quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

CONTO DE NATAL

Estava ali, deitado no chão frio daquele passeio.
A noite inclemente abatia-se sobre ele, indiferente ao seu frio, ao seu mal estar.
Mas também que interessava isso, se para ele a vida já não tinha nenhum sentido, nenhum interesse, nada que valesse a pena lutar.
Ainda tinha prometido a si próprio que não ia desistir, que não se ia dar por vencido, mas depois de tanto procurar, de tantas portas fechadas, umas mais abruptamente, outras com delicadeza hipócrita, a sua vontade, a sua força, tinham-se extinguido.
Para além do mais não ajudava nada ser Noite de Natal, ver as pessoas a caminharem em passos rápidos para casa, onde o calor do aquecimento e sobretudo o calor da família os esperava.
Já não estou cá a fazer nada, pensou, não tenho ninguém, ou melhor, ninguém se interessa por mim, passam por mim e já nem desviam a cara, olham através de mim, como se eu não existisse, e realmente, pensou, eu já não existo.
Vou-me deixar ficar aqui, ao frio, sem comer, (no seu interior ainda houve espaço para um sorriso, sem comer, como se ele tivesse alguma coisa para comer), à espera da morte, para si libertadora.
Não vou procurar vão de escada, nem protecção, fico aqui mesmo, para que seja mais rápido o fim.
Deixou-se assim ficar e apesar do frio adormeceu.
De repente sentiu alguém ao seu lado.
Uma mulher tão pobre e mal vestida como ele, deitara-se e encostara-se a si.
Ficou quieto e reparou que nos braços da mulher estava uma criança recém nascida, que dormia sossegada, com um sorriso nos lábios.
Depois de passado o espanto e um momento de silêncio, voltou-se para ela e perguntou:
- O que é que tu queres?
Com um olhar assustado, mas ao mesmo tempo doce, a mulher respondeu:
- Só quero calor, só preciso de calor. Não é para mim, é para ele.
E olhou a criança com uma ternura que ninguém desconfiaria nela.
Continuou a falar, numa voz baixa, mas forte.
- Disseram-me para não ter o bébé, que iria ser um desgraçado, um abandonado da vida, que mais valia não nascer sem amor, sem futuro.
Mas não, eu não fiz isso! Quem sou eu para decidir da vida de alguém, mesmo que pareça não haver presente, quanto mais futuro.
- Mas olha, continuou ela, tinha decidido acabar com tudo! Morria eu e morria ele, talvez assim fosse melhor. Mas depois pensei: Que culpa tem ele que eu seja assim? Quem é que me diz, que ele ainda não vem a ser um grande senhor, uma pessoa importante, se calhar até para fazer bem aos outros.
As palavras agora saíam mais fortes, quase empolgadas:
- Uma coisa já fez esta criança: Fez-me desistir da morte, fez-me lutar pela vida, fez-me encontrar o que eu achava que estava perdido, a vontade de viver, viver por ele.
Nessa altura ele levantou-se, ajudou-a a levantar-se e disse-lhe:
- Vamos procurar abrigo, seja aonde for. O bébé precisa de calor, de estar protegido, precisa que lhe dês o teu leite e aqui no meio da rua não pode ser.
Encontraram um vão de escada, uns cartões e sentaram-se, enquanto a mulher dava de mamar à criança.
- Chega-te mais para mim, disse-lhe ele, temos que o envolver no nosso calor, não podemos deixar que ele apanhe frio.
Dentro de si nasceu um compromisso forte.
Não iria deixar aquela mãe e sobretudo aquele bebé morrerem de frio ou de qualquer outra coisa, porque ele tudo iria fazer para que tal não acontecesse.
Foi então que veio à sua memória aquilo que há tão pouco tempo tinha decidido: Deixar que tudo acabasse, porque a sua vida já não tinha sentido.
Sentiu que lhe tocavam no ombro, que o chamavam e percebeu então que tinha estado a dormir. Eram uns jovens que percorriam as ruas à procura de gente como ele para os ajudarem com roupas e alimentos e naquela noite até um abrigo.
Levantou-se, seguiu-os e percebeu que dentro de si tinha nascido outra vez a vontade de viver, percebeu que uma vida não acaba assim, que tinha de lutar pois que apesar de nada ter, se calhar havia alguém que precisava dele.
Lembrou-se do sonho, da mulher, da criança, da Noite de Natal, da família que já tinha tido, do que os pais lhe tinham ensinado e percebeu então o sonho que tinha tido.
Levantou os olhos ao Céu, e disse de todo o coração:
- Obrigado Jesus, que quiseste precisar do meu calor, para me ensinares o valor da vida.

10 comentários:

pedro disse...

muito bonito, adorei pai. quando keres enches-te de alegria e bons sentimentos e escreves muito bem.
bjs

joaquim disse...

Querido Pedro
Obrigado filho por gostares do que eu escrevo.
Sabes, não é bem quando eu quero, é mais quando deixo que Jesus fale ou escreva em mim, quando lhe entrego os meus pensamentos, o meu coração e as minhas mãos.
Um beijo cheio de ternura do teu pai que te abençoa

Anónimo disse...

Joaquim,

que conto tão bonito! Gostei tanto de o ler, fez me pensar em todas as pessoas que passam as noites de Natal no frio, que passam noites sem ser a de Natal abandonadas por todos, e que só tem vontade de desistir da vida.

Como podemos nós queixarmo nos da vida que temos quando à outros que precisam de nós? Tantas vezes vemos mal, Senhor, olhamos e vemos apenas o nosso mundinho os nossos problemas, quando há outros com problemas bem maiores, que precisam de pessoas como nós para lhes dar a mão.

Gostei principalmente da presença de Jesus no seu conto, simples e discreto, mas com um enorme impacto na vida daquele Homem que já não queri viver.

Vou lhe fazer um pedido, que continue a escrever como tem feito,quando puder, porque cada vez que o faz, Vejo-O nas suas palavras e isso toca me profundamente.

Um grande beijinho com Cristo
J

( Não consigo fazer log in no seu blog e no Espirito Santo... não percebo porquê...)

joaquim disse...

Joana
Obrigado pelas tuas palavras, pela tua visita.
A presença de Jesus é sempre muito simples e discreta, porque Ele nunca se quer impor à nossa vida.
Ele quer apenas que Lhe abramos o nosso coração e Lhe "permitamos" que Ele mude tudo o que precisa de ser mudado, sobretudo o sentido das nossas vidas, tantas vezes perdido nas coisas do mundo.
Obrigado mais uma vez e prometo que enquanto Ele quiser, eu escreverei.

Quanto ao blog, eu sou um "nabo" nestas coisas e por isso não te sei responder.
Quem sabe muito disto é a Malu, da Capela, a quem peço perdão por mais um trabalho que lhe possa estar a dar.
Muitas vezes quando não consigo deixar comentários nalgum sitio, deixo-os como "Other" ou "Anonymous" e no fim coloco o meu nome.
O que queres dizer com não conseguires fazer log in no Espírito Santo?
Abraço amigo e grato em Cristo

Já agora, por favor trata-me por tu, que se não ainda me sinto amis velho do que sou!!!

joaquim disse...

"Belo conto de natal.
Creio que ajudará todos os que por aqui passarem a viverem mais
profundamente o verdadeiro espírito desta época."

Comentário deixado pelo Pe Pedro Josefo, "Na Sacristia", em mail que me enviou por não ter conseguido deixá-lo aqui.

Não sei porquê e como não percebo nada disto, peço ajuda!!!

malu disse...

O conto é lindíssimo Joaquim e dispensa comentários, só que não se resiste.

Quanto aos cometários, deixa cá ver se vou conseguir deixar-te cá este. Não percebo muito disto e também eu tenho tido este problema no meu. O melhor, é enviar um e-mail à Equipa do Google. Pelo que sei, não são poucos os queixosos e tem acontecido que quem mudou para o Beta, nem sempre tem podido nos que não mudaram e vice-versa.

Há também um Grupo de ajuda, o Blogger Help Group - aqui:
http://groups.google.com/group/blogger-help - ondo recorro e deixo o meu pedido e acompanho o seguimento. Os empregados do Google normalmente respondem e têm valido em muitas situações, e por vezes, são alguns dos membros que ajudam no que podem. Lá deixei mais um, agora sobre os comentários. Vamos ver.

Beijinho.

malu disse...

Olha, acabo de ler a resposta de um dos empregados do Google, que nos direcciona para aqui:

http://knownissues.blogspot.com/2006/12/logging-in-with-old-blogger-account-to.html , onde se lê:

"Thursday, December 14, 2006
Logging in with an old Blogger account to post a comment on the new Blogger is giving a “please try again later” error. Until we fix this, it may work to log in first at http://www.blogger.com/login.g, and then go to the comments page on the new version of Blogger in beta.

Labels: comments, login, outstanding"

:(

Maria João disse...

Vamos dar calor a quem precisa. Todos nós podemos fazer alguma coisa. Mesmo quem não tem nada, pode dar um sorriso. E vamos fazê-lo sempre. Durante todo o ano. Durante toda a vida.

Afinal, não é esta a vontade de Deus? Não foi este o exemplo que Jesus nos deixou?

beijos em Cristo

joaquim disse...

Maria João, obrigado pela visita.
É verdade se todos fizéssemos um pouco, esse pouco rápidamente seria muito!
Abraço em Cristo

joaquim disse...

Sei que têm tentado, alguns amigos/as, deixar comentários sem conseguirem.
Penso que será por ter mudado para o Beta, mas eu não percebo muito disto.
Sugiro que se não conseguirem, deixem como "Other" ou "Anonymous" identificando-se no comentário.
Também o poderão fazer pelo meu mail mexia.joaquim@sapo.pt e ue depois aqui colocarei o comentário, até isto estar resolvido!
Abraço em Cristo