segunda-feira, 22 de junho de 2026

O CANSAÇO DOS PADRES


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Há alguns anos, num domingo, tive de fazer uma Celebração da Palavra numa das capelas da nossa paróquia.

No fim da celebração veio uma senhora falar comigo, perguntando porque é que o Padre não tinha ido celebrar a Eucaristia.

Disse-lhe que o Sacerdote estava de férias, tendo ela ficado muito indignada como era possível o Padre estar de férias e não vir celebrar a missa.

Escuso-me a referir a minha resposta, que talvez tenha sido um pouco ríspida.

Vem isto a propósito de alguns textos que tem surgido ultimamente sobre o cansaço dos padres e de como poucos leigos, (às vezes até a própria hierarquia da Igreja), se preocupam minimamente com esta realidade.

Os Padres, pelo visto, são uma espécie de “respirar”.
Todos têm direito a respirar, mas poucos se preocupam se há “oxigénio” para todos.

Os Padres são uma espécie de direito adquirido para os que vão à missa, para os que não vão, para os que não querem saber da Igreja para nada, mas querem um Baptismo ou um Matrimónio e, de um modo geral, para toda a gente, (praticante ou não), devem estar “ao serviço” vinte e quatro horas por dia e, como diriam certas pessoas, de noite também.

Têm de estar disponíveis para tudo, celebrações de sacramentos, reuniões, catequese, aconselhamento, encontros dos mais diversos movimentos, etc., etc.

Ao mesmo tempo que têm de fazer tudo, são criticados precisamente por fazerem tudo.

É mais do que repetitiva a resposta - “pergunta ao padre” - perante a pergunta de como fazer determinada que, afinal, qualquer um pode fazer na paróquia.

Ri-se, é demasiado alegre! Confraterniza, é um folião!
Não se ri, só fala o essencial, não é muito dado a “comezainas” e convívios, é um mal-disposto!

E cuidamos nós, leigos e não só, de saber do seu estado de espírito, das suas preocupações, das suas dores, dos seus problemas particulares?

Esquecemo-nos que os Padres também têm vida, digamos normal, isto é, têm famílias, têm amigos, têm amigas, (cuidado que logo haverá alguém a querer ver o que não existe), têm doenças, têm dores, têm bons e maus momentos, enfim, curiosamente para quem não sabe, cansam-se!

A verdade é que eles não precisam “apenas” das nossas orações, (isso é fácil, digamos assim), precisam da nossa disponibilidade, precisam do nosso sorriso, do nosso abraço, do nosso convite para almoçar ou jantar, precisam da nossa amizade, precisam de se sentir amados, sim, precisam de se sentir mais amados do que “precisados”.

Somos tão rápidos a criticar a duração da Missa, o conteúdo da homilia, as actividades da paróquia, mas somos tão lentos, (ou nem sequer o fazemos), a dizer-lhes que gostámos muito daquela celebração, que aquela homilia nos tocou o coração, que aquela nova ideia que ele colocou em prática deu frutos e foi muito boa.

Às vezes precisam apenas de companhia, sem falar da Igreja, sem falar de tudo o que envolve as suas vidas na paróquia, mas apenas conversa de amigo, sobre o tempo, a política, o futebol, enfim, o dia a dia.

Nenhum de nós, leigos, podemos alcançar, perceber, o que será o cansaço físico e sobretudo espiritual de estar umas horas a confessar, por exemplo, a tensão que tal pode envolver, o controle das emoções humanas quando o penitente confessa os pecados dos outros, mas os seus têm que ser “arrancados a ferros”, salvo seja, com muita paciência, dedicação e bom senso.

Eu por mim falo, que tenho mau feitio, mas quantas vezes lhes há-de apetecer responder mais duramente, quando a resposta para novas ideias, para nada mudar, é: Mas ó Senhor Padre foi sempre assim!

Eu até me admiro como em certos fins de semana de não sei quantos baptizados, matrimónios, funerais e as missas habituais, eles não se enganam e não casam as crianças, não enterram os noivos e não casam os defuntos!!!
Estou a ironizar, obviamente, mas a verdade é que muitas vezes só de pensar na correria da maior parte dos padres ao fim de semana, até eu fico cansado!

Se acrescentarmos o facto muito real de que os Padres em actividade se apercebem de que tão cedo não poderão descansar, porque as vocações sacerdotais não existem e, por isso mesmo, os seminários estão vazios, e assim esse cansaço diário já se projecta também no futuro.

Quando eu era novo era um orgulho imenso as famílias terem um filho sacerdote.
Hoje nem dessa vocação se fala aos filhos, mas depois queremos ter Padres que sirvam a Igreja e a todos nós.

Pois é, os Padres precisam de nós, precisam que nós nos lembremos que, se eles nos servem na sua missão, também é nossa missão servi-los no que de nós possam precisar.

Sejamos como Aarão e Hur para os nossos Padres, como eles foram para Moisés.
«E acontecia que, enquanto Moisés tinha as mãos levantadas, era Israel o mais forte; mas quando descansava as mãos, o mais forte era Amalec. Mas as mãos de Moisés ficaram pesadas. Pegaram então numa pedra e puseram-na debaixo dele, e ele sentou-se sobre ela. Aarão e Hur sustentavam as mãos dele, um de um lado e outro do outro. E assim as mãos dele permaneceram firmes até ao pôr-do-sol.» Ex 17, 11-12

No fim deste longo texto resta-me perceber um pouco da minha impotência para mudar tal situação, mas também me comprometo a rezar mais pelos Padres e pelas vocações e, sobretudo, a tentar ser um ombro, uma mão, (ou as duas mãos), um amigo, (mais do que um paroquiano), uma certeza de que aqueles Padres com quem trabalho, com quem vivo a fé em Igreja no dia a dia, terão em mim, sempre, alguém que está disposto a ouvir, a estar simplesmente ao lado, a rezar e a ser o que de mim precisarem, assim, Deus me ajude.







Marinha Grande, 22 de Junho de 2026
Joaquim Mexia Alves

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