segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

CAMINHO DE CRESCIMENTO...

Alguém amigo, comentava há uns dias comigo, que não percebia porque é que no inicio da caminhada de fé, a oração era fácil, a alegria era sempre presente, as consolações eram muitas, o mundo, a vida, tudo lhe parecia tudo bom, e agora, passado um tempo, tornava-se difícil a oração, muitas vezes a tristeza atacava, em tantas coisas se deparava com o mal.
Às vezes quase apetecia desistir, porque a luta era muita, e se deixasse a vida prosseguir sem se preocupar com a comunhão com Deus e com os outros, tudo seria muito mais fácil.
Não entendia porque é que por causa de tudo isto, às vezes até se revoltava “contra” Deus!
Ao tentar responder a estas inquietações, foi-me inspirada a seguinte resposta que aqui deixo para reflexão.
O caminho de Deus é uma aprendizagem, com tudo o que implica aprender, desde a consolação, ao desânimo, passando muitas vezes por uma falta de acreditar em nós próprios, nos outros e até em Deus.
Quando uma criança nasce, é rodeada de carinho, de ternura, e tudo o que ela faz é objecto de compreensão, até de alegria, (até mesmo coisas que parecem “más”), ou seja, quantas vezes as mães não se alegram porque o bébé sujou as fraldas, o que é sinal que tudo está bem...
Assim o bébé é só consolações, tudo o que faz é bem aceite e fonte de alegria, está totalmente protegido para que nada de mal lhe aconteça. Tudo quanto sejam agressões ao seu bem estar são imediatamente afastadas porque a sua ligação/comunhão com os pais é total e permanente.
Mas depois começa a crescer e já se aventura a decidir algumas coisas por si só, sem atender àquilo que os pais lhe dizem, e começam as "dores", (porque mexeu no lume e se queimou), porque fez isto ou aquilo, e lá chegam também as primeiras reprimendas.
Continua a crescer e cada vez mais acha que já sabe tudo, há até um momento em que se quer afastar dos pais por achar que aquilo que lhe dizem não serve a sua vida.
Agora muitas vezes os erros são maiores e as suas consequências mais pesadas.
Por vezes sente um desejo enorme de se recolher nos braços dos pais, mas o orgulho e muitas vezes uma sensação de culpa, de vergonha, impede-o de o fazer, ou de ser inteiramente verdadeiro com eles, acatando aquilo que eles lhe dizem para o seu bem.
E a vida vai continuando e as coisas boas vão alternando com as menos boas e vai descobrindo que afinal as coisas que os pais lhe diziam eram coisas boas e até as vai ensinando aos seus filhos.
À medida que se vai aproximando da idade mais avançada vai-se dando conta de que tem de confiar naqueles que o amam e assim vai-se deixando conduzir, ajudar, e vai redescobrindo as alegrias e consolos de esperar e confiar em alguém que o ama verdadeiramente e o ajuda a viver a sua vida.
Claro que esta descrição é a de uma vida em termos gerais, que acontece, mais parecida ou menos parecida, com muitas pessoas.
Com certeza já reparaste na similitude daquilo que te quero dizer.
Nesta vida voltada para Deus, ao principio tudo são consolações, alegrias, descobertas, sentimo-nos protegidos, parece que nenhum mal nos pode acontecer e isso porque a nossa vida é então uma descoberta e é sobretudo uma oração constante, uma constante comunhão com Deus, na Eucaristia, na Confissão, na entrega, não queremos viver mais nada.
Em tudo O queremos encontrar, em tudo seguimos a Sua Palavra, o mal nada pode contra nós, e espantamo-nos como é possível que os outros não percebam esta maravilha, não queiram viver esta descoberta, esta vida cheia e plena.
Mas depois há que descer do Tabor!
É Ele mesmo que quer que comecemos a enfrentar a vida do dia a dia, que enfrentemos o mal que corre o mundo e então começamos a reparar em tanta coisa má que acontece e questionamo-nos, perguntamos-Lhe até: Como é possível, porque deixas isto acontecer!!!
E Ele na Sua bondade infinita vai-nos mostrando às vezes dolorosamente que não interfere na nossa liberdade e por isso aquilo que fazemos sem pensarmos tem as suas consequências.
É o tempo de crescimento, de percebermos que temos também a nossa parte para fazer, a nossa vida a construir.
Então por vezes o nosso arrebatamento já não é tão intenso, o nosso acreditar tão real, e assim isso reflecte-se na nossa entrega, na nossa oração, na nossa comunhão.
Ai as dores de crescimento!
Estou a ver os meus filhos a barafustarem quando mais pequenos começaram a comer a sopa com "coisinhas" como eles diziam, ou seja, com bocados de batata ou legumes...
Não queriam a sopa assim! Queriam-na sempre moída, mais fácil de comer, sem dar trabalho!
E nós também somos assim!
Antes a oração fluía, a alegria era constante, tudo era fácil e nós nem conseguíamos descortinar as coisas más, pois passavam-nos ao lado.
Mas agora, Santo Deus, parece que o mal nos entra pelos olhos adentro, parece que envolve a nossa vida, e temos dores e dificuldades e não conseguimos rezar, não queremos comer a sopa com "coisinhas"...
Mas Ele sabe que nós precisamos desse crescimento, para nos fortalecermos, para podermos enfrentar todas as dificuldades, contrariedades, provações que vão chegando conforme o mundo se torna mais egoísta e a nossa idade vai avançando e tornando mais penoso o nosso viver.
A Fé está lá, mas parece não querer dar sinais de vida, parece que o alimento que lhe damos não chega...
É o tempo de lutar, lutar contra nós próprios, lutar contar tudo aquilo que dentro de nós grita: Desiste, não vale a pena!
Lutar sempre! Se não consigo rezar o terço, digo apenas: Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim pecador!
E repito e volto a repetir sempre em todo o momento porque Ele me ouve, e sente a minha angústia, porque Ele não deixa de me responder!
Lembramo-nos então daquilo que Ele nos dizia quando começámos nesta vida e percebemos que já nessa altura Ele nos avisava dos perigos que estavam para vir, das dificuldades que havíamos de viver...
E procuramos mais comunhão, mais entrega, com mais perseverança, na confiança e na esperança de que Ele nos está a provar, porque nos ama com amor infinito e nos quer preparar para o que há-de vir: «Vigiai, porque não sabeis quando vem o ladrão...»
E então louvamos!
Louvamos por estas dificuldades, por estas provações e acabamos por não as entender como um mal, mas sim como um bem que nos ajuda a crescer.
E Ele responde-nos e exorta-nos à luta constante, exorta-nos a darmos testemunho dessa luta para que aqueles que a estão a viver saibam e percebam que é na perseverança, na comunhão de oração que Ele responde, mesmo que pareça escondido de nós...
Então passada a luta, (quanto tempo demorará?), Ele vem, toma-nos ao Seu colo e diz-nos cheio de amor: Descansa agora nos meus braços de eternidade e goza o louvor e a alegria para sempre!

16 comentários:

Maria João disse...

À medida que conhecemos Cristo vamos ganhando uma intimidade com Ele que parece que as orações que ao início eram tão fáceis e tão bonitas se tornam cansativas. Acho que isso se deve ao facto de termos uma relação mais íntima, mais chegada. Apetece-nos mais falar com Ele, fazer as nossas orações... Claro que o terço, o Pai-Nosso, etc, continuam a ser importantes. E devemos ter a humildade de reconhecer isso e de continuar a rezá-las, pedindo ao Pai que as façamos com Amor. Mas, também é bom conjugar com o falar com Ele, estar mais tempo em silêncio a ouvi-Lo, contemplá-Lo no Sacrário...

E, depois, todos temos de passar por estes momentos. Não são fáceis, mas´é quando o Pai nos põe à prova. Não para saber até que ponto O amamos, acho eu. Mas, para nós sabermos quanto O amamos, mesmo na "longa noite escura" de que fala S. João da Cruz.

beijos em Cristo

malu disse...

Brlhante, Joaquim, brilhante.

Temos que ser nós a fazer o nosso caminho para Ele. Sabemos onde está, mas caímos tantas vezes na tentação de querermos ser filhos únicos e o nosso caminho começa pela partilha e entrega aos outros.

Tão mais para tirar daqui...
Abrajinhos em Cristo.

Cabral-Mendes disse...

A vida é assim tal e qual... um dia somos "livres" e muitas vezes sem nós querermos...seria fácil estar sempre no monte Tabor... mas porque não, já agora? Para quê esta vida provisória?

joaquim disse...

Maria João

Claro, a oração é sempre diálogo com Deus, seja o diálogo uma "conversa informal" ou mais "formal".
Dizia Santa Teresa do Menino Jesus: «Para mim a oração é um impulso do coração, é um simples olhar lançado ao Céu, um grito de reconhecimento e amor no meio da provação ou da alegria».

Abraço amigo em Cristo

joaquim disse...

Malu

Obrigado, mas vá lá, o mérito não é meu, mas de Quem me inspira e de quem provoca a minha abertura ao "Inspirador" para lhe poder responder.
Uma das coisas maravilhosas da herança deste Pai, é que ela é igual para todos, não precisamos de discutir nem nos incomodar, mas sim unirmo-nos e comungarmos para que a herança nos seja dada.

Abraço amigo em Cristo

joaquim disse...

Caro Cabral-Mendes

Ensina-nos a Escatologia, que é o "já" e o "ainda não", ou seja, já vivemos a Promessa, mas ela ainda não se completou.
Por isso esta vida mais transitória que provisória, já vive, se assim quisermos, o monte Tabor, no meio dos homens...

Obrigado pela sua presença aqui.

Abraço amigo em Cristo

Fa menor disse...

Ai, Joaquim…
O que é isto, homem de Deus?
Tu estavas super inspirado!
Aqui encontrei-me, meu amigo!

“parece que o alimento que lhe damos não chega...”

“Lutar sempre!”

“ Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim pecador!”

“Ele não deixa de me responder!”

“Ele responde-nos e exorta-nos à luta constante”

“ é na perseverança, na comunhão de oração que Ele responde”



Que bem me fazem as tuas palavras!

Abreijinhos em Cristo

sedente disse...

Boa caminhada no deserto da Quaresma...lugar misterioso de encontro com Deus e o próximo.
Abrç+

joaquim disse...

Fa amiga

Obrigado...

É sempre tão reconfortante e inspiradora a tua presença...

Quando por vezes me questiono se vale a pena escrever aqui, o que vivo e sinto na fé que abraço, são pessoas amigas como tu que me levam a continuar e a creditar, que sim, que vale a pena...

Abraço forte e amigo em Cristo

joaquim disse...

amigo sedente, obrigado!

Caminho contigo em oração, ajudando-nos mutuamente a atravessar o deserto que se faz vida.

Abraço amigo em Cristo

Ecclesiae Dei disse...

Amigo Joaquim,

Parabéns por esse blog, sempre encontro as Sagradas Verdades nele. Estou te adicionando, pois é bom que muitos cheguem aqui!
Abraços em Cristo!
João Batista

Fa menor disse...

Joaquim,

Assim, com quase as mesmas palavras com que recebi o convite, também te convido!

"não perguntes porquê... mas vou-te pedir um favor: que [continues] algo que vou colocar lá no meu sítio.
Não digas que não. Parece que é de muita responsabilidade. É mais de muita amizade.
Aceita.
beijinhos"

Passa lá mais logo...

joaquim disse...

Amigo João Baptista

Obrigado pelas tuas palavras e pela distinção.

Brevemente também te colocarei nos meus links.

Abraço amigo em Cristo

joaquim disse...

Fa amiga
Claro que vou continuar, por todas as razões, porque vem de um padre amigo e sobretudo porque a uma amiga como tu sempre presente, nada se nega.
A amizade é reciproca.

Abraço amigo e agradecido em Cristo

antonio disse...

E nós enquanto comunidade sabemos acolher? E sabemos manter esse acolhimento vivo, para os que já fazem parte da nossa comunidade?

joaquim disse...

Boa tarde António

Tocas num ponto muito importante...
Às vezes em vez de acolhermos, "desacolhemos"...
sobretudo aqueles que não conhecemos, ou que não são das "nossas culturas"...
E outras vezes de "tanto acolhermos" os outros, esuqecemo-nos dos que estão ao nosso lado e precisam de acolhimento, do abraço, do ouvido que escuta...
Bom tema de reflexão para a Quaresma numa mudança de atitude...
Abraço amigo em Cristo