sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

ANO NOVO SEMPRE

“Naquele tempo...”, proclamava o sacerdote do ambão e ele ali sentado relembrava aquelas palavras tantas vezes ouvidas.
No seu tempo, quando era muito mais novo, ouvia outras palavras, numa língua distante mas que foi aprendendo a conhecer: “In illo tempore...”
Tanto tempo já passado e como tudo tinha mudado.
Lembrava-se bem do sacerdote de costas voltadas para as pessoas na igreja, vestido com umas “roupas” pesadas, uma “coisa” pendurada no braço, e que no inicio trazia o cálice numa mão e por cima dele uma espécie de “pasta” quadrada, forrada com o mesmo tecido da casula que vestia e que dentro trazia “coisas” que nunca chegava a entender o que eram.
Depois iniciava a Missa sempre naquela língua que ele não conseguia entender, mas que os seus pais, com alguma paciência e indo buscar uns resquícios de conhecimento sobre a dita língua, lhe iam explicando de modo a que alguma coisa fizesse algum mínimo sentido.
Mecanicamente ele ia repetindo as palavras, sem saber o que elas queriam dizer e que eram muito mais sons que verdadeiramente palavras.
As que ele mais gostava, perdoe-se-lhe eram: “Ite, missa est”.
Essas sim, ele sabia o que queriam dizer na sua tradução muito livre: “A missa acabou!”
Diziam-lhe que Jesus estava em todo o lado e era de todos e para todos, mas ele não percebia muito bem, porque é que Jesus estando assim em todo o lado, não se fazia entender na linguagem de cada um.
Ah! É que a Sua linguagem era a linguagem do amor, e por isso, linguagem universal, mas mesmo assim ele continuava a pensar que seria melhor se conseguisse entender o que diziam, porque talvez assim fossem mais interessantes aquelas cerimónias.
Parecia-lhe que era tudo muito misterioso, que talvez não quisessem que ele entendesse.
O tempo foi passando e cada vez era mais difícil convencê-lo a participar nas cerimónias religiosas e no seu pensamento uma certeza foi tomando corpo: quando eu puder decidir não venho mais à igreja.
Mais uns anos passaram e de repente tudo mudou, o sacerdote já se voltava para as pessoas, já não trazia todos aqueles “adereços” e melhor que tudo, já falava a língua de cada um.
Infelizmente o pensamento que se vinha desenvolvendo na sua cabeça tinha-se tornado em decisão, não só por todas as razões apontadas, mas também porque o comodismo e o desinteresse eram muitos.
Deixou-se então levar pelo mundo, era ali que estavam as certezas, era ali que estavam as alegrias e os prazeres, era ali que ele podia fazer o que lhe apetecesse e, pensava ele, guiar o seu próprio destino.
E os anos foram passando e nada de novo surgia, a vida parecia-lhe sempre igual, com muitos prazeres, cada vez mais curtos, e a certeza de que afinal, fizesse ele aquilo que fizesse, nada se modificava em relação à vida propriamente dita.
Não tinha um conceito de felicidade, não possuía uma razão forte para viver, parecia-lhe aliás que tudo o que fazia, se lhe trazia por vezes um prazer momentâneo, acabava por se transformar em mais desencanto, em mais tristeza, em mais frustração.
Que sentido tinha um ser tão perfeito como o homem, morrer e ficar transformado em pó, sem mais nada para além disso.
Tantos anos já passados, o tempo de criança e adolescente já tão longe e ele sem sentido para a vida, perdido no mundo que ele próprio tinha escolhido.
“In illo tempore...”, lembrava-se que naquele tempo em que ouvia essa frase havia mais qualquer coisa que ele não sabia definir, que os seus pais viviam intensamente a religião e ela lhes dava uma paz e um modo de proceder diferente de muitos outros, lembrava-se sobretudo que não os preocupava a morte, porque para eles depois da morte seria ainda melhor.
Começou a ir à igreja, sobretudo quando não estava lá ninguém, e deixava-se ali ficar sentado, muitas vezes a recordar a sua vida e a envergonhar-se de tantas coisas erradas que tinha feito, erradas ali naquele lugar, porque para o mundo uma grande parte delas eram perfeitamente aceites e até elogiadas.
Não sabia o que se passava, mas naquele lugar algo falava ao seu coração, algo o fazia sentir que a vida que tinha levado, não o levava a nenhum lado, não tinha sentido e nada acrescentava ao seu ser.
Começou também a “frequentar” a missa, fazendo-se passar despercebido, com medo que lhe dissessem que ele não tinha nada que estar ali.
As memórias regressavam e as coisas que ele tinha aprendido na catequese vinham ao seu pensamento.
Lembrava-se de que lhe tinham dito que Jesus, (que era Deus apesar de também ser homem, ou o contrário, não sabia bem), estava em todo o lado e que amava todos os homens.
Ali na igreja parecia-lhe que tudo fazia sentido, pois se Jesus era Deus e nos tinha criado a todos, era lógico que nos amava a todos e que sendo Deus podia estar em todo o lado, ao mesmo tempo.
Sentiu-se reconfortado com esta idéia que ia tomando conta de si.
Tenho de saber mais, tenho de conhecer mais, decidiu ele na sua mente, mas ao mesmo tempo ouviu, (assim lhe parecia), no seu coração uma voz que lhe dizia: “Não só conhecer e saber mais, mas sobretudo viver mais o que já sabes”.
Veio à sua cabeça uma frase já tão batida, mas que lhe deu vontade de rir, porque a mesma se aplicava perfeitamente à situação: “Seja o que Deus quiser”.
Procurou então um sacerdote a quem expôs as suas dúvidas, as suas incertezas.
Com uma paciência inigualável e sobretudo com entendimento e ternura, o sacerdote foi-o colocando perante aquilo que em criança tinha aprendido fazendo-o perceber que a vida que tinha vivido, tinha sido sempre de costas voltadas para Deus, que tinha afastado Deus da sua vida, por sua própria vontade.
Então perguntou: “E agora perante tudo o que tinha feito, como era possível Deus perdoar-lhe”?
O sacerdote só lhe respondeu: “Porque é Deus, porque te criou e te ama, como só Deus pode amar”.
De cabeça baixa confessou a sua vida de pecado e como um milagre, uma paz intensa, uma ternura perfeita, um amor calmo, tomou conta do seu coração.
Os seus olhos começaram a chorar, umas lágrimas calmas de felicidade e alegria.
Pensou então: “Tirei-te da minha vida tanto tempo Senhor, que agora quero viver o resto que me deres a falar de Ti”.
Percebeu até, que a sua vida passada tinha utilidade: Serviria para testemunhar que a mesma não levava a nada e que só com Deus a vida tem sentido.
Não lhe poderiam dizer que ele não sabia o que era o mundo, porque ele o tinha vivido intensamente e sabia bem agora, que só com Cristo o mundo era uma obra maravilhosa, que vivida no amor, nos leva a uma vida ainda melhor e para sempre.
Afinal, “In illo tempore” ou “Naquele tempo”, era exactamente igual, porque Jesus era o mesmo ontem, hoje, sempre, e sempre estaria em todo o lado, em todo o tempo, falando ao coração de cada um a linguagem do coração, a linguagem do amor.
Era um tempo novo para ele, o dia ou o mês não interessavam, porque Jesus lhe dava um Ano Novo para a sua vida, um Ano Novo sem nunca ter fim.


_____
Depois de escrever este "conto", li-o calmamente, e apercebi-me então, que de uma maneira muito simples, estava aqui a história da minha vida.
Um Bom Ano para todos os que me visitam, sobretudo um Ano com Jesus Cristo, para que seja um Ano sem fim.

3 comentários:

J disse...

Joaquim,

Este post, deixou-me muito contente, gostei muito de Ver Cristo nas suas palavras, e ver a vida que tantas vezes levamos, afastados d´Ele julgando que sozinhos vamos mais longe, mas a Vida sem Cristo não faz sentido.

Gosto tanto de ler o que escreve!

Um grande beijinho e votos de um bom Ano com Cristo sempre presente

joaquim disse...

Joana
Obrigado~.
Muitas vezes andamos convencidos que sabemos tudo e que dominamos tudo, para depois nos apercebermos, muitas vezes com sofrimento para nós, que afinal aquilo que sabemos e vivemos sózinhos, não nos leva a lado nenhum.
Só em Cristo, na totalidade do nosso ser a vida tem sentido.
Bom Ano Joana, com Cristo no teu coração.

Diogo Taveira+ disse...

Joaquim,
Entendi a tua mensagem. Lá está, como te disse, a moderação. Se por vezes queremos a beleza do Latim, temos direito a tê-la. De resto, existem uns problemas com o Missal de Paulo VI que foram arranjados com a última reforma litúrgica, mas que não se adaptaram a todo o mundo, por comodismo das Conferências Episcopais.
Como dizes, é tudo igual, e a Igreja tem espaço para todos.
Desejo-te um excelente 2007, cada vez mais caminhando e levando os outros a Cristo,
um abraço em Cristo, do amigo Diogo