quinta-feira, 22 de novembro de 2007

TESTEMUNHO 4

Neste caminho de vida nova, que se fez e faz de avanços e paragens, de consolações e desertos, de muitas certezas e dúvidas, o Senhor sabendo-me fraco, foi-me concedendo as graças necessárias para cimentar e aprofundar a fé, para me guiar na Sua vontade.
Uma das graças que Ele me quis conceder, (muito importante particularmente para mim), foi o despertar de um amor forte e constante à Igreja.
E quando me refiro à Igreja, refiro-me à Doutrina, ao Santo Padre, aos Bispos, aos Sacerdotes, aos Diáconos, às irmãs e irmãos, consagrados ou não, que caminham em Igreja.
Quando afirmo que é uma graça particularmente importante para mim, digo-o porque quero agora fazer uma revelação, que há alguns que me lêem já conhecem, e que constitui um testemunho que, espero eu, possa ajudar outros que vivam nas mesmas circunstâncias.
Com efeito esta minha caminhada desde 1997 é feita, como já afirmei, com a minha mulher, só que, por motivo de um anterior matrimónio meu, não nos era possível celebrar o Sacramento do Matrimónio em Igreja.
Ao fim de nove anos de um processo no Tribunal Eclesiástico, em que tudo colocámos nas mãos de Deus aceitando o veredicto qualquer que ele fosse, pudemos em 2006 celebrar o Matrimónio, que tanto desejávamos.
Mas se esta celebração foi o selo de Deus na nossa vida de casal, de família, de vida como igreja doméstica, os anos que vivemos esperando esta bênção de Deus, foram de uma riqueza espiritual extraordinária, por isso afirmava que esta graça do amor à Igreja, se revelou tão importante para nós, para mim.
Nunca em momento algum me senti excluído, me senti colocado de lado, me senti inútil à Igreja que me acolhia.
Cantei no coro da minha paróquia, colaborei em tudo o que me foi pedido, nunca recusando “emprestar” a minha voz, dando o testemunho da minha vida, falando da Palavra de Deus, da riqueza da oração permanente, sobretudo em encontros de jovens, a quem gosto muito de falar, até por causa da minha experiência de vida.
Foi-me até pedida colaboração em reuniões organizadas pela Diocese, acompanhando Sacerdotes e falando da minha experiência no acolhimento, ao que, depois de lembrar a minha situação, acedi de coração aberto e agradecido.
Tive momentos de “intensidade” espiritual maravilhosos, quando, por exemplo, perante a impossibilidade da comunhão eucarística do Pão Sagrado, me deixava envolver interiormente, numa comunhão espiritual, por essa presença amorosa de Deus, que nunca abandona os que O procuram de coração aberto.
Também nunca me excluí, ou seja, por vergonha, respeito humano, ou qualquer outro sentimento, que nos leva muitas vezes a pensarmos que somos excluídos, quando afinal somos nós mesmo que nos afastamos.
E esse amor à Igreja é vivido sempre em desejo de comunhão, porque só assim ele tem sentido.
Tive e tenho dúvidas, não concordava e não concordo com certas coisas, mas sempre colaborei e colaboro em tudo o que me é pedido e é nessa colaboração que partilho os meus pensamentos, as minhas dúvidas, e é em comunhão com todos que pretendo ajudar a construir uma Igreja mais fraterna, mais viva, mais actuante, mais alegre, numa palavra, mais cristã e católica.
Não criticava, nem critico por fora a Igreja, e se por acaso o fazia, ou faço, mercê das circunstâncias, nunca deixava, nem deixo de reafirmar a minha comunhão e a minha obediência de amor à Igreja de Jesus Cristo.
A Igreja fez e faz sempre parte das minhas orações diárias.
Outra graça maravilhosa que o Senhor quis derramar na minha vida foi o perdão, ou seja, perdoar, pedir perdão e reconhecer o Seu infinito perdão.
No inicio, era-me muito difícil conceber que Deus me perdoasse de tanto mal que tinha feito, aos outros e a mim.
Durante uns tempos esse sentimento perseguia-me, e infiltrava-se no meu coração como que dizendo: “ Faças tu o que fizeres, é tarde, pois são tantos e tão grandes os pecados que não têm perdão”.
Depois da minha primeira confissão, (passados quase 30 anos da última que tinha feito), num primeiro momento a paz foi indescritível, o sentir do amor de Deus tomava conta de mim, e durante algum tempo vivi em paz com Deus e comigo próprio.
Mas as dúvidas regressaram, e se o perdão de Deus me parecia ponto assente, o meu perdão ao meu passado, parecia-me impossível e se umas vezes, e eram tantas, o passado me regressava ao pensamento em força, era para me atormentar causando-me vergonha, ou pior ainda uma certa complacência, um certo gosto.
A luta era difícil e muitas vezes quase me impedia de crescer, de caminhar para Deus.
Um dia, durante uma adoração ao Santíssimo Sacramento pedi ao Senhor Jesus que me concedesse essa graça do perdão, não só de o receber, mas de o dar aos outros e a mim próprio.
Confesso que não me lembrei muito mais desse pedido e só passado algum tempo me apercebi, por qualquer facto que recordei do passado, que a paz estava presente nessa recordação e que o passado já não tinha qualquer efeito pernicioso em mim.
Mais, dei por mim a louvar o Senhor pelo meu passado, na convicção de que, se não o tivesse vivido, provavelmente seria agora um cristão “morno”, cumprindo estritamente a lei nos seus “mínimos”, não me apercebendo, nem vivendo a graça maravilhosa que é a presença de Deus nas nossas vidas, que é o Seu amor infinito por cada um de nós e que se faz real no dia a dia das nossas existências.
Claro que todo o outro perdão, (o dar, o pedir, o aceitar), passaram a fazer parte constante da minha vida, o que perante tantas vicissitudes porque passei, (a dada altura perdi tudo o que tinha materialmente), foi o bálsamo mais pacificador da minha vida.
A vontade de querer perdoar levava-me a rezar por aqueles que me tinham magoado, e também por aqueles que eu magoei.
Durante uns tempos essas orações pareciam-me “falsas”, ou seja, no meu coração eu pedia a Deus por eles, mas no meu intimo sentia que não “desejava” esse bem que então pedia.
Mas a graça de Deus precisa apenas da nossa abertura de coração, e assim lentamente, carinhosamente, o Senhor ia colocando no meu coração uma reconciliação, uma paz em relação a essas pessoas e a esses factos, e a vontade de rezar cada vez mais por eles, para além da certeza de que se um dia precisassem de mim, eu não lhes negaria a minha ajuda.
E assim descobri a maravilha de perdoar e pedir perdão, descobri que muitas coisas correm erradas nas nossas vidas porque nos agarramos a rancores e ressentimentos, que envenenam a nossa existência e não nos deixam viver em paz, não nos deixam sequer amarmos inteiramente aqueles que nos são próximos, porque em nós vivem sentimentos de “desamor”.
Todo este caminho levou-me à oração constante, perseverante, umas vezes mais consciente e outras vezes mais distante, mas no entanto sempre oração que lava o coração e alimenta a alma, alimenta o ser.
“Descobri” a graça da oração de louvor nas adversidades, nas provações, agradecendo a Deus por elas e oferecendo-as pelos outros mais sofredores do que eu.
Quantas vezes nestas orações de louvor o Senhor me respondia de imediato, aliviando os meus sofrimentos ou colocando em mim forças para enfrentar as provações, forças que eu desconhecia viverem em mim.
Tanto para dizer, tanto para testemunhar, tanto para agradecer ao Senhor da Vida que nunca nos abandona e nos abraça no Seu amor eterno.


(continua)

20 comentários:

Leonor disse...

O que posso eu dizer, além de que tenho seguido o seu testemunho com o coração a sorrir?
Acho que foi benção de baptismo... (estou a brincar, o mérito é todo seu).
1 beijinho cheio de ternura.

elsa nyny disse...

Joauim!
Que lindo o teu testemunho! Adorei!

Bjsss


Ps - Desculpa as minhas longas ausências, mas isto tem andado muito apertado...

malu disse...

Quanto mais leio, mais quero ler. Tem vindo a ser muito bonito e este então é forte, dados os pontos em que tocas. Tocante, então e no conjunto. Graças a Deus :)

Abraço forte e em Cristo.

joaquim disse...

Querida Leonor

Que alegria saber-te por aqui!

Tens razão, sabes, porque foi mesmo benção do Baptismo, que me tornou filho de Deus, eu é que andei muito tempo "distraido", não O reconhecendo como Pai.

Um beijo grande e muito carinhoso

E reza que eu também rezo pelo dia 28

joaquim disse...

Olá Elsa

Obrigado pela visita e pelas palavras.

Obrigado também pela resposta à carta que fico contente por ter ainda chegado a tempo!

Não te preocupes pelas ausências, porque elas são apenas fisicas.

Abraço amigo em Cristo

joaquim disse...

Obrigado Malu

Sempre com palavras que me incitam a continuar.
Vou deixando que Ele escreva em mim!

Abraço amigo em Cristo

Fa menor disse...

Joaquim...
já não sei mais que dizer-te...
cada vez que te leio sinto-me tão fracota...
Queria ter a tua força...
Sabes, faz-me bem chorar quando te leio.

Beijinhos

Fa-

Nelson Viana disse...

Olá querido amigo. Era só para te dizer que está tudo a correr bem aqui pelo Brasil e também para te convidar a passar lá pelo meu blog. Tenho novidades. (se quiseres, podes divulgar.Logo perceberás..)

Um abraço em Cristo

antonio disse...

Pegando num comentário, existe mérito na tua caminhada, mas é sempre a Sua messe, ele é sempre o Senhor que chama.

O nosso (teu) mérito é de responder a esse chamamento!

joaquim disse...

Boa noite Fa

Obrigado pelas tuas palavras, mas eu não tenho força nenhuma se não estiver em comunhão com Cristo.

Mal tu sabes quanto eu fraquejo, quanto eu caio, mas é dEle que vem a força para me levantar e continuar.

Chorar é uma coisa que faço muitas vezes neste caminho e não tenho vergonha nenhuma, mas choro de alegria, de paz, de amor, que julgo eu, é exactamente o que fazes.

Abreijos amigos em Cristo

joaquim disse...

Amigo Nelson

Que bom saber de ti e que tudo está a correr bem!
Dou graças a Deus por isso!

Já lá fui mas o tempo, não é muito por isso tenho de lá voltar com calma, para te ler com atenção.

Abraço amigo em Cristo

joaquim disse...

caro António

Obrigado, porque estás sempre atento!

Tinha querido responder à minha querida sobrinha Leonor, (só agora reparei que o não fiz na totalidade), dizendo-lhe também que eu não tinha mérito nenhum, a não ser o coração aberto para Ele, mas que até isso foi Ele que o teve de abrir.
E isto não são palavras de retórica, são aquilo que eu sinto.

É Ele que tudo faz e nós não devemos ser mais que filhos de Deus, atentos ao Seu chamamento.

Abraço amigo em Cristo

Cabral-Mendes disse...

Joaquim, Você está a ir para Santo?! Parece-me!

Olhe, quando diz " dei por mim a louvar o Senhor pelo meu passado, na convicção de que, se não o tivesse vivido, provavelmente seria agora um cristão “morno” (...) nem vivendo a graça maravilhosa que é a presença de Deus nas nossas vidas (...)" é bem verdade!

Penso muitas vezes que o Mal que nos atormentou, os sofrimentos por que passámos, constituiram uma certa purificação e o caminho que nos levou a Deus.

Abraço!

Freespirit disse...

Caro Joaquim, gostei muito de ler este teu testemunho de fé e amor à Igreja. Verdade seja dita, é algo que faz falta nos dias que correm... quantas vezes oiço desabafos injustos e desprositados sobre o corpo de Cristo... Magoam-me tremendamente. De facto, precisamos de almas ardentes que incinerem a tíbiez de tantos. Belo testemunho o teu que nos aponta o caminho para a intimidade com o Senhor, a oração, de coração simples e aberto ao Amor do Pai.

joaquim disse...

Caro Cabral-Mendes

Pelo menos quero caminhar para ser santo, não para estar nos altares, mas para fazer a vontade de Deus.

Essa é uma das maravilhas de Deus: conseguir retirar o bem, daquilo que fizémos mal.

Obrigado pela visita e pelas palavras.

Abraço amigo em Cristo

joaquim disse...

Caro freespirit

Obrigado pela tua visita e pelo teu comentário, que julgo eu, é o primeiro que aqui fazes.
Sê bem vindo!

A Igreja só pode ser construida em comunhão e nunca em divisão...
Somos todos pedras vivas na Igreja, e só unidos, ouvindo, falando, obedecendo e amando em Igreja, poderemos ser Corpo de Cristo.

Abraço amigo em Cristo

Ver para crer disse...

Gostei muito do teu testemunho. Sobretudo no que diz respeito à Igreja. Amar é também desculpar e não fazer juizos.
"Não julgues para não seres julgado.", dizia o Mestre.
Temos de nos criticar a nós próprios e não aos outros...

joaquim disse...

Caro Padre amigo

Obrigado pelas suas palavras, porque vindas também de um sacerdote calam fundo no meu coração.

Jesus muda as nossas vidas de dentro para fora, e assim também deve ser em Igreja, só estando dentro dEla, amando-A e em comunhão nEla, podemos construi-La, (na diversão, mas em unidade), no acolhimento e abertura aos que estão fora.

Abraço amigo em Cristo

Sandra Dantas disse...

Querido amigo Joaquim,
em mim nasceu um sorriso à medida que ia lendo... Tocou-me especialmente esta descoberta do perdão a todos!

Um grandioso abraço amigo!!!

joaquim disse...

Olá Sandra

Obrigado pelo sorriso!

O perdão é algo de extraordinário que o Senhor coloca à nossa disposição, e é uma benção para quem o vive em todas as suas dimensões, como muito bem sabes.

Abraço amigo em Cristo