quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A SANTIDADE

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No dia 1 de Novembro a Igreja celebra o dia de Todos os Santos.

Esta Festa não é dedicada a nenhum santo em especial, mas a todos aqueles que, tendo vivido segundo a vontade de Deus, gozam agora por Sua graça, da/na Sua presença, o louvor eterno do amor de Deus.

E todos os que estão na presença de Deus, depois de concluída a sua peregrinação na terra, são santos, independentemente de estarem ou não nos altares da Igreja, de serem ou não conhecidas as suas virtudes, ou de terem, por reconhecimento da Igreja, alguma devoção específica.

Ora isto leva-nos a pensar que, há alguns anos atrás havia a “convicção” de que os santos eram homens e mulheres, “sobredotados” por Deus, de dons e graças, que os conduziam a essa santidade.
Aparecia a nossos olhos a ideia de que. para ser santo, para além de ter de ser um “preferido” de Deus, seriam precisos sacrifícios imensos, mortificações terríveis, e sobretudo, um modo de viver quase afastado do mundo.
Ora se assim fosse, a santidade seria algo de praticamente inatingível, seria algo em que apenas alguns “escolhidos” por Deus, poderiam alcançar.

Mas nós sabemos que Deus ama os seus filhos por igual, que Deus não faz acepção de pessoas, que Deus dá a cada um o necessário, para que cada um se forme, se conforme à Sua vontade.
E a santidade não é mais do que fazer a vontade de Deus!

E a vontade de Deus para cada um, é que cada um viva a vida que lhe foi dada, como lhe foi dada, ou seja, naquilo que cada um é, e faz, à luz do ensinamento de Jesus Cristo e da Igreja, tendo para tal a permanente assistência e condução do Espírito Santo.

«41. Nos vários géneros e ocupações da vida, é sempre a mesma a santidade que é cultivada por aqueles que são conduzidos pelo Espírito de Deus e, obedientes à voz do Pai, adorando em espírito e verdade a Deus Pai, seguem a Cristo pobre, humilde, e levando a cruz, a fim de merecerem ser participantes da Sua glória. Cada um, segundo os próprios dons e funções, deve progredir sem desfalecimentos pelo caminho da fé viva, que estimula a esperança e que actua pela caridade.» Lumen Gentium

Viver a santidade, ser santo, é então fazer a vontade de Deus como pais, como filhos, como trabalhadores em cada vocação, em cada profissão, em cada estado de vida a que somos chamados.

Se Deus nos chamou à vocação do Matrimónio, é no Matrimónio que devemos ser santos, entre esposos, entre pais e filhos, percebendo sempre que a vontade de Deus é a família que Ele nos deu, e que esta deve merecer a nossa máxima atenção, e nada, a não ser Deus, pode estar acima dela.
No trabalho, seja ele qual for, mais intelectual, mais administrativo, mais braçal, vivê-lo sempre como uma bênção de Deus, a que o próprio Deus nos chama, para com Ele construirmos um mundo melhor, enformado no Seu amor. Por isso deve revestir-se de toda a honestidade, de toda a preocupação com o testemunho que cada um dá, da fé que vive, da Doutrina que professa.
Nas contrariedades e provações, compreender que Deus está connosco, e, aceitando-as, lutar para as ultrapassar, no testemunho de quem não se desespera, porque sabe que Deus nunca nos abandona.

Um Santo dos nossos tempos, São Josemaria Escrivá, (nasceu em 1902 e faleceu em 1975), foi um dos grandes arautos dessa única forma de viver a santidade no dia-a-dia e em cada forma de vida a que cada um é chamado viver.

Três citações das suas obras:

«Esta é a tua tarefa de cidadão cristão: contribuir para que o amor e a liberdade de Cristo presidam a todas as manifestações da vida moderna: a cultura e a economia, o trabalho e o descanso, a vida de família e a convivência social.» Sulco, 302

«Santificar o nosso trabalho não é uma quimera; é missão de todos os cristãos... - tua e minha.
Foi o que descobriu aquele torneiro, que comentava: - "Põe-me louco de contente essa certeza de que eu, manejando o torno e cantando, cantando muito - por dentro e por fora -, posso fazer-me santo... Que bondade a do nosso Deus!".» Sulco, 517

«Tens de permanecer vigilante, para que os teus êxitos profissionais ou os teus fracassos - que hão-de vir! - não te façam esquecer, ainda que seja só momentaneamente, qual o verdadeiro fim do teu trabalho: a glória de Deus!» Forja, 704

Também o nosso Bispo, D. António Marto, nos fala desta santidade no dia-a-dia no mundo em que vivemos, na sua recente Carta Pastoral “Testemunhas de Cristo no mundo”.

3.1 …Mas não existe verdadeira e plena qualidade de vida sem vida espiritual de qualidade. Para o cristão isto chama-se a santidade de vida no mundo. O empenho cristão na construção de um mundo justo, fraterno e pacífico, do seu desenvolvimento integral, da sua humanização através do trabalho de cada dia é expressão do seu amor filial a Deus e do seu amor ao próximo.
Nesta perspectiva cristã, o mundo é um verdadeiro lugar de graça, de vocação e missão, de santificação para os fiéis leigos que aí vivem e trabalham. Estes fiéis são chamados a santificar-se no mundo, através do mundo e com o mundo em Deus. Os grandes santos amaram o mundo do seu tempo mesmo em crise. O cristão santifica-se não só na caridade pessoal, mas também na caridade social e política – no sentido mais nobre da palavra – quando faz obra de justiça, solidariedade e promoção humana.


É preciso perceber que, para viver esta santidade que Deus, pela Sua Igreja, nos propõe e chama, só a podemos viver numa vida de compromisso diário com Cristo, e que para tal, se torna indispensável a vivência dos Sacramentos da Igreja, que são a presença real de Jesus Cristo no meio de nós.
E, claro, destes Sacramentos é de única, central e imprescindível vivência, a Eucaristia.

O tema é tão vasto que não cabe neste pequeno texto, mas, porque é de capital importância, transcrevem-se as palavras do Papa Bento XVI na Vigília de Oração com os jovens na Feira de Freiburg im Breisgau (24 de Setembro de 2011).

«Queridos amigos, o apóstolo São Paulo, em muitas das suas cartas, não tem receio de designar por «santos» os seus contemporâneos, os membros das comunidade locais. Aqui torna-se evidente que cada baptizado – ainda antes de poder realizar boas obras ou particulares acções – é santificado por Deus.

No baptismo, o Senhor acende, por assim dizer, uma luz na nossa vida, uma luz que o Catecismo chama a graça santificante. Quem conservar essa luz, quem viver na graça, é efectivamente santo.

Queridos amigos, a imagem dos santos foi repetidamente objecto de caricatura e apresentada de modo distorcido, como se o ser santo significasse estar fora da realidade, ser ingénuo e viver sem alegria.

Não é raro pensar-se que um santo seja apenas aquele que realiza acções ascéticas e morais de nível altíssimo, pelo que se pode certamente venerar mas nunca imitar na própria vida. Como é errada e desalentadora esta visão! Não há nenhum santo, à excepção da bem-aventurada Virgem Maria, que não tenha conhecido também o pecado e que não tenha caído alguma vez.

Queridos amigos, Cristo não se interessa tanto de quantas vezes vacilastes e caístes na vida, como sobretudo de quantas vezes vos erguestes. Não exige acções extraordinárias, mas quer que a sua luz brilhe em vós. Não vos chama porque sois bons e perfeitos, mas porque Ele é bom e quer tornar-vos seus amigos.

Sim, vós sois a luz do mundo, porque Jesus é a vossa luz. Sois cristãos, não porque realizais coisas singulares e extraordinárias, mas porque Ele, Cristo, é a vossa vida. Sois santos porque a sua graça actua em vós.»



Marinha Grande, 2 de Outubro de 2011


Nota:
Texto publicado como minha colaboração em "Grãos de Areia" - Boletim Mensal da Paróquia da Marinha Grande.
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13 comentários:

concha disse...

Amigo Joaquim
Ser santo não foi e nem é nos dias que correm tarefa fácil,tendo em conta as múltiplas solicitações com que somos confrontados a toda a hora.Nada acontece por acaso e esta crise que já é uma realidade tem algo de positivo no chamar-nos a viver com o essencial e numa proximidade do outro, que sempre acontece quando o Mundo falha e deixamos de colocar no lugar de Deus tudo, menos Aquele que é único e insubstituível.
Abraço na Paz

Paulo disse...

A santidade, para mim, estava espelhada no rosto da minha avó. A tudo dizia que sim sem regatear.Tudo estava bem para ela e todos nós eramos filhos de Deus, com as perfeições e imperfeições que tinhamos.
Faleceu à quase 9 anos...mas continua a ser uma santa, pelo menos para mim.

JM Ferreira disse...

Olá camarigo Joaquim;

Hoje não só te leio, como venho até ti por este meio (até rima sem querer). Só que a minha leitura é ansiosa; quero dizer que gosto muito de ler o que escreves, e, lendo, fico ansioso por chegar ao fim. Claro, que isto não é a melhor leitura. Imagina a velocidade com que se lê.
O Documento Conciliar que apontas, como sabes, é muito mais vasto. E isto daria para vários capítulos. O tema que abordas faz parte do capítulo V, daquele documento, que trata também da Vocação. Além do documento ser dirigido, no seu todo, «À Luz das Gentes», ao Povo Santo. E ser Santo pressupõe, antes, o surgimento da Vocação. Não podemos «esticar» num espaço tão pequeno, um tão longo e importante tema da Vocação, porque, ela deverá ser acompanhada, formada, integrada, esclarecida e por aí adiante. Penso que, neste artigo belíssimo, se introduzisses um pouco o tema Vocação, ficaríamos com outra visão. Porque não há santos sem leigos. Por isso, diz o documento que citas, no final do nº 36 «devem os fiéis conhecer a natureza intíma e o valor de todas as criaturas, e a sua ordenação para a glória de Deus, ajudando-se uns aos outros, mesmo através das actividades pròpriamente temporais, a LEVAR UMA VIDA MAIS SANTA, para que assim o mundo seja penetrado do espírito de Cristo e, na justiça, na caridade e na paz, atinja mais eficazmente o seu fim.»
Fico por aqui, embora não se esgote desta maneira tudo aquilo que haveria ainda a dizer.
Um abraço,

José M. Ferreira

ontiano disse...

Ser santo, como dizes, é fazer a Vontade de Deus em tudo.
E isto basta!
O problema é saber, em cada momento, qual é a Vontade de Deus!
Então... nada melhor que pedir-lhe a Ele que nos diga qual é a Sua Vontade e, se estivermos atentos e o nosso desejo for genuíno, sério,total Ele não deixará de no-la revelar.

E, talvez, depois, dizer: Domine, docere me facere voluntatem tuam quia Deus meus es Tu.
(Senhor, ensina-me a Tua Vontade porque Tu és o meu Deus)

joaquim disse...

Amiga Concha, obrigado.

Este é um tempo ideal para colocarmos em prática o Mandamento de Deus:

Amá-Lo acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.

Fácil?

Claro que não, mas com a ajuda de Deus e sabendo-nos e assumindo-nos fracos, faremos tudo o que estiver em nós fazer, e Deus olhará com bondade as nossas acções, que terão sempre como intenção a maior glória de Deus.

Um abraço amigo em Cristo

joaquim disse...

Caro Paulo.

Graças a Deus, todos temos um santo, uma santa na família.

Por veezes não reconhecemos isso mesmo.

Imitemo-los em tudo.

Um abraço amigo em Cristo

joaquim disse...

Meu caro José Ferreira

Obrigado pela tua tão completa achega.

Como calcularás o espaço para o tema do Boletim não é muito grande, pelo que se torna imperioso sintetizar ao máximo o texo sobre o tema.
Nem sempre o consigo.

Claro que a vocação maior de cada cristão é a vocação à santidade, pelo que, é uma vocação que deve ser vivida no dia-a-dia em cada "vocação" que exercemos.

Aliás, como sabes, todo esse Capítulo V da Lumen Gentium tem como título «A vocação de todos à santidade na Igreja»

Um abraço amigo em Cristo

joaquim disse...

Obrigado António.

Nada como pedir logo pela manhã o Espírito Santo, para que nos conduza, ajudando-nos a discernir a vontade de Deus em cada momento e em cada situação.

Conduzidos por Ele, de coração aberto, faremos sem dúvida a vontade de Deus, e se não fizermos Deus sabe bem, (e olha-nos com misericórdia infinita), que a nossa vontade era essa, mas que a nossa fraqueza em algum momento especifico, "venceu" a conformidade da nossa vontade com a vontade de Deus.

E depois ... é o regresso ao Caminho que sempre nos espera de braços abertos.

Um abraço amigo em Cristo

joaquim disse...

Porque me parece uma muito importante achega para este tema, aqui deixo

Excertos do Discurso de João Paulo II aos leigos na Sé de Lisboa
12 de Maio de 1982


E qual é a vossa vocação, responsabilidade e missão de leigos?
Vós bem o sabeis: o leigo está integrado no Povo de Deus, que caminha neste mundo rumo à Pátria celeste.
E fostes chamados à santidade, tendo por modelo o próprio Cristo, na sua doação integral ao Pai e aos irmãos: “como Aquele que vos chamou à santidade, sede também vós santos em todas as vossas acções” (Ibid. 1, 15).
Mas olhai que a santidade, mais que uma conquista, é dom que vos é concedido: o amor de Deus foi derramado em vossos corações pelo Espírito Santo que vos foi dado (Cfr. Rm 5, 5).
Assim, ser cristão não é, primariamente, assumir uma infinidade de compromissos e obrigações, mas é deixar-se amar por Deus …
O cristão nunca pode limitar-se a uma atitude meramente passiva, de puro receber.
A vossa missão de leigos, portanto, fundamentalmente é a santificação do mundo, pela vossa santificação pessoal, ao serviço da restauração do mundo.
O Concílio Vaticano II, que tanto se debruçou sobre os leigos e o seu papel na Igreja, acentuou bem a sua índole secular.
É o cristão que vive no mundo, responsável pela edificação cristã da ordem temporal, nos seus diversos campos: na política, na cultura, nas artes, na indústria, no comércio, na agricultura...
A Igreja há-de estar presente em todos os sectores da actividade humana e nada do que é humano lhe pode permanecer alheio.
E sois vós, principalmente, prezados leigos, que a deveis tornar presente.
Quando se acusasse a Igreja de estar ausente de algum sector, ou de despreocupar-se de algum problema humano, equivaleria lastimar a ausência de leigos esclarecidos ou a não actuação de cristãos naquele determinado sector de vida humana.
Por isso dirijo-vos um apelo caloroso: não deixeis a Igreja ficar ausente de nenhum ambiente da vida da vossa querida Nação. Tudo deve ser permeado pelo fermento do Evangelho de Cristo e iluminado pela sua luz. É vossa tarefa fazê-lo.
Este é o caminho: cristãos no aconchego da intimidade pessoal; cristãos no interior do lar – como esposos, pais e mães e filhos de família, em “igreja doméstica”; cristãos na rua, como homens e mulheres situados; cristãos na vida em comunidade, no trabalho, nos encontros profissionais e empresariais, no grupo, no sindicato, no divertimento, no lazer, etc.; cristãos na sociedade, ocupando cargos elevados ou prestando serviços humildes; cristãos na parti-lha da sorte de irmãos menos favorecidos; cristãos na participação social e política; enfim, cristãos sempre, na presença e glorificação de Deus, Senhor da vida e da história.


Um abraço amigo em Cristo

malu disse...

“A vocação do cristão é a santidade, em todo momento da vida. Na primavera da juventude, na plenitude do verão da idade madura, e depois também no outono e no inverno da velhice, e por último, na hora da morte.” - João Paulo II

Abraço.

joaquim disse...

Obrigado Malu.

Belíssima achega!

Um abraço amigo em Cristo

Ailime disse...

Amigo Joaquim,
Este seu texto sobre a santidade está magnífico e é realmente um privilégio poder nas tardes de Domingo antes de assistir à Eucaristia na minha Paróquia e sempre que posso, vir beber dos seus ensinamentos!
Sim, o Senhor convida-nos a todos a ser santos, o que não é fácil, mas como diz e bem cada um de nós à sua maneira e jeito é convidado a dar testemunho Daquele que nos convida a todos a caminhar com Ele.
Muito obrigada.
Desejo-lhe continuação de um bom Domingo.
Abraço em Cristo.
Ailime

joaquim disse...

Amiga Ailime

Fico feliz por Deus Nosso Senhor se servir de mim para, em primeiro lugar me chamar a mim ao Caminho, (que bem preciso), e depois ajudar os outros com essas reflexões.

Que Deus a abençoe.

Um abraço amigo em Cristo