terça-feira, 26 de julho de 2016

O MEU PAI FARIA HOJE 117 ANOS

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O meu pai faria hoje 117 anos.

Sempre que não sei bem como proceder em determinados momentos, penso no que ele faria, mas por vezes neste mundo, dito moderno, é muito difícil seguir os seus passos.

Quando tinha talvez os meus 16/17 anos, juntava-me com os amigos numa "leitaria", (que naquele tempo tudo vendiam, até cervejas), na Rodrigo da Fonseca em Lisboa.
O Sr. Augusto, dono da leitaria, conhecia os meus irmãos mais velhos a todos e por isso permitia-me certas coisas e uma delas era o poder beber umas cervejas agora e "pagar depois".
Claro que entre cervejas, sanduíches, etc.,  a coisa não deu grande resultado e quando dei por mim, ao fim de alguns meses já devia uma grossa maquia talvez à volta de 5 contos, como se dizia naquele tempo. Ele nunca me exigiu nada, mas quando me apercebi do montante fiquei em "pânico".

Os meus pais, ("presos" em Monte Real pelas Termas e pelo  cargo de Governador Civil de Leiria), vinham a Lisboa uma vez por semana, dormindo normalmente de Terça para Quarta Feira.

Enchi-me de coragem, (o meu pai era um homem de contas e de uma honestidade acima de qualquer prova), e falei com o meu pai sobre o meu "problema".
Fiquei espantado, porque em vez de um enorme "ralhete", coisa que esperava, tal como, me desse de imediato o dinheiro para pagar a divida, apenas olhou para mim, e disse-me: Para a semana falamos!

Obviamente o meu pânico aumentou e durante a semana quase não fui ao Sr. Augusto, (assim chamávamos a leitaria), com vergonha da minha divida.

Chegou a próxima Terça Feira, o tempo foi passando, Quarta Feira e o meu pai nada de falar comigo sobre o assunto, nem lá perto.

Aproximava-se a hora de regressarem a Monte Real e nada, e o meu pânico ia-se transformando em desespero.
Quando já estavam para sair o meu pai disse: Joaquim, chega aqui pois quero falar contigo.
Entrei no quarto a pensar: Estou tramado!
Olhou para mim e perguntou-me: Quanto àquele problema que me contaste, como é que passaste esta semana?
Envergonhado disse-lhe: Ó pai, tenho tanta vergonha que não pus os pés no Sr. Augusto e até tenho dormido mal.
Olhou para mim, tirou o dinheiro necessário para pagar a divida do seu bolso e disse-me: Espero bem que tenhas aprendido a lição!

Era assim o meu pai!


Marinha Grande, 26 de Julho de 2016
Joaquim Mexia Alves
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3 comentários:

António Mexia Alves disse...

Era assim o nosso querido Pai!
Sempre e em qualquer circunstância "igual a si mesmo".
Continua a olhar por esta grande família.

Fernando Brites disse...

Já conhecia esta história exemplar, que o Joaquim já tinha contado. Lendo-a, assim, podendo relê-la e meditá-la, pensando nas minhas próprias estouvadices, ela alcança uma dimensão e uma profundidade tais que se transformam numa daquelas lições de Sabedoria que julgamos muitas vezes só acontecem longe de nós. Mas que são próprias de todo aquele que é temente a Deus e que se deixa guiar pelo Seu Espírito.

joaquim disse...

Obrigado António e Fernando.

Abraços amigos em Cristo