terça-feira, 6 de novembro de 2007

TESTEMUNHO 1

Nasci em 1949 numa família tradicionalmente cristã e católica, onde a Fé era vivida, pelos meus pais, diariamente.
Fui assim educado na Fé católica, frequentei colégios católicos, fiz a Primeira Comunhão e o Crisma, fiz retiros espirituais católicos e vivi desse modo a Fé, embora muitas vezes mais por obrigação do que por vontade própria, embora também, na maior parte desses anos eu não tivesse ainda idade e portanto discernimento para saber o que deveria escolher.
Certo é, que por volta, talvez, dos 18 anos, me comecei a afastar da vivência da prática cristã e da Fé.
Com a entrada na tropa, nos meus 22 anos, consumou-se o afastamento definitivo de tudo o que era prática religiosa, e a Fé, se alguma coisa dela restava, morreu também em mim.
Estive na guerra da Guiné, depois em Angola a trabalhar, passei ainda pelos Açores meio ano e regressei finalmente a Portugal.
A minha vida, que já era um pouco errática, mas ainda estável e de algum modo equilibrada, passou a partir de meados dos anos 80 a ser totalmente desregrada e sem nenhum sentido.
Vivia para o mundo, em tudo aquilo que o mundo tem de pior, e passei muito rapidamente por uma espiral de noitadas diárias com tudo o que isso envolve.
Sabemos bem como uma vida dessas pode ser degradante!
Julgo que em determinado tempo terei até perdido a noção dos valores que em criança me tinham sido incutidos.
Por razões que aqui não cabe explicar, (no inicio dos anos 90), comecei a falar de Deus, da Bíblia, com alguém que o Senhor quis colocar no meu caminho, e que também vivia fora da doutrina católica.
Dei por mim a sentar-me na Igreja da minha terra, (sobretudo quando não estava lá ninguém), sem saber muito bem o que fazer e o que esperar.
À minha mente, mais que ao coração, vinham todas as coisas que tinha aprendido em criança sobre Deus, sobre Jesus Cristo, e ia falando com Ele em surdina, esperando não sei bem o quê.
Comecei também a “ir à Missa” e a tentar viver algo que me fizesse dar um “salto”, algo que eu sentia tinha de ser feito, de ser dado, só não sabia como.
Aquilo que fazia não me chegava, e assim ia lendo livros e mais livros procurando o que ainda não tinha encontrado.
Era tudo muito “exterior”, nada ainda me “aquecia” o interior.
Num dos livros que então li, “Jesus está vivo”, falava de um Padre Lapa, que eu tinha conhecido em tempos, e que era o homem, (informava lá), que tinha trazido o Renovamento Carismático Católico para Portugal.
Lembrei-me então de “umas” Missas em que tocavam viola e cantavam alegremente e que, na altura em que as ouvi, quando passava fora da capela, mais me davam “razão”, achava eu, para não frequentar aquelas “coisas”.
Num impulso decidi escrever-lhe e perguntar-lhe o que era aquilo do Renovamento e como poderia fazer essa “experiência”.
Estávamos em Junho de 1997.
Na sua resposta, longe de me dar conselhos ou qualquer outra coisa, dizia-me apenas, para além dos cumprimentos habituais, que iria haver uma Assembleia do Renovamento Carismático em Fátima, organizada pela Comunidade Pneumavita, por ele fundada, e convidava-me a estar presente.
Um pouco temeroso e desconfiado lá fui em Novembro a Fátima, com o sentimento de: “se não gostar daquilo, venho-me logo embora”!
O anfiteatro do Centro Paulo VI estava cheio, o que me atemorizou um pouco, mas “saltou-me” à vista uma certa união de sentimentos em todo aquele povo e sobretudo uma alegria, uma esperança latente naqueles rostos, apesar de perceber sofrimentos ali bem expressos.
Na Sexta Feira ao fim do dia nada me levava a continuar ali, mas levado pela curiosidade, e também por um sentimento de “já que aqui estou”, voltei no Sábado de manhã.
A oração da manhã foi algo que nunca tinha visto, ou seja, a participação de todos, a alegria imprimida na oração, os cânticos, enfim todo um ambiente, (que apesar de não estarmos num templo propriamente dito), respirava espiritualidade.
O pregador, Pe. Alirio Pedrini, falava-nos da Palavra, da Bíblia de um modo como eu nunca tinha ouvido, (no meu tempo a Bíblia era “livro de decoração” na casa de cada um), tornava-A presente e actual e levava-nos a viver a presença de Cristo vivo no meio de nós.
A presença do Arcebispo de Évora, D. Maurilio Gouveia, com palavras que também nunca tinha ouvido no meu tempo à hierarquia da Igreja, confirmavam a comunhão com a Igreja Católica e descansavam as minhas interrogações.
Mas o grande facto deu-se, quando após uma oração de invocação do Espírito Santo, comecei a ouvir a maior parte daquela gente a cantar algo que eu não conseguia entender e me parecia coisa de “doidos”.
Aquela melodia estranha, mas harmoniosa, acompanhada dos braços levantados para o Céu, ao mesmo tempo que me despertava sentimentos do tipo, “que gente é esta, ou, onde é que eu estou metido”, tocava o meu intimo e colocava um sentimento inexplicável de paz no meu coração.
Deixei-me ficar, deixei-me envolver, num sentimento de entrega como se dissesse: “Não sei o que estou aqui a fazer, mas Tu deves saber”…
À noite houve Adoração ao Santíssimo Sacramento, uma adoração como nunca tinha vivido, participada, em diálogo com Jesus Cristo, (que eu começava a sentir verdadeiramente no meio de nós), mas sem nunca se afastar da dignidade da celebração.
Foi então que algo no meu coração se abriu e disse, sem palavras: “Olha, estou aqui, faz de mim o que quiseres.”
Um sentimento de paz, de amor, envolveu-me e comecei a chorar. Um choro silencioso, muito calmo, cheio de paz e de uma estranha, mas muito boa alegria.
No momento não entendi, mas também não me interessava entender, apenas queria viver.
Deve ter sido como Pedro, (passe a imodéstia), na Transfiguração. O que eu não queria era sair dali!
Nessa noite dormi descansado, o que já não acontecia há muito tempo, mas ansioso por voltar àquele lugar.
No Domingo de manhã dei comigo, sem me aperceber, de braços no ar e cantando com os outros e desejando que o fim de semana continuasse indefinidamente!
Havia em mim um fortíssimo sentimento de gratidão a Deus por tudo o que me estava a fazer sentir, a mim, que me achava totalmente indigno de sequer um Seu olhar!
Dirão que houve muita emoção à mistura.
Com certeza que houve emoção, ou será que nós não somos um todo feito de variados sentimentos?
O importante é que a emoção não passe por cima do amor, da entrega, da reflexão.
O importante é que a emoção não abafe a graça que o Senhor derrama nos corações.
O importante é que a emoção não seja superior à Fé firme e constante na presença de Deus em nós.
E comigo foi isso que aconteceu!
Naqueles dias desci da árvore como Zaqueu!


(continua)


Para algum contacto mais pessoal, estou disponível no mail referido no perfil.

16 comentários:

Maria João disse...

Bem, parece que o comentário não ficou...

Obrigado pelo teu testemunho. Rezo por ti e pelas pessoas que te lêem para que encontrem Cristo, se ainda não o fizeram. Ele é Amor e MIseriicórdia e está de braços abertos à sua espera.

beijos em Cristo

antonio disse...

Muitos de nós passamos pela igreja como a multidão que impedia a vista a Zaqueu. Somos parte do ruído e não da Mensagem.

Este teu testemunho, mostra-nos que Ele nos chama, onde quer que estejamos, no meio da multidão ou em cima de uma árvore. Sejamos pois receptivos ao seu olhar.

Fa menor disse...

...E dei por mim a chorar convulsivamente, Joaquim!
Vês o que fazes?
Tocas o coração de quem te lê...

(Abr)eijos em Cristo

Fa

Ver para crer disse...

Belo testemunho!
Cristo serve-se de muitos meios para nos chamar a Ele.

malu disse...

Também te li comovida. Em cada linha sinto o Amor de Deus e a tua resposta a Ele, encoraja. Que muitos o sintam.

Abrajinhos.

joaquim disse...

Olá Maria João

Como muito bem dizes é essa a finalidade de um testemunho, que outros se sintam impelidos, "provocados" a procurarem Jesus Cristo vivo em nós e entre nós.

Abraço amigo em Cristo

joaquim disse...

caro António

É isso mesmo!
Ele chama-nos sempre, nós é que muitas vezes estamos "distraidos" no cimo das "nossas" árvores.

Abraço amigo em Cristo

joaquim disse...

Ó Fa

Obrigado, desde que o choro seja de alegria!

Glória ao Senhor!

Abraço amigo em Cristo

joaquim disse...

É verdade caro Padre amigo

Nem todos os caminhos vão dar a Deus, mas que Ele se serve de muitos e por vezes "desconcertantes", lá isso serve!

Abraço amigo em Cristo

joaquim disse...

Olá Malu

«Que muitos o sintam.»

É esse o meu desejo, é esse com certeza o desejo, daqueles que como nós acreditam e vivem nas suas vidas as maravilhas de Deus!

Abraço amigo em Cristo

Sandra Dantas disse...

Que Bonito amigo Joaquim!
Obrigada pelo testemunho! Ele vai-nos buscar onde quer que nos encontremos!
É claro que também somos emoção, se não fossemos, não seríamos humanos!
Um abraço amigo!

joaquim disse...

Olá Sandra

Obrigado pelas tuas palavras.

Muita gente critica a emoção, mas a emoção faz parte de nós, (Jesus também se emocionou), e desde que não sobrevaleça sobre a fé...

Abraço amigo em Cristo

Cabral-Mendes disse...

Joaquim, caro amigo, tenho andado a "segui-lo" nos seus textos; mas eles são tão importantes que é difícil, numa "caixinha", comentar a respectiva riqueza. Aqui no seu "Testemunho 1" digo-lhe que já estive em Fátima num encontro de carismáticos, pois uma amiga me convidou para tal. Pese embora o facto de eu ser um tímido, e apreciar uma celebração intimista, todavia reconheço que existe muita emotividade numa assembleia como a que descreveu. A Fé está ali presente de modo muito exteriorizado.

Foi mesmo o Espírito Santo que desceu sobre si... Deus não nos esquece, pois não Amigo?

Um Abraço!

joaquim disse...

Amigo Cabral-Mendes

Obrigado pelas suas palavras.
É verdade, há por vezes muita emoção e é por isso preciso perceber bem o que é emoção e o que é a fé que nos move.
Graças a Deus, o Senhor foi-me dando o discernimento necessário para isso, mas a verdade é que os caminhos de que Ele se serve para nos chamar, são muitas vezes "estranhos" à nossa própria maneira de ser.
Como para nos abanar, ou retirar dos nossos "tabus".

Também sou/era muito timido.
Se calhar nas conversas entre os homens continuo a ser, mas quando falo de Deus perco a timidez, por Sua graça.
É o Espírito Santo que nos habita e transforma!

Abraço amigo em Cristo

Nelson Viana disse...

“Olha, estou aqui, faz de mim o que quiseres.” É essa a questão. Despojar-nos totalmente de nós próprios, para que sejamos um com Cristo, como Cristo é com o Pai.

Só comecei a ler o teu testemunho agora, mas como diz o velho ditado: "mais vale..."

Obrigado Joaquim pelas tuas palavras

Forte abraço

Anónimo disse...

esta mensagem para mim que foi lida 5 anos depois senti uma pequena emoção de tudo o que li eu passei aquase pela mesma situação embora um pouco menos mas quando fiz a efusão do espirito santo chorei de alegria no meu intimo porque era uma pessoa com muita tristeza a pontos de dizer muitas vezes que me ia matar e apartie desse momento todos os maus pensamentos passou para dar lugar a outro processo de vida.