segunda-feira, 21 de agosto de 2006

BENTO XVI: ACTIVIDADE EXCESSIVA LEVA À «DUREZA DE CORAÇÃO»

Retirado de ZENIT

Bento XVI recolhe no Ângelus dominical a herança de São Bernardo de Claraval CASTEL GANDOLFO,

* * *Queridos irmãos e irmãs: O calendário menciona hoje, entre os santos do dia, São Bernardo de Claraval, grande doutor da Igreja, que viveu entre o século XI e o século XII (1091-1153). Seu exemplo e seus ensinamentos se revelam particularmente úteis também em nosso tempo. Tendo-se retirado do mundo após um período de intensa agitação interior, foi eleito abade do mosteiro cisterciense de Claraval aos 25 anos, permanecendo em sua guia durante 38 anos, até sua morte. A entrega ao silêncio e à contemplação não o impediu de desempenhar uma intensa atividade apostólica. Foi também exemplar no compromisso com que lutou por dominar seu temperamento impetuoso, assim como pela humildade com a qual soube reconhecer seus próprios limites e faltas.
A riqueza e o valor de sua teologia não se devem ao fato de ter aberto novos caminhos, senão que dependem mais de ter conseguido propor as verdades da fé com um estilo claro e incisivo, capaz de fascinar a quem o escuta e de dispor o espírito ao recolhimento e à oração. Em cada um de seus escritos se percebe o eco de uma rica experiência interior, que conseguia comunicar aos demais com uma surpreendente capacidade de persuasão.
Para ele, a maior força da vida espiritual é o amor. Deus, que é Amor, cria o homem por amor, e por amor o resgata; a salvação de todos os seres humanos, feridos mortalmente pela culpa original e carregados com os pecados pessoais, consiste em aderir firmemente à divina caridade, que se nos revelou plenamente em Cristo crucificado e ressuscitado. Em seu amor, Deus cura nossa vontade e nossa inteligência enfermas, elevando-as ao nível mais alto de união com Ele, ou seja, à santidade e à união mística.
São Bernardo fala, entre outras coisas, disso em seu breve mas consistente «Liber de diligendo Deo» (Livro sobre o amor de Deus). Tem outro escrito que quero assinalar, o «De consideratione», um breve documento dirigido ao Papa Eugênio III.
O tema dominante deste livro, sumamente pessoal, é a importância do recolhimento interior -- e o diz a um Papa --, elemento essencial da piedade. É necessário prestar atenção nos perigos de uma atividade excessiva, independentemente da condição e o ofício que se desempenha, observa o santo, pois -- como diz ao Papa desse tempo, e a todos os Papas e a todos nós -- as numerosas ocupações levam com freqüência à «dureza do coração», «não são mais que sofrimento para o espírito, perda da inteligência, dispersão da graça» (II, 3).
Esta advertência é válida para todo tipo de ocupações, inclusive às inerentes ao governo da Igreja. A mensagem que, neste sentido, Bernardo dirige ao pontífice, que tinha sido seu discípulo em Claraval, é provocadora: «Olha aonde te podem arrastar estas malditas ocupações, se segues perdendo-te nelas... sem deixar-te nada de ti para ti mesmo» (ibidem). Que útil é também para nós este chamado à primazia da oração! Que são Bernardo, que soube harmonizar a aspiração do monge à solidão e à tranqüilidade do claustro com a urgência de missões importantes e complexas ao serviço da Igreja, nos ajude a concretizá-lo em nossa existência, em nossas circunstâncias e possibilidades.
Confiamos este difícil desejo de encontrar o equilíbrio entre a interioridade e o trabalho necessário à intercessão de Nossa Senhora, a quem desde criança amou com terna e filial devoção, até o ponto de que mereceu o título de «doutor mariano». Invoquemos-la para que alcance o dom da paz autêntica e duradoura para o mundo inteiro. São Bernardo, em um discurso famoso, compara Maria com a estrela à qual os navegantes olham para não perder sua rota. Escreve estas famosas palavras: «Na onda das vicissitudes deste mundo, quando em vez de caminhar por terra, tens a impressão de ser agitado entre as marolas e as tempestades, não tires os olhos do resplendor desta estrela, se não queres que te traguem as ondas... Olha a estrela, invoca Maria... Se a segues, não te equivocarás de caminho... Se ela te protege, não terás medo; se ela te guia, não te cansarás, se ela te é propícia, chegarás à meta» («Homilia super Missus est», II, 17).

Muitas vezes fazemos muito e amamos pouco.
Lembro-me de uma história que me contaram de alguém que chega ao Céu e começa a contar a Jesus tudo o que tinha feito intensamente na sua vida pelos outros e quando chegou ao fim Jesus perguntou-lhe apenas:
-E amás-te!!!

1 comentário:

Nova Evangelização disse...

* * *
Caríssimo Joaquim Mexia,

Venho, de certo modo, retribuir os vários comentários que generosamente tens deixado no blog Nova Evangelização.
Aproveito para deixar-te uma mensagem, em particular alusiva a esta tua postagem.

Efectivamente, o mais importante neste mundo não é fazer muito e de qualquer maneira, tabalhar excessiva e desordenamente, mas sim amar muito e sensatamente, fazer todo o bem posssível, mas com conta, peso e medida.

E uma das melhores maneiras de amar a Deus e ao próximo, tal como preceitua a Lei de Deus, é rezar, é meditar, ainda que em silêncio, de modo contemplativo.
Mas é também sofrer, com paciência e resignação, fazer penitência humildemente, ser disciplinado e austero, sobretudo em relação a todas as solicitações hedonistas e tentações diabólicas, de que ninguém está imune, para o bem e para o mal, conforme as mossas reacções, conforme as nossas virtudes ou omissões...

Somos filhos de Deus, e como tais Ele a todos quer salvar, ao ponto de ter morrido por todos nós, depois de ter sofrido os maiores tormentos e humilhações!

Contudo, Deus, porque nos ama imensamente e quer sempre o melhor para todos nós, não hesita em fazer depender a nossa Salvação eterna do nosso livre arbítrio, que respeita inteiramente, como máxima prova das Suas infinitas Misericórdia, Justiça, Perfeição e Santidade...

Cabe a nós, porém, a decisão final: o último querer reconhecido e afectuoso, de alma e coração, visando a Vida Eterna, que é a plena e definitiva posse do próprio Deus; ou o ingrato e voluntário desprezo e rejeição, com total advertência, do Deus de Amor, com todas as terríveis e eternas consequências...

S. Bernardo de Claraval deu-nos, como tantos outros grandes Santos, esse magnífico exemplo, como bom discípulo de Cristo, de sabermos optar por Deus sábia, fiel e audaciosamente, com sensatez, reconhecimento, humildade, pureza, renúncia e extrema dedicação.

Não, não há alternativa, ou uma terceira via, para a nossa eterna Salvação, a não ser por caminhos extraordinários e insondáveis (só de Deus conhecidos), mas por isso mesmo extremamente dúbios e perigosos, porque aí só funciona, quando muito, a Divina Misericórdia, embora por acção/influência do Corpo Místico, que são todos os Cristãos em particular e toda a Humanidade em geral...

Cordiais saudações, com solícitas orações, em Jesus e Maria.
José Mariano

P.S.: * Caro amigo Joaquim, haja o que houver, apelo para que sejamos cada vez mais unidos, compreensivos e solidários, segundo o Divino Beneplácito, que em tudo deve abençoar e guiar a nossas vidas, até ao momento final, rumo a Eternidade.
* Não me esqueci de oportunamente, quando tiver mais disponibilidade, fazer uma selecção de algumas das tuas mais belas orações, a fim de publicá-las no blog Nova Evangelização, na certeza de que serão de grande edificação.
* Que Deus esteja sempre contigo, bom irmão!