terça-feira, 4 de abril de 2006

O PERDÃO

Vês Senhor, dizia o homem para Jesus, como queres que nós não sintamos desejo de fazer justiça sumária a estes homens, (serão homens?), que mataram aquele bébé de 18 meses, segundo parece sem nenhuma razão, (e que razão poderia haver para se matar um bébé), apenas segundo um deles, porque fazia muito barulho?

Como queres Tu, Senhor, que nós perdoemos a esta gente? Não será legitima a nossa indignação? Será que estes homens devem viver entre nós?

Jesus, com muita calma, escrevendo no chão mais uma vez, levantou a cabeça e olhando-o com os Seus olhos cheios de lágrimas, disse-lhe:

Meu filho, não sabes como Eu sofro pelo que aconteceu. O Meu coração está trespassado de dor por aquela criança que desde sempre amei com o Meu amor eterno. Não te desesperes, porque ela está junto de Mim, no gozo eterno que só no Céu se vive para sempre.

Mas não te espantes com o que te vou dizer, nem faças juízos precipitados, guarda apenas no teu coração e medita nisto que te digo:
Eu amo tanto aqueles homens, como amo aquela criança ou como te amo a ti.

Se Eu pudesse medir o Meu amor, e lembra-te que não há medida para ele, Eu diria até, correndo o risco de te revoltar, que amo mais aqueles homens, que aquela criança ou a ti.

Sabes porquê? Porque precisam mais de Mim, porque estão tão afastados da Verdade e da Misericórdia, que precisam mais de sentir que Eu os amo e os perdôo, o que não significa que não tenham de cumprir a pena devida pelos seus actos.

Meu filho, perdoar as coisas simples é fácil. Perdoar aquilo que nos dói mais profundamente no nosso coração é que é difícil, é que revela a tua Fé na Misericórdia divina.

Digo-te um segredo:
Não procures em ti forças para lhes perdoar, procura antes perdoar com o amor que Eu te tenho, procura antes perdoar com o perdão que todos os dias derramo em ti, quando me ofendes com tantas coisas na tua vida.

Lembra-te de Mim, quando crucificado levantei os olhos ao Céu e disse:
Pai perdoa-lhes que não sabem o que fazem.

Não vivas no rancor, nem no desejo de fazer mal àqueles que fazem o mal.

O rancor e o desejo de vingança, como se fosse uma justiça, apenas envenenam a tua vida.

Deixa que a justiça humana instituída faça o que tem de ser feito, sem colocar em causa a vida destes homens, (que como sabes me pertence), e tu reza por eles, para que o seu coração se abra ao meu amor, para que então sim, eles entendam perfeitamente no seu coração o acto que praticaram e chorem amargamente o seu arrependimento.

Digo-te que a sua dor será maior do que tu podes algum dia imaginar e que só será mitigada pela minha Misericórdia.

Jesus baixou a cabeça e voltou a escrever no chão.

O homem de cabeça baixa disse: Obrigado Senhor pela Tua lição. O meu coração ainda está revoltado e o desejo de fazer a “minha” justiça ainda não desapareceu, mas com aTua ajuda, aberto à Tua Misericórdia e ao Teu Perdão, também serei capaz de perdoar.

1 comentário:

apagosoquedavid disse...

O que escreveria Jesus no chão?

Tantas vezes me tenho perguntado isto: Que escreveria Jesus no chão quando a Madalena tremendo e chorando esperava a mesma sentença daquEla Boca Divina que ouvia estentóriamente daqueles quantos a queriam lapidar pelo seu delito.

Imagino-me escritor e a contar uma história, poderosa e comovente, sobre isto: O QUE JESUS ESCREVEU NO CHÃO.

Mas depois percebo que nem tenho nem arte nem engenho para tal e, se o Espírito Santo me desse essas virtudes, nem que fosse só para o fazer, depara-me-ia com uma impossibilidade: Nem todos os livros do mundo chegariam para contar o que Jesus escreveu no chão.

Sim, estou convencido que ele escrevia, em pormenor, a vida de cada um dos acusadores da adúltera - a começar pelos mais velhos - e, depois, haveria de escrever, também em detalhe, a minha vida, e a tua, e a de todos.

E lá estaria toda a minha raiva, os meus desejos de justiça sumária, a minha suposta dignidade, ofendida; os meus direitos, que tanto prezo, ultrapassados; a minha importância, que constantemente, cultivo, rebaixada.

Vi lá descritas as minhas pretensões de juiz rigoroso; de avaliador de pormenores; de crítico implacável.

Reparei que o dedo de Jesus escrevia agora: Se não fizeste ainda o mesmo - ou pior - que aqueles desgraçados fizeram áquele bébé foi únicamente porque Eu te assisti com a minha graça.

Fiquei confesso, aterrado e, como os outros, envergonhadíssimo, retirei-me de cena.