quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A COMUNIDADE MODELO (4)

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«Eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fracção do pão e às orações. Perante os inumeráveis prodígios e milagres realizados pelos Apóstolos, o temor dominava todos os espíritos. Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um.
Como se tivessem uma só alma, frequentavam diariamente o templo, partiam o pão em suas casas e tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus e tinham a simpatia de todo o povo. E o Senhor aumentava, todos os dias, o número dos que tinham entrado no caminho da salvação.» Act 2, 42-47



«Eram assíduos…à fracção do pão»


Fiquei a reflectir nesta característica tão importante das primeiras comunidades cristãs e tive de, forçosamente, reconhecer que nós cristãos católicos, no nosso tempo, não nos apercebemos ou sequer percebemos a real dimensão da importância de sermos assíduos à Eucaristia, como ápice da vivência da fé, como imprescindível à nossa vida cristã.

Com efeito, a Igreja que somos e a que pertencemos, Igreja Sacramental, todos os dias, em todas as partes do mundo, nos oferece a celebração da Eucaristia, memorial que torna presente, realmente presente, Jesus Cristo Nosso Senhor e Salvador.

Li em tempos num livro chamado "A fonte da Liturgia” de Jean Corbon, uma frase que me chamou a atenção e me deu alguma luz sobre esta presença real e verdadeira de Jesus Cristo, no Seu Todo, na Eucaristia: «Cristo, por ter ressuscitado, abriu uma brecha no muro do tempo mortal»

Com certeza que a presença real de Cristo na Eucaristia é um Mistério ao qual não podemos aceder totalmente pela razão, mas sim pela fé, dom de Deus aos homens, que O procuram de coração aberto.

Mas podemos humanamente perceber, que tendo Jesus Cristo, (verdadeiro Deus e verdadeiro Homem), ressuscitado, vencido a morte, venceu o tempo, o tempo que o homem conta na sua própria vida, contando-o em relação à sua, (do homem), própria morte, como um fim, que afinal deixa de o ser, porque em Cristo o homem alcança a imortalidade e o tempo deixa de o ser.

Assim, Jesus Cristo, vencida a morte, vencido o tempo, porque é Deus a Quem nada é impossível, faz-se presente sempre, verdadeiramente presente em cada Eucaristia celebrada por um sacerdote ordenado.

E é esta realidade que nós, cristãos católicos, tantas vezes não percebemos, não meditamos, não reflectimos e por isso mesmo não damos, repito, não damos a real e imprescindível importância, na nossa vida de filhos de Deus, discípulos de Cristo.

E nem nos apercebemos da infinita graça que a Igreja todos os dias coloca ao nosso alcance, na celebração dos Sacramentos.

Há uns anos atrás fui, com um grande amigo meu hoje sacerdote, ter um encontro com um Bispo americano de uma Igreja Evangélica.

Tratava-se de uma conversa preliminar para um possível encontro ecuménico, entre diversas igrejas cristãs, tal como já tinha acontecido noutros países da Europa e não só.

Estava também nesse encontro um Pastor português dessa Igreja.

No meio da conversa, muito agradável, por razão que agora não lembro, falou-se da Eucaristia, que esse Pastor presente “desvalorizou”, embora sem qualquer tipo de acinte, ou desprezo.

Nessa altura o Bispo americano tomou a palavra, e defendeu veementemente a Eucaristia, dizendo que era um Sacramento em que ele acreditava, que era uma riqueza imensa da Igreja Católica, e que ele lamentava profundamente não comungar, quando estava em cerimónias ecuménicas e havia celebração da Eucaristia.

Não me lembro obviamente das suas palavras, mas lembro-me da sua atitude e da forma intensa como falou sobre a importância da Eucaristia.

Ficou-me sempre esta impressão de que, infelizmente, nós católicos temos a riqueza maior que o Senhor nos deixou, e d’Ela não aproveitamos, d’Ela não vivemos a vida nova que nos é sempre dada.

Escrevo estas palavras e chego rapidamente à conclusão de que não tenho palavras para falar sobre a Eucaristia, a «fracção do pão».

Assim e para que percebamos melhor este Sacramento de amor infinito que o Senhor nos deixou sirvo-me do livro "Eucaristia" do Cardeal D. José Saraiva Martin:*

A presença de Cristo na Eucaristia é entendida, antes de mais, como presença de Cristo todo. Mesmo se falámos, seguindo a linguagem teológica comum, de presença do corpo e do sangue do Senhor, na Eucaristia, sob as espécies do pão e do vinho, está presente, na realidade, não só o seu corpo e o seu sangue, mas Ele mesmo todo na sua dupla dimensão, divina e humana.
O fundamento sobre o qual se apoia esta doutrina são os mesmos textos sagrados concernentes à Eucaristia, considerados no seu sentido biblico-filológico.
Segundo os relatos da instituição, Cristo, na Última Ceia, dá o seu «corpo». Como já foi dito, Ele usou, com toda a probabilidade, naquela ocasião o termo «basar» (den bisri «eis, minha carne»). Cristo deu, portanto, a sua «carne» aos seus como dom de despedida. O vocábulo «carne» (sarx) já fora adoptado por Jesus no discurso da promessa da Eucaristia.
Ora em hebraico e aramaico o termo «carne» indica a totalidade da pessoa humana, e não só o elemento material e corporal do homem, como acontece, aliás, com o termo grego «sôma» (corpo). Isto significa que quando Cristo no cenáculo disse: «isto é o meu corpo», entendia-se, com tais palavras, totalmente a si mesmo, todo o seu eu, toda a sua realidade concreta e histórica: corpo, sangue, alma e divindade.
Um discurso análogo deve fazer-se acerca do termo «sangue» (dam).
Ele designa, como é conhecido, a substância vital, bem como o seu sujeito, e, portanto, em última análise, a pessoa mesma na sua concretude histórica. O sangue escapa ao poder do homem, precisamente porque ele é sede da vida, antes, a vida mesma, e toda a vida, que provem de Deus, apenas a Ele pertence. Pelo mesmo motivo, o sangue não pode ser bebido, mas somente usado para o altar como meio de expiação. O sangue, em suma, é para os hebreus, a fonte da vida, a vida mesma concreta; e, tratando-se do homem, ele é, em última análise, a pessoa mesma concreta na sua vitalidade existencial. Portanto, quando, na ceia de despedida, o Senhor pronunciou as palavras: «isto é o meu sangue», Ele referia-se a si mesmo na totalidade, à sua pessoa mesma.”
Tudo isto é confirmado pelo autor do quarto Evangelho. De acordo com o estilo semita, ele gosta muitas vezes de repetir os mesmos conceitos com diversas palavras. Assim, no que diz respeito às palavras da promessa da Eucaristia, S. João declara: «quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia… Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e Eu nele. Como o Pai, que vive, me enviou e Eu vivo pelo Pai, assim também quem me come (e não só a minha carne) viverá por Mim» Jo 6, 54-57 Comer a sua carne e beber o seu sangue é, segundo as palavras de Jesus, comer a Ele mesmo. Trata-se de duas expressões completamente sinónimas.


Tanto mais haveria para dizer sobre o Sacramento da Eucaristia, e sobretudo sobre a nossa atitude perante Ela, mas, se nos servirmos de tudo o que aqui está escrito, e muito mais especialmente do Catecismo e dos Documentos da Igreja Católica, se abrirmos o nosso coração à presença de Jesus Cristo, teremos seguramente o nosso encontro pessoal com Ele, (que Se faz sempre encontrado pelos que O procuram), que trará a vida nova e o desejo profundo de sermos «assíduos…à fracção do pão» .



* "Eucaristia" do Cardeal D. José Saraiva Martins - Universidade Católica Editora - Lisboa 2005 - Colecção Estudos Teológicos - IV Teologia Sacramental

Monte Real, 13 de Outubro de 2010
(continua)
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domingo, 10 de outubro de 2010

10º DIA DO ROSÁRIO

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Avé Maria
(bom dia Mãe)


cheia de graça
(que lindo é o teu sorriso)


o Senhor é convosco
(como tu Mãe, O mostras tão bem a todos nós)


bendita sois vós entre as mulheres
(mãe há só uma, dizemos nós, e tu és a Mãe de todas as mães)


e bendito é o fruto do vosso ventre
(obrigado Mãe porque disseste sim ao Salvador de todos nós)


Jesus.
(tudo por Ele, n’Ele e para Ele)




Santa Maria
(sim Mãe, tu és a Santa das santas)


Mãe de Deus
(o teu nome mais antigo, Mãe: Theotokos)


rogai por nós pecadores
(teus filhos fracos, pobres, sedentos de amor, que se acolhem a ti)


agora
(sim Mãe, todos os dias, todos os momentos, intercede por nós)


e na hora da nossa morte
(que nesse momento estejas ali, ao nosso lado, e ao teu colo cheguemos a Jesus)


Amen.
(sim Mãe, amen, assim seja, sempre, em todos os momentos das nossas vidas)



A Oração continua amanhã em Alfa & Ômega
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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A COMUNIDADE MODELO (3)

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«Eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fracção do pão e às orações. Perante os inumeráveis prodígios e milagres realizados pelos Apóstolos, o temor dominava todos os espíritos. Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um.
Como se tivessem uma só alma, frequentavam diariamente o templo, partiam o pão em suas casas e tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus e tinham a simpatia de todo o povo. E o Senhor aumentava, todos os dias, o número dos que tinham entrado no caminho da salvação.» Act 2, 42-47



«Eram assíduos…à fracção do pão»


Ao reflectirmos sobre esta verdade, logo outra passagem bíblica nos vem ao coração, ao pensamento:
«E, quando se pôs à mesa, tomou o pão, pronunciou a bênção e, depois de o partir, entregou-lho. Então, os seus olhos abriram-se e reconheceram-no; mas Ele desapareceu da sua presença.»*

Na «fracção do pão» reconheciam Jesus Cristo entre eles, com eles, neles, alimentando-os, fortalecendo-os, lutando com eles pela proclamação, pelo reconhecimento do Reino de Deus, já, aqui e agora, esperando a plenitude do que há-de vir.

«Reconheciam-nO na fracção do pão.»

E nós, ainda ou também O reconhecemos na «fracção do pão», na Eucaristia, que todos os dias é celebrada, é vivida nas igrejas, e não só, em todo o mundo?

Que “reconhecimento” de Jesus Cristo fazemos nós na Eucaristia?
Que é simbólico? Que a Hóstia consagrada representa Cristo? Que é uma imitação, uma memória do que Jesus Cristo fez? Que é uma representação? Que Jesus Cristo está ali presente em espírito?

Ou acreditamos verdadeiramente que Jesus Cristo está ali presente, tão presente como quando estava no meio dos Apóstolos após a Ressurreição?
Ou acreditamos que é Ele que se dá verdadeiramente como alimento, num Mistério tão incompreensível para nós, mas no entanto tão palpável, tão real, tão “experimentável” nas nossas vidas?

E assim sendo, se assim acreditamos, somos nós «assíduos à fracção do pão»?
Vivemos num mundo em que, graças a Deus, somos livres de praticar e viver a nossa Fé, e em que, apesar de algumas dificuldades, temos a celebração da Eucaristia diária em quase todos os lugares, (mais perto ou um pouco mais longe), onde vivemos.

Fazemos nós tudo o que nos é possível para participarmos celebrando a Eucaristia diária, vivendo-A todos os momentos das/nas nossas vidas?

É que naquele tempo, aqueles primeiros cristãos tinham com certeza de se deslocar às casas onde era celebrada «a fracção do pão», muitas vezes com risco da sua própria vida, tendo em conta as perseguições de que eram alvo.

Porque era e é ali, na Eucaristia, que nos encontramos preferencialmente com Jesus Cristo Nosso Senhor e Salvador, que dando-se como alimento divino nos afirma a Sua presença em nós e connosco, que dando-nos a certeza de que se fez igual a nós em tudo, excepto no pecado, nos reafirma a nossa filiação divina, e assim nos faz irmãos uns dos outros, filhos do Nosso Pai que está nos Céus.

Porque era e é ali na Eucaristia, que Ele nos dá forças, alento e coragem, para vivermos o Caminho, para proclamarmos a Verdade, para testemunharmos a Vida, que Ele nos dá no/do Seu Amor.

«Levantando-se, voltaram imediatamente para Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os seus companheiros, que lhes disseram: «Realmente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!» E eles contaram o que lhes tinha acontecido pelo caminho e como Jesus se lhes dera a conhecer, ao partir o pão.»*

Aqueles discípulos de Emaús tinham fugido de Jerusalém, tinham medo, já não acreditavam, para eles tinha sido uma aventura que tinha acabado, no entanto, e depois de terem ouvido a Palavra, de caminharem como irmãos com Jesus Cristo, (invisível aos seus olhos), reconheceram-No na «fracção do pão», e, perante esse reconhecimento, essa certeza da Verdade, voltaram de imediato a Jerusalém, esquecendo o medo, ou vencendo-o, para anunciarem que Jesus Cristo estava vivo, porque também eles O tinham visto.

Que Deus de amor, de bondade, de humildade, de entrega é o nosso, que assim, num «pedaço de pão», se oferece aos homens a quem Ele próprio deu a vida!

E todos os dias assim se entrega por nós, e todos os dias está ali disponível para cada um de nós, e todos os dias e em todos os momentos a Igreja nos chama a estar com Ele, e todos os dias tantos de nós faltam a esse encontro sem razão de nenhuma espécie.

Mas até podemos dizer, (tentando desculpar-nos), que não faltamos à Missa Dominical!
Mas porquê, porque é que não faltamos? Já nos perguntámos porquê?
É porque realmente queremos estar com Ele, queremos encontrar-nos com Ele, para O adorar e Lhe dar graças, ou é por tradição, por rotina, ou até por superstição, (não vá alguma coisa correr mal na nossa vida).

Perdoem-me a irreverência e brutalidade da ideia, mais é mais ou menos como um amigo “chato”, que nos dá emprego, que nos ajuda quando precisamos, mas que temos de aturar pelo menos uma vez por semana, não vá ele deixar de ser nosso amigo!

Às vezes até se escolhem as Missas em que o Sacerdote é mais rápido, (para o encontro com Deus não ser tão demorado!), esquecendo-nos da comunidade paroquial, daqueles que são nossos vizinhos e se cruzam connosco todos os dias, esquecendo-nos da «união fraterna».

As coisas que hoje em dia vemos durante a celebração da Eucaristia são de “bradar aos céus”:
São os telemóveis que tocam e alguns até se levantam e saem para os atender, quando não o fazem mesmo no seu lugar.
(Gostava de os ver atender o telemóvel durante uma entrevista para um emprego!)
São as conversas sobre tudo e sobre nada, como se estivéssemos num qualquer café social!
E paro por aqui porque a lista não acabaria.

Na altura da Comunhão confundimos dignidade e seriedade, com tristeza e abatimento, e é vermo-nos em procissão de cabeça baixa, ombros inclinados, como se um peso insuportável nos fizesse assim, e depois regressarmos ao lugar no mesmo estilo, ou pior, ou então conversando com quem vamos encontrando no caminho de regresso.

Chega-se atrasado, porque no entender de alguns a Missa só começa no Evangelho, e depois, depois não temos tempo para os avisos, (já demos tempo demasiado ao nosso Deus!), e por isso saímos, nem sequer esperando pela bênção final, nem esperando por algum breve convívio com aqueles que são nossos irmãos na Fé.

Também eu, obviamente, ao escrever tais palavras, me confronto comigo próprio e com as minhas atitudes, reconhecendo tanta coisa a mudar em mim.

Tanto para dizer sobre a «fracção do pão», e tão pouca inspiração para o fazer, reconheço-o humildemente, mas encontramos já aqui muita coisa para reflectir.

Lembro-me da história verdadeira do Cardeal Nguyen Van Thuan, preso treze anos no Vietnam, sobre a celebração da Eucaristia, de que aqui deixo relato.

«Sempre inspirado pela criatividade amorosa, Van Thuan escreveu uma carta aos amigos pedindo que enviassem um pouco de vinho, como remédio para doenças estomacais. Assim, a cada dia, três gotas de vinho e uma de água eram suficientes para trazer Jesus eucarístico à prisão. Os pedacinhos de pão consagrado eram conservados em papel de cigarro, guardado no bolso com reverência. De madrugada, ele e os poucos católicos detidos ali davam um jeito de adorar o Senhor escondido com eles.»

Nós, no nosso mundo, temos as portas das igrejas abertas, e, como acima digo, um pouco mais perto ou um pouco mais longe, temos com certeza a celebração da Eucaristia.

O que esperamos então nós para sermos também «assíduos à fracção do pão»?


*Lc 24, 30-31; Lc 24, 33-35

Monte Real, 6 de Outubro de 2010
(continua)
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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A COMUNIDADE MODELO (2)

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«Eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fracção do pão e às orações. Perante os inumeráveis prodígios e milagres realizados pelos Apóstolos, o temor dominava todos os espíritos. Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um.
Como se tivessem uma só alma, frequentavam diariamente o templo, partiam o pão em suas casas e tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus e tinham a simpatia de todo o povo. E o Senhor aumentava, todos os dias, o número dos que tinham entrado no caminho da salvação.» Act 2, 42-47


«à união fraterna»

Ao lermos e percebermos esta «união fraterna», tão bem descrita uns versículos mais à frente, «Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um», percebemos como estamos tão longe desta realidade de então.

E não é preciso levar “à letra” o que estes versículos nos narram, para reflectirmos sobre o tanto que nos falta, para vivermos a «união fraterna».

Não, com certeza que não é necessário «possuir tudo em comum», nem sequer «vender as terras e os bens, distribuindo o dinheiro por todos», mas é preciso percebermos que tudo o que temos nos vem de Deus e que, se só damos o que nos sobra, damos muito pouco.

Sim, é verdade que se possuímos muito ou pouco, tudo pode ser fruto do nosso trabalho, mas não podíamos nós como tantos outros não ter trabalho, não ter saúde para trabalhar, não ter sequer oportunidade de alcançar um trabalho?
E não é o nosso trabalho e a nossa capacidade para trabalharmos, uma graça de Deus, um colocarmo-nos ao serviço dos outros na construção do mundo que o próprio Deus colocou nas nossas mãos?
Ou queremos nós responder a Deus, quando Ele nos perguntar: «Onde está o teu irmão?»*, como respondeu Caim: «Não sei dele. Sou, porventura, guarda do meu irmão?»*

É que podemos não ter morto o nosso irmão, mas se o desprezámos, se não o ajudámos quando ele precisou de nós, se não fomos com ele «união fraterna», como queremos nós ser cristãos, como queremos nós ser Igreja?

Claro que aqueles cristãos naqueles tempos viviam assim em «união fraterna», com certeza não só entre eles, mas abrindo a porta a todos os que chegavam, ajudando e sendo irmãos daqueles que “andavam fora”, e por isso, sem dúvida, é que tinham «a simpatia de todo o povo.»

Temos nós hoje, cristãos em Igreja, «a simpatia de todo o povo»?

Claro que não, sabemos bem que não!

Então, e se procedêssemos como aquelas primeiras comunidades, e em vez de nos fecharmos em nós próprios, nos abríssemos verdadeiramente aos outros, não só naquilo que nos sobra, mas também naquilo que nos faz falta, seja em bens, seja em tempo, seja em amor, não teríamos nós também, nos nossos tempos em Igreja, «a simpatia de todo o povo»?

Ontem ouvia numa homilia de um Padre amigo esta reflexão:
Uma pessoa sai de casa, entra no seu carro, abre o seu portão com um comando, vai até ao centro comercial, estaciona na cave, sobe de elevador, ou escada rolante, entra no super mercado, faz as suas compras, paga nas caixas de pagamento automático, desce de elevador ou escada rolante, entra no seu carro, vai para casa, abre novamente o seu portão com o comando, estaciona o seu carro, entra em casa e … em tudo isto não falou com ninguém, se calhar não deu um bom dia a ninguém, muito provavelmente não mostrou um sorriso a quem quer fosse!
Que mundo é este em que vivemos, ou melhor, em que nos deixamos viver?

Transportemos este exemplo para o nosso trabalho, para a nossa vizinhança e até para a nossa família e podemos perceber quanto andamos nós neste mundo fechados em nós próprios, nas “nossas vidas”, nos “nossos mundos criados por nós, para nós”.

São os idosos que colocamos nos lares e nos “esquecemos” de visitar; são as crianças que colocamos em tudo quanto seja “tempos livres” e nos “esquecemos” de amar; são as nossas mulheres e os nossos maridos que cansados do trabalho nos “esquecemos” de beijar e acarinhar; são os nossos vizinhos, que preocupados com as “nossas vidas” nos “esquecemos” de cumprimentar; são os que precisam de nós e encontramos pelo caminho, e, aliviando as nossas consciências com os “deveres e obrigações” do Estado, nos “esquecemos” de ajudar; são os que se aproximam de nós para um abraço, uma palavra, e pela nossa “falta de tempo”, nos “esquecemos” de ouvir e abraçar; são os excluídos, os desprezados, os injustiçados pela sociedade, aos quais nós muito “pragmáticos”, encontramos razão para o serem, e assim nos “esquecemos” de incluir, de considerar, de confortar na justiça do amor.

E praticaremos nós a «união fraterna», até mesmo em Igreja, com os divorciados, com os homossexuais, e tantos outros, ou pelo contrário, achamos que não têm lugar à mesa da Igreja?
É que o pecador é bem diferente do pecado.
O pecado deve ser condenado, mas o pecador deve ser acolhido, ou não somos todos nós pecadores?
Ajudamo-los nós a entenderem a Doutrina verdadeira da Igreja, para que acolhidos caminhem caminho de conversão como todos nós devemos caminhar, ou pelo contrário, condenamo-los com base em falsas doutrinas, dimanadas por aqueles que não conhecem minimamente a Igreja, ou dadas como notícia na comunicação social?

E mesmo em Igreja, e até nas celebrações, vivemos nós e passamos aos outros essa imagem de «união fraterna»?
Ou pelo contrário, vivemos a Igreja e as celebrações como “espaço nosso”, como espaço da “nossa fé”, e que assim sendo é só “fezada”, é só rotina, é só até talvez superstição, porque é apenas coisa nossa onde os outros não têm lugar, o que é totalmente contrário ao Deus comunhão e serviço que Jesus Cristo nos revelou.

A lista é tão longa e verdadeira, que ao escrevê-la me sinto tão pequeno, tão ínfimo, tão pecador, tão envergonhado, por tantas vezes aparentar aquilo que verdadeiramente ainda não sou: um cristão católico!

Como queremos nós, ao não vivermos a «união fraterna», que «o Senhor aumente, todos os dias, o número dos que entram no caminho da salvação»?

Comecemos hoje, não deixemos para amanhã, o mudar das nossas atitudes, das nossas prioridades, do nosso viver cristão, para que possamos fazer caminho ao encontro da «união fraterna», que era característica das primeiras comunidades, alicerces desta Igreja que amamos e somos todos nós, os que acreditamos que o amor de Deus nos é dado, para o darmos ao nosso próximo, que são todos os que se cruzam nas nossas vidas, seja em que circunstância for, para que «o Senhor aumente, todos os dias, o número dos que entram no caminho da salvação», também hoje nos nossos dias.


* Gn 4, 9


Monte Real, 29 de Setembro de 2010
(continua)
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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A COMUNIDADE MODELO (1)

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«Eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fracção do pão e às orações. Perante os inumeráveis prodígios e milagres realizados pelos Apóstolos, o temor dominava todos os espíritos. Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um.
Como se tivessem uma só alma, frequentavam diariamente o templo, partiam o pão em suas casas e tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus e tinham a simpatia de todo o povo. E o Senhor aumentava, todos os dias, o número dos que tinham entrado no caminho da salvação.» Act 2, 42-47


Esta é uma passagem dos Actos dos Apóstolos que serve sempre de referência ao início e desenvolvimento da Igreja.
Nela é descrita a vida das primeiras comunidades cristãs, (neste caso a comunidade de Jerusalém), que foram o embrião da Igreja dos nossos dias.

Esta narração tem elementos que nos devem fazer reflectir hoje, sobre a realidade de então, mas que verdadeiramente deve continuar a ser a base da nossa existência como cristãos e católicos, reunidos em Igreja.

«Eram assíduos ao ensino dos Apóstolos»

Seremos nós hoje em dia, em Igreja, assíduos ao «ensino dos Apóstolos»?
Aproveitamos nós, todos os momentos para melhor conhecermos a Doutrina emanada pela Santa Igreja, não só pela voz dos pastores que nos são dados, mas também por todos os documentos, livros, cursos de formação, etc., que a Igreja nos proporciona no dia-a-dia?

É que muitas vezes somos mais lestos em procurar ouvir aqueles que não estão em comunhão de Igreja, ou que estão até em confronto com Ela, deixando-nos levar pelas suas pessoais e falsas interpretações, porque muitas vezes servem melhor os seus e nossos propósitos.
Até porque o caminho de conversão diária é difícil, exigente, e assim queremos aproveitar algumas “nuances doutrinais”, não só para não exigirmos tanto de nós, mas também para “aliviarmos” as nossas consciências.

É habitual também ver católicos a lerem livros de autores que não pertencem à Igreja Católica, e alguns livros até que são escritos apenas para atacar e denegrir a Fé e a Igreja.

E se não vem “mal ao mundo” por, de vez em quando, lermos um livro de um autor de outra igreja, (até para nosso conhecimento como resposta a outrem), já não se entende que tal se faça se não temos tempo, ou não o disponibilizamos, para lermos os autores católicos, que são tantos e tão disponíveis.
E muito menos se entende que se leiam livros que atacam e denigrem a Fé e a Igreja Católica, (alguns supostamente científicos), quando afinal nunca lemos um livro sobre a Igreja, sobre a Doutrina, ou muito provavelmente nem a própria Bíblia.
E se não temos essa base de conhecimento, que cimenta a Fé, que leva á comunhão, que provoca a conversão, como nos admiramos nós que a leitura desses livros abale as nossas convicções, a “nossa” fé, se tudo afinal é apenas e só fruto de uma tradição familiar, ou de uma catequese obrigada pelos nossos pais?

Estamos e somos tantas vezes disponíveis para lermos as notícias sobre os “escândalos” na Igreja, mas será que também o somos para lermos o que a Igreja diz e decide sobre esses assuntos?

Não somos nós tão rápidos a lermos um qualquer “tratado” dum qualquer teólogo “desalinhado”, e não colocamos tantas vezes de lado uma homilia do Papa, ou de um Bispo, que nos chega pelas notícias?

Que convicção é esta que atinge tantos de nós que, quando fala alguém da Igreja, somos levados a pensar que já sabemos o que vai dizer, ou disse, e que nada vai acrescentar à nossa caminhada espiritual, mas que, ao contrário, aquilo que diz alguém que se coloca fora da Igreja, nos vai ajudar a encontrar caminho de comunhão?

Com certeza que, se não temos o conhecimento das bases da Doutrina da Fé que afirmamos professar, se não aprofundamos essas bases na procura constante, ou melhor, «na assiduidade ao ensino dos Apóstolos», apenas nos podemos dividir e desunir, porque a mais pequena interrogação vai colocar em causa a Fé e a comunhão de Igreja que desejamos e queremos viver.

Naquele tempo, aquelas mulheres e aqueles homens «eram assíduos ao ensino dos Apóstolos», porque amavam a Palavra, porque n’Ela reconheciam o próprio Deus que lhes falava, porque n’Ela encontravam alimento, encontravam unidade, comunhão e caminho para viver.
Porque naquele tempo, o «ensino dos Apóstolos», não só lhes transmitia conhecimento, mas também força e ânimo, para lutarem interiormente contra todos os ataques que a Fé em Jesus Cristo e a Igreja nascente, sofriam todos os dias.

E hoje não é assim?
Não sofre a Fé em Deus Uno e Trino, não sofre a Igreja Católica, (e sobretudo Esta entre todas as igrejas), ataques permanentes, consertados, não só dos meios de comunicação social, mas também de pensadores, de políticos, de “fazedores de opinião” e até infelizmente de alguns que se dizem católicos e que até têm responsabilidades na própria Igreja, mas teimam em interpretar a Doutrina da Fé ao seu gosto e arrogante convicção?

Como queremos nós ter conhecimentos, ter argumentos, ter força e ânimo, para responder a tais ataques, (não com violência ou destempero), mas com um testemunho sereno e convicto, por palavras e obras, se não procuramos esses conhecimentos, esses argumentos, essa força e esse ânimo, no único sítio onde nos são dados e que é em comunhão na Igreja Católica?

«Eram assíduos ao ensino dos Apóstolos»
Por isso, e passados dois milhares de anos, esta Palavra continua a ser tão actual, (não infelizmente como verdade descrita na maior parte das vezes), mas como caminho e exortação àquilo que o verdadeiro cristão e católico, deve fazer e viver, no caminho como filhos de Deus, discípulos de Jesus Cristo, a que todos somos chamados para nossa salvação e maior glória e louvor de Deus.



Monte Real, 22 de Setembro de 2010
(continua)
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sexta-feira, 17 de setembro de 2010

DEUS, PRINCIPIO E FIM DE TODAS AS COISAS

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Afirmo logo de início que nada tenho contra a ciência, antes pelo contrário, e também que reconheço a minha incapacidade de conhecimentos para discutir, sequer minimamente, conceitos científicos com quem quer que seja, e muito menos portanto, com cientistas de fama e proveito reconhecidos.

Afirmo ainda que admiro e respeito aqueles que vivem a Fé, não deixando de estudar e promover a ciência, num “casamento” que a meu ver, sempre deveria existir.

Vem este intróito a propósito do recente livro de Stephen Hawking, (que não li e não lerei, por manifesta falta de interesse e capacidade para tais “voos” científicos), em que este, ao que nos diz a comunicação social, afirma, mais coisa menos coisa, que Deus não é necessário para a criação do universo, daí inferindo, (parece-me que mais os jornais do que o próprio cientista), pela não existência de Deus.

Confesso, (sem medo de ser apelidado de obscurantista ou qualquer outro epíteto do género), que nem uma só fímbria do meu ser, que nem a mais leve beliscadura aconteceu na minha Fé, com tais declarações.

Outros ao longo da história deste mundo “decretaram” a “morte” de Deus, com argumentos pretensamente científicos, ou apenas por razões políticas, ou por simples e puro desprezo, e no entanto Deus sempre existiu, existe e continuará a existir por todo o sempre.

Que me interessa a mim que uma pessoa sem Fé, por muito inteligente e culta que seja, afirme que Deus não existe?

Deus, porque é Deus, não é “demonstrável”, pois se assim o fosse, deixaria de ser Deus.

No entanto Deus é “sentível”, é “reconhecível”, é “identificável”, pelo modo de Se revelar ao homem e com ele agir.
Aqueles que experimentam uma verdadeira vivência da Fé, aqueles que «entram no quarto mais secreto e, fechada a porta, rezam em segredo a teu Pai, pois Ele, que vê o oculto, os há-de recompensar» Mt 6,6, aqueles que se desprendem de si para se dar aos outros, aqueles que praticam o «amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmos», esses todos sabem bem ao que me refiro, quando digo que Deus é “sentível”, é “reconhecível”, é “identificável”.

É “sentível” na paz que nos inunda, na serenidade que nos conduz, na paciência que nos enforma, na fortaleza perante as tentações, na confiança e na esperança perante as provações.

É “reconhecível” na nossa mudança de proceder, de encarar e viver a vida, no perdão que somos capazes de dar e receber, na capacidade de amar e pedir mesmo por aqueles que não nos amam, nem nos querem bem.

É “identificável” naqueles que nos procuram e que despertam em nós sentimentos de solidariedade, naqueles que nos ajudam e aconselham, naqueles que dão testemunho de vida e assim nos exortam a acreditar, a caminhar.

Pois, dirão, mas isso não é “demonstrável” com fórmulas científicas, com equações perfeitas, com pensamentos racionais!
Pois claro que não!
Porque estamos a falar de Deus, e quando falamos de Deus nem as palavras que o homem inventou, servem e chegam para minimamente expressarmos o que experimentamos, o que sentimos, o que vivemos.

Oh, mas que argumentos tão “simplórios”, tão desprovidos de razão, de argumentação científica, dirão aqueles que querem “demonstrar” a “não existência” de Deus!

Mas a esses todos apenas posso responder na simplicidade das palavras que não são minhas, mas do próprio Deus:
«Jesus voltou-se e, notando que eles o seguiam, perguntou-lhes: «Que pretendeis?» Eles disseram-lhe: «Rabi - que quer dizer Mestre - onde moras?» Ele respondeu-lhes: «Vinde e vereis.» Foram, pois, e viram onde morava e ficaram com Ele nesse dia.» Jo 1, 38-39

É que, ao longo da história da humanidade, houve muitos homens e mulheres, inteligentes, cultos, cientistas, que tiveram a coragem de perguntar a Deus onde Ele morava, e fizeram-no de coração aberto, pretendendo sinceramente saber, e Ele respondeu-lhes isso mesmo: «Vinde e vereis.»
E eles foram, viram e também ficaram com Ele!

Deus é o princípio e o fim de todas as coisas e como tal da própria ciência.
Como poderia então a ciência “demonstrar” a existência de Deus?

Deus, sendo o principio e o fim de todas as coisas é sempre o Criador primeiro e último do Universo.

E com esta afirmação tenho eu muito menos medo de errar, (pois sei por convicção profunda da minha humanidade criada por Deus, que não erro), do que Stephen Hawking, que elaborou uma teoria, que última e verdadeiramente não consegue demonstrar e é passível de erros, como alguns artigos posteriores de outros cientistas mostraram aos nossos olhos.

Se abrirmos as nossas vidas, os nossos corações à procura, à presença de Deus em nós e em todas as coisas, deixará de constituir uma preocupação a “demonstração” da existência de Deus, porque ela será uma certeza profunda da nossa humanidade, e não seremos menos inteligentes, ou cultos, ou cientistas por isso, mas sim até o seremos mais, porque a nossa inteligência, a nossa cultura, a nossa ciência passarão a ser iluminadas por Aquele que é principio e fim de todas as coisas.



Monte Real, 16 de Setembro de 2010
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terça-feira, 14 de setembro de 2010

EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ

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A cabeça pende-Te
e olhas para a terra.


Mesmo no meio do sofrimento
não deixas de olhar para os Teus.
Tem-los a todos no coração,
e pregado à Cruz,
que aponta aos Céus,
por todos pedes,
a todos perdoas,
a todos dás a mão,
puxando-nos para junto de Ti,
para conTigo na Cruz,
encontrarmos Salvação.


Oh, abençoada Cruz,
onde a morte de Um,
se faz vida para todos,
e vida que não acaba,
porque é vida de Jesus,
o nosso Deus feito Homem,
que se entrega por todos,
e que não exclui nenhum.


Oh, abençoada Cruz,
grito eterno do Filho,
pedindo perdão ao Pai,
não por Ele,
mas por nós homens,
ingratos e pecadores.


Oh, abençoada Cruz,
onde o puríssimo Sangue,
do nosso Redentor,
escorreu, empapando a terra,
purificando-a do mal,
e recebido no cálice,
se tornou bebida perfeita,
matando a sede do homem,
sede de vida eterna,
alcançada nesse Lenho,
por Aquele que se fez Homem.


Oh, abençoada Cruz,
onde está pregada a Carne,
que doada em sacrifício,
se faz alimento perene,
para o homem em caminhada,
à procura do amor,
do amor de dádiva pura,
que lhe é dado por Jesus,
o Senhor e Salvador.


Oh, abençoada Cruz,
que se eleva da terra,
em direcção ao Céu,
escada segura,
escada de dor,
que subida em entrega,
é toda vida,
e amor.


Oh, abençoada Cruz,
que nos redime e salva.
A Ela me quero unir,
com toda a vida que tenho,
num abraço de esperança,
num abraço de amor,
abraçando o Santo Lenho.


Oh, abençoada,
e doce Cruz,
na Qual pende o meu Senhor.
Aceito-te,
oh Cruz,
como minha,
embora indigno e pobre,
embora tão temeroso,
que não fosse eu saber,
que és caminho,
e salvação,
de Ti me quereria afastar,
para não te sentir,
nem ver,
mas ficaria sem esperança,
sem vida,
e sem viver.


Oh, abençoada,
doce e amorosa Cruz,
amo-Te com todo o meu ser,
diante de Ti me prostro,
em humildade e oração.
Aos Teus pés,
e assim prostrado,
coloco o meu coração,
para que todo ele seja inflamado,
do amor que de Ti vem.
Assim todo em Ti fundido,
abraçando-Te,
bendita Cruz,
todo assim me conformo,
com a Tua vontade,
Jesus.




Monte Real, 14 de Setembro de 2010
Festa da Exaltação da Santa Cruz
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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

NATIVIDADE DA VIRGEM SANTA MARIA

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Ana estreitava a menina nos braços
e sorria.
Sorria porque uma indizível alegria
percorria todo o seu ser.
Joaquim olhava embevecido
aquela criança,
enrolada nos braços de sua mãe.
Olharam uma para o outro,
e nesse olhar,
houve um entendimento,
uma centelha,
um falar silencioso
que a ambos dizia:
bem aventurada,
entre as mulheres.


Tão frágil,
e no entanto,
desprendia-se daquela criança
uma simplicidade,
uma humildade,
que dava força ao seu ser.


Juntos,
de mãos dadas,
baixaram as cabeças,
e em oração,
disseram:
Obrigado,
oh Deus,
por esta graça imensa
que nos concedeste.
Desde a concepção desta menina,
que Te a oferecemos,
e agora o queremos confirmar.
É Tua,
Senhor nosso Deus!
Que nela,
seja sempre feita a Tua vontade.


A menina estremeceu,
nos braços de sua mãe!
Parecia-lhes,
que tinha entendido,
a oração que tinham feito.
Ana estreitou-a,
ainda mais no seu peito,
e Joaquim
fazendo-lhe uma terna festa,
enunciou um pedido:
Que por vontade do Senhor,
sejas sempre
a Sua mais humilde serva.


Olharam-se nos olhos,
deram-se as mãos,
e o seu olhar era alegria.
Pegaram na menina,
elevaram-na ao Céu,
e disseram:
Abençoada sejas,
Maria!


Monte Real, 8 de Setembro de 2010
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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

MORAS EM TODO O LADO, SENHOR

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Levanto os olhos para o céu
e pergunto-Te em oração:
onde moras Tu, Senhor?
Fico assim a olhar,
para cima,
para o alto,
ouvidos à escuta,
coração aberto,
mas nada me responde,
nada me aponta,
o caminho certo.
Mas eu não desisto,
nem se cansa o meu esperar,
quero ser paciente,
disponível,
todo aberto para Ti,
o coração e a mente,
o corpo,
todo o meu ser,
porque sei,
e acredito,
que Tu me vais responder.
Passa o tempo,
(para mim claro),
porque Tu não tens tempo,
ou melhor,
Tu és o tempo,
que se faz sempre presente,
e cheio do Teu amor,
pergunto mais uma vez:
onde moras Tu, Senhor?
É então que me recordo,
daqueles vestidos de branco,
que disseram aos Teus Apóstolos:
«porque estais assim a olhar para o céu?» *
Percebo a Tua resposta!
Procuro-Te inacessível,
quando Tu estás disponível.
Procuro-te no mais longe,
quando Tu és o mais perto.
Falo para Ti no exterior,
quando Te devia ouvir,
no interior.
Procuro-Te no fim,
quando Tu caminhas comigo.
Procuro-Te em todo o lado,
quando afinal estás em mim.
E quando afinal eu percebo,
que estás em mim e comigo,
também perceber me é dado,
que reconhecendo-Te Senhor,
já sei onde Tu moras:
afinal moras em todos,
moras no céu e na terra,
moras em todo o lado.


*Act 1,11


Monte Real, 1 de Setembro de 2010
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terça-feira, 24 de agosto de 2010

A ESCRITA ORANTE

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Estava cansado!
A vida parecia que já não tinha nada para lhe dar!
Não lhe apetecia fazer nada e a única coisa que ainda lhe sabia bem, que ainda o entusiasmava de alguma maneira, era escrever.

Enquanto assim pensava, ia pedindo perdão a Deus por se sentir tão sem metas, tão indiferente a tudo e até a si próprio.

Sim, porque no seu íntimo ele sabia que isto era coisa passageira, era coisa que não condizia consigo e muito menos com a fé que vivia e queria viver.

A sua fé era uma fonte de esperança, de ânimo, de confiança, o que não podia estar mais em desacordo com aquilo que agora sentia.

Por isso mesmo decidiu pegar no papel, ou melhor no teclado do computador e escrever.
Escrever sem nenhum fim específico, deixando-se levar pelas palavras que ia escrevendo, ou melhor ainda, deixando que Deus lhe falasse através das palavras que fossem surgindo aos seus olhos e sobretudo ao seu coração.

Que coisa estranha, porque normalmente quando escrevia, tinha no seu pensamento um “esqueleto” daquilo que ia escrever, tinha sempre um princípio e um fim, e à medida que escrevia ia surgindo o “meio”.
Mas agora não, escrevia apenas aquilo que lhe ia surgindo á medida que escrevia!

O que iria afinal sair como texto, desta escrita sem principio, nem fim?

As palavras iam aparecendo na sua cabeça, até talvez mais rápidas que a sua capacidade de escrever.
Sentiu que algo o incitava a não parar de escrever e a continuar a alinhar as palavras na folha branca que lhe aparecia aos olhos, no computador.

O seu corpo que ao princípio estava dobrado, mole, quase num adormecimento, começou a endireitar-se na cadeira e agitar-se na necessidade de escrever.

Aquela má disposição, aquele cansaço inexplicável, aquela sensação de nada ter e nada querer, iam dando lugar a uma vontade de explicar o que se ia passando dentro de si naquele momento.

Escrevia e vinha-lhe ao pensamento uma pergunta que quase lhe apetecia fazer em voz alta:
Estás aí Senhor?

Curiosamente parecia-lhe que em vez de ouvir palavras, (ouvir no coração claro), apenas “ouvia” um Sorriso.
Mas que é isto de “ouvir” um Sorriso, pensou ele, quando leu as palavras que tinha escrito?

É que o Sorriso era uma presença, uma brisa suave que lhe passava no coração, e o fazia sentir como alguém, como pessoa, como parte importante de alguma coisa, mas que ele não sabia definir.

Fechou os olhos por um momento e parou de escrever!

No seu pensamento, no seu coração, em todo o seu ser apenas aparecia uma frase: filho de Deus!

Ele perguntou-se:
filho de Deus?
E então sentiu, mais do que ouviu:
Sim, filho de Deus! Tu és filho de Deus!

Ele pensou e respondeu:
Claro que sou filho de Deus, eu sei! E depois o que traz isso de novo agora?

Sentiu outra vez uma resposta:
Se és filho de Deus, tens uma família, a maior família que existe, que é a família dos filhos de Deus, que é a família de Deus.
Olha, que é a família do Reino de Deus!

Começou a sentir-se diferente, mais animado, mas mesmo assim perguntou:
E depois, o que há de novo em ser da família do Reino de Deus?

Então o Sorriso abriu-se e disse-lhe:
Não sabes tu que o Reino de Deus é sempre novo? Não sabes tu que o Reino de Deus não dispensa nenhum dos seus filhos? Não sabes tu que no Reino de Deus por muito que tenhas feito, tens sempre mais a fazer? Não sabes tu que aos olhos de Deus tu és o mais importante, tão mais importante como todos os outros são os mais importantes? Não sabes tu que Ele está sempre contigo, que Ele está sempre com todos?

Sim eu sei, respondeu, começando a compreender.

O Sorriso continuou:
Então se sabes como podes tu estar desanimado, ou a pensar que a vida já não tem nada para te dar? Já perguntaste a ti próprio o que tens tu para dar à vida? À tua e às dos outros com quem te cruzas? Como podes tu acreditar que Eu estou contigo e estares desanimado?

Quem sou Eu? Perguntou então o Sorriso!

Como num impulso, escreveu:
Tu és o Caminho, a Verdade e a Vida!

Então o Sorriso tomou conta de si!
Abriu-lhe a vontade de viver, trouxe-lhe o ânimo de testemunhar, colocou em si a importância do seu ser filho de Deus, e percebeu então, mais uma vez, que era muito, muito amado pelo Amor e que isso era mais importante do que tudo o resto.

Foi então que se me esgotaram as palavras que estou a escrever, porque a oração estava feita e tinha sido ouvida!


Monte Real, 24 de Agosto de 2010
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