quinta-feira, 20 de março de 2014

DIÁLOGO COM O DIABO (9)

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Diz ele: Já não conversamos há muito tempo!

Digo eu: Dispenso bem as conversas contigo.

Diz ele: Pois, mas olha que te deixas muitas vezes levar pelo que te digo.

Diz eu: Lá nisso tens razão e nem fazes ideia como isso me dói quando de tal me apercebo.

Diz ele. Deixa-te disso! Há coisas que até te sabem bem!

Digo eu: Talvez no momento. Mas como não se pode servir a dois senhores ao mesmo tempo, acabo sempre por ficar triste e magoado por não ter servido o meu único Senhor, que não és tu.

Diz ele: Ficas dividido.

Digo eu: Não, não fico dividido! Nunca poderia ficar dividido porque de ti nada quero, mas apenas distância.

Diz ele: Olha que de vez em quando…?

Digo eu: Nem penses! Nunca me dividirás, porque se eu permaneço com Ele e n’Ele, tu nada podes.

Diz ele: Mas por vezes deixas que te afaste d’Ele!

Digo eu: Pobres vitórias as tuas! Passageiras e cada vez menos. As tuas vitórias são efémeras. A vitória d’Ele é para sempre! Agora vai-te e não me incomodes mais.



Monte Real, 20 de Março de 2014
Joaquim Mexia Alves
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quinta-feira, 13 de março de 2014

TUDO ESTÁ CONSUMADO!

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Quadro de Lazaro Lozano,
na igreja matriz de Monte Real











Naquele dia saiu de casa de cabeça baixa. Parecia que o mundo estava todo contra ele!
Parecia que tudo se tinha assanhado para o desprezar, para não permitir que uma simples boa notícia, uma simples alegria, tocasse a sua vida!
O emprego já era! Por causa disso mesmo a discussão em casa tinha sido violenta, e assim, até aquele refúgio que era sempre para si a sua mulher, os seus filhos, a sua simples casa, parecia-lhe agora também um lugar de martírio, de caras fechadas, de falta de ternura e entendimento!

Olhou para o passeio, para a rua, para as pessoas que passavam por ele, e pensou: Mas para onde raio é que eu vou? Não tenho sítio para onde ir!
Deixou-se andar por ali, perdido entre os homens, vagueando sem motivo, sem sentido, sem rumo. Uma tenaz de fogo apertava o seu peito, um peso enorme abatia-se nas suas costas, uma tristeza profunda tomava conta de si e o desânimo transformava-se rapidamente em desespero.

“O que ando eu aqui a fazer? Que sentido tem esta minha vida?”
As perguntas martelavam-lhe a consciência entorpecida por uma terrível frustração. E quanto mais se questionava, mais lhe voltava aquela ideia, que ao princípio lhe gelara o coração, mas que parecia agora ir fazendo sentido. Se não estava cá a fazer nada, mais valia morrer!

Os barulhos da rua, os carros a passar, as pessoas a falarem, o ruído da cidade, incomodavam-no! Precisava sair da rua para pensar um pouco.
Deu por si a passar em frente de uma igreja. Ele não era homem de Igreja, aliás, nem sequer era homem de Deus, embora tivesse sido educado catolicamente e percorrido todos os passos da catequese.

Lembrou-se, no entanto, que àquela hora ninguém estaria na igreja e por isso seria um bom sítio para se sentar e pensar um pouco, sem nada nem ninguém para o incomodar.
Entrou e nem sequer se deteve a olhar para o interior da igreja, mas apenas se sentou no primeiro banco e, debruçando-se para a frente, ali ficou a pensar.
Quanto mais analisava a sua vida e pensava no presente e no futuro, mais se tornava claro que a ideia de pôr fim à vida era o mais acertado e fazia todo o sentido.
Deixou-se ficar mais um pouco, enquanto a ideia ia ganhando força em si, de tal modo que deixou de ser ideia para se tornar decisão a cumprir.

Tomada a decisão, veio então ao seu pensamento uma frase: «Tudo está consumado!»
Um espanto atravessou-o! Já tinha ouvido aquela frase num qualquer sítio, num qualquer momento importante!
Levantou os olhos e o seu olhar fixou-se no enorme crucifixo que dominava toda a parte detrás do altar-mor da igreja. Lembrava-se agora onde tinha ouvido aquela frase!
Do pouco que ainda recordava da catequese, essa tinha sido a última frase de Jesus Cristo antes de morrer na Cruz.

Que coincidência! No momento em que ele decidia a sua morte, a frase que lhe vinha ao pensamento era a frase de Jesus Cristo ao morrer!
Ficou sem reacção e a cabeça voltou a recolher-se entre as suas mãos, sobre os joelhos.

Foi então que ouviu distintamente, (juraria em qualquer lugar que assim tinha ouvido), uma voz que lhe dizia: «Meu filho, morrer antes do tempo de cada um, só tem sentido se for para morrer pelos amigos!»

Levantou a cabeça, olhou para todos os lados, mas não viu ninguém.
Em voz baixa, com um sentimento de que estava a cometer uma loucura, perguntou: O que é isso de morrer pelos amigos?

Desta vez pareceu-lhe ouvir a voz no seu coração, o que ainda lhe causou mais admiração:
«Morrer pelos amigos é muitas coisas, mas no teu caso é deixares de pensar em ti próprio, nas tuas “desgraças”, nos teus desânimos, e perceberes que aqueles que estão à tua volta te amam e que não é por um momento mau, por uma discussão, que não deixam de te querer e de sentir profundamente a tua falta.»

Deu por si a responder à voz: Não me parece! Aliás se eu desaparecer tudo se torna mais fácil!

Mas a voz insistia: «Pensa um pouco. Com a tua morte constróis alguma coisa? Com a tua morte o amor vence a amargura e a tristeza? Com a tua morte fica alguém mais feliz? Sabes bem que não.»

Então ele respondeu: Sei quem Tu és! Esta voz só pode ser a voz de Jesus Cristo que ouço no meu coração. Por isso Te pergunto se não morreste Tu também? Não Te deste à morte também?

A voz enterneceu-se ainda mais: «Mas meu filho, não fui Eu que causei a minha própria morte! Mataram-me! Eu dei a vida pelos amigos, dos quais tu fazes parte. Repara quantos se unem à volta da minha morte e da minha ressurreição? Não trouxe Eu um bem maior quando morri e ressuscitei?»

Sim, é certo. Isso é verdade, Mas eu não tenho ninguém!, respondeu.

«Tens-me a Mim, que dei a vida por ti. Não dês a tua vida à morte! Se queres dar a vida, dá-a àqueles que te amam e precisam de ti e que em casa te esperam para te abraçar.»

Duas grossas lágrimas caíram-lhe pela face.
Levantou-se decidido a lutar pela vida e dirigiu-se àsaída da Igreja.
Mas antes de sair, voltou-se, fixou a Cruz e disse a meia voz: 
Nunca pensei falar assim contigo, nem sentir o que sinto. Fico admirado comigo mesmo, e por isso Te digo que se estás comigo, então já não tenho medo e a vida tem outro sentido. Obrigado, Senhor Jesus!



Marinha Grande, 13 de Março de 2014
Joaquim Mexia Alves


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sábado, 8 de março de 2014

SOU TEU, SENHOR! OBRIGADO!

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Porque é que de repente sinto esta necessidade de escrever o que me vai no coração, o que me vai na alma?
Não sei, nem sei bem realmente o que me vai no coração e na alma.
Sei que sinto uma “incontrolável” vontade de dar graças quando surge mais uma provação.
E fico a pensar se essa vontade de dar graças é sincera, ou se é apenas uma “fuga” a pedir protecção para a dificuldade que vou atravessar.

Não há dúvida para mim que o caminho que escolheste para me guiar, Senhor, passa por estas provações, por vezes tão duras, sobretudo para o meu modo de ser.
Mas também percebo que será o único meio de derrubar as minhas fraquezas, os meus orgulhos, as minhas vaidades.

E quanto mais Te dou graças, mais se acalma o coração e mais a certeza de que estás connosco, de que estás comigo, se torna real e verdadeira.
E na tranquilidade da confiança que nesses momentos em mim colocas, se vai fazendo verdade, calma e serenamente, o pensamento de Santa Teresa de Ávila: «Nada te perturbe, nada te espante, tudo passa, Deus não muda, … Quem a Deus tem, nada lhe falta: Só Deus basta.»

Tão agarrado às coisas, tão agarrado ao passado, tão agarrado às emoções, como posso eu dar espaço para Tu me preencheres?
Mas Tu conheces-me e sabes do meu profundo desejo de Te viver inteiramente, e por isso mesmo me ajudas a libertar do que afinal ocupa espaço de “amores”, que não dão espaço ao teu amor.

Mas dói, Senhor, de vez em quando dói muito!
Mas é na dor, afinal, que eu encontro o teu amor!

Vem-nos sempre ao pensamento que morreste por todos nós!
Mas quantas vezes penso eu verdadeiramente que ao morrer por nós, morreste por mim?
Se escutar verdadeiramente no coração, não Te ouço eu dizer naquela Cruz, naquela hora: «Perdoa ao Joaquim, Pai, que ele não sabe o que faz.»
Se olhar com os olhos do coração, não vejo eu o teu olhar, para mim voltado, naquela Cruz, naquela hora, a “dizer-me”: «Morro por ti, Joaquim, porque te amo com amor eterno.»

Deste-me tudo, Senhor!
Queres que eu dê tudo, também, nas forças com que me capacitas para dar.

Então, Senhor, toma tudo aquilo que sou, aquilo que tenho, aquilo que amo, a vida que me deste, mas não por mim, Senhor, mas por aqueles que me deste, por aqueles que todos os dias colocas na minha vida, por aqueles que Te procuram, por aqueles que não Te conhecem, por aqueles que não te amam, por aqueles que nada têm, e sobretudo por aqueles que não Te querem ter, porque a esses tudo falta, porque recusam o teu amor.

Ah, Senhor, e não Te esqueças, (como poderias Tu esquecer-te?), se não fores Tu em mim por eu querer permanecer em Ti, então não serei capaz, então não terei forças, então revoltar-me-ei, então perder-me-ei nas minhas fraquezas e não encontrarei caminho nas provações, não encontrarei sentido para as viver, para as aceitar e para Te dar graças, Senhor, sempre e em todos os momentos.

A Ti, Senhor, toda a glória e todo o louvor, agora e para sempre!


Marinha Grande, 7 de Março de 2014
Joaquim Mexia Alves
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quarta-feira, 5 de março de 2014

SOU PÓ E CINZA!

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Que pó é este que eu sou?
Sou um pó que pode ser varrido e atirado fora, ou sou um pó que “atingido” pelo Espírito Santo, se faz vida, se faz homem?

Sou o pó da terra de que o Criador se serviu para moldar o homem à sua imagem e semelhança, ou sou apenas o pó da terra que levado pelo vento, se desagrega, se divide, e para nada serve?

Sim, sei que sou apenas pó, mas posso ser pó de construção, útil e agregador, ou apenas pó que destrói, que incomoda e confunde.

E afinal o que é ser pó, nas mãos do Criador?
É ser nada, para que Ele seja tudo em nós!
Ele molda-nos, cria-nos, sopra e dá-nos vida, e depois … depois deixa-nos em liberdade, não deixando nunca de nos amar, para que conheçamos o amor e conscientemente possamos caminhar o Caminho que Ele mesmo nos mostra e oferece.

Ah, Senhor, quero ser este pó que se faz vida nas tuas mãos, vida para os outros, vida para Ti.

E como sou fraco, esquecido, ingrato, deixa, Senhor, que hoje receba as cinzas na minha cabeça, para não me esquecer nunca da minha condição de pó, mas o pó que com o teu amor transformas e se faz vida e alegria na comunhão contigo.

Como Abraão, Senhor, também Te quero dizer: «Pois que me atrevi a falar ao meu Senhor, eu que sou apenas cinza e pó, continuarei.»*

Olha para nós, Senhor, pó da terra que moldastes, não ligues aos nossos pecados, à dureza dos nossos corações, e derrama o teu amor que nos liberta do pecado, que amacia os corações, e mesmo que alguns não Te aceitem, Senhor, tem compaixão, deles e de nós, e salva-nos das nossas fraquezas.

Nas cinzas que hoje vou receber, Senhor, que eu me sinta pó, não um pó desprezível, mas um pó amado por Aquele que «renova todas as coisas»**.



*Gn 18,27
**Ap 21,5

Monte Real, 5 de Março de 2014
Joaquim Mexia Alves


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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

TEMPO DA IGREJA, TEMPO DO ESPÍRITO SANTO

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Ouço e leio tanta gente que quer à viva força interpretar as palavras, o pensamento do Papa Francisco, muito especialmente sobre a Família, em todas as suas situações.

E no meio de todos os que, avidamente, ouvem as suas palavras e vêem os seus gestos, há aqueles que querem, “excitadamente”, que o Papa Francisco diga exactamente aquilo que eles desejam, seja porque razão for, mas a maior parte das vezes para resolver os seus próprios problemas ou para encontrar apoio para as suas opiniões, faladas e/ou escritas, tantas vezes em desacordo com a Doutrina da Igreja.
E já dão como certo que será assim ou assado, conforme aquilo em que querem acreditar, julgando talvez que com tal posição podem pressionar, interferir, em alguma decisão que possa vir a ser tomada nesse campo da Doutrina sobre a Família.

E, como sempre, perfilam-se alguns considerando-se “vencedores”, não se percebe bem de quê, perante outros, que esses mesmos considerarão “vencidos”, num jogo de em que sobressaem palavras como “conservadores” e “progressistas”.

E eu, confesso humildemente, que não entendo isto!

Alguma vez até agora o Papa Francisco disse algo que não fosse completamente de acordo com a Doutrina da Igreja?
Não penso nas interpretações que alguns fazem, naquilo que cada um julga ouvir ou quer entender, mas tão só nas reais palavras do Papa.

Muitas coisas a Igreja nos ensina e uma delas, sem dúvida, é a paciência que é necessário ter para tomar decisões que impliquem mudanças, no conteúdo e/ou na forma.
Sinceramente, alguém espera que o Papa Francisco ou qualquer outro Papa, anuncie qualquer mudança, sem um estudo ponderado, sem ouvir o Magistério da Igreja, sem uma profunda reflexão orada e meditada?

Por mim, serenamente, ouço, vejo, guardo no coração, e espero, confiando que se houver decisões a tomar, se houver mudanças, sejam elas quais forem, estará sempre “por detrás” o Espírito Santo que ilumina e conduz a Igreja.
E é precisamente essa certeza que me acalma, que me tranquiliza, que me edifica e me faz desde já dar graças ao Senhor por tudo o que vier a ser feito, mudando ou mantendo, pois tudo será para a glória de Deus e assim sendo, só poderá ser bom para o homem.

Com o mesmo amor e a mesma alegria, aceitarei de coração aberto tudo o que a Igreja, pela voz do Papa Francisco, me disser, no tempo próprio da Igreja, que é o tempo do Espírito Santo.



Marinha Grande, 25 de Fevereiro de 2014
Joaquim Mexia Alves
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sábado, 15 de fevereiro de 2014

LOUVADO SEJA, O SENHOR MEU DEUS!

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Termas de Monte Real








Viram-te as águas, ó Deus,

viram-te as águas e tremeram,
e até os abismos se agitaram.
....
O mar foi para ti um caminho;
caminhaste por entre águas caudalosas
e ninguém descobriu as tuas pegadas. Sl 77 (76), 17-20


Abriu-se o mar Vermelho para o teu povo passar!
Aquilo que parecia uma impossibilidade, todo aquele imenso mar, tornou-se caminho para a salvação daquele povo, o povo que tinhas chamado a Ti e para Ti.

Quando hoje olhava para as imagens das “minhas” Termas debaixo de água, as palavras que me vieram ao coração foram exactamente estas: «Viram-te as águas e tremeram.»

Não há águas mais fortes do que Tu e daqueles que em Ti confiando e esperando, não cruzam os braços, mas lançam-se à luta, sabendo que não lhes faltarás.

Assim tem sido, Senhor, ao longo desta última década em que tantas provações me tem sido dado passar.

Mas tens colocado ao meu lado, comigo, aqueles que tudo dão também, desde a família sempre presente, àqueles que connosco trabalham e abnegadamente tudo dão para o bem de todos.

«Viram-te as águas e tremeram» e também eu tremi quando vi as águas!

Mas foi por pouco tempo, Senhor, porque logo me veio o pensamento que sempre me acompanha: O Senhor nunca me faltou, o Senhor não me faltará!

Louvado sejas, Senhor, porque fortaleces a fé que me deste em cada provação que me é dado viver.

Nas palavras de Job 1, 21, Senhor, exprimo-Te a minha adoração:

«Saí nu do ventre da minha mãe
e nu voltarei para lá.
O Senhor mo deu, o Senhor mo tirou;
bendito seja o nome do Senhor!»




Monte Real, 15 de Fevereiro de 2014
Joaquim Mexia Alves
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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

AINDA OS MAGOS DO ORIENTE

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O Evangelho de São Mateus (Mt 2, 1-12) narra-nos a viagem de uns Magos vindos do Oriente para adorarem Jesus.

Todo aquele episódio está narrado com abundância de pormenores que por vezes nos passam despercebidos.
Os Magos, (provavelmente astrólogos daquele tempo), eram homens que procuravam a Ciência, que procuravam a verdade. E quem procura a verdade, de coração aberto, encontra-a!
Deus serve-se então de um sinal visível, (a estrela), relacionado com a vida daqueles homens, para lhes dar a conhecer a Verdade que procuram.
Quantas vezes nas nossas vidas, naquilo que fazemos ou porque nos interessamos, Deus nos envia sinais visíveis, mas que acabamos por não ver, porque não estamos interessados na mudança de vida que nos leva ao encontro da Verdade.

No caminho que percorrem os Magos encontram dificuldades, neste caso, na figura de Herodes.
Mas eles não desistem da procura, e depois de ouvirem Herodes continuam o caminho, e, ao quererem continuá-lo, o sinal visível torna a guiá-los ao encontro da Verdade, que procuram.

Essas dificuldades apresentam-se, por vezes, nas nossas vidas disfarçadas de um pretenso “bem”, como Herodes com os Magos, «depois de o encontrardes, vinde comunicar-mo para eu ir também prestar-lhe homenagem.», quando sabemos bem que a sua intenção era outra.
Devemos nós também estar bem atentos ao modo como se nos apresentam as dificuldades na nossa relação com Deus, para não nos deixarmos enganar por tanta coisa que parecendo um bem, (o dinheiro, a carreira, o poder, etc.), vividas com “exclusividade”, acabam por nos afastar do caminho com Deus e para Deus.

Depois, Herodes para confirmar se o nascimento do rei dos judeus era uma noticia plausível, recorre aos sumos sacerdotes e escribas, que servindo-se das Escrituras, confirmam que em Belém deveria nascer «o Príncipe que há-de apascentar o meu povo de Israel.»
Nós também temos acesso às Escrituras, desde o Antigo Testamento ao Novo Testamento, mas preferimos tantas vezes “ouvir” o mundo, ouvir tantos argumentos, ditos racionais, ler tantos livros que nos confundem e baralham, em vez de acreditarmos e nos deixarmos guiar pela Palavra de Deus.

Os Magos, perante Jesus Cristo, prostram-se, adoram-no e oferecem-lhe presentes, e, por aquilo que o Evangelho nos narra, nada Lhe pedem.
Nós tantas vezes passamos diante d’Ele no sacrário e não somos capazes de fazer uma genuflexão bem feita, tantas vezes participamos na/da Missa apenas por rotina e deixando que tudo à nossa volta nos distraia, como por exemplo o telemóvel!
Tantas vezes comungamos sem a consciência devida, e tantas vezes depois da comunhão, em vez de adorarmos o Deus que se nos entrega como alimento, apenas pedimos, pedimos, pedimos.

Mas, porque os Magos assim procederam, porque assim reconheceram naquele Menino o Senhor, o Salvador, foram avisados para regressarem por outro caminho, o caminho novo daqueles que encontram Deus, o caminho que os afastava do mal, que os afastava de Herodes.

Também nós, se de coração aberto procurarmos Jesus Cristo, O vamos encontrar, porque Ele se faz encontrado por aqueles que O procuram «em espírito e verdade».
E encontrando-O, o caminho a fazer será diferente, pois será um caminho com Deus, por Deus e para Deus.
E se vivermos esse caminho com toda a sinceridade, com toda a entrega, as dificuldades não desaparecerão, o mal não deixará de nos tentar, mas a presença de Deus nas nossas vidas sempre nos fortalecerá e conduzirá pelo caminho da salvação.


Marinha Grande, 27 de Janeiro de 2014
Joaquim Mexia Alves


Nota:
Texto publicado no Boletim da Paróquia da Marinha Grande, “Grãos de Areia”, do mês de Janeiro.
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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

SER SANTO

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Quando eu era rapaz, lá pelos finais dos anos 50, começo dos anos 60, os Santos e Santas, eram algo muito longínquo no tempo, na história da Igreja.

Eram quase sempre bispos, sacerdotes, religiosas e religiosos, ou mártires dos primeiros alvores do cristianismo.

Tirando algumas excepções, as suas vidas descritas em livros, eram quase “lendas”, recheadas de pormenores místicos, em que os milagres acontecidos pela sua intercessão, ocupavam a nossa imaginação, mais do que as suas virtudes e também suas fraquezas.

Esta realidade que envolvia os Santos daquele tempo, levava-nos a uma distanciação da santidade, como algo de inatingível a nós, “pobres mortais”, muito longe daqueles “eleitos”, que assim apareciam aos nossos olhos.
Havia até quase um sentimento, (falo por mim e por aqueles do meu tempo), que os Santos tinham acabado, e que nos tempos que vivíamos e nos tempos vindouros, não haveria lugar a mais canonizações, a não ser que viessem do longínquo passado.

Esta situação, (e repito que falo por mim), abria uma distância espiritual, sentimental e até física, com esses Santos, e como tal, a relação com a santidade era algo muito mais de devoção e admiração, do que vontade e prática de imitação das virtudes, na sensação de que a santidade era algo de inatingível nos nossos tempos.

O Concílio Vaticano II, sobretudo na Constituição Dogmática Lumen Gentium, veio, no entanto, chamar-nos e mostrar-nos esse caminho da santidade nos diversos estados de vida de cada um, como uma vocação de todos os baptizados

Entretanto, chegados aos pontificados, sobretudo, de João Paulo II e Bento XVI, a Igreja começou a revelar-nos Santos e Santas dos nossos dias, dos nossos tempos, perto de nós, dos nossos pais e avós, gente como nós, que viveu tempos como nós, que viveu as motivações, as alegrias, as tristezas, as dificuldades destes últimos três séculos.

Alguns, conhecemo-los já realmente, fisicamente. Tiveram parte nas notícias dos nossos jornais, das nossas televisões, vimo-los com os nossos olhos, pudemos tocá-los com as nossas mãos.
As suas virtudes tornaram-se reais para nós, e percebemos que percorriam os mesmos caminhos que nós percorremos, ou seja, que não viviam num qualquer estado de graça fora deste nosso mundo.
Viviam, sim, num estado de graça, mas neste mundo, porque procuravam em tudo fazer a vontade de Deus, o que não amenizava, nem tornava mais fácil, antes pelo contrário, as dificuldades de viver a Fé e a Doutrina num mundo particularmente adverso a essa vivência coerente e em testemunho constante.

Vem isto a propósito da Beatificação da Madre Maria Clara do Menino Jesus, ocorrida neste Sábado em Lisboa, e em que, graças a Deus, estive presente.

Lembro-me bem da minha mãe me falar da sua prima, (como gostava de lhe chamar), dizendo-me do orgulho em pertencer à família de tão virtuosa mulher.

Não sei o que pode ser mais chegado à realidade da santidade do que isto, ou seja, ter na sua própria família alguém que a Igreja colocou nos altares, e que está afinal tão perto de nós no tempo.
Realmente, quando a Beata Maria Clara faleceu em 1 de Dezembro de 1899, já o meu pai era nascido há 5 meses, e minha mãe nasceria apenas 10 anos depois!

Mas de tudo isto, o que mais importa, é percebermos que a santidade não é algo de longínquo, mas sim uma realidade permanente em cada vida que a queira procurar, não para se ser reconhecido como santa ou santo, mas apenas e tão só, para fazer a vontade de Deus.

É que, ao fazermos a vontade de Deus, estamos a dar-nos, a Ele e aos outros, e estamos a aceitar a vida como um dom de Deus com tudo o que Ele nela queira permitir, em alegrias e também em provações.

E vemos, nesta lista imensa de Santos e Santas nos últimos anos beatificados, canonizados, desde crianças, a pais e mães de família, a jovens, a gente enfim, em tudo semelhante a nós, e vivendo no mesmo mundo em que nós vivemos.

Teria gostado que a Igreja em Portugal tivesse dado uma muito maior divulgação e projecção a esta Beatificação da Madre Maria Clara do Menino Jesus, bem com há cerca de 5 anos à Beatificação de Madre Rita Amada de Jesus, em Viseu, aproveitando para fazer desses dias, duas grandes festas, duas grandes celebrações de alegria, de união, de comunhão, por mais estas duas grandes graças que o Senhor quis conceder aos Portugueses.

E, seja-me permitido, tomar o exemplo da Beata Maria Clara e transportá-lo para os nossos dias de agora, para estes nossos tempos conturbados em que a Fé e a Doutrina são permanentemente postos em causa por um mundo que se afasta de Deus.

Com efeito, a Madre Maria Clara arrostou no seu tempo com uma perseguição maciça e total á Igreja, com a expulsão de Ordens Religiosas, perseguições e atentados de toda a espécie.
Mas nada disso a retirou do seu propósito, da sua vontade, de fazer a vontade de Deus na sua vida, e, se teve que ir para França para prosseguir a finalidade de se consagrar inteiramente a Deus numa congregação religiosa, não deixou de voltar ao seu país para, arrostando com contínuas provações e dificuldades, levar a cabo a vontade Deus inscrita no seu coração, e fundar uma congregação que se dedicava inteiramente aos outros, sobretudo aqueles que mais sofrem.

Não vemos então o paralelismo com os nossos tempos?

Nem todos somos chamados, com certeza, a fundar congregações ou outras instituições, mas somos sem dúvida chamados a darmo-nos aos outros, a entregarmos a nossa vida, as nossas capacidades, os dons que o Senhor nos dá, ao Seu serviço, que é no fundo servir os outros, amando-os e ajudando-os, exactamente como Ele nos ama e serve.

«Também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para resgatar a multidão.» Mt 20, 28

E essa coragem que a Beata Maria Clara teve, para afrontar um mundo hostil que se afastava de Deus, é a coragem que devemos encontrar em nós, pela graça de Deus, para darmos testemunho constante e permanente, de não cedermos a leis iníquas, que atentam contra a vida, contra a família, e, na força do testemunho coerente, (também pelo nosso voto no dia das eleições), afirmarmos que só em Deus encontramos o verdadeiro Caminho, a verdadeira Verdade, a verdadeira Vida.

Que a Beata Maria Clara do Menino Jesus interceda por nós, portugueses, para que o Senhor derrame em nós continuamente o Espírito Santo, para na Sua força, darmos testemunho vivo, coerente e permanente em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.


Monte Real, 23 de Maio de 2011
Joaquim Mexia Alves



Nota: 
Porque é tão actual, republico este texto escrito em 2011.
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sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

FAZER A TUA VONTADE

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Fazer a tua vontade,
Senhor,
é mais do que viver,
é sempre
e também um morrer,
para o que me afasta da verdade
para o que me afasta do teu caminho,
buscando o efémero prazer,
que me faz caminhar sozinho,
e não me leva à felicidade,
a que com amor me  chamas
se só a Ti pertencer.

Fazer a tua vontade
é ser assim disponível
em cada momento
em cada hora,
não ser um cata-vento
que roda sem direcção
conforme lhe dá o vento,
mas ter aberto o coração,
antes, depois e agora,
para Te ouvir
e seguir,
sem hesitação,
sem demora.

Fazer a tua vontade
é abrir-me todo ao confiar,
em Ti,
sempre,
sem hesitar,
é vestir-me de esperar
na doce certeza de saber
que a roupa que hei-de vestir
é aquela que me vais dar.

Fazer a tua vontade
é gritar ao sete ventos,
hoje,
amanhã,
e no fim:
«Já não sou eu que vivo
mas é Cristo que vive em mim!»*


*Gl 2,20
Marinha Grande, 24 de Janeiro de 2014
Joaquim Mexia Alves
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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

«UM CEGO PODE GUIAR OUTRO CEGO?»

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«Um cego pode guiar outro cego? Não caíram os dois nalguma cova?» Lc 6, 39

Quando me fecho à tua presença, à tua luz, Senhor, fico cego, sem ver o caminho.

Como posso eu guiar-me, (eu que sou cego pelo pecado), se me deixo cegar porque me afasto de Ti?

Sim, Senhor, eu sei que sou um só, mas dentro de mim está o pecador e o que procura a santidade.

O pecador é cego por natureza, (porque o cega o pecado), mas o que procura a santidade vê, porque és Tu que o ilumina.

Assim o pecador em mim, é guiado pelo que em mim procura a santidade, porque esse recebe de Ti a luz e a força para vencer o pecado.

Mas se o que em mim procura a santidade se afasta de Ti, então fica cego também, e será «um cego a guiar outro cego».

Agora que “vejo”, porque estou a falar contigo, Senhor, peço-Te que nunca me deixes afastar de Ti, para que recebendo de Ti, veja, e vendo, possa guiar o pecador em mim, para que não caia «nalguma cova», de onde não consiga sair.

Obrigado, Senhor, pela luz que dás a este pobre cego que procura a santidade, para que afaste o cego pecador da “cova” do pecado.


Monte Real, 21 de Janeiro de 2014

Joaquim Mexia Alves
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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

"DIÁLOGO" COM O DIABO (8)

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Diz ele: Então correu bem, ontem?

Digo eu: Correu bem o quê, ontem?

Diz ele: Aquele ensinamento que foste fazer a Lisboa, lá na igreja do Rato, com a Comunidade Pneumavita.

Digo eu: Segundo me disseram, acho que correu muito bem, porquê? Estás interessado?

Diz ele: Não, não tenho interesse nenhum nisso. Só tenho pena é que andes a perder tempo, porque as pessoas ouvem, mas depois nada muda.

Digo eu: Como é que tens tanta certeza nisso?

Diz ele: Porque sei, porque as conheço. É tão fácil distrair as pessoas!

Digo eu: Mas olha que ouvem e até se interessam, reflectem e questionam. Não pelas minhas palavras, mas porque Deus se serve delas para as tocar.

Diz ele: Pois sim! Talvez duas ou três pessoas, quando muito! É como te digo, andas a perder tempo!

Digo eu: Isso querias tu, que eu desistisse de falar de Deus quando me pedem! Mas olha, ainda bem que tu próprio admites que duas ou três ouviram e reflectiram. Essas bastam para eu saber que não ando a perder tempo nenhum. Agora vai-te, que não me convences!


Marinha Grande, 15 de Janeiro de 2014

Joaquim Mexia Alves
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quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

«SÓ DEUS BASTA!»

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Senhor,
pedir-Te o quê?
Eu tenho tudo!
Nada me falta!
Se eu precisar de mais alguma coisa
para ser Teu discípulo,
para Te seguir cada vez mais,
para ser melhor testemunha do Teu amor,
Tu mo darás, sem dúvida,
Senhor.

Preciso de mais dinheiro para Te seguir?
Julgo que não!
Preciso de mais bens ou estatuto social para Te seguir?
Julgo que não!
Preciso de ser reconhecido e elogiado para Te seguir?
Julgo que não!
Preciso de outro estado de vida para Te seguir?
Julgo que não!
Preciso de ser mais novo ou mais velho,
mais alto ou mais baixo,
ter mais ou menos saúde para Te seguir?
Julgo que não!

De que preciso então?
Preciso de mais amor,
de mais paz e de mais entrega,
de mais Palavra tua e de mais oração,
de mais Eucaristia e de mais adoração,
de mais humildade e de mais sinceridade,
de mais perdão,
de mais abertura aos outros,
na fraternidade!
Tantas coisas afinal,
Senhor,
que preciso de Te pedir!

Olhas-me,
com esses Teus olhos de amor,
e dizes-me suavemente:
Não precisas de Me pedir mais nada,
porque tudo isso Eu já te dei,
quando te aproximaste de Mim.
Está tudo em ti!
A ti compete pôr a render
tudo o que te dei,
até ao fim.

Lembra-te do que vos disse:
«quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo
àqueles que lho pedem!»*

Abraças-me,
apertas-me,
olhas-me,
e sussurras ao meu ouvido:
«Só Deus basta!»



*Lc 11, 13


Marinha Grande, 8 de Janeiro de 2014
Joaquim Mexia Alves
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