terça-feira, 15 de maio de 2012

«DEPOIS, VEM E SEGUE-ME»

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Quando se punha a caminho, alguém correu para Ele e ajoelhou-se, perguntando: «Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?» Jesus disse: «Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão um só: Deus. Sabes os mandamentos: Não mates, não cometas adultério, não roubes, não levantes falso testemunho, não defraudes, honra teu pai e tua mãe.»
Ele respondeu: «Mestre, tenho cumprido tudo isso desde a minha juventude.» Jesus, fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele e disse: «Falta-te apenas uma coisa: vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me.» Mas, ao ouvir tais palavras, ficou de semblante anuviado e retirou-se pesaroso, pois tinha muitos bens. Mc 10, 17-22


Também eu perguntei: «Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?»

E obtive a mesma resposta: «Falta-te apenas uma coisa: vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me.»

Então respondi-Lhe: Mas, Senhor, Tu sabes que depois de todos aqueles problemas porque passei, fiquei praticamente sem nada! E sabes também que de algum modo ainda tento dar alguma coisa do pouco que tenho, que, reconheço, é apesar de tudo mais do que o que muitos têm!

Mas Ele respondeu-me com um olhar cheio de ternura: Eu sei que tu já não tens esses bens, que também já não tens essa tal posição social que esses bens te davam, que vives com o que tens e que ainda partilhas alguma coisa daquilo que tens, mas meu filho, continuas agarrado ao que tiveste, de tal modo que colocas em tudo isso, numa qualquer possibilidade da recuperação de tudo isso, a tua felicidade no futuro!

Baixei os olhos, reconheci a verdade do que era dito, e retorqui: Mas, Senhor, é errado sonhar com voltar a ter aquilo que já tive?

E Ele cheio de paciência respondeu-me: Não, meu filho, não é errado! Mas ganhas alguma coisa em sonhar assim? Afinal em que acreditas tu? Acreditas que são os bens do mundo que te levam à vida eterna, à felicidade, ou que esse caminho é seguires-me com a vida que Eu te dou e encho do meu amor, aceitando o teu dia-a-dia no trabalho que coloco nas tuas mãos?

O diálogo continuou: Mas sabes, Senhor, por vezes tenho medo do futuro, tenho medo de ficar sem o pouco que ainda tenho, tenho medo de não saber como fazer, de não saber como viver!

Colocou-me ternamente a mão sobre o ombro e disse: Alguma vez te faltei? Alguma vez te faltei naquilo que é realmente importante na tua vida? Alguma vez não me sentiste ao teu lado? Até mesmo naqueles momentos de secura, não acreditaste sempre que Eu estava ali contigo, embora não Me sentisses?

Envergonhado respondi: Não, Senhor, sempre acreditei que estavas comigo em todos os momentos, embora por vezes me sentisse só!

Obrigou-me a sentar e olhando-me nos olhos, disse: Lembras-te quando tudo aconteceu, como sentiste o teu mundo desmoronar-se? Lembras-te como Me procuraste em cada momento, em cada palavra, em cada sinal, em cada celebração? Lembras-te que Me procuravas, mais procurando o meu amor para alcançares a paz, a aceitação de tudo, do que para pedires o retrocesso do que tinha acontecido? Naquela altura querias sentir apenas o meu amor, a minha presença junto de ti. Porque é que agora não te chega o meu amor?

Olhei-O e disse num murmúrio: É que tenho medo, Senhor! Ou será orgulho e vaidade? Ou será tudo misturado? Parece-me que aquilo que tinha era meu por direito, que fazia parte tão importante da minha vida que me é impossível separar-me de tudo, nem que seja mesmo só sonhando!

Estreitou-me nos seus braços com carinho: Não vês, meu filho, que todos aqueles bens são perecíveis, são efémeros? Não percebes que te entregas agora muito mais a Mim do que naquele tempo? Podes por acaso comprar nem que seja um pouco da vida eterna com aqueles bens? O que te falta? Falta-te amor? Falta-te a família? Faltam-te amigos verdadeiros? Falta-te algo verdadeiramente imprescindível na tua vida? Não me tens a Mim sempre junto de ti e entregando-me a ti e por ti na Eucaristia?

Afastou-me um pouco d’Ele, olhou-me profundamente, e disse: Vai, repousa no meu amor, confia em Mim, recorda o teu passado como algo de muito bom que te dei, mas confia agora apenas no futuro que em ti coloco, em tudo o que te dou, e … «depois, vem e segue-me.»

Abri os braços e clamei: Louvado sejas, Senhor!



Monte Real, 15 de Maio de 2012


Nota:
Escrito baseado na realidade da minha vida, reflectindo interiormente nas minhas fraquezas.
Por vezes os bens, mesmo já não os tendo, ainda nos agarram ao passado do mundo, acabando por ser tantas vezes quase “deuses” que mandam nas nossas vidas, não nos deixando caminhar abrindo-nos ao amor de Deus, à confiança em Deus, à esperança em Deus.
E esse “bens”, são desde coisas materiais perdidas, a pessoas queridas que já partiram, a situações vividas, que deixamos “amarrarem-nos” ao passado, impedindo-nos de uma entrega total a Deus, condicionando assim a nossa liberdade e a nossa felicidade.
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16 comentários:

P. Oliveira disse...

Caro Joaquim:
Muito obrigado pela sua reflexão, tão apropriada aos nossos tempos e ás nossas vidas "amarradas" ao que é material e efémero. Na verdade, o seu passado, a sua vida com as dúvidas e fragilidades, não é muito diferente da de muitos dos seus leitores (sou um desses).
Quem me dera poder dizer e viver "quem Deus tem, nada lhe falta".
Obrigado

Paulo disse...

"Vem e segue-Me!" "Mas, ao ouvir tais palavras, ficou de semblante anuviado e retirou-se pesaroso, pois tinha muitos bens" Tudo o resto também eu tento cumprir. Os meus únicos bens são o meu filho e a minha mulher. Não como um bem móvel, mas são os meus bens mais preciosos. Deixá-los?

Concha disse...

Amigo Joaquim
Foi com a lágrima no canto do olho,que acabei de te ler.Esta é a tua história, a minha e a de muitos.Confesso que já experimentei, ainda que a medo dar o que me faz falta.Podes acreditar senti-me aliviada e com uma alegria diferente.Depois é claro volta tudo ao mesmo.Porque é difícil abdicar do que faz falta e não falo também só de bens materiais, falo mesmo em tudo.Quando olho à minha volta e penso no que poderia prescíndir,em teoria até muita coisa mas há sempre aquela que eu digo, tudo menos isto.Pois é!Há menos as coisas, mas os afectos....Senhor aí não!
Um abraço com Paz na tua vida.

Maria João disse...

Obrigado a todos. Paz de Cristo

Maria disse...

Meu bom amigo, como eu o compreendo...também comigo se passou uma situação muito parecida e sobre a qual reflito muitas vezes, pois ainda dou vezes demais comigo a pensar no que passou e no que se perdeu em vez de agradecer a Deus tudo isso porque passei, pois quando Deus fecha uma porta abre sempre uma janela e também nos carrega ao colo, nós é que nem damos por isso. Eu pesoalmente, acho que devia agradecer infinitamente mais e confiar mais, mais ainda não cheguei lá...falta-me caminhar mais.
Abraço fraterno
Maria

joaquim disse...

Obrigado P. Oliveira.

É todo um processo de entrega a Deus, que nunca está acabado enquanto por aqui vivemos.

Um abraço amigo em Cristo

joaquim disse...

meu amigo Paulo.

Obrigado!

Não se trata de deixar mulher e filhos, pois foram-nos dados pelo Senhor.

Trata-se sim de não construirmos as nossos vidas como se a nossa felicidade dependesse inteiramente da família e dos laços que nos unem, pois, todos esses laços familiares têm de ser conformados no amor e vontade de Deus, pois eles, como a nossa vida na terra, são tudo efemeridades.

Por isso, quando assim não fazemos e vivemos, pela falta de algum ente querido, desesperamos e deixamos de encontrar sentido para a vida.

Um abraço amigo em Cristo

joaquim disse...

Amiga Concha

Como digo acima o processo de entrega é um processo de toda uma vida.

Os afectos, para nós cristãos, devem ser sempre vividos enformados pelo amor de Deus, pois assim são verdadeiros e para sempre, mas estão sempre conformes á vontade de Deus.

Um abraço amigo em Cristo

joaquim disse...

Obrigado Maria João.

Rezo por ti.

Um abraço amigo em Cristo

joaquim disse...

Obrigado Maria!

è conhecida a frase: «o caminho faz-se caminhando»

Todos os dias pela vivência da fé, em oração e nos sacramentos, vamos cada vez mais entregando-nos ao Senhor e n'Ele confiando e esperando.

Um abraço amigo em Cristo

zedeportugal disse...

Caramba! Como podia o Francisco saber que eu estava mesmo a precisar de ler isto que escreveu?
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Partilho consigo, para que saiba que não está só nesses pensamentos:
Gostava de me lembrar mais vezes de dizer: Obrigado Senhor pela grande angústia, pois foi por causa dela que Te conheci verdadeiramente.
Gostava de me lembrar mais vezes de dizer: "O Senhor o deu, o Senhor o levou: louvado seja o Senhor."
Gostava de me lembrar mais vezes de agradecer a Sua grande misericórdia para comigo, a Sua grande paciência para com as minhas faltas, o seu perdão para o meu grande pecado de desobediência.
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Abraço e desejos de bom fim-de-semana.

joaquim disse...

obrigado zedeportugal.

Deus fala-nos muitas vezes através dos outros e eu vou sempre aprendendo com os outros também.

Este "Francisco" no entanto chama-se Joaquim ... eheheh

Um abraço amigo em Cristo

zedeportugal disse...

Ops! Quando alguém começa a confundir os nomes dos santos é sinal que está mesmo a precisar de férias. ;)

joaquim disse...

Caro amigo

Não tem aml nenhum!

Só o referi por graça!

Um abraço amigo em Cristo

C.M. disse...

Este seu texto deixou-me sem palavras. Também penso que o passado muitas vezes nos aprisiona, não nos deixando viver plenamente, "condicionando assim a nossa liberdade e a nossa felicidade." - tal e qual!

Uma reflexão profunda e prolongada obrigatória deste seu tema se impõe!
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joaquim disse...

Obrigado meu amigo Delfim

Foi realmente uma meditação que recentemente mudou algo na minha vida.

Um abraço amigo em Cristo