segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

MEA CULPA, MEA CULPA

Sinto-me envergonhado!
A estratégia foi bem montada e nós caímos nela.
Era preciso a todo o custo afastar a Igreja da campanha para o Referendo ao aborto.
Era preciso calar a Igreja.
É tão extraordinário que conseguiram convencer-nos, (convencer-me), que era melhor não utilizar argumentos de Fé, da Doutrina, que era melhor os Bispos e os Padres não falarem, porque isso correria a favor do sim.
E nós caímos na armadilha.
Começou com o nosso Cardeal Patriarca, que animado das melhores intenções, veio dizer que este não era um assunto de religião.
E o que se entendeu foi: “Este não é um assunto de Deus, este não é um assunto de Fé, este não é um assunto de Doutrina”.
Como se se tratasse de um partido politico, a indicação foi entendida, como “liberdade de voto”, e que essa “liberdade” estaria de acordo com a Doutrina.
Veio depois explicar que tinha sido mal entendido, que não era isso que queria dizer, (e sabemos que não era), mas o “mal” estava feito e as forças do sim aproveitaram-no em toda a sua extensão.
Alguns de nós esboçaram palavras, escritos, atitudes, acções, mas logo vieram outros, (tantos do lado do não), dizer: “Cuidado, se metemos a religião “nisto”, perdemos de certeza”!
E no segredo das igrejas, das casas, ia-se rezando para que Deus fizesse aquilo que os Cristãos Católicos, não queriam? fazer, ou não faziam.
Por um lado dizíamos: “Senhor afasta-Te deste assunto porque se não perdemos a votação; por outro dizíamos: ajuda Senhor mas não “dês nas vistas”!
Aqueles, que afirmando-se católicos iam fazendo campanha pelo sim, (até um Padre, “dissidente” da Doutrina da Igreja, com “timing” perfeitamente escolhido), apareciam nas noticias, davam testemunhos, afirmavam a “sua fé”, e iam convencendo aqueles que não estavam bem seguros da Doutrina, das suas convicções.
Nós íamo-nos calando, timidamente dizíamos que isso não era verdade, que Deus era o Criador e por isso a vida Lhe pertencia, mas “aconselhados” a não fazermos “muito barulho”, porque nos faria perder votos, desistíamos e tentávamos arranjar argumentos humanos, para defender a vida que a Deus pertence.
Até a Misericórdia de Deus, foi usada como “apoiante” do sim e nós não fomos capazes de dizer, de explicar, que a Misericórdia de Deus é para o pecador arrependido e não para o pecado e aqueles que deliberadamente, conscientemente, pecam e fazem pecar, a não ser que também eles se arrependam verdadeiramente, com propósito de emenda.
Ah, pois, as coisas não são assim tão simples, dirão os “teólogos”, (que os há ao virar de cada esquina), mas a verdade é que Deus é isso mesmo: simplicidade e transparência.
Ele disse-nos claramente, muito claramente: «Mas ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo.» Act 1, 8
E os confins do mundo serão a Europa, Portugal, e nós não fomos testemunhas, não testemunhámos que o nosso Deus é o Senhor da vida e da morte, que o nosso Deus nasceu de mulher e também foi, “zigoto”, “embrião”, “feto”, ou aquilo que Lhe queiram chamar.
Até nos disseram, que o sim é que era bom, porque Maria também tinha decidido.
Pois Maria decidiu, (ouviu Frei Bento Domingues), mas decidiu que queria ser Mãe antes da concepção, e não depois de já ter o Filho em Si.

Estou envergonhado e peço perdão a Deus.

«Senhor, Tu confiaste em mim.
Deste-me a graça da Fé, do Teu Amor.
Derramaste em mim o Teu Espírito Santo, e eu não O ouvi, não O deixei actuar em mim e fazer de mim Tua testemunha.
Perdão Senhor.
Nas Tuas mãos Pai, no Teu Coração Jesus, coloco todas as crianças que não vão nascer, porque eu não fui capaz de testemunhar o Teu Amor por nós, a Tua Verdade Criadora, o Teu Senhorio sobre a vida e a morte.»

12 comentários:

Maria João disse...

Não se recrimina tanto, Joaquim. A vida intra-uterina prova-se cientificamente. Não olharam para a questão da vida do filho, porque não quiseram.

Claro que houve excessos da Igreja. Mas também houve do Sim, do Não, dos partidos... Enfim, estamos perante uma questão polémica. Com isto não estou a justificar certos excessos, mas sabemos que os há em todas as campanhas.

Quanto à questão da Igreja... Houve pessoas dentro da Igreja que disseram coisas que não deviam, é verdade, mas também é verdade que a Igreja esteve mais metida nisto tudo por causa do empolamento que foi dado pelo Sim à questão religiosa, pelos católicos que votaram Sim, pela maioria da comunicação social que não soube ser isenta.

Muito trabalho há pela frente. Agora ainda mais.

Que Deus nos ajude.

Força. Um abraço em Cristo

Leonor disse...

Estou profundamente desiludida e triste.
Que mau exemplo para os nossos filhos a noite de ontem, que mau exemplo...

joaquim disse...

Carissima Maria João

A recriminação ou melhor, a culpa que sinto por não ter sido mais testemunha do que fui, por não ter insistido mais para que a Igreja Católica fosse mais interveniente, com toda a sua sabedoria, acaba no momento em que perante Deus reconheço as minhas faltas, e me deixo envolver no Seu perdão.

Em meu entender a Igreja, (que eu também sou), tinha a obrigação, o dever, de se ter envolvido mais, sobretudo na Catequese àqueles que esperavam uma palavra mais clara, mais transparente da parte dos seus Pastores.
Em vez disso, receberam muitas vezes, artigos de opinião daqueles para quem o orgulho da sua "sabedoria", fala mais alto do que a Doutrina que um dia se comprometeram a acolher e viver em toda a sua vida de consagrados, de ordenados.
Mas isso é para cada um fazer a sua reflexão.
A comunicação social conhecemo-la, por isso, mais uma razão para dela desconfiarmos.
Como muito bem dizes, há muito trabalho pela frente.
que Deus nos ajude e ilumine, sobretudo a educar os nossos jovens, para que eles um dia mudem aquilo que os seus pais agora não conseguiram.
Obrigado pelo teu abraço.
Recebe também um meu em Jesus Cristo

joaquim disse...

Querida Leonor, sobrinha muito querida.
Compete-nos a educação dos nossos filhos, para que entendam que a vida é de Deus, que é o maior bem a preservar, e que só tem sentido vivida no amor que Deus derrama em cada um de nós.
Que a nossa tristeza se converta na alegria de sabermos que Jesus está sempre connosco e que é sempre vitorioso, que a vida é sempre vitoriosa, mesmo que por vezes pareça que não.
Um grande beijo para todos vós.

Ver para crer disse...

Quem fez o que tinha a fazer não tem que ficar triste e desiludido.
Anunciámos o valor da vida e isso penso que não vai cair em saco roto.
Um abraço a todos.

joaquim disse...

Caro Ver para Crer

Não é para mim uma questão de tristeza, ou desilusão, mas a certeza de que podiamos ter feito mais e sobretudo que nos, (Igreja Católica, nela compreendidos obviamente os cristãos católicos), deixámos envolver numa estratégia do "politicamente correcto" e não afirmámos a nossa Fé, nem esclarecemos verdadeiramente a Doutrina que professamos.
Estarei enganado, mas é esse o meu sentimento.
Claro que anunciámos a vida, mas perdemo-nos muitas vezes em discussões estéreis que não levavam a nada,
sobretudo porque, acho eu, não esclareçemos claramente aqueles que esperavam da Igreja, que somos todos nós, uma palavra serena mas firme sobre a pureza e verdade da Doutrina.
Sinto, por isso, que podia ter feito mais e podia ter exigido mais da minha/nossa Igreja.
Estarei errado, mas quero ser sincero comigo e com os outros e sobretudo reconhecer isso mesmo perante o Senhor da Vida.
Obrigado pelas tuas palavras.
Já agora e desculpa a intromissão na tua esfera privada, não era mais bonito podermos chamar-te João, Manuel, ou qualquer outro nome que escolhesses para te identificar...
Abraço em Cristo

sedente disse...

Sinto o mesmo...
Kyrie eleison!
abrç+

joaquim disse...

Caro sedente

Obrigado pela visita e pela "companhia".

Abraço em Cristo

João P. Noronha disse...

Aqui, na minha Diocese, o Sr. Bispo e todos Sacerdotes, especialmente os mais jovens, foram inexcedíveis.

Existem muitos lobos com pele de pastor, mas nunca nos faltarão verdadeiros pastores.

E, entre os leigos, muitos se envolveram nesta campanha, apesar de não terem qualquer experiência nestas coisas, e sem olharem a sacrifícios.

Apesar do resultado do Referendo, esta campanha encheu-me de alegria e esperança no futuro. É muito o trabalho que agora é preciso fazer, mas existem muitos operários que estão dispostos a por as mãos à obra.

Dou Graças a Deus.

joaquim disse...

Caro João
Não tenho dúvidas disso, que deve ter acontecido em mais Dioceses no País, creio eu.
Já me falaram em relação ao Renovamento Carismático, em que caminho, como sabes, no Bispo de Setúbal como um homem de acção e decisão.
Ainda bem que assim é.
A minha mágoa, que já não o é, «Corações ao Alto», é, em meu entender, de um modo geral termos "permitido" que nos "pressionassem" e quase conseguissem calar o nosso testemunho de cristãos católicos.
Mas concordo contigo que muitos se revelaram e empenharam na luta, sobretudo leigos.
Penso ainda que a Igreja, que somos todos nós, tem que ser mais interveniente, sobretudo a esclarecer os crentes, quando surgem vozes dentro dela "ao arrepio" da Doutrina, tanto mais que a maior parte deles têm "púlpito" na comunicação social.
Obrigado pelas tuas palavras e o teu ânimo.
Abraço em Cristo

s.p. disse...

Caro joaquim, vou-lhe dizer que também eu me senti e sinto um pouco chocado, mas não era nada que não estivesse á espera...sinto que ando todo o ano a lutar pela vida e de um momento para o outro se escolhe a morte...mas depois de tudo isto há sempre coisas boas e coisas más, deixe-me apontar-lhe aqui algumas coisas boas:
1) Não me dei conta ( espero não estar errado) de ninguém que defendesse o não a ofender directamente alguém, como o fez o Senhor Louçã que deu os parabens aos católicos-ele apenas quis "picar"...mas desconheço se há algum pico que só tenha uma ponta...
2)Concordo perfeitamente com o Senhor Marcelo Rebelo de Sousa quando ele disse que os movimentos civicos que defenderam o não eram compostos por leigos, e esta é a hora dos leigos, logo os frutos hão-de vir...importante é semear...e os leigos deixaram bem presente que a Igreja está bem viva...
3) Agora aparecem a dizer, ou melhor a contradizer o que diziam na campanha os que defendiam o sim...afinal é mesmo de liberalização que se trata...
4) Sou padre...e eu penso que só temos um dever a fazer...continuar a trabalhar a e lutar pela vida...a vida é um risco que é preciso correr...cada dia que passa nós corremos muitos riscos...até parados em casa estamos a correr riscos...cruzar os braços? desistir? Não. Acredito muito que Deus é meu, seu e Pai de todos, e como disse aqui há uns domingos atrás, se Deus é Pai e é o comandante deste barco...não há que ter medo, apesar das ondas, dos ventos e das tempestades só precisamos de confiar muito NELE e continuarmos a lutar...
Um abraço...

joaquim disse...

Caro s.p., amigo Padre

Obrigado do coração pelas suas palavras.
Também, como já aqui disse nos comentários, penso que apesar de tudo houve um grande empenho dos leigos e também de Sacerdotes e Bispos nesta luta pela vida e isso é sempre bom.
Repito que é preciso que a hierarquia esclareça os fiéis sobre as intervenções daqueles que escrevem as suas próprias teorias e apenas baralham e dividem, tudo com serenidade, mas com a firmeza que Jesus Cristo empregaria com certeza.
Pegando na imagem do barco, acredito, (ao fim de muitos anos em que o meu barco andou à deriva), que o Senhor vai sentado à proa do meu barco, do seu, do de todos nós, e que por vezes via a dormir, o que me obriga a cada vez mais confiar no Seu amor por todos nós.
Lutemos para que todos tenham vida e a «tenham em abundância».
Abraço em Cristo