iniciativa,por isso lá vou amanhã à noite a Madrid,dar testemunho(aos de casa e ao mundo) de que a família é muito muito importante.Regresso no dia seguinte!!!É mesmo a doer e há dois anos até fui com queimaduras do 1º e 2º graus no rosto e num braço feitas em véspera de Natal.levo sempre comigo todos os que cruzaram e continuam a cruzar o meu caminho.
Santo Tempo de Natal.

joaquim disse...

Obrigado Concha por este testemunho.

Um abraço amigo em Cristo

Nova Civilização disse...

Amigo joaquim,

lindo relato de natal. é assim que tb penso: Receber nosso doce e amado jesus com um coração de criança!

Feliz Ano Novo,

abraços

Gisele

joaquim disse...

Amiga Gisele

Obrigado.

Um Novo Ano cheio das bençãos de Deus para ti e para todos os teus.

Um abraço amigo em Cristo

malu disse...

Que o "Deus Menino, amor eterno" te abençoe também. E que um dia, feitos crianças e como agora pretendes (e pretendenos) ser, celebremos Esta Festa, junto com Ele e todos os demais irmãos, famíla bem aumentada e na Alegria eterna.

Abraço em Cristo e Maria.

joaquim disse...

Obrigado Malu.

Que sejamos mais família de Deus, é também o meu desejo!

Um abraço amigo em Cristo

Paulo disse...

Tal como tu, as recordações desses tempos idos criam uma pequena nostalgia em nós, tal como nos nosso filhos. Gostava de ser criança como fui, tal como tu, nessa noite magica e simbolica.

joaquim disse...

Obrigado Paulo.

Não é uma recordação que "magoe", mas sim uma recordação que alegra!

Dou graças a Deus pela família que me deu.

Um abraço amigo em Cristo