quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O DEMÓNIO E AS TENTAÇÕES (5)

.
.
Diz-nos o Catecismo da Igreja Católica
418. Como consequência do pecado original, a natureza humana ficou enfraquecida nas suas forças e sujeita à ignorância, ao sofrimento e ao domínio da morte, e inclinada para o pecado – inclinação que se chama «concupiscência» .

Assim o Demónio serve-se dessa nossa inclinação para o pecado, para tentando-nos, nos levar a pecar, e pelo pecado nos afastar de Deus, razão pela qual e mais uma vez a nossa vigilância tem de ser constante, com uma vivência real e verdadeira da fé que afirmamos professar.

E não nos enganemos, pois é muitas vezes nas mais “pequeninas” coisas que nos deixamos enredar e, em vez de caminharmos em Cristo como é nosso desejo, caminhamos “distraídos”, deixando-nos envolver em coisas que parecem um bem, mas que afinal nos vão afastando do bem que nos é dado quando vivemos segundo a vontade Deus.

Reflictamos agora como por vezes nos podemos deixar levar na tentação subtil, quando nos dispomos a servir, (mesmo fazendo-o em Igreja), que nos leva a afastarmo-nos do bom propósito de algo a que fomos chamados para o bem comum.

Uma história verdadeira, resumidamente, a propósito do que acima é referido.

“Passados uns tempos de ter iniciado a minha caminhada num Grupo de Oração, vieram ter comigo para eu fazer um ensinamento sobre a Palavra de Deus, pois era necessário o grupo ter alguém que o fizesse semanalmente.
Apeteceu-me recusar, lembro-me que ofereci muita resistência ao “pedido”, (até porque eu era muito tímido para falar em publico), mas lá me dispus a fazê-lo.
Preparei-me, muito bem preparado, e à medida que o ia fazendo ia crescendo em mim a certeza de que tudo iria sair muito bem, que eu era inteligente, etc., e portanto não iria haver problemas e até iriam ficar espantados com as minhas capacidades.
No dia semanal da oração lá estava eu convencido que iria ser muito fácil. Quando chegou o momento, levantei-me, rezaram por mim, e eu comecei a falar.
Disse duas ou três frases, calei-me, fiquei envergonhadíssimo e disse: Eu não sou capaz, e sentei-me.
Nessa altura o Marcelo, (hoje sacerdote), voltou-se para mim e disse: Tu és capaz Joaquim, não desistas.
Levantei-me outra vez e falei, falei não sei o quê, mas falei o que me vinha ao coração. Foi uma lição que não esqueci.
A partir daí comecei a fazer os ensinamentos, não só no meu grupo, mas passado algum tempo noutros grupos para onde me convidavam.”

Por esta história podemos perceber dois tipos de tentações, diria quase antagónicos, mas que no fundo apenas pretendem afastar-nos daquilo que somos chamados a fazer.

Por um lado o auto-convencimento de que sou capaz sozinho, e por isso apenas me basta estudar, reflectir e confiar nas minhas capacidades.
Claro que tudo isso é necessário pois Deus serve-se daquilo que cada um é, mas se não nos entregarmos nas Suas mãos, se não nos abrirmos ao Espírito Santo, «que fala em nós» Mt 10,20, como podemos nós transmitir o que Deus quer dizer a nós próprios, e por nós aos outros?
Podemos fazer um belo discurso, com belas palavras, mas esse discurso não terá “efeitos” na vida daqueles que ouvem, porque está “vazio” de Deus, e assim, algo que parecia bom, acaba por não edificar, acaba por não tocar os corações que precisam ser tocados.

Por outro lado, oposto ao primeiro, a assunção de que não somos capazes de fazer aquilo que nos é pedido.
Esta posição que parece realmente oposta à primeira, não o é no entanto em verdade, porque a maior parte das vezes se baseia no medo de falhar, portanto numa vergonha humana, porque verdadeiramente estamos a contar apenas connosco para o fazermos.
A “obra” parece-nos demasiadamente grande e somos levados a recusá-la porque apenas confiamos em nós e assim não usamos os talentos que Deus nos dá e que vão permanecendo escondidos, muitas vezes até para nós, porque nunca nos apercebemos deles, porque não os exercitámos.
Não era Pedro um simples pescador?
E no entanto o Espírito Santo fez nele a obra necessária.
Os talentos que Deus nos dá, são sempre para a edificação de todos no cumprimento da missão a que todos os cristãos são chamados, e se deles não nos servimos, pecamos por omissão e também porque recusamos aquilo a que somos chamados por Deus, mesmo naquilo a que se possa chamar de “serviços mais simples”, mas que o não são, porque todos têm a mesma dignidade aos olhos de Deus.

Outra história que ilustra outra forma de sermos tentados a afastar-nos do essencial, para nos perdermos no “acessório”.

“Ao falar em público expunha-me, e as pessoas vinham ter comigo e isso envaidecia-me, orgulhava-me, julgando eu severamente esses meus pecados. Havia, portanto, uma luta interior em mim, por causa do meu orgulho, da minha vaidade.
Num retiro da Comunidade Pneumavita, e durante a adoração nocturna ao Santíssimo Sacramento, pedi ao Senhor que me “libertasse” de fazer os ensinamentos, porque me estava a fazer pecar, porque me estava a “ocupar” numa luta constante contra os meus sentimentos de orgulho. Dormi descansado, sabendo que Ele não deixaria de responder ao meu apelo.
No outro dia e no final do retiro o Padre Lapa perguntou se alguém queria partilhar, enfim dar testemunho.
Depois de algumas pessoas terem falado, levantou-se um homem que disse mais ou menos isto:
Não vou falar sobre o retiro, mas tenho de testemunhar isto que me aconteceu. Sou um jogador inveterado e gasto todo o meu dinheiro no jogo. Estou no Renovamento Carismático há uns anos, já rezaram por mim, para me libertar deste vício, estive alguns dias sem jogar, mas volto sempre ao mesmo.
No princípio deste ano fui a um grupo de oração perto de Monte Real.
Voltando-se para mim, disse então:
Ali o Joaquim, fez um ensinamento sobre os vícios que acontecem nas nossas vidas e nos escravizam, e eu desde essa noite, já lá vão 6 meses, nunca mais joguei.
Calculam como eu fiquei, não orgulhoso, mas envergonhado, corado, sem saber onde me meter.
Percebi o “recado” de Deus!”

Tinha-me respondido, não como eu queria, mas de modo a que eu percebesse que se queria estar ao Seu serviço, tinha de enfrentar as dificuldades, e, mais do que isso, que o inimigo se serve de coisas aparentemente boas, (libertar-me das razões do meu orgulho), para nós não utilizarmos os dons, os talentos que o Senhor nos dá para O servirmos, servindo os outros.
Levou-me a perceber que nunca sabemos quando uma palavra, um gesto, uma atitude que Deus coloca em nós, vai servir o outro, vai mudar a sua vida, vai dar-lhe paz, vai fazê-lo sentir-se amado, acolhido, vai ser o “empurrão” decisivo para uma tomada de decisão que mude a sua vida, por isso mesmo temos de estar disponíveis a sermos utilizados por Deus, servindo-nos dos dons e talentos que em nós coloca.

Por aqui percebemos como muitas vezes somos levados a lutar obcecadamente contra defeitos nossos, o que nos leva a afastar-nos do essencial, a não nos abrirmos à graça de Deus, e mais do que isso, não confiando em Deus, colocarmos a nossa luta nas nossas capacidades.
E se apenas confiamos em nós, a nossa luta contra o Demónio e as suas tentações estará perdida, porque nada podemos sem a ajuda de Deus.

Diz-nos o Santo Padre Pio
«Não vos esforceis para vencer as tentações, porque esse esforço as reforçariam. Desprezai-as e não vos detenhais nelas.
Acaso não é por inspiração do Espírito Santo que sabemos que, quanto mais uma alma se aproxima de Deus, mais deve estar preparada para as tentações?
Portanto, se é assim, coragem. Combate fortemente e receberás o prémio reservado às almas fortes.
Deves recorrer a Deus durante os ataques do inimigo, em Deus deves confiar e d’Ele deves esperar todo o bem. Não te fixes voluntariamente no que o inimigo te apresenta.
Lembra-te que vence quem foge.
Aos primeiros momentos de tentação, deves desviar o pensamento e recorrer ao Senhor.
Diante d’Ele põe-te de joelhos e, com grande humildade, repete esta pequena oração: “Tem misericórdia de mim, Senhor, pois sou uma pobre doente”.
Em seguida levanta-te e, com santa indiferença prossegue os teus afazeres.»


Outra forma de tentação hoje em dia muito presente é o activismo excessivo, e aqui apenas falamos desse activismo em Igreja.

Somos tentados a abraçar todas as causas, todos os serviços, todas as actividades e logo à partida um mal se detecta: Quem tudo quer fazer, nunca faz nada bem, e raramente acaba o que começa.

Depois este activismo excessivo leva sempre a que se fechem as portas a outros que também querem ajudar, mas já não encontram espaço, porque nós ocupámos os espaços todos.
Leva ao orgulho, sem dúvida, porque leva ao auto-convencimento de que somos insubstituíveis e que sem nós nada se faz.
Assim, também leva à permanência “eterna” à frente de serviços, de actividades, etc., o que provoca sempre um “deserto” à nossa volta e nos leva a dizer, supostamente com humildade, que não podemos sair das nossas “funções” porque não há ninguém para nos substituir.

Mas esse activismo leva-nos também, por falta de tempo, a descurarmos a nossa oração particular, a nossa meditação da Palavra de Deus, enfim o nosso crescimento em conhecimento para melhor amarmos e servirmos a Deus e aos outros.

Até porque esse activismo excessivo leva-nos a concentrarmo-nos em nós, no nosso “gozo” e “prazer”, de tal modo que a verdadeira caridade fica afastada das nossas actividades e o que fazemos é para nosso deleite e não para servirmos a Deus, servindo os outros.

O Papa Bento XVI chama-nos a atenção para este activismo em pelo menos duas ocasiões.

Na Encíclica DEUS CARITAS EST
37. Chegou o momento de reafirmar a importância da oração face ao activismo e ao secularismo que ameaça muitos cristãos empenhados no trabalho caritativo.

E numa catequese sobre São Bernardo de Claraval
«Tem outro escrito que quero assinalar, o «De consideratione», um breve documento dirigido ao Papa Eugénio III.
O tema dominante deste livro, sumamente pessoal, é a importância do recolhimento interior -- e o diz a um Papa --, elemento essencial da piedade. É necessário prestar atenção nos perigos de uma actividade excessiva, independentemente da condição e o ofício que se desempenha, observa o santo, pois -- como diz ao Papa desse tempo, e a todos os Papas e a todos nós -- as numerosas ocupações levam com frequência à «dureza do coração», «não são mais que sofrimento para o espírito, perda da inteligência, dispersão da graça» (II, 3).
Esta advertência é válida para todo tipo de ocupações, inclusive às inerentes ao governo da Igreja.»

Mas se reflectirmos ainda mais ao que pode levar este activismo excessivo, pensemos em alguém que é casado e tem uma família, e assim percebemos como o mesmo é pernicioso, e pode conduzir a danos terríveis na família e na própria vivência da fé pela família.

O homem e/ou a mulher que são chamados ao Matrimónio têm como prioridade a sua família, (a “sua” igreja doméstica), para além, obviamente, da sua prática de vivência diária da fé, individual e em comunhão de Igreja.

Se estão envolvidos, ou se deixam envolver em actividades excessivas, terão consequentemente de faltar em muitas ocasiões à sua comunhão familiar.
Se for um só deles, sofre o outro e os filhos, se forem os dois, sofrem os filhos, sem dúvida, e poderão sofrer os avós e os netos.
Fica destruída a unidade, a comunhão, e o amor familiar, parecendo no fundo que estão a fazer um bem, pois estão a “trabalhar” para a Igreja, pois estão a “fazer” caridade.

Mas pior do que isso, porque aos outros, aos que sofrem pela ausência, a “razão última” de tal acontecer parece ser a Igreja, parece ser Deus!
Ora isto, leva com certeza, a uma revolta contra a Igreja, contra Deus, por parte daqueles que sofrem essa falta de comunhão familiar.

Por aqui podemos perceber como uma coisa aparentemente tão boa, como o estar envolvido em actividades da Igreja, em actividades caritativas, se for em excesso, sem bom senso, sem discernimento, acaba por conduzir a um mal de difícil reparação.

Atentemos ao que nos diz a Constituição Pastoral GAUDIUM ET SPES
52. A família é como que uma escola de valorização humana. Para que esteja em condições de alcançar a plenitude da sua vida e missão, exige, porém, a benévola comunhão de almas e o comum acordo dos esposos, e a diligente cooperação dos pais na educação dos filhos. A presença activa do pai contribui poderosamente para a formação destes; mas é preciso assegurar também a assistência ao lar por parte da mãe, da qual os filhos, sobretudo os mais pequenos, têm tanta necessidade; sem descurar, aliás, a legítima promoção social da mulher.

Em tudo e mais uma vez, devemos vigiar, devemos discernir cada situação, cada decisão, e em todo o momento deixarmos que Deus fale ao nosso coração, pedindo também humildemente conselho, a quem nos pode aconselhar.


Marinha Grande, 8 de Fevereiro de 2011
(continua)
.
.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O DEMÓNIO E AS TENTAÇÕES (4)

.
.
Hoje vivemos num mundo que não dá respostas ao homem naquilo que ele mais anseia, e que é no fundo, a sua felicidade, a sua realização plena como homem.

O “mundo” pode cobrir o homem de riquezas materiais, de poder, de auto-satisfação, mas a ansiada paz, que é fruto do amor, que leva à felicidade, não pode ser comprada, não pode ser alcançada pelas riquezas materiais, nem pelo poder do “mundo”.

Aliás, o “mundo” ao “cobrir” uns de tantos bens e riquezas, faz com que outros vivam na miséria, e como tal, ao provocar pelo egoísmo de uns a revolta de outros, vai afastando o homem do projecto de Deus, que é o povo de Deus chamado e congregado, em que todos são irmãos, filhos de um Pai de amor que é Deus, unidos em comunhão de amor.

Ora este “mundo” não é o planeta Terra, nem a terra onde vivemos, mas sim a permanente acção do Demónio, que levando os homens ao egoísmo, à obsessão da posse, da riqueza material e do poder sobre os outros, vai provocando a destruição da harmonia entre os filhos de Deus, e como tal, à recusa da aceitação do amor de Deus, que deve levar forçosamente ao amor entre os homens, como filhos do mesmo Pai.

«Escuta, Israel: O Senhor nosso Deus é o único Senhor; amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças. O segundo é este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior que estes.» Mc 12, 29-31

Frustrados pelas coisas que este “mundo” lhes oferece, uns porque já não sabem o que podem ter mais, outros porque nada têm, tentam os homens de hoje tantas vezes, procurar no sobrenatural, aquilo que lhes falta para alcançarem a felicidade.

E é muitas vezes aqui que a acção do Demónio se exerce de forma subtil, como ele sempre faz, e mascarando a legítima procura da felicidade, tenta o homem a deixar-se conduzir por caminhos que o levam ao afastamento de Deus.

Assim, hoje em dia o mundo está cheio de “espiritualidades”, umas mais visíveis nos seus propósitos e outras mais encapotadas nas suas formas.

Ainda recentemente ouvi alguém dizer-me que Jesus Cristo tinha sido o primeiro mestre de Reiki!

Se não fosse tão triste a afirmação, daria quase para rir!

Mas a verdade é que estas “espiritualidades” se vão servindo do Nome de Deus, para alcançarem os seus propósitos que, acredito, nalguns que as seguem até podem ser “bem-intencionados”.

Não vou obviamente fazer aqui a análise de todas essas “espiritualidades”, (nem para tal tenha conhecimentos e competência), mas tentar reflectir com simplicidade sobre o que todas essas “espiritualidades” advogam e praticam, conduzindo o homem sem se aperceber, ao afastamento de Deus.

Todas essas “espiritualidades” se fixam e fazem do homem o único autor e interveniente no seu caminho para a felicidade.

Assim procuram apenas a satisfação individual do homem e fazem do homem o centro, e é pelo homem e o próprio homem, que afirmam poder-se alcançar a felicidade e a realização plena.

Podem nos seus “ensinamentos” fazer menção, servirem-se do Nome de Jesus Cristo, algumas até de Maria, nossa Mãe do Céu, e dos Santos, mas no fundo o que apregoam é que o homem sozinho pode atingir a felicidade e a sua realização plena.

Deus é apenas “citado” para dar “credibilidade”.

Ora se acreditamos no Deus Criador, no Pai que enviou ao mundo o Seu próprio Filho para nos remir da lei do pecado e da morte, como podemos nós acreditar que sem Deus podemos alcançar a felicidade e a realização plena como homens?

Se acreditamos que fomos criados à imagem e semelhança de Deus, como podemos nós alcançar a felicidade e a realização plena, a não ser pelo nosso próprio esforço, obviamente, mas também e sobretudo pela graça de Deus?

Se fossemos capazes sozinhos de alcançar a felicidade e a realização plena, não seriamos nós deuses de nós próprios?

E afinal não foi essa a razão principal para a queda dos anjos, o Demónio e os anjos decaídos, que queriam ser iguais a Deus?

Algum homem, alcançou sozinho a felicidade, a realização plena, libertando-se da lei da morte?

Que necessidade tem alguém que se diz, ou que quer verdadeiramente ser discípulo de Cristo, de procurar fora da Igreja em que foi baptizado, caminhos ínvios, quando tem á sua disposição o verdadeiro caminho?

No fundo ao fazê-lo, ao procurar esses caminhos, não está a fazer mais do que negar o caminho que Deus lhe oferece, e foi revelado ao homem desde sempre, e finalmente em Jesus Cristo.

Claro que em muitas dessas “espiritualidades” se fala em Jesus Cristo, em oração, etc., etc.
Mas se não se falasse, alguém que se diga cristão frequentaria esses caminhos?

O Demónio na tentação, não nos confronta, não nega aquilo em que acreditamos, mas sim, tenta conduzir-nos a caminhos que mistificados por uma falsa “presença” de Deus, acabam por nos ir afastando d’Ele.

Temos por exemplo as “espiritualidades” que levam a acreditar na “reencarnação”, e há infelizmente tantos cristãos católicos que caem nesse erro, muitos provavelmente de boa fé, mas também e apenas porque não querem saber, nem querem conhecer verdadeiramente a Doutrina, para não terem de mudar.

E, no entanto, basta lermos a Carta aos Hebreus 9, 27 «E, assim como está determinado que os homens morram uma só vez e depois tenha lugar o julgamento», para percebemos como essa “teoria” está errada.

Ou o Catecismo da Igreja Católica § 1013
«A morte é o fim da peregrinação terrena do homem, do tempo de graça e misericórdia que Deus lhe oferece para realizar a sua vida terrena segundo o plano divino e para decidir o seu destino último. Quando acabar «a nossa vida sobre a terra, que é só uma» (LG 48), não voltaremos a outras vidas terrenas. «Os homens morrem uma só vez» (Heb 9, 27). Não existe «reencarnação» depois da morte.»

Ou ainda a Constituição Dogmática Lumen Gentium § 48
«Mas, como não sabemos o dia nem a hora, é preciso que, segundo a recomendação do Senhor, vigiemos continuamente, a fim de que no termo da nossa vida sobre a terra, que é só uma (cfr. Hebr. 9,27)»

Assim, se não temos conhecimentos para nos apercebermos racionalmente desse erro, então porque, afirmando-nos cristãos católicos, em vez de aceitarmos a Doutrina da Igreja, teimosamente persistimos em querer acreditar no erro?

Não sabemos, não queremos saber, mas acreditamos mais naquilo que nos dizem, do que na Igreja a que afirmamos pertencer!

Não é este procedimento a aceitação de uma tentação demoníaca, (fazer a minha vontade e não a vontade de Deus), que tem sempre como fim afastar-nos da Verdade, afastar-nos de Deus?

E as “espiritualidades” que “evocam os mortos”? E a adivinhação e a magia?

Não é tão clara a Bíblia, a Palavra de Deus, sobre estes assuntos?

«Ninguém no teu meio faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha; ou se dê a encantamentos, aos augúrios, à adivinhação, à magia, ao feiticismo, ao espiritismo, aos sortilégios, à evocação dos mortos, porque o Senhor abomina todos os que fazem tais coisas.» Dt 18,10-12

«Não vos volteis para os espíritos dos mortos nem consulteis os adivinhos. Não vos contamineis com isso. Eu sou o Senhor, vosso Deus.» Lv 19,31

«Porque isto diz o Senhor do universo, Deus de Israel: 'Não vos deixeis seduzir pelos profetas que se acham entre vós, nem pelos adivinhos, e não façais caso dos sonhos que tendes.» Jr 29,8

Ou ainda, e mais uma vez, o Catecismo da Igreja Católica

2115. Deus pode revelar o futuro aos seus profetas ou a outros santos. Mas a atitude certa do cristão consiste em pôr-se com confiança nas mãos da Providência, em tudo quanto se refere ao futuro, e em pôr de parte toda a curiosidade malsã a tal propósito. A imprevidência, no entanto, pode constituir uma falta de responsabilidade.

2116. Todas as formas de adivinhação devem ser rejeitadas: recurso a Satanás ou aos demónios, evocação dos mortos ou outras práticas supostamente «reveladoras» do futuro. A consulta dos horóscopos, a astrologia, a quiromancia, a interpretação de presságios e de sortes, os fenómenos de vidência, o recurso aos "médiuns", tudo isso encerra uma vontade de dominar o tempo, a história e, finalmente, os homens, ao mesmo tempo que é um desejo de conluio com os poderes ocultos. Todas essas práticas estão em contradição com a honra e o respeito, penetrados de temor amoroso, que devemos a Deus e só a Ele.

2117. Todas as práticas de magia ou de feitiçaria, pelas quais se pretende domesticar os poderes ocultos para os pôr ao seu serviço e obter um poder sobrenatural sobre o próximo – ainda que seja para lhe obter a saúde – são gravemente contrárias à virtude de religião. Tais práticas são ainda mais condenáveis quando acompanhadas da intenção de fazer mal a outrem ou quando recorrem à intervenção dos demónios. O uso de amuletos também é repreensível. O espiritismo implica muitas vezes práticas divinatórias ou mágicas; por isso, a Igreja adverte os fiéis para que se acautelem dele. O recurso às medicinas ditas tradicionais não legitima nem a invocação dos poderes malignos, nem a exploração da credulidade alheia.

Assim, o homem ao procurar um fim bom, (a sua felicidade, a sua realização plena), deixa-se muitas vezes tentar e, cedendo á tentação, conduzir por caminhos que em vez de o aproximarem do que deseja legitimamente, (e que só se alcança em Deus e pela graça de Deus), o levam a ir-se afastando de tudo o que faz dele um verdadeiro cristão, que é aquele que segue a Cristo e põe em prática os Seus ensinamentos.

«Felizes, antes, os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática.» Lc 11,28

Porque o homem que segue esses caminhos, apenas procura a sua própria felicidade e realização, e rompendo a comunhão com Deus, rompe também a comunhão com os outros, tornando-se assim em alguém que apenas acredita em si próprio e nas suas convicções, o que o torna presa fácil da tentação e da queda.

E não é isso mesmo que o Demónio pretende?
A falta de amor a Deus, provoca também a falta de amor aos outros.
A falta de amor aos outros e a Deus, provoca a divisão.
A divisão provoca a mentira, a confusão e a guerra.
E esse é o “reino” do Demónio.

Mas não há que ter medo, mas sim a coragem de perseverar, orando, não só em oração individual, em oração de família, mas também em oração de comunhão em Igreja.

É que o Senhor Jesus, sabendo-nos frágeis e fracos, instituiu a Igreja, para que, congregando-nos à volta da Eucaristia, (a Sua presença viva constante junto de nós e connosco), d’Ele sempre nos aproximarmos e alimentarmos, fortalecendo-nos n’Ele, e pelo Espírito Santo, em comunhão de Igreja, acreditarmos que o Demónio já foi vencido, e que com Ele e permanecendo n’Ele, em tudo somos vencedores.

«Também Eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Abismo nada poderão contra ela.» Mt 16,18


Marinha Grande, 2 de Fevereiro de 2011
(continua)
.
.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O DEMÓNIO E AS TENTAÇÕES (3)

.
.
É curioso percebermos que o Demónio é sempre retratado como uma figura horrenda, que só de olhar mete medo.

Se tal figura nos aparecesse pela frente, com certeza que a nossa imediata reacção seria fugir, nem sequer olhar, nem ouvir, e só faríamos o que o Demónio quisesse, por medo, por um profundo e terrível medo.
E, claro, na primeira oportunidade tentaríamos fugir dele, e procurar refúgio junto que quem nos pudesse defender de tal criatura horrenda.

E o retrato deste Demónio é o erro em que muitas vezes caímos, por pensarmos que ele assim nos aparece, ou que é assim que ele nos tenta.
A verdade é que se ele assim se apresentasse, poucos de nós nos deixaríamos tentar, e sem dúvida nenhuma procuraríamos Deus, com uma ânsia imensa de nos libertarmos de tal visão e presença assustadora.

Claro que se procurássemos Deus apenas por medo ao Demónio, assim que nos víssemos livres dele, (julgaríamos nós), logo a relação com Deus acabaria, porque acabava o motivo, a razão para tal relação.

Nada mais errado do que imaginarmos o Demónio como essa figura horrenda, assustadora, da qual apenas queremos fugir.

O Demónio apresenta-se-nos sempre cheio de uma beleza sedutora, na figura de um pretenso bem, na representação de uma pretensa consciência individual correcta e pura.

O Demónio não nos contradiz, não “luta” contra nós, pelo contrário, toma aquilo em que acreditamos, (às vezes de forma tão superficial), e tenta-nos a fazer o que ele quer, convencidos, (porque não reflectimos verdadeiramente), de que estamos a fazer o bem.
E por vezes caímos nesse erro tempos infindos, até nos apercebermos, ou melhor, sermos levados, (pelo amor de Deus), a perceber o erro em que nos deixámos viver.

Tantas vezes que procuramos em nós aquilo que consideramos os “grandes pecados” e não os reconhecendo nas nossas vidas, nos convencemos que o caminho é seguro, e que a conversão é real e está “concluída”.

Mas se reflectirmos sobre o que acima se escreve, percebemos que o Demónio não age, (de um modo geral), sobre aquilo que é fácil para nós detectarmos como pecado, como erro, como fraqueza.
Assim seria muito “fácil” para nós resistirmos às tentações.

Não, o “trabalho” do Demónio é um “trabalho” discreto e continuado, servindo-se das coisas mais simples, para depois do hábito criado, partir para as coisas maiores.

Uma mentira pequena não é pecado, ouvimos nós tantas vezes dizer.
Claro que não é um pecado grave, (depende da mentira, claro, e do mal que ela possa causar noutros ou em nós próprios), mas não deixa de ser mentira e portanto uma coisa má, de que nós com certeza não nos orgulhamos.
Nenhum mentiroso começa uma vida de mentira, por grandes mentiras, mas sim por coisas tão pequenas, que parecem não ter importância, mas depois se vão tornando hábito e, claro, para cobrir uma mentira é sempre preciso continuar a mentir.
Rapidamente quem assim vive, torna-se dependente da mentira, e, como tal, vive sempre na insegurança, no medo de ser “apanhado” e envergonhado, portanto muito longe de uma vida serena, tranquila, de uma vida em liberdade, que o Senhor na Verdade quer dar a cada um.

Podemos transportar este exemplo para as nossas vidas e tentarmos perceber em que é que nos deixamos tentar e cedemos com facilidade, tentando convencer-nos de que não estamos a errar, mas em que afinal estamos verdadeiramente presos, porque se tornou num vício para nós.

Outro modo de o Demónio nos tentar, é fazer-nos desviar do centro das nossas vidas, que é Deus sem dúvida, para, enganando-nos com um pretenso bem, fazer-nos colocar o nosso acreditar, a nossa esperança, a nossa confiança, naquilo que sendo de Deus, não é o próprio Deus.
Reparemos como tantos de nós usamos expressões tais como: eu tenho muita fé em Santo António, em Santa Rita, neste ou naquele Santo, nesta ou naquela oração ou novena, etc., etc.
Então deixamo-nos levar por “orações infalíveis”, “novenas cem por cento seguras”, e normas e conceitos que nada têm a ver com Deus, ou melhor, que nos retiram o pensamento, a confiança, a esperança no amor misericordioso de Deus, para os colocarmos nessas “orações” e “rituais”.
Assim somos nós que queremos “controlar” aquilo que Deus nos pode dar e nós queremos obter, como por exemplo, a “obrigatoriedade” de Deus nos conceder o que pedimos, se rezarmos uma qualquer oração trinta vezes, se fizermos vinte e cinco fotocópias duma pagela, ou se não quebrarmos uma qualquer “corrente de oração”, e reenviarmos determinada mensagem.
Claro que podemos e devemos orar, fazer novenas, e pedir a intercessão dos Santos, mas a nossa fé, a nossa confiança, a nossa esperança é sempre no Deus que nos criou e ama, porque se assim não for, se assim não vivermos, estamos desde logo a falhar no primeiro e mais importante Mandamento:
«Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente.» Mt 22, 37

E se a nossa fé, a nossa confiança, a nossa esperança não estão em Deus, nunca compreenderemos que aquilo que pedimos não nos seja concedido, porque não conseguimos perceber que a vontade de Deus é sempre o melhor para nós, e assim, afastamo-nos “zangados”, rompendo com a aliança de amor que Deus fez connosco, e cedendo, sem dúvida, à tentação da qual nem sequer nos apercebemos.
E essa tentação leva-nos a procurar em “espiritualidades”, práticas e lugares errados, aquilo que pensamos não ter obtido de Deus, deixando-nos envolver em coisas que nos tiram a liberdade e nos amarram a situações que nos destroem.

Mas também o Demónio se serve da nossa consciência, tentando manipulá-la para seu “proveito”, que é sempre afastar o homem de Deus.
Deus criou-nos livres e deu-nos uma consciência livre, de tal modo que está na nossa vontade aceitar o amor de Deus e retribuí-lo, ou rejeitá-lo e negá-lo.
Mas Jesus Cristo também nos deixou a Igreja e nela e com ela, a Sua Palavra, a Doutrina, a Tradição que devem sempre nortear a nossa vida e serem o guia seguro do Caminho que o Senhor mesmo nos preparou e deu a conhecer.
E aí, na nossa consciência, o Demónio “valoriza” a nossa liberdade como estando acima do próprio Deus.
Claro que não o faz claramente, mas levando-nos a pensar que mais importante do que tudo, é a nossa consciência, e que mesmo que ela não esteja de acordo com o que nos ensina a Igreja, sendo “livre” e “correcta” para nós, é sempre correcta e agrada a Deus.
Assim o “verdadeiro juiz” das nossas acções passamos a ser nós mesmos, o que acaba por nos constituir como deuses de nós próprios, e nós sabemos bem que juiz em causa própria é sempre “justiça” errada.
Assim o Sacramento da Confissão deixa de “fazer sentido”, e lá estaremos nós a dizer ao mundo que apenas nos confessamos a Deus.
Claro que somos livres por vontade de Deus, claro que a nossa consciência é livre por vontade de Deus, mas a nossa vida e a nossa consciência só são verdadeiramente livres quando são iluminadas pela Verdade, quando vivem no amor com e a Deus, e aos outros, porque é em Deus que está a Verdade, porque Deus é a Verdade, e só a Verdade nos libertará.
«Se permanecerdes fiéis à minha mensagem, sereis verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres.» Jo 8, 31-32

Quase que poderíamos dizer que assim é impossível resistir ao Demónio e às suas tentações! Claro que não!

Porque se a nossa vida, a nossa consciência, estiverem em comunhão permanente com Deus, é por Ele, pelo Espírito Santo, que são iluminadas, e em todo o tempo Ele nos mostrará a insidia do Demónio, e nos dará forças para vencermos as tentações.
E mesmo que caiamos, uma e outra vez, sabemos, porque acreditamos, que a misericórdia de Deus é infinitamente maior do que o nosso pecado, e procurando o Sacramento da Confissão, reconciliamo-nos, por Sua graça, com Deus e com os irmãos.

Não é em vão que Jesus Cristo nos diz repetidamente para não nos deixarmos adormecer (Lc 22,46), para não sermos cristãos “mornos” (Ap 3,16), mas sim para vigiarmos e orarmos constantemente (Lc 21,36), porque é Ele mesmo que nos promete o envio do Espírito Santo, que recebemos no Baptismo, porque é Ele mesmo, o Espírito Santo, que nos iluminará, nos guiará, e até por nós falará (Mt 10,20), se a Ele nos entregarmos confiadamente.

«mas o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, esse é que vos ensinará tudo, e há-de recordar-vos tudo o que Eu vos disse.» Jo 14, 26



Monte Real, 26 de Janeiro de 2011
(continua)
.
.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O DEMÓNIO E AS TENTAÇÕES (2)

.
.
Não pretendo, obviamente, com estes textos, fazer nenhum “tratado” sobre o Demónio, ou “estudo” sobre a Demonologia, (pois para isso há diversos livros que poderei indicar), mas tão só reflectir e partilhar, (em pensamentos e palavras simples), sobre aquilo que no dia-a-dia nos é dado a conhecer e viver sobre este assunto.

Partindo do texto anterior é-nos dado perceber que hoje em dia, muitas pessoas atribuem ao Demónio, acontecimentos, acções e atitudes, que depois de bem analisadas, percebemos que são afinal “coisas” do dia-a-dia, do viver de cada um.

A procura de justificações para coisas que não parecem à partida “normais”, o sentido da procura do sobrenatural que hoje em dia tantos vivem, (tantas vezes de maneira errada), os discursos “inflamados” de alguns para tentarem levar as pessoas a Cristo por medo ao demónio, leva a que muitas pessoas não analisem com bom senso os factos de que são “vítimas”, (e de que não poucas vezes são os próprios “culpados”), a atribuírem ao Demónio coisas que, como dizia acima, são factos do dia-a-dia.

Contribui, aliás, certamente para tudo isto, a invasão diária pela televisão e outros meios, de cartomantes, videntes, médiuns, e tantas coisas mais, que nos levam a olhar para o sobrenatural como algo que nos mete medo, e que influencia as nossas vidas sem nos podermos defender.

A título de exemplo conto, que há poucos anos, veio uma pessoa ter comigo pedindo conselho e oração, pois tinha a certeza que o Demónio estava a influenciar a sua vida, (tal como pessoas “amigas” lhe diziam e afirmavam), e ela já não colocava em dúvida, estando assustada e em certo sentido “desesperada” sem saber o que fazer.

Resumindo a conversa, forçosamente longa, os factos mais importantes desenvolviam-se numa semana e eram os seguintes: tinham assaltado a sua casa, a sua filha tinha abortado naturalmente e o seu neto tinha tido um acidente de automóvel.

Conversámos sobre a vida que essa pessoa levava, sobretudo da sua vivência cristã, e depois analisámos calmamente os factos que a levavam a pensar que o Demónio andava a “atormentar” a sua vida.

A casa tinha sido assaltada, quando essa pessoa se deslocou ao supermercado por 10 minutos e deixou as janelas abertas. Só que demorou mais de uma hora e quando regressou a casa tinha sido roubada.
A filha tinha abortado naturalmente, mas já era a terceira vez, (tendo apesar de tudo já um filho, salvo o erro), e já tinha sido alertada pelo seu médico, pois tinha alguns problemas físicos que podiam provocar precisamente o aborto natural.
O neto tinha 18 anos, carta de condução recente, e o acidente tinha acontecido numa madrugada de sábado.

Obviamente que a pessoa, colocada perante os argumentos, percebeu que tudo o que tinha acontecido era “normal” na vida do dia-a-dia, e que não era o Demónio que se andava a encarniçar contra ela.

Mas a verdade é que, (por força do que lhe tinham dito e da sua própria “convicção” induzida pelo que ouvia), essa pessoa tinha vivido dias verdadeiramente assustada com a possibilidade de o Demónio estar na sua vida.

Com isto quero eu dizer que o Demónio não pode actuar e influenciar a vida das pessoas?
De modo nenhum o quero dizer, ou afirmar, mas sim que devemos ter sempre a perspectiva correcta daquilo que realmente se passa, e sobretudo não nos deixarmos influenciar por quem em tudo vê o Demónio.

Fomos criados por Deus em liberdade, e é em liberdade, perante Deus, que tomamos as nossas decisões, e que fazemos as nossas acções.

Podemos ser tentados a fazer o mal?
Sim, com certeza!
Mas só o fazemos, se verdadeiramente nos dispusermos a fazê-lo.

Eu posso ser tentado a beber demasiadamente e ficar bêbado, mas não é o Demónio que me senta ao volante do meu carro.
Eu posso ser tentado a cometer um aborto, mas não é o Demónio que toma a decisão e me leva a essa acção.
Eu posso ser tentado a mentir, mas não é o Demónio que fala pela minha boca.

Com certeza que aqui não estamos a falar de possessões demoníacas, (muito raras entre nós), mas sim na acção tentadora do Demónio que apenas se torna efectiva pela nossa vontade, pelo nosso querer.

Lembremo-nos sempre:
«Não vos surpreendeu nenhuma tentação que tivesse ultrapassado a medida humana. Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças, mas, com a tentação, vos dará os meios de sair dela e a força para a suportar.» 1 Cor 10, 13

Por isso a vigilância constante, permanente, que passa pela vida de oração, pela leitura orante e o estudo da Palavra de Deus, pelos Sacramentos, mormente a Confissão e a Eucaristia, (com a Comunhão Eucarística), com o aprofundar da fé, ouvindo a Igreja que ensina pela voz dos seus membros, pelos documentos colocados à disposição dos fiéis, pela voz do Santo Padre, lendo livros reconhecidamente católicos e pedindo conselho a quem efectivamente os pode dar, como os sacerdotes e leigos empenhados e reconhecidos como tal.

«No entanto, o poder de Satanás não é infinito. Satanás é uma simples criatura, poderosa pelo facto de ser puro espírito, mas, de qualquer modo, criatura: impotente para impedir a edificação do Reino de Deus.» Catecismo da Igreja Católica 395


Monte Real, 20 de Janeiro de 2011
(continua)
.
.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O DEMÓNIO E AS TENTAÇÕES (1)

.
.
Muito se fala do demónio nestes tempos actuais.

Uns, tentando afirmar a sua não existência, convencidos que, por muito o afirmarem, ele deixa de existir.
Nunca uma mentira, por muito sustentada que seja, se torna verdade, e afirmar que o demónio não existe, é mentir.

Outros afirmando a sua existência, mas de tal modo, que mais parece ser o demónio quem dirige ou permanentemente interfere nas nossas vidas, e em tudo o que acontece no dia-a-dia.

Realmente o demónio existe, como nos diz o Catecismo da Igreja Católica, e assim sendo é para nós cristãos católicos, Doutrina em que devemos acreditar

II. A queda dos anjos

391. Por detrás da opção de desobediência dos nossos primeiros pais, há uma voz sedutora, oposta a Deus (266), a qual, por inveja, os faz cair na morte (267). A Escritura e a Tradição da Igreja vêem neste ser um anjo decaído, chamado Satanás ou Diabo (268). Segundo o ensinamento da Igreja, ele foi primeiro um anjo bom, criado por Deus. «Diabolus enim et alii daemones a Deo quidem natura creati sunt boni, sed ipsi per se facti sunt mali – De facto, o Diabo e os outros demónios foram por Deus criados naturalmente bons; mas eles, por si, é que se fizeram maus» (269).

392. A Escritura fala dum pecado destes anjos (270). A queda consiste na livre opção destes espíritos criados, que radical e irrevogavelmente recusaram Deus e o seu Reino. Encontramos um reflexo desta rebelião nas palavras do tentador aos nossos primeiros pais: «Sereis como Deus» (Gn 3, 5). O Diabo é «pecador desde o princípio» (1 Jo 3, 8), «pai da mentira» (Jo 8, 44).

393. É o carácter irrevogável da sua opção, e não uma falha da infinita misericórdia de Deus, que faz com que o pecado dos anjos não possa ser perdoado. «Não há arrependimento para eles depois da queda, tal como não há arrependimento para os homens depois da morte» (271).

414. Satanás ou Diabo e os outros demónios são anjos decaídos por terem livremente recusado servir a Deus e ao seu desígnio. A sua opção contra Deus é definitiva. E eles tentam associar o homem à sua revolta contra Deus.

Mas o que me leva hoje a escrever sobre o demónio, não é afirmar a sua existência, que acima é confirmada pelo Catecismo, e portanto, para nós cristãos católicos é uma realidade, mas sim o modo como, por alguns, é afirmada esta existência e a sua influência na vida do mundo e de cada um.

É que muitas vezes tenta incutir-se um medo irracional ao demónio, atribuindo-lhe tudo o que de mal acontece, como se da nossa parte não houvesse qualquer responsabilidade no mal que por vezes fazemos ou sofremos.

Em primeiro lugar, a meu ver, este é um caminho errado para tentar levar alguém ao amor, (Deus), por medo do ódio, (demónio).

É que ouve-se e assiste-se não poucas vezes a discursos inflamados, tentando levar as pessoas a Deus, apenas ou tendo como razão, a “fuga” ao demónio, à protecção da influência do demónio.

Ora ninguém ama porque tem medo!
A comunhão com Deus é sempre uma comunhão de amor, e não uma relação de interesse próprio num só sentido.
Não se ama a Deus, porque se tem medo do demónio, mas quando muito, por medo ao demónio, “rezam-se” orações intermináveis e repetitivas, caindo em superstições, para pedir a Deus que nos proteja do maligno.
Mas assim não há uma relação de amor com Deus, mas apenas uma relação de interesse da nossa parte, para que Aquele que consideramos mais poderoso, nos proteja daquele de quem temos medo.
É pouco, muito pouco, para uma relação do amado, (o homem), com o amor, (Deus), pois o amor alimenta-se e vive do amor, e não do medo.

Nenhum pai, nenhuma mãe, incute medo ao seu filho para que ele os ame!
Quando muito esse filho, assim, poderá afirmar pela boca um amor, que afinal é só medo também.

O amor de Deus pelo homem  não se consubstancia de modo algum apenas na vontade de Deus proteger o homem dos ataques do maligno, mas sim na vontade de Deus, expressa no Seu infinito amor pelo homem, amor que tudo perdoa, para que, pela graça da salvação, o homem possa gozar da felicidade eterna na e da presença do Criador.

Porque a resposta pelo homem ao amor de Deus, tem de ser sempre o amor do homem a Deus, e só nesta comunhão de amor o homem está protegido do mal, pelo amor de Deus, não só dando-lhe forças para vencer as tentações, mas também e sobretudo pelo infinito perdão de Deus ao homem, sempre que este se deixa cair em tentação.

Não dão um pai e uma mãe as suas vidas por um filho em perigo?

Então que medo podemos nós ter, se o nosso Deus de amor já deu a vida por nós?

Ao dar a Sua vida por nós e ao ressuscitar, Jesus Cristo, Nosso Deus e Senhor, venceu o mal, venceu a morte, e por isso mesmo, quem permanece em Cristo, Cristo permanece nele, e se Cristo permanece nele, quem pode alguma coisa contra ele, em quem Cristo permanece.

Conforme afirma São Paulo:

«Que mais havemos de dizer? Se Deus está por nós, quem pode estar contra nós? Ele, que nem sequer poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não havia de nos oferecer tudo juntamente com Ele?
Quem poderá separar-nos do amor de Cristo?
A tribulação, a angústia,
a perseguição,
a fome, a nudez,
o perigo, a espada?
De acordo com o que está escrito:
Por causa de ti, estamos expostos à morte o dia inteiro,
fomos tratados como ovelhas destinadas ao matadouro.
Mas em tudo isso saímos mais do que vencedores,
graças àquele que nos amou.
Estou convencido de que nem a morte nem a vida,
nem os anjos nem os principados,
nem o presente nem o futuro,
nem as potestades,
nem a altura, nem o abismo,
nem qualquer outra criatura
poderá separar-nos do amor de Deus
que está em Cristo Jesus, Senhor nosso.» Rm 8, 31-39

Outra coisa que se revela de importância decisiva, é a nossa constante, permanente, vigilância sobre as nossas fraquezas, para que não caiamos em tentação e para que caindo, não cortemos da nossa parte a aliança com Deus, pois da parte d’Ele, a aliança permanece intacta, porque Ele é sempre fiel, mesmo quando somos infiéis.

«Se formos infiéis, Ele permanecerá fiel, pois não pode negar-se a si mesmo.» 2 Tm 2,13

Monte Real, 13 de Janeiro de 2011

(continua)
.
.

sábado, 8 de janeiro de 2011

SALMO DE UM CEGO

.
.




Senhor,
prostrado por terra,
ergo as minhas mãos para o Céu.

De onde me vem o auxílio?
De onde me vem a paz,
a serenidade, e a vida?

Apenas de Ti,
Senhor.

Cego pela luz do mundo,
avanço aos tropeções,
quero ver,
mas não vejo,
porque não acredito verdadeiramente.

Só Tu,
Senhor,
és a luz que rompe as trevas,
da minha cegueira.

Abre,
Senhor,
os olhos do meu coração,
para que,
acreditando no amor,
Te possa eu ver,
Senhor.



Monte Real, 7 de Janeiro de 2011
.
.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O CORAÇÃO ENDURECIDO

.
.
Jesus obrigou logo os seus discípulos a subirem para o barco e a irem à frente, para o outro lado, rumo a Betsaida, enquanto Ele próprio despedia a multidão. Depois de os ter despedido, foi orar para o monte. Era já noite, o barco estava no meio do mar e Ele sozinho em terra. Vendo-os cansados de remar, porque o vento lhes era contrário, foi ter com eles de madrugada, andando sobre o mar; e fez menção de passar adiante. Mas, vendo-o andar sobre o mar, julgaram que fosse um fantasma e começaram a gritar, pois todos o viram e se assustaram. Mas Ele logo lhes falou: «Tranquilizai-vos, sou Eu: não temais!» A seguir, subiu para o barco, para junto deles, e o vento amainou. E sentiram um enorme espanto, pois ainda não tinham entendido o que se dera com os pães: tinham o coração endurecido. Mc 6, 45-52

Diz-nos o Evangelho de hoje que eles ainda não tinham entendido o milagre da multiplicação dos pães, pois tinham o coração endurecido.

E nós, cristãos católicos deste tempo, entendemos nós o Alimento Divino que todos os dias nos é dado e nunca acaba?

Entendemos nós já, nos nossos corações, nas nossas vidas, o Jesus Eucarístico que todos os dias se dá aos homens para a sua salvação?

Parece-me bem que continuamos com o coração endurecido, talvez até mais do que tinham aqueles discípulos, pois eles ainda se espantaram com o poder do Senhor, que sobre as águas vencendo o vento contrário, vinha ao seu encontro.

Nós, neste tempo, parece que com nada do Senhor nos espantamos, e caímos na rotina de uma prática religiosa, afastada do amor, (a Deus e aos outros), arredada do testemunho diário em todos os momentos do dia-a-dia, iludidos pela convicção das nossas próprias capacidades e deixando-nos levar pelo “canto das sereias”, daqueles que pretendem fazer de Deus, da religião e da Igreja, uma “coisa” apenas pessoal, reservada, e que cada um pode interpretar e seguir como melhor entender, indo buscar o que lhe interessa, e repudiando o que lhe custa viver.

E, no entanto, o Senhor é o mesmo, e continua a caminhar sobre as águas das nossas dificuldades, contra o vento das nossas adversidades, e continua a dizer-nos todos os dias:
«Tranquilizai-vos, sou Eu: não temais!»

Mas nós temos receio, somos fracos, deixamo-nos levar pela corrente daqueles que não têm convicções e que fazem da Fé uma “fezada”, ou que nos rotulam como “indigentes mentais”, “manipulados” pela Igreja.

Vamos á Missa, em vez de participarmos, de celebrarmos a Missa.
Batemos com a mão no peito e pedimos perdão pelas nossas faltas e depois no dia-a-dia apoiamos aqueles que legislam o pecado e a ignomínia.

Deixamo-nos convencer de que a religião deve apenas ocupar o espaço reservado da nossa relação com Deus e não se deve reflectir na nossa conduta em sociedade.

Porquê?
Porque temos medo, porque temos vergonha, porque temos respeito humano, porque não somos capazes de enfrentar as nossas fraquezas e julgamos que obedecendo a leis civis iníquas, nenhuma falta nos pode ser assacada!

Mas qual é a nossa primeira condição:
Somos primeiro filhos de Deus, ou cidadãos do Estado?

É que se somos bons filhos de Deus, seremos sempre bons cidadãos do Estado, mas nem sempre os que são “bons” cidadãos do Estado, são bons filhos de Deus.

O Estado, se formos bons cidadãos, até nos pode pagar o funeral, mas a sua responsabilidade cessa a partir daí, pois nada mais pode fazer.

Mas a Deus interessa-nos o nosso todo, e mesmo depois da nossa morte física, continua a dar-nos a vida, e a vida em abundância.

Hoje pergunta-se muitas vezes as razões para que haja uma diminuição da vivência da fé em comunhão de Igreja.

Ora o Senhor é o mesmo, ontem, hoje e sempre.
A Igreja é a mesma, embora mudando os homens que nela comungam.
Se os tempos hoje são de perseguição envolvendo as mais diversas formas, também o eram nos primeiros tempos e a Fé e a Igreja cresciam todos os dias.

Julgo então que a resposta é só uma:
Falta de testemunho dos discípulos de Jesus Cristo, de hoje, que são todos os baptizados.

Naquele tempo, aqueles primeiros discípulos podiam ter o coração endurecido, mas davam testemunho do amor de Deus, entre eles e com os outros.

Nós hoje, continuamos com o coração endurecido, mas fechamo-nos naquilo que tantos chamam a “minha fé”, e o nosso testemunho é pobre e sem efeitos práticos, porque não nos deixamos “espantar” com as coisas de Deus.

Claro que no meio de nós, humanidade, há testemunhos heróicos, de verdadeiros martírios por causa da fé.
Mas a maioria esmagadora de todos nós, filhos de Deus em Igreja, vivemos acomodados nas nossas maneiras muito particulares e privadas de vivermos a fé, e como tal o nosso testemunho não existe e nada transmite aos outros, nem os exorta a procurarem o Senhor que caminha sobre as águas e espanta os homens com o Seu amor, dizendo-lhes:
«Tranquilizai-vos, sou Eu: não temais!»

Monte Real, 5 de Janeiro de 2011
.
.