quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

«PEGA NO TEU CATRE E ANDA»

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Evangelho segundo S. Marcos 2,1-12.

Quando Jesus entrou de novo em Cafarnaúm e se soube que estava em casa,
Juntou-se tanta gente que nem mesmo à volta da porta havia lugar, e anunciava-lhes a Palavra.
Vieram, então, trazer-lhe um paralítico, transportado por quatro homens.
Como não podiam aproximar-se por causa da multidão, descobriram o tecto no sítio onde Ele estava, fizeram uma abertura e desceram o catre em que jazia o paralítico.
Vendo Jesus a fé daqueles homens, disse ao paralítico: «Filho, os teus pecados estão perdoados.»
Ora estavam lá sentados alguns doutores da Lei que discorriam em seus corações:
«Porque fala este assim? Blasfema! Quem pode perdoar pecados senão Deus?»
Jesus percebeu logo, em seu íntimo, que eles assim discorriam; e disse-lhes: «Porque discorreis assim em vossos corações?
Que é mais fácil? Dizer ao paralítico: 'Os teus pecados estão perdoados’, ou dizer: 'Levanta-te, pega no teu catre e anda’?
Pois bem, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder para perdoar os pecados,
Eu te ordeno disse ao paralítico: levanta-te, pega no teu catre e vai para tua casa.»
Ele levantou-se e, pegando logo no catre, saiu à vista de todos, de modo que todos se maravilhavam e glorificavam a Deus, dizendo: «Nunca vimos coisa assim!»



No Domingo passado foi-nos dado ler e meditar nesta passagem tão conhecida do Evangelho de São Marcos, que nos é referida também em São Mateus (Mt 9, 1-8), em São Lucas (Lc 5, 17-26) e, de uma forma diferente, em São João (Jo 5, 1-18).

Procurando algo mais do que tudo aquilo que eu já tinha reflectido e meditado nesta passagem, (porque a Palavra de Deus é viva e sempre nova), detive-me no pormenor do “catre”, e no facto de Jesus dizer àquele homem para levar o “catre” consigo.

Em Marcos três vezes é feita menção à ordem de Jesus «pega no teu catre e anda», em Mateus apenas uma vez, em Lucas duas vezes e em João nada menos do que cinco vezes.

Fiquei a meditar no que queria dizer para mim, para a minha vida, este pormenor tantas vezes repetido nestes Evangelhos?

O “catre” significou então para mim, não só os pecados daquele homem, mas também aquilo que o prendia e não o deixava andar, falando espiritualmente, claro.

O “catre” era assim também o passado daquele homem, um passado de pecado e paralisia que não o deixava ser verdadeiramente livre.

Porquê então a necessidade de, depois de curado, levar consigo o “catre” e “andar”?

Deus não quer apagar o nosso passado, nem nós devemos querer apagar o nosso passado, ou tentar fazer que ele deixe de existir.
O nosso passado, com o que teve de bom, mas também com o que teve de mau, faz parte de nós e não o podemos apagar, porque a nossa vida seria então incompleta.
O nosso passado deve então ser vivido como um ensinamento permanente daquilo que fizemos bem e tudo aquilo que devemos evitar porque fizemos mal.
Pela graça de Deus, «os teus pecados estão perdoados», o nosso passado está perdoado, mas não deixa de fazer parte da nossa vida, apenas que, pelo perdão de Deus, já não nos magoa, já nem sequer nos deve envergonhar, mas apenas ser uma memória que nos ensina o que evitar para não voltar a pecar.

Sei, por experiência própria, o que é viver isto mesmo que agora aqui reflicto.

Com efeito, nos muitos anos em que andei afastado de Deus, da Fé, da Igreja, também “ganhei” um “catre”, um pesado “catre”, que não me deixava ser livre, que não me deixava caminhar na vida ao encontro de Deus, o Único que nos dá a vida completa, a «vida em abundância», e que nos faz inteiramente livres.
Durante algum tempo foi muito difícil carregar o “catre”, porque ele pesava muito, e por isso eu queria deixá-lo, queria apagá-lo da minha vida.
E pedi muito a Deus que me ajudasse a esquecê-lo, que me ajudasse a libertar dele, para que me sentisse livre para caminhar.

Até que um dia, em adoração e suplicando mais uma vez a graça de me ver livre do meu “catre”, percebi intimamente, por graça de Deus, que eu só poderia ser livre quando aceitasse o meu “catre” com tudo aquilo que ele tinha de mau, mas aceitando-o com a certeza de que ele já não me poderia pesar, pois Deus no Seu perdão, o tinha aliviado desse peso do pecado.
Mas mais do que isso, teria de o carregar, já não como um peso, mas como um ensinamento de tudo o que deveria evitar na minha vida, para não mais paralisar a minha caminhada.
E mais ainda, que esse “catre” deveria servir também para eu dar testemunho a outros, de como o perdão de Deus é infinito, como o encontro pessoal com Ele muda as nossas vidas, e como não há nada que Deus não perdoe, perante o nosso sincero arrependimento.

Percebi então como era importante aquele homem, nós homens, transportarmos os nossos “catres”: nós somos um todo com o nosso passado, com o nosso presente, com o nosso futuro.
Mesmo quando no passado, por qualquer razão nos afastámos de Deus, Ele não deixou de nos amar, de estar connosco, e até de carregar o nosso “catre” connosco.

Perdoados os pecados, ficamos curados da paralisia espiritual e podemos então caminhar livres, com tudo aquilo que fomos e somos, pois o “catre” já não nos pesa, pela graça do perdão de Deus.


Marinha Grande, 22 de Fevereiro de 2012
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16 comentários:

ontiano disse...

O 'catre' de cada um é, sem dúvida o lastro das suas faltas, fraquezas e cedências. É verdade!
Jazer ali, paralítico, sem acção, entregue a um conformismo sem esperança é o que, infelizmente, se torna cada vez mais comum.
Que todos esses nos vejam carregar o nosso 'catre' não como um símbolo de queda e derrota mas como uma imagem de conquista e vitória.
Bem hajas pelo teu belo comentário.

concha disse...

Amigo Joaquim
Muito obrigada pela explicação e também muito obrigada pelo modo sincero como te assumes.
Em alguma altura das nossas vidas fomos paralíticos, só nos falta sermos capazes de olhar o passado sempre como uma oportunidade de sermos perdoados e de seguirmos em frente confiantes na única certeza que temos, que é Jesus no nosso caminho com todo o amor que tem para nos oferecer.
Um abraço com a Paz de Cristo neste Tempo de Quaresma.

joaquim disse...

Obrigado António, pelas palavras, pelo comentário.

Um abraço amigo em Cristo

joaquim disse...

Obrigado Concha.

É verdade!

Mesmo ainda hoje por vezes nos deixamos "paralisar" pelo pecado.

Mas Ele está sempre connosco e ajuda-nos a levar o nosso "catre".

Um abraço amigo em Cristo

concha disse...

Amigo Joaquim
Obrigada pelas tuas palavras.Ainda hoje me deixo "paralisar " pelo pecado e muito.Só que faço sempre a distinção entre um antes de voltar à igreja e um depois, o que não quer dizer que agora seja menos pecadora,o que acontece é que a consciência do erro pesa mais.
Abraço na Paz nesta sexta-feira de cinzas

joaquim disse...

Amiga Concha, não tens que agradecer.

É verdade, à medida que caminhamos vamos descobrindo as nossas fraquezas.

É Ele que no-las vai mostrando para que o caminho se vá "endireitando".

Um abraço amigo em Cristo

C.M. disse...

Obrigado, caro Amigo, pela sua reflexão. Também carrego comigo um grande "catre"... todavia, e apesar do que diz, bem que gostaria de o poder queimar... ou de nunca o ter tido...

joaquim disse...

Meu caro amigo

Obrigado pelas suas palavras.

Permita-me que lhe diga, que tenha o seu "catre" aquilo que tiver, é sempre mais pequeno que o amor de Deus e o seu perdão.

Garanto-lhe que o meu tinha um peso insuportável e pela graça de Deus aceitei-o, aceito-o, e já não me pesa.
Faz aliás parte de mim e serve-me muitas vezes de testemunho, sobretudo quando falo com os jovens, mas também com os adultos.

Acredite, meu amigo, que ao pedir a Deus, Ele retirará o peso do seu "catre" para o poder viver como uma etapa da sua vida.

Perdoe-me os conselhos, que são expressão da minha amizade.

Um abraço amigo em Cristo

Paulo disse...

Se bem que catre tenha a ver mais com uma cama de viagem ou cama pobre, no teu cotexto, este texto enquadrasse muito bem. Todos nós temos o nosso, aliás, como "cama de viagem" todos estamos de passagem, nesta viagem.

malu disse...

Embora saiba que como à Concha tb me vás dizer que não tenho nada que agradecer, faço-o, pois que nesse amor Lhe tens é que em tudo o podes ver tão nitidamente. E não há graça que Lhe peça tanto como a de O amar assim. Obrigada!

Depois do Macaréu venha lá então o catre e sei lá o que mais nos vais arranjar... Bem hajas.

Abraço em Cristo e Maria.

malu disse...

corrijo: "nesse amor que Lhe tens é que..." - faltava um "que". Desculpa.

joaquim disse...

Caro Paulo, obrigado.

Como sabes o termo "catre" é o utilizado por São Marcos e São Mateus.
Já São Lucas e São João utilizam o termo "enxerga".

Em ambos os casos o termo significa como que uma "maca" em que o paralitico está deitado, porque não se pode mover.

Está assim indelevelmente ligado à sua doença, motivo pelo qual a reflexão, em termos espirituais, nos leva a perceber que é importante levarmos o nosso "catre" para que não esqueçamos a doença que nos afectou, mas de modo a que "ela" não constitua um peso, mas um ensinamento para o caminho.

E, claro, estamos sempre em viagem como muito bem dizes.

Um abraço amigo em Cristo

joaquim disse...

Obrigado Malu, e está bem, não digo a mesma coisa...eheheh

Só que não sou eu que "vejo" mas Ele que me mostra quando a Ele me abro e O deixo dispôr de mim.

Um abraço amigo em Cristo

joaquim disse...

Obrigado ainda pela correcção, mas que eu já tinha percebido.

Filha de Maria disse...

Pega na tua miséria e caminha... caminha até JESUS.

Não podemos paralisar diante da dor, do sofrimento, do medo, da humilhação, etc...

É preciso caminhar, continuamente. Se caio, levanto-me e se me levanto, caminho...

Abraço fraterno amigo Joaquim

joaquim disse...

Obrigado "Filha de Maria", pelo teu comentário.

Um abraço amigo em Cristo