quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

SER SANTO

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Quando eu era rapaz, lá pelos finais dos anos 50, começo dos anos 60, os Santos e Santas, eram algo muito longínquo no tempo, na história da Igreja.

Eram quase sempre bispos, sacerdotes, religiosas e religiosos, ou mártires dos primeiros alvores do cristianismo.

Tirando algumas excepções, as suas vidas descritas em livros, eram quase “lendas”, recheadas de pormenores místicos, em que os milagres acontecidos pela sua intercessão, ocupavam a nossa imaginação, mais do que as suas virtudes e também suas fraquezas.

Esta realidade que envolvia os Santos daquele tempo, levava-nos a uma distanciação da santidade, como algo de inatingível a nós, “pobres mortais”, muito longe daqueles “eleitos”, que assim apareciam aos nossos olhos.
Havia até quase um sentimento, (falo por mim e por aqueles do meu tempo), que os Santos tinham acabado, e que nos tempos que vivíamos e nos tempos vindouros, não haveria lugar a mais canonizações, a não ser que viessem do longínquo passado.

Esta situação, (e repito que falo por mim), abria uma distância espiritual, sentimental e até física, com esses Santos, e como tal, a relação com a santidade era algo muito mais de devoção e admiração, do que vontade e prática de imitação das virtudes, na sensação de que a santidade era algo de inatingível nos nossos tempos.

O Concílio Vaticano II, sobretudo na Constituição Dogmática Lumen Gentium, veio, no entanto, chamar-nos e mostrar-nos esse caminho da santidade nos diversos estados de vida de cada um, como uma vocação de todos os baptizados

Entretanto, chegados aos pontificados, sobretudo, de João Paulo II e Bento XVI, a Igreja começou a revelar-nos Santos e Santas dos nossos dias, dos nossos tempos, perto de nós, dos nossos pais e avós, gente como nós, que viveu tempos como nós, que viveu as motivações, as alegrias, as tristezas, as dificuldades destes últimos três séculos.

Alguns, conhecemo-los já realmente, fisicamente. Tiveram parte nas notícias dos nossos jornais, das nossas televisões, vimo-los com os nossos olhos, pudemos tocá-los com as nossas mãos.
As suas virtudes tornaram-se reais para nós, e percebemos que percorriam os mesmos caminhos que nós percorremos, ou seja, que não viviam num qualquer estado de graça fora deste nosso mundo.
Viviam, sim, num estado de graça, mas neste mundo, porque procuravam em tudo fazer a vontade de Deus, o que não amenizava, nem tornava mais fácil, antes pelo contrário, as dificuldades de viver a Fé e a Doutrina num mundo particularmente adverso a essa vivência coerente e em testemunho constante.

Vem isto a propósito da Beatificação da Madre Maria Clara do Menino Jesus, ocorrida neste Sábado em Lisboa, e em que, graças a Deus, estive presente.

Lembro-me bem da minha mãe me falar da sua prima, (como gostava de lhe chamar), dizendo-me do orgulho em pertencer à família de tão virtuosa mulher.

Não sei o que pode ser mais chegado à realidade da santidade do que isto, ou seja, ter na sua própria família alguém que a Igreja colocou nos altares, e que está afinal tão perto de nós no tempo.
Realmente, quando a Beata Maria Clara faleceu em 1 de Dezembro de 1899, já o meu pai era nascido há 5 meses, e minha mãe nasceria apenas 10 anos depois!

Mas de tudo isto, o que mais importa, é percebermos que a santidade não é algo de longínquo, mas sim uma realidade permanente em cada vida que a queira procurar, não para se ser reconhecido como santa ou santo, mas apenas e tão só, para fazer a vontade de Deus.

É que, ao fazermos a vontade de Deus, estamos a dar-nos, a Ele e aos outros, e estamos a aceitar a vida como um dom de Deus com tudo o que Ele nela queira permitir, em alegrias e também em provações.

E vemos, nesta lista imensa de Santos e Santas nos últimos anos beatificados, canonizados, desde crianças, a pais e mães de família, a jovens, a gente enfim, em tudo semelhante a nós, e vivendo no mesmo mundo em que nós vivemos.

Teria gostado que a Igreja em Portugal tivesse dado uma muito maior divulgação e projecção a esta Beatificação da Madre Maria Clara do Menino Jesus, bem com há cerca de 5 anos à Beatificação de Madre Rita Amada de Jesus, em Viseu, aproveitando para fazer desses dias, duas grandes festas, duas grandes celebrações de alegria, de união, de comunhão, por mais estas duas grandes graças que o Senhor quis conceder aos Portugueses.

E, seja-me permitido, tomar o exemplo da Beata Maria Clara e transportá-lo para os nossos dias de agora, para estes nossos tempos conturbados em que a Fé e a Doutrina são permanentemente postos em causa por um mundo que se afasta de Deus.

Com efeito, a Madre Maria Clara arrostou no seu tempo com uma perseguição maciça e total á Igreja, com a expulsão de Ordens Religiosas, perseguições e atentados de toda a espécie.
Mas nada disso a retirou do seu propósito, da sua vontade, de fazer a vontade de Deus na sua vida, e, se teve que ir para França para prosseguir a finalidade de se consagrar inteiramente a Deus numa congregação religiosa, não deixou de voltar ao seu país para, arrostando com contínuas provações e dificuldades, levar a cabo a vontade Deus inscrita no seu coração, e fundar uma congregação que se dedicava inteiramente aos outros, sobretudo aqueles que mais sofrem.

Não vemos então o paralelismo com os nossos tempos?

Nem todos somos chamados, com certeza, a fundar congregações ou outras instituições, mas somos sem dúvida chamados a darmo-nos aos outros, a entregarmos a nossa vida, as nossas capacidades, os dons que o Senhor nos dá, ao Seu serviço, que é no fundo servir os outros, amando-os e ajudando-os, exactamente como Ele nos ama e serve.

«Também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para resgatar a multidão.» Mt 20, 28

E essa coragem que a Beata Maria Clara teve, para afrontar um mundo hostil que se afastava de Deus, é a coragem que devemos encontrar em nós, pela graça de Deus, para darmos testemunho constante e permanente, de não cedermos a leis iníquas, que atentam contra a vida, contra a família, e, na força do testemunho coerente, (também pelo nosso voto no dia das eleições), afirmarmos que só em Deus encontramos o verdadeiro Caminho, a verdadeira Verdade, a verdadeira Vida.

Que a Beata Maria Clara do Menino Jesus interceda por nós, portugueses, para que o Senhor derrame em nós continuamente o Espírito Santo, para na Sua força, darmos testemunho vivo, coerente e permanente em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.


Monte Real, 23 de Maio de 2011
Joaquim Mexia Alves



Nota: 
Porque é tão actual, republico este texto escrito em 2011.
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sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

FAZER A TUA VONTADE

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Fazer a tua vontade,
Senhor,
é mais do que viver,
é sempre
e também um morrer,
para o que me afasta da verdade
para o que me afasta do teu caminho,
buscando o efémero prazer,
que me faz caminhar sozinho,
e não me leva à felicidade,
a que com amor me  chamas
se só a Ti pertencer.

Fazer a tua vontade
é ser assim disponível
em cada momento
em cada hora,
não ser um cata-vento
que roda sem direcção
conforme lhe dá o vento,
mas ter aberto o coração,
antes, depois e agora,
para Te ouvir
e seguir,
sem hesitação,
sem demora.

Fazer a tua vontade
é abrir-me todo ao confiar,
em Ti,
sempre,
sem hesitar,
é vestir-me de esperar
na doce certeza de saber
que a roupa que hei-de vestir
é aquela que me vais dar.

Fazer a tua vontade
é gritar ao sete ventos,
hoje,
amanhã,
e no fim:
«Já não sou eu que vivo
mas é Cristo que vive em mim!»*


*Gl 2,20
Marinha Grande, 24 de Janeiro de 2014
Joaquim Mexia Alves
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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

«UM CEGO PODE GUIAR OUTRO CEGO?»

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«Um cego pode guiar outro cego? Não caíram os dois nalguma cova?» Lc 6, 39

Quando me fecho à tua presença, à tua luz, Senhor, fico cego, sem ver o caminho.

Como posso eu guiar-me, (eu que sou cego pelo pecado), se me deixo cegar porque me afasto de Ti?

Sim, Senhor, eu sei que sou um só, mas dentro de mim está o pecador e o que procura a santidade.

O pecador é cego por natureza, (porque o cega o pecado), mas o que procura a santidade vê, porque és Tu que o ilumina.

Assim o pecador em mim, é guiado pelo que em mim procura a santidade, porque esse recebe de Ti a luz e a força para vencer o pecado.

Mas se o que em mim procura a santidade se afasta de Ti, então fica cego também, e será «um cego a guiar outro cego».

Agora que “vejo”, porque estou a falar contigo, Senhor, peço-Te que nunca me deixes afastar de Ti, para que recebendo de Ti, veja, e vendo, possa guiar o pecador em mim, para que não caia «nalguma cova», de onde não consiga sair.

Obrigado, Senhor, pela luz que dás a este pobre cego que procura a santidade, para que afaste o cego pecador da “cova” do pecado.


Monte Real, 21 de Janeiro de 2014

Joaquim Mexia Alves
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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

"DIÁLOGO" COM O DIABO (8)

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Diz ele: Então correu bem, ontem?

Digo eu: Correu bem o quê, ontem?

Diz ele: Aquele ensinamento que foste fazer a Lisboa, lá na igreja do Rato, com a Comunidade Pneumavita.

Digo eu: Segundo me disseram, acho que correu muito bem, porquê? Estás interessado?

Diz ele: Não, não tenho interesse nenhum nisso. Só tenho pena é que andes a perder tempo, porque as pessoas ouvem, mas depois nada muda.

Digo eu: Como é que tens tanta certeza nisso?

Diz ele: Porque sei, porque as conheço. É tão fácil distrair as pessoas!

Digo eu: Mas olha que ouvem e até se interessam, reflectem e questionam. Não pelas minhas palavras, mas porque Deus se serve delas para as tocar.

Diz ele: Pois sim! Talvez duas ou três pessoas, quando muito! É como te digo, andas a perder tempo!

Digo eu: Isso querias tu, que eu desistisse de falar de Deus quando me pedem! Mas olha, ainda bem que tu próprio admites que duas ou três ouviram e reflectiram. Essas bastam para eu saber que não ando a perder tempo nenhum. Agora vai-te, que não me convences!


Marinha Grande, 15 de Janeiro de 2014

Joaquim Mexia Alves
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quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

«SÓ DEUS BASTA!»

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Senhor,
pedir-Te o quê?
Eu tenho tudo!
Nada me falta!
Se eu precisar de mais alguma coisa
para ser Teu discípulo,
para Te seguir cada vez mais,
para ser melhor testemunha do Teu amor,
Tu mo darás, sem dúvida,
Senhor.

Preciso de mais dinheiro para Te seguir?
Julgo que não!
Preciso de mais bens ou estatuto social para Te seguir?
Julgo que não!
Preciso de ser reconhecido e elogiado para Te seguir?
Julgo que não!
Preciso de outro estado de vida para Te seguir?
Julgo que não!
Preciso de ser mais novo ou mais velho,
mais alto ou mais baixo,
ter mais ou menos saúde para Te seguir?
Julgo que não!

De que preciso então?
Preciso de mais amor,
de mais paz e de mais entrega,
de mais Palavra tua e de mais oração,
de mais Eucaristia e de mais adoração,
de mais humildade e de mais sinceridade,
de mais perdão,
de mais abertura aos outros,
na fraternidade!
Tantas coisas afinal,
Senhor,
que preciso de Te pedir!

Olhas-me,
com esses Teus olhos de amor,
e dizes-me suavemente:
Não precisas de Me pedir mais nada,
porque tudo isso Eu já te dei,
quando te aproximaste de Mim.
Está tudo em ti!
A ti compete pôr a render
tudo o que te dei,
até ao fim.

Lembra-te do que vos disse:
«quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo
àqueles que lho pedem!»*

Abraças-me,
apertas-me,
olhas-me,
e sussurras ao meu ouvido:
«Só Deus basta!»



*Lc 11, 13


Marinha Grande, 8 de Janeiro de 2014
Joaquim Mexia Alves
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segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

UM ANO QUE PASSOU E UM ANO QUE CHEGA.

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Está a chegar um novo ano!
Olho para trás e quero perceber aquilo que mais me marcou neste ano que passou.

E a primeira coisa que me vem à memória e ao coração, é a humildade.

A humildade de Bento XVI, (o tal “pastor alemão” irredutível), que resigna ao seu pontificado, por reconhecer a “fraqueza” das suas forças, motivada pelos seus muitos anos de vida.

A humildade de Francisco que no seu primeiro acto público pede aos fiéis que rezem por ele, humildade demonstrada depois nos muitos gestos que vão preenchendo o dia-a-dia do seu pontificado.

A humildade de tantos cristãos perseguidos por esse mundo fora, e que humildemente baixam a cabeça em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.

A humildade de tantos Bispos e Sacerdotes que apontam Jesus Cristo, que mostram o Caminho, sem querer ser reconhecidos, fazendo-se “pequenos” perante o Senhor e os homens, sendo trabalhadores da Messe, sem esperar outra recompensa que não seja a graça de Deus.

A humildade de tantos fiéis anónimos que servem a Deus em Igreja, ensinando, catequizando, secretariando, limpando e embelezando as igrejas, sem querer um momento de “glória” ou de elogio, mas apenas para servir a Deus, servindo a Igreja.

A humildade daqueles casais que se amam em doação, procurando o bem e a felicidade do outro, sabendo reconhecer os seus erros, para todos os dias renovarem com ou sem palavras o seu Matrimónio cristão.

A humildade daqueles pais e daqueles filhos, que se dedicam uns aos outros, reconhecendo exageros e irritações, perdoando-se mutuamente, para todos os dias construírem a igreja doméstica que é a família cristã.

A humildade daqueles que, “feridos” por uma qualquer situação irregular nas suas vidas conjugais, aceitam em amor a Doutrina da Igreja, e procuram na obediência o caminho em Igreja, ao encontro do Senhor que sempre se faz presente.

A humildade dos que foram capazes de se aproximar daqueles que ofenderam, ou por eles foram ofendidos, e pediram perdão ou perdoaram.

A humildade que o Senhor coloca no meu coração, (por mim tal humildade não aconteceria), cada vez que se deixa tocar por mim, para que O possa dar como alimento divino, àqueles que O procuram e O reconhecem como Deus e Senhor.

Como Deus faz as coisas bem feitas!

Naquilo que supostamente me poderia humanamente orgulhar, (ah, e eu sei bem o que é o orgulho!), ser Ministro Extraordinário da Comunhão, (a graça maior que Ele entendeu dar-me este ano), é quando me sinto mais fraco, mais pecador, mais servidor.
É então que reconheço que só com Ele, a humildade é graça e caminho para Deus, com Deus e em Deus.

Um Feliz Ano Novo para todos, cheio das graças e das bênçãos de Deus Pai, Filho e Espírito Santo!


Monte Real, 30 de Dezembro de 2013 
Joaquim Mexia Alves
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domingo, 22 de dezembro de 2013

CONTO DE NATAL 2013

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Rodrigo estava feliz! Tinha conseguido, com grandes poupanças, marcar a viagem e o hotel para fazer a surpresa à Isabel, sua mulher.

Ela merecia tudo! Casados há mais de 35 anos, nunca tinham conseguido passar uns dias juntos, numa viagem ao estrangeiro, algo que ela tanto desejava.
Finalmente, com grandes esforços e algumas ajudas dos dois filhos, já casados, tinha sido possível comprar a viagem e pagar o hotel, para poderem passar uns dias no tempo do Natal, em Roma, a cidade dos sonhos da Isabel.
Era perfeito, pois como o dia 24 de Dezembro calhava numa segunda-feira, sairiam na sexta-feira anterior e estariam até quarta 26 em Roma, o que daria muito tempo para conhecer a cidade e, para além disso, (para eles católicos convictos e praticantes), tinha um sabor muito especial o facto de passarem o Natal em Roma.
Já tinha sabido da hora da Missa do Galo na Basílica Vaticana, com o Santo Padre, e portanto, tudo estava a concretizar-se para surpreender a Isabel com um belíssimo presente de Natal.

Tinha combinado com o filho e a filha, que este ano pela primeira vez desde que eram família, a noite de 24 não seria passada lá em casa, o que lhes iria custar muito, pois era uma tradição que os filhos mesmo depois de casados tinham feito questão de manter. A noite de 24 era sempre em casa do Rodrigo e Isabel, seus pais, e o dia 25 era sempre para as famílias dos seus sogros.
E era hoje quarta-feira, 19 de Dezembro, que iria desvendar o presente de Natal à Isabel. Não podia ser de outro modo para lhe dar tempo para tudo preparar para a viagem.

À hora de jantar, com um sorriso feliz na cara, Rodrigo disse a Isabel: Vou-te dar o presente de Natal hoje, e já vais perceber porquê!
Ela fitou-o com um ar totalmente surpreendido e pegou no envelope que ele lhe dava, todo decorado com motivos de Natal.
Abriu, leu, percebeu a viagem que lhe estava a ser dada como presente, levantou-se e abraçou longamente Rodrigo, a quem uma lágrima furtiva escorreu pelo rosto.
Deu-lhe um beijo e disse: Tu és doido! Isto custa um dinheirão, com certeza!
Ele respondeu que não se preocupasse com esse assunto, porque as poupanças já vinham de há muito tempo para a concretização deste presente.
Isabel retorquiu de imediato: E os “miúdos”? Sim, lembra-te que a noite de Natal é sempre cá em casa!
Tivessem que idade tivessem, com filhos ou não, (que por acaso já tinham), os filhos seriam sempre os “miúdos”.
Rodrigo respondeu-lhe: Tudo tratado com eles! Decidiram que para não perderem a tradição da família, vão passar ambos a noite de Natal em casa do Pedro, (o mais velho), e só no dia 25 vão como sempre para casa dos seus sogros.

Num instante chegou sexta-feira, e num “piscar de olhos” viram-se sábado a passear por Roma, visitando monumentos, percorrendo as ruas carregadas de história e era visível a felicidade de Isabel por estar finalmente na cidade dos seus sonhos.
Jantaram num belo restaurante como dois namorados e dormiram como crianças felizes.

No Domingo, durante o pequeno-almoço, parecia a Rodrigo que algo tinha mudado em Isabel. Não parecia tão feliz, tão alegre, tão entusiasmada.
Deixou passar algum tempo, mas à hora de almoço era visível que algo não estava bem com ela e por isso perguntou-lhe: O que se passa Isabel? Há alguma coisa que não esteja a correr bem? Estás doente?
Ela respondeu que não, que estava tudo bem, mas Rodrigo conhecia-a bem e sabia que algo a incomodava, de tal maneira que ela não conseguia gozar a viagem, a estadia na sua amada Roma.

Após muita insistência, Isabel abriu-se e disse: Não consigo imaginar-me a passar a noite de Natal sem os nossos filhos e netos! Tenho tentado afastar de mim essa ideia, mas não consigo! Não te preocupes, que isto passa.
Rodrigo nada respondeu. Deu-lhe apenas um beijo amoroso e passado pouco tempo, no final do almoço, disse ter de ir à recepção do hotel confirmar o passeio da tarde e os sítios a visitar.
Regressou pouco depois com um sorriso de garoto na cara e disse a Isabel: Está tudo tratado!
Ela perguntou: Então onde vamos esta tarde?
Rodrigo respondeu: Vamos fazer as malas, porque o avião para Lisboa é amanhã muito cedo!
Ela protestou, ralhou, disse milhentas coisas, mas por dentro o seu coração exultava de alegria. Ele fez questão de lhe dizer que também a ele lhe custava muito não passar a noite de Natal como sempre, mas tinha assim decidido apenas para lhe agradar.

Às 13 horas de segunda-feira já estavam a telefonar para o Pedro e a Luísa, (seus filhos), a dizer: A noite de Natal é cá em casa! Tragam o que tinham preparado e nós juntamos algumas coisas que já fomos comprar.
Agora foram os filhos a ficar surpreendidos, mas para além dos protestos que de imediato expressaram, estavam no fundo felicíssimos por poderem passar aquela noite de 24 de Dezembro com os seus pais.
Chegou a noite, encheu-se a casa, veio a Missa do Galo e passado pouco tempo todos estavam à volta da mesa para a ceia.
Mas antes, e como sempre, Rodrigo fez a oração, reunidos à volta do presépio como todos os anos fazia naquela Santa Noite.

Obrigado, Jesus, porque nos destes tanto e continuas a dar. Obrigado por nos teres trazido de volta a nossa casa para podermos estar com os filhos, nora, genro e netos reunidos em família. Obrigado, Jesus, porque o Natal assim é mais Natal. Dá-nos mais um Natal, e depois mais e mais um, conforme a Tua vontade. Abençoa, Jesus, a nossa família e todas as famílias, e abençoa todos os homens e mulheres de boa vontade. Amen.

A meio da ceia, com a alegria jorrando a rodos, ouviu-se por cima do barulho de todas as vozes a voz do Manel, o neto mais novo de 4 anos apenas:
É tão bom o Natal em família!


Marinha Grande, Natal de 2013
Joaquim Mexia Alves


Com este Conto de Natal deste ano de 2013, quero desejar a todas amigas e amigos que por aqui passam, e suas famílias, um Santo Natal, no amor e na paz de Jesus.
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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

A “REVOLUÇÃO” DO PAPA FRANCISCO

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Muito se tem escrito sobre a “revolução” do Papa Francisco, sobretudo afirmando-se ou no mínimo desejando-se, que essa chamada “revolução” se constitua como um romper com o passado, com a Doutrina, em suma, um quase romper com a Igreja.
 
E no entanto, ao lermos o ponto 13 da Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, do Papa Francisco, percebemos que, se «na realidade, toda a acção evangelizadora autêntica é sempre «nova» EG11, ela não pode deixar de ter os alicerces na Tradição, na Doutrina, na História da Igreja, enfim na memória, como o Papa Francisco tão bem expressa nesse ponto.
 
13. E também não deveremos entender a novidade desta missão como um desenraizamento, como um esquecimento da história viva que nos acolhe e impele para diante. A memória é uma dimensão da nossa fé, que, por analogia com a memória de Israel, poderíamos chamar «deuteronómica». Jesus deixa-nos a Eucaristia como memória quotidiana da Igreja, que nos introduz cada vez mais na Páscoa (cf. Lc 22,19). A alegria evangelizadora refulge sempre sobre o horizonte da memória agradecida: é uma graça que precisamos de pedir. Os Apóstolos nunca mais esqueceram o momento em que Jesus lhes tocou o coração: «Eram as quatro horas da tarde» (Jo 1,39). A memória faz-nos presente, juntamente com Jesus, uma verdadeira «nuvem de testemunhas» (Heb 12,1). De entre elas, distinguem-se algumas pessoas que incidiram de maneira especial para fazer germinar a nossa alegria crente: «Recordai-vos dos vossos guias, que vos pregaram a Palavra de Deus» (Heb 13,7). Às vezes, trata-se de pessoas simples e próximas de nós, que nos iniciaram na vida da fé: «Trago à memória a tua fé sem fingimento, que se encontrava já na tua avó Lóide e na tua mãe Eunice» (2Tm 1,5). O crente é, fundamentalmente, «uma pessoa que faz memória». Evangelii Gaudium
 
Não se trata de uma rotura com o passado, com a história, com a Doutrina da Igreja, mas tão “apenas” de, «algumas diretrizes que possam encorajar e orientar, em toda a Igreja, uma nova etapa evangelizadora, cheia de ardor e dinamismo. Neste quadro e com base na doutrina da Constituição dogmática Lumen gentium…» EG17
 
Nem podia ser de outro modo, porque o Papa Francisco é o Sucessor de Pedro e não um “reinventor” da Doutrina e da Igreja, porque tal como Jesus disse a Pedro, também o diz a Francisco, «és feliz Francisco, porque não foi a carne nem o sangue que to revelou, mas o meu Pai que está no Céu.» Mt 16, 17
 
A Igreja não anda ao sabor do mundo, segundo a vontade do mundo, nem sequer segundo a vontade daqueles que se dizem Igreja, porque «não foi a carne e o sangue que to revelou».
A Igreja move-se, porque é movida pelo Espírito Santo, no tempo, no espaço, em cada momento específico do mundo, mas de acordo com aquilo que é o discernimento no Espírito Santo daqueles que foram chamados, escolhidos para serem os Sucessores dos Apóstolos, ou seja, segundo «o meu Pai que está no Céu».
 
Ora o Espírito Santo nunca “ensinará” algo diferente do que foi ensinado por Jesus Cristo, porque como Ele afirma, «o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, esse é que vos ensinará tudo, e há-de recordar-vos tudo o que Eu vos disse.» Jo 14, 26
 
Pode mudar a dinâmica, pode mudar o “estilo”, pode mudar a postura, pode mudar a forma de comunicar, podem até mudar os edifícios e as estruturas humanas da Igreja, (e alguns desses pontos e outros será até, talvez, necessário que mudem), mas a Igreja Católica Apostólica Romana na pureza da sua Doutrina, enquanto Una, Santa, Católica e Apostólica não pode mudar, nem precisa de mudar, porque Ela é sempre actual, porque embora constituída por homens é de Deus, e Deus é sempre actual, porque Ele é o tempo e o espaço em cada momento.
 
A grande diferença, julgo eu, seremos nós, membros da Igreja, conduzidos pelo Papa Francisco e pelo Magistério da Igreja, encontrarmos novas formas, novas dinâmicas, novo ardor, nova alegria para anunciarmos ao mundo a Boa Nova de Deus.
 
 
 
Marinha Grande, 12 de Dezembro de 2013
Joaquim Mexia Alves 
 
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terça-feira, 10 de dezembro de 2013

O PADRE LAPA, A PNEUMAVITA E EU (4)

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Um episódio que ficou marcado para sempre na minha vida, e que de alguma forma mudou a minha intervenção em Igreja, passou-se numa Assembleia da Pneumavita em Fátima, logo num dos primeiros anos em que participei nessas assembleias.
 
Se bem me lembro, ao princípio da tarde de Sábado, quando regressei ao anfiteatro Paulo VI depois de uma curta saída, a Catarina, minha mulher, disse-me que o Padre Lapa tinha pedido para eu ir ao palco falar com ele.
Fiquei em ânsias como é de calcular, e lá desci as escadas do anfiteatro para me encontrar com ele. Levou-me para detrás do palco e disse-me com toda a simplicidade, (como se eu fosse pessoa habituada a tal situação), que queria muito que eu desse um testemunho sobre a mudança da minha vida, um testemunho da minha conversão.
 
Confesso que pensei mais uma vez, (como antigamente), que ele tinha “ensandecido”!!!
Eu, que sempre tinha detestado falar em público, falar de mim para 2.500 pessoas!!! Nem pensar!
Por isso mesmo, muito me admirei ao ouvir-me dizer que sim senhor, que daria o tal testemunho. E a “coisa” não era para depois, era para ser feita passados apenas uns escassos minutos!
Pedi então que rezassem por mim, e o Padre Antonio Fernandes, veio, impôs-me as mãos e rezou por mim. Com muita calma disse-me para eu confiar, que o Espírito Santo havia de falar em mim e tudo correria bem.
Abriu então a Bíblia, e, depois de ler para si, deu-me a ler a seguinte passagem:
 
«Por isso recomendo-te que reacendas o dom de Deus que se encontra em ti, pela imposição das minhas mãos, pois Deus não nos concedeu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de amor e de bom senso.
Portanto, não te envergonhes de dar testemunho de Nosso Senhor, nem de mim, seu prisioneiro, mas compartilha o meu sofrimento pelo Evangelho, apoiado na força de Deus.» 2 Tm 1, 6-8
 
Olhou para mim, olhos nos olhos, e perguntou-me se precisava de mais alguma coisa, afirmando que ali estava a confirmação de tudo o que precisava saber e confiar.
Depois…, depois fui à estante que estava no palco, levantei a cabeça, olhei, e vi 2.500 pares de olhos fixos em mim!
As pernas tremeram, o suor escorreu-me pelas costas, a boca abriu-se, e eu falei… falei do que me ia no coração! Ainda hoje, de quando em vez, me falam desse testemunho.
A verdade é que a partir daí o medo de falar em público se foi afastando, vindo para o “seu lugar” um tremendo sentimento de responsabilidade, sempre que sou chamado a falar d’Ele aos outros.
 
Tantas coisas que o Padre Lapa me levou a reflectir, a meditar, a corrigir, a fazer, a caminhar!
Tantas provas de amizade profunda, de interesse desinteressado, de satisfação por ver o caminho da minha vida.
 
Sim, Deus fez o milagre na minha vida de O encontrar, de viver o Seu amor, de perceber que a vida só tem sentido com Ele, por Ele e para Ele, mas para isso serviu-se de muitas pessoas, das quais é forçoso destacar o Padre José da Lapa e as irmãs e irmãos da Comunidade Pneumavita, com quem hoje e sempre me sinto em família, me sinto acolhido, me sinto amado, me sinto Igreja.
 
Fica tanto por dizer, tanto por contar, tanto por testemunhar, mas, se Deus quiser e para tal me inspirar, hei-de escrever talvez um livro, para narrar o que Deus fez em mim, servindo-se de tantas e tantos filhas e filhos de Deus, dos quais, sem dúvida, o Padre Lapa é figura primeira na história da minha conversão.
 
«Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai, que está no Céu.» Mt 5, 16
Obrigado Padre Lapa!
Obrigado Pneumavita!
 
 
Marinha Grande, 10 de Dezembro de 2013
Joaquim Mexia Alves
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terça-feira, 3 de dezembro de 2013

O PADRE LAPA, A PNEUMAVITA E EU (3)

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Tinha acabado aquele retiro na Torre d’Aguilha.
 
Melhor do que aquilo que posso recordar agora, “falam” as palavras que então escrevi ao Padre Lapa.
«Louvo o Senhor, porque no Seu divino conhecimento o colocou no meu caminho, Padre Lapa.
Se já tinha alguma tranquilidade, alguma paz, algum amor, tenho agora a força, a coragem, o ânimo, a luz, a vontade e, (eu sei que não se mede), muito mais Espírito Santo.
Estou impaciente, tenho que fazer, tenho que andar, tenho que seguir em frente. Não posso estar parado. O Senhor irrompe permanentemente na minha mente e felizmente não me deixa sossegado.
Nem que eu fosse o maior poeta do mundo, o escritor mais dotado, encontraria as palavras certas para descrever um pouco sequer do que sinto.
Estou feliz, estou cheio, estou repleto, estou renascido, estou com Jesus no coração, o Espírito Santo no meu ser, abandonado nos braços do Pai, Nosso Deus…»
 
A resposta foi imediata:
«Louvo o Senhor por tudo o que está a acontecer na tua vida e, através de ti, pela força do Espírito Santo, na vida de muita gente…
Toda a Comunidade “Pneumavita” que te acolheu com o coração sentiu muita alegria em acolher-te . Jesus e nós contamos contigo para esta “obra nova” que desabrochou na Igreja a seguir ao Vaticano II.
Sê fiel à oração, à Palavra de Deus, ao amor fraterno e à «fracção do Pão», tanto quanto possível…»
 
Estávamos então também a preparar a preparar a Assembleia do RCC em Monte Real, que teve lugar nos dias 11 e 12 de Setembro de 1999, e foi um fim de semana extraordinário, conduzido pelo Padre Lapa e pela Comunidade Pneumavita.
Encheu-se a sala do hotel onde a mesma decorreu e a igreja matriz de Monte Real foi pequena para conter todos os que quiseram estar presente.
 
São tempos, momentos, em que vivo um “frenesim” religioso, querendo fazer tudo, querendo estar em tudo.
O Padre Lapa apercebe-se disso e fala comigo, avisando-me para não me deixar levar por “exageros”, para levar uma vida mais interior que consolidasse o testemunho e sobretudo, lembrando-me que a missão que o Senhor tinha colocado nas minhas mãos em primeiro lugar, era a minha família.
Isto mesmo expresso numa carta que lhe escrevo a seguir à Assembleia do RCC em Monte Real.
«Quando falei consigo ao telefone ontem, disse-me para ter calma e ir devagar, e eu bem precisava dessas palavras, porque a minha ânsia é tão grande, que tudo quero fazer sem descanso e provavelmente sem grande discernimento. De qualquer maneira é bem melhor estar assim do que apático e desinteressado.»
 
No mês de Janeiro a seguir, (2000), realiza-se um encontro de fim-de-semana, em Monte Real com o Padre António Fernandes e o seu grupo de oração.
Outra graça de Deus que tenho de agradecer ao Padre Lapa, pois foi ele que me apresentou o Padre António Fernandes, que vai ser com ele, meus guias e conselheiros nesta caminhada que , de uma “corrida à desfilada”, começa agora a ser verdadeiramente caminhada, orientada por dois homens que me guiam e me dizem o que tenho de ouvir, com toda a firmeza, mas também com todo o amor.
 
Marinha Grande, 3 de Dezembro de 2013
Joaquim Mexia Alves
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