terça-feira, 10 de julho de 2012

«NÃO É ELE O CARPINTEIRO…?»

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Ao ler e ouvir este versículo do Evangelho de Domingo, não pude deixar de estabelecer um paralelo com frases que tantas vezes pronunciamos no nosso dia-a-dia, quando alguém nos chama a atenção para as nossas falhas, os nossos erros, as nossa fraquezas, as nossas atitudes.

“Quem é ele para me dar lições?”
“Era o que mais faltava, não aceito lições de qualquer um!”
“Mas quem é que ele se julga para me dar conselhos?”
“Essa é boa, então o sujeito é um zé-ninguém, e vem para aqui dar conselhos?”
“Coitado, não tem instrução e julga que sabe da vida!”

E podia repetir dezenas de frases idênticas, que eu já pensei ou pronunciei em tantas ocasiões, em que alguém me chamou a atenção para algum erro ou falha minha.

E porquê?
Porque verdadeiramente aqueles a quem dirigi tais frases, em pensamento ou vocalmente, não poderiam fazer-me tais reparos ou dar tais conselhos, ou porque o meu orgulho me impedia de os ouvir e me incomodava seriamente o que me estavam a dizer, por ser real e verdadeiro e exigir de mim uma mudança de atitude?

Seriamente, tenho que reconhecer que na esmagadora maioria das vezes em que tal aconteceu, os outros tinham razão em chamar-me a atenção e dar-me conselhos, para eu questionar as minhas atitudes e formas de proceder.

Mas se eu acredito que Deus está em mim e está no meu próximo, e se acredito que se Ele se serve de mim para dar testemunho, então tenho que acreditar que também se serve dos outros em relação a mim.

Eu acredito, sem dúvidas, que Deus me/nos fala de muitos modos, e que um deles é através dos nossos irmãos, sejam eles sacerdotes, ou leigos como eu.

E acredito também que, não fazendo Deus acepção de pessoas, se serve de todos, desde os mais simples aos mais instruídos, para nos fazer chegar a sua Palavra, a sua mensagem, a sua exortação.

Não eram os primeiros Apóstolos simples pescadores?
Não nos admiramos nós, por exemplo, com a sabedoria de vida dos mais velhos em tantas coisas, (como por exemplo a agricultura), e afinal muitos deles não têm nenhum “curso superior”, ou “instrução elevada”?

Quando não queremos ouvir, nem aceitar o que os outros nos dizem sobre os nossos comportamentos, (que interiormente sabemos estarem errados), não estamos a fazer mais do que estes de que nos fala o Evangelho:

Os numerosos ouvintes enchiam-se de espanto e diziam: «De onde é que isto lhe vem e que sabedoria é esta que lhe foi dada? Como se operam tão grandes milagres por suas mãos? Não é Ele o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E as suas irmãs não estão aqui entre nós?» E isto parecia-lhes escandaloso. Mc 6, 2-3
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8 comentários:

António Mexia Alves disse...

É muito ajustado o que escreves. Somos, quase sempre, os 'donos' da verdade, a única verdade, a que interessa porque nos convém.
Convém-nos a sapiência que julgamos ter e se, por acaso, nos damos conta que, afinal, não estávamos certos, temos grande dificuldade em 'emendar a mão', e, não poucas vezes nos saímos com: 'Não era bem isso que queria dizer', em vez de, pronta e humildemente reconhecer o erro.

Jose M Ferreira disse...

Olá Joaquim;

Aqui estou mais uma vez para me deliciar com as tuas interpelações. Também ouvi...
Mas tu tens o dom de tocares nas minhas feridas, nas feridas de todos nós! Ou há alguém que se julga fora do contexto e acima de tudo e de todos?
Nós sabemos que «uns homens» que andam por aí a «semear» o que se chama ciência, que, certamente, querem ser deuses, iguais a Deus...
porque sabendo alguma coisa, julgam que sabem tudo, e, por isso, querem ser tratados como deuses... estarei errado? Oxalá que sim!

Um Ab.
JM Ferreira

Concha disse...

Amigo Joaquim
Revi-me e voltei a rever-me em tudo.Além de achar que sou inteligente,tenho muitos conhecimentos,nasci numa família tradicional,tenho alguns acessos e sei lá que mais.....quem são os outros para me virem emendar seja no que for?À partida ganham logo um adjectivo e isto é se não forem mais.É bom perceber que não valemos nada por nós.Faz-nos reconhecer ainda que por pouco tempo que só nos resta uma opção...trabalhar a humildade.

joaquim disse...

Sem dúvida António.

Mesmo quando interiormente reconhecemos que errámos, exteriormente tentamos desculpar o erro.

Um abraço amigo em Cristo

joaquim disse...

Caro amigo José

O problema é eles não perceberem que são cientistas ... graças a Deus!


Um abraço amigo em Cristo

joaquim disse...

Minha amiga Concha

Não te "preocupes" que não estás sozinha.

Todos somos um pouco assim.

Um abraço amigo em Cristo

Ailime disse...

Boa noite amigo Joaquim,
Como sempre uma excelente catequese na forma como interpreta a Palavra e no-la explica.
E acredito firmemente que ao longo da minha vida Deus me falava e continua a interpelar tanto através de questões colocadas por outros como até de silêncios que eu não sabia ou não quereria interpretar!
Como agradeço a Deus continuar a pôr-me à prova, mas também por colocar no meu caminhos pessoas que me têm ajudado a prosseguir com mais vigor a minha caminhada na Fé.
Muito grata pelo seu testemunho de verdadeiro cristão.
Abraço fraterno em Cristo.
Ailime

joaquim disse...

Obrigado Ailime

Quisera eu ser esse verdadeiro cristão!

Mas tento, todos os dias para o ser!

E, claro, as suas palavras também me desafiam sempre a ser melhor, ou seja, mais verdadeiro cristão.

Um abraço amigo em Cristo