segunda-feira, 26 de julho de 2010

A PARTILHA FRATERNAL

.
.
Na semana passada vi algo na televisão que muito me incomodou.
Tratava-se de um reportagem realizada numa paróquia do Norte de Portugal, em que as pessoas protestavam pela mudança e consequente saída do seu pároco, fruto de uma decisão que a todo o tempo os Bispos têm de tomar, obviamente, para uma melhor organização das Igrejas locais.

Aquela gente que protestava, eram, supostamente, cristãos fiéis, de prática cristã activa, de Missa Dominical, de vivência da fé.
Gente portanto, cujo testemunho devia ser exemplo para os outros, devia ser testemunho de paz, de alegria, de aceitação, de entrega.

Nada mais contrário, infelizmente, pois alguns rostos expressavam rancor, violência, quase ódio e as expressões utilizadas confirmavam isso mesmo.
O testemunho que estava a ser dado era exactamente o contrário do verdadeiro testemunho cristão.

Claro que as pessoas até podem não concordar com uma decisão do seu Bispo, e podem manifestá-la no sítio certo, ou seja, pedindo para serem recebidas e ordeiramente explicarem as suas razões.
Devem no entanto estar preparadas para as mudanças necessárias nas suas paróquias, não só como melhoria de organização da Igreja local, mas também porque a missão do sacerdote, para além de ser de disponibilidade total, deve ter sempre novos desafios que o levem a uma maior e empenhada vivência da fé, e também ao descobrir de novos caminhos na proclamação da Palavra, no anúncio da Boa Nova.

Sabemos que quando temos missões de responsabilidade na condução dos homens, (seja na vida religiosa, seja na vida social civil), se ficamos muito tempo no mesmo lugar, tendemos a entrar na rotina, a adormecermos sobre os caminhos conquistados, e assim todas as conquistas alcançadas, não são mais do que conquistas repetidas, que não provocam novas vivências, novos empenhos, novas alegrias.

Ser Igreja é também mais dar do que receber.
Ora se sentimos o nosso pároco como um bem para nós, alguém de quem muito gostamos e queremos, que belo e cristão será proporcionarmos que outros o possam conhecer e dele receberem os talentos e dons que Deus lhe concedeu.

Não será esta uma partilha fraternal, que nos faz mais unidos, mais Igreja?
Não será bem mais belo e cristão, fazermos uma linda festa de homenagem e despedida àquele de quem tanto gostamos, e juntos, em alegria, irmos acompanhá-lo à sua nova missão?
Que seria da cristandade se as comunidades que Paulo visitava e com as quais ficava, o retivessem e não deixassem sair em missão para outras comunidades?

Na minha paróquia estamos neste momento a passar por uma fase semelhante, e o nosso pároco que connosco está há treze anos, e é por todos amado e querido, bem como o vigário paroquial, estão de saída para novas missões e a paróquia está a organizar em alegria e paz, um jantar de despedida, em que, acolhendo a todos, também queremos acolher representantes das novas comunidades onde eles vão passar a exercer o seu sacerdócio.

Verdade seja dita que, julgo eu, estas manifestações têm também muito a ver com a reacção dos próprios sacerdotes à sua saída das paróquias, e também ao modo como transmitem esses factos ao povo crente.
Se recebem a notícia com espírito de missão e aceitação, por muito que lhes custe, (são humanos como todos nós), transmitirão aos seus paroquianos uma imagem de paz, de aceitação firme e pessoal e até de alegria pela nova missão que lhes é confiada.
Logicamente uma tal maneira de anunciar a sua saída de pároco, coloca imediatamente de lado toda e qualquer manifestação que não seja de concordância, e, embora revestido de tristeza, esse acontecimento, pode e torna-se com certeza num momento de unidade, alegria e partilha fraternal, assim entendida como acima escrevo.

Peço ao Pai e ao Filho que derramem o Espírito Santo sobre estes sacerdotes, e sobre nós fiéis, para que tenhamos sempre na mente e no coração o primeiro mandamento, «amar a Deus acima de todas as coisas», bem como o testemunho de unidade cristã à volta dos nossos Bispos e Sacerdotes, na procura da certeza de que só unidos e disponíveis uns para os outros é que podemos realizar a Palavra de Deus:
«Louvavam a Deus e tinham a simpatia de todo o povo. E o Senhor aumentava, todos os dias, o número dos que tinham entrado no caminho da salvação» Act 2,47


Monte Real, 26 de Julho de 2010
.
.

10 comentários:

ontiano disse...

Não posso estar mais de acordo com o que escreves. Parece-me, de facto, que uma parte muito importante destas tristes ocorrências poderá advir do próprio Pároco tendo a estrita obrigação de obediência ao seu Bispo, deveria informar os seus paroquianos como fazer e reagir em situações semelhantes.

concha disse...

Amigo Joaquim
Também aqui o pároco está de saída e já cá estava há dez anos.Vi as imagens dessa situação no Norte e confesso que fiquei triste, porque independentemente de o padre dever apaziguar os ânimos,demonstrando aceitação das ordens superiores,a imagem transmitida pela televisão não deixa de ser uma amostragem de um certo modo de estar em igreja que revela falta de formação.
Aquelas pessoas e tantas outras por esse país fora serão responsáveis por algumas das atitudes que muitos d enós viram?
Um abraço na Paz com votos de boas férias

Canela disse...

Amigo Joaquim;

Não podia estar mais de acordo!

Em tudo o que vi e ouvi... fui apreciando gestos, olhares e palavras... um leigo dizia: "o Sr. Padre ajudou-nos a ter mais fé..." - e eu pergunto-me, em quem? Em N. Senhor Jesus Cristo, ou na imagem do Padre?

Em tudo isto vejo amor á pessoa do padre, e é bonito... mas torna-se doentio.

Conheço alguns Sacerdotes, por quem tenho um especial carinho, por tudo o que fizeram por mim, rezando, ensinando, ouvindo, encorajando... mas o que fizeram verdadeiramente "grande" por mim, foi ajudarem-me a viver Cristo Vivo e Ressuscitado e isso ... não terá preço algum....

No dia em que receber a noticia de que eles irão para longe, sei que chorarei... mas dir-lhes-ei: "É hora de O levarem mais longe, a outros...e obrigada pelo que fizeram por mim." - E rezarei por eles sempre, e essa é a forma mais correcta de agradecer a um Padre!

Beijinho fraterno!

P.s: Agradeço e retribuo a Avé-Maria... :)

DE MÃOS DADAS disse...

Joaquim
Também vi essa noticia.
Não vou criticar nem paroquianos nem padres... quem sou eu?

Apenas penso que as mudanças fazem medo sabes?

Mudar é acolher o desconhecido tanto para o padre como para os paroquianos.

Mas a fé é outra coisa,é saber que Jesus é sempre o mesmo e está sempre para nós... é entregar o passado, viver o presente e confiar no fúturo e na iternidade.

É ter talvez um pouquinho de caridade para com o paroco que vier e ajudar o que vai partir sem muitas complicações.

Um luto é dificil de fazer
Mas com a ajuda de Deus tudo se arranja.
Com um grande abraço
Utilia

joaquim disse...

Obrigado António, meu irmão.

Claro que o modo como o "guia espiritual" de uma comunidade comunica uma decisão deste tipo, tem muita influência no proceder dessa comunidade.

Graças a Deus que o bom senso, ou melhor o senso cristão, acaba por vir ao de cima e tudo será pacifico ao que sabemos.


Um abraço amigo em Cristo

joaquim disse...

Amiga Concha

Deviamos sempre lembrar-mo-nos do testemunho que damos, porque as televisões andam sempre à procura destas coisas para denegrir mais um pouco a Igreja e os cristãos.

Obrigado!

Um abraço amigo em Cristo

joaquim disse...

Amiga Canela

Obrigado!

Muitas vezes o problema é esse, ou seja, colocar a "fé" nas pessoas e não em Deus, agarrar-mo-nos às pessoas e não a Deus, por isso João Baptista dizia: «é preciso que eu diminua, para que Ele cresça».

Um abraço amigo em Cristo

joaquim disse...

Amiga Utilia

A critica construtiva é sempre caminho de crescimento.
Não se critica, ou não se deve criticar, apenas para dizer mal, mas sim para chamar a atenção de que certos modos de proceder estão errados.
E isso qualquer um de nós podemos fazer e aliás, fazemos todos os dias, aferindo o modo de proceder dos outros para percebermos o nosso próprio modo de proceder.


E é isso mesmo que dizes, ou seja, a fé dos cristãos é em Jesus Cristo e é Ele que sempre está connosco independentemente do pastor que nos envia.

É essa caridade de que falas, envolver em amor e amizade quem parte e receber em amor e amizade quem chega.

Obrigado!

Um abraço amigo em Cristo

Maria João disse...

Este tipo de reacções fizeram-me lembrar muitas outras manifestações que acontecem um pouco por todo o país, nomeadamente nas paróquais mais pequenas (seja nas cidades ou no Interior). As confusões que existem por se ter o padre X e não o Y, por ter havido a festa A e não a B ...

Quando olho para estes exemplos penso como é necessário relembrar que ser cristão não é nada disto. E, em muitas destas manifestações, ouve-se comentários que estão completamente longe da Palavra de Deus, como este exemplo que vos deixo!

Há uns anos, uma determinada população não gostava do pároco e por isso manifestou-se. O assunto foi à Televisão. O argumento de uma das paroquianas foi este:"Não gosto deste padre. Andava aí um toxicodependente e ele ajudou-o com os problemas que ele tinha. Então o padre dá-se com toxicodependentes?"

Não é querer condenar. Aliás quem sou eu. Mas, todos nós, devemos rever os nossos comportamentos e ver que imagem de Igreja (sim, somos Igreja) andamos a transmitir ...


beijos muito amigos em Cristo e Maria

joaquim disse...

Maria João, obrigado pelo teu comentário, que ajuda a compreender ainda mais a importância do testemunho cristão.

É que não é a Igreja no seu todo entendida que exclui, mas sim alguns, (quem sabe eu próprio), daqueles que dela fazem parte.

Um abraço amigo em Cristo