segunda-feira, 13 de agosto de 2012

CAMINHO DE CRESCIMENTO

.
.




Alguém amigo, comentava há uns dias comigo que não percebia porque é que no inicio da caminhada de fé, a oração era fácil, a alegria era sempre presente, as consolações eram muitas, o mundo, a vida, tudo lhe parecia tudo bom, e agora, passado um tempo, tornava-se difícil a oração, muitas vezes a tristeza atacava, em tantas coisas se deparava com o mal.
Às vezes quase apetecia desistir, porque a luta era muita, e se deixasse a vida prosseguir sem se preocupar com a comunhão com Deus e com os outros, tudo seria muito mais fácil.
Não entendia porque é que por causa de tudo isto, às vezes até se revoltava “contra” Deus!

Ao tentar responder a estas inquietações, foi-me inspirada a seguinte resposta que aqui deixo para reflexão.

O caminho de Deus é uma aprendizagem, com tudo o que implica aprender, desde a consolação, ao desânimo, passando muitas vezes por uma falta de acreditar em nós próprios, nos outros e até em Deus.

Quando uma criança nasce, é rodeada de carinho, de ternura, e tudo o que ela faz é objecto de compreensão, até de alegria, (até mesmo coisas que parecem “más”), ou seja, quantas vezes as mães não se alegram porque o bebé sujou as fraldas, o que é sinal que tudo está bem...
Assim o bebé é só consolações, tudo o que faz é bem aceite e fonte de alegria, está totalmente protegido para que nada de mal lhe aconteça. Tudo quanto sejam agressões ao seu bem-estar são imediatamente afastadas porque a sua ligação/comunhão com os pais é total e permanente.

Mas depois começa a crescer e já se aventura a decidir algumas coisas por si só, sem atender àquilo que os pais lhe dizem, e começam as "dores", (porque mexeu no lume e se queimou), porque fez isto ou aquilo e lá chegam também as primeiras reprimendas.
Continua a crescer e cada vez mais acha que já sabe tudo, há até um momento em que se quer afastar dos pais, por achar que aquilo que lhe dizem não serve a sua vida.
Agora muitas vezes os erros são maiores e as suas consequências mais pesadas.
Por vezes sente um desejo enorme de se recolher nos braços dos pais, mas o orgulho e muitas vezes uma sensação de culpa, de vergonha, impede-o de o fazer, ou de ser inteiramente verdadeiro com eles, acatando aquilo que eles lhe dizem para o seu bem.

E a vida vai continuando e as coisas boas vão alternando com as menos boas e vai descobrindo que afinal as coisas que os pais lhe diziam eram coisas boas, e até as vai ensinando aos seus filhos.
À medida que se vai aproximando da idade mais avançada vai-se dando conta de que tem de confiar naqueles que o amam e assim vai-se deixando conduzir, ajudar, e vai redescobrindo as alegrias e consolos de esperar e confiar em alguém que o ama verdadeiramente e o ajuda a viver a sua vida.

Claro que esta descrição é a de uma vida em termos gerais, que acontece, mais parecida ou menos parecida, com muitas pessoas.

Com certeza já reparaste na similitude daquilo que te quero dizer.

Nesta vida voltada para Deus, ao princípio tudo são consolações, alegrias, descobertas, sentimo-nos protegidos, parece que nenhum mal nos pode acontecer e isso porque a nossa vida é então uma descoberta e é sobretudo uma oração constante, uma constante comunhão com Deus, na Eucaristia, na Confissão, na entrega, enfim, não queremos viver mais nada.
Em tudo O queremos encontrar, em tudo seguimos a Sua Palavra, o mal nada pode contra nós, e espantamo-nos como é possível que os outros não percebam esta maravilha, não queiram viver esta descoberta, esta vida cheia e plena.
Mas depois há que descer do Tabor!

É Ele mesmo que quer que comecemos a enfrentar a vida do dia a dia, que enfrentemos o mal que corre o mundo, e então começamos a reparar em tanta coisa má que acontece e questionamo-nos, perguntamos-Lhe até: Como é possível, porque deixas isto acontecer!!!
E Ele na Sua bondade infinita vai-nos mostrando às vezes dolorosamente que não interfere na nossa liberdade e por isso aquilo que fazemos sem pensarmos tem as suas consequências.

É o tempo de crescimento, de percebermos que temos também a nossa parte para fazer, a nossa vida a construir.
Então por vezes o nosso arrebatamento já não é tão intenso, o nosso acreditar tão real, e assim isso reflecte-se na nossa entrega, na nossa oração, na nossa comunhão.

Ai as dores de crescimento!
Estou a ver os meus filhos a barafustarem quando mais pequenos começaram a comer a sopa com "coisinhas" como eles diziam, ou seja, com bocados de batata ou legumes...
Não queriam a sopa assim! Queriam-na sempre moída, mais fácil de comer, sem dar trabalho!

E nós também somos assim!
Antes a oração fluía, a alegria era constante, tudo era fácil e nós nem conseguíamos descortinar as coisas más, pois passavam-nos ao lado.
Mas agora, Santo Deus, parece que o mal nos entra pelos olhos adentro, parece que envolve a nossa vida, e temos dores e dificuldades e não conseguimos rezar, não queremos comer a sopa com "coisinhas"...

Mas Ele sabe que nós precisamos desse crescimento, para nos fortalecermos, para podermos enfrentar todas as dificuldades, contrariedades, provações que vão chegando conforme o mundo se torna mais egoísta e a nossa idade vai avançando e tornando mais penoso o nosso viver.

A Fé está lá, mas parece não querer dar sinais de vida, parece que o alimento que lhe damos não chega...
É o tempo de lutar, lutar contra nós próprios, lutar contar tudo aquilo que dentro de nós grita: Desiste, não vale a pena!
Lutar sempre! Se não consigo rezar o terço, digo apenas: Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim pecador!
E repito e volto a repetir sempre em todo o momento porque Ele me ouve, e sente a minha angústia, porque Ele não deixa de me responder!
Lembramo-nos então daquilo que Ele nos dizia quando começámos nesta vida e percebemos que já nessa altura Ele nos avisava dos perigos que estavam para vir, das dificuldades que havíamos de viver...
E procuramos mais comunhão, mais entrega, com mais perseverança, na confiança e na esperança de que Ele nos está a provar, porque nos ama com amor infinito e nos quer preparar para o que há-de vir: «Vigiai, pois, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor. Ficai sabendo isto: Se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão, estaria vigilante e não deixaria arrombar a casa.» Mt 24, 42-43

E então louvamos!
Louvamos por estas dificuldades, por estas provações e acabamos por não as entender como um mal, mas sim como um bem que nos ajuda a crescer.
E Ele responde-nos e exorta-nos à luta constante, exorta-nos a darmos testemunho dessa luta para que aqueles que a estão a viver saibam e percebam que é na perseverança, na comunhão de oração que Ele responde, mesmo que pareça escondido de nós...

Então passada a luta, (quanto tempo demorará?), Ele vem, toma-nos ao Seu colo e diz-nos cheio de amor: Descansa agora nos meus braços de eternidade e goza o louvor e a alegria para sempre!


Monte Real, 4 de Fevereiro de 2008
.
.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

"DEUS RI"

.
.




Acabei recentemente de ler o livro com o título deste texto: “Deus Ri”.

Quem me conhece, sabe que fui sempre um “arauto” do testemunho de alegria que deve estar sempre presente na vida de um cristão.

Não a alegria da gargalhada fácil, ruidosa e tantas vezes desproporcionada, mas a alegria calma, do humor construtivo, da paz vivida.

Não advogo que o cristão não tem tristezas, amarguras, fraquezas, momentos de dor, e que tendo-os, não os deve viver.
Obviamente que a vida é também composta desses momentos, e, como tal, devem ser sentidos e vividos.
Seria totalmente despropositado, (para não dizer mais), que um cristão chegasse a um funeral* de um amigo que vela alguém querido, e a rir o tentasse fazer rir também!

Não, o que distingue a alegria vivida pelo cristão, é a paz, a tranquilidade, a confiança e a esperança, que ele vive para além dos momentos bons e menos bons da sua vida, porque vive em comunhão com o Deus sempre presente.

Escreve o Papa Bento XVI, no primeiro volume do seu livro “Jesus de Nazaré”:
«As Bem-aventuranças são promessas, em que resplandece a nova imagem do mundo e do homem que Jesus inaugura, a «inversão dos valores». São promessas escatológicas; mas esta expressão não deve ser entendida como se a alegria que anunciam se encontre transferida para um futuro infinitamente distante ou exclusivamente para o além. Quando o homem começa a olhar e a viver a partir de Deus, quando caminha em companhia de Jesus, passa a viver segundo novos critérios e então um pouco de escathon, daquilo que há-de vir, está presente já agora. A partir de Jesus, entra a alegria na tribulação.»

Reflicto muitas vezes no que devem pensar aquelas pessoas que só vão à Missa em determinadas ocasiões, (como casamentos e funerais), quando na altura da Comunhão vêem os cristãos aproximar-se para comungar com um ar compungido, prostrado, a “mostrar” quase uma tristeza, e, até mesmo, quando regressam ao lugar de cabeça baixa, como se a comunhão que acabaram de fazer lhes pesasse demasiado “nos ombros”.

Pode haver algum exagero naquilo que escrevo, mas reparem se a minha descrição não corresponde um pouco à verdade dos factos.
É que me parece que nós confundimos muitas vezes seriedade e dignidade, com tristeza e prostração.

E isso conduz-nos a outro ponto, quanto a mim muito bem focado neste livro, e que é o humor são e construtivo, que também nos serve de caminho de conversão, quando o mesmo até nos leva a rirmo-nos de nós próprios, das nossas importâncias, das nossas vaidades, colocando-nos assim na procura de uma maior humildade em todo o nosso proceder.
«Ele é que deve crescer, e eu diminuir.» Jo 3,30

Nada mais revelo pois a leitura do livro perderia o interesse da descoberta desta alegria, deste humor, em que o autor nos envolve, e torna difícil parar de ler, uma vez aberta a primeira página.

Apenas mais duas palavras, para afirmar que para mim, para além de tantas passagens bíblicas que me levam ao encontro da alegria, as duas que cito abaixo, enformam decididamente esta minha vontade de sempre testemunhar a alegria de viver em comunhão com o “Deus connosco”.

«Mas não se perderá um só cabelo da vossa cabeça.» Lc 21, 18

«Manifestei-vos estas coisas, para que esteja em vós a minha alegria, e a vossa alegria seja completa.» Jo 15,11



Monte Real, 3 de Agosto de 2012


*Uma pequena nota sobre este aspecto dos funerais.
Às vezes, quanto a mim, julgamos haver necessidade de proferir palavras para aqueles que sofrem a morte de alguém que lhes é querido, acabando por dizer frases rotineiras, e que muitas vezes até, provocam momentos de incómodo àqueles que nesse momento não estão preparados para as ouvir. Porque não, então, um simples beijo mais sentido, um abraço mais chegado, um aperto de mão mais apertado, ou até uma festa, uma carícia, (conforme o grau de amizade), que sem palavras, acabam por significar tudo o que queremos dizer.
.
.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

O TRABALHO E AS FÉRIAS

.
.




Depois de umas curtas férias, regressei hoje ao trabalho.

A meio da manhã dei por mim a pensar como é “banal” este regresso ao trabalho depois de umas férias, como se fosse uma coisa normal, uma coisa a que não se dá grande importância, porque faz parte do dia-a-dia de cada um.

Pois, … mas o problema é que logo pensei que afinal não faz parte do dia-a-dia de cada um!

Afinal há muitos “uns” que não regressam ao trabalho por duas razões muito simples: porque não têm trabalho e porque não têm férias!

Mas nós, os que beneficiamos destas duas coisas, trabalho e férias, nem sequer nos apercebemos do bem que temos, da graça que usufruímos.
Parece-nos assim como algo que vem com a vida, que é um direito adquirido, que não nos pode ser retirado ou excluído.

Parece algo que nos pertence por mérito nosso!
Mas então entre aqueles que não têm trabalho não há gente como muito mais mérito do que nós?
E no entanto… não têm trabalho, não têm férias!

Não nos diz São Paulo que em tudo devemos dar graças?
«Em tudo dai graças» 1 Ts 5, 18

Então demos graças pelo trabalho que temos, pelas férias, (grandes ou pequenas), que gozamos, pelo dom da vida que Deus nos deu.

Mas essas graças nunca ficarão completas, se não nos lembrarmos dos nossos irmãos que não têm trabalho, nem férias, e por isso, com o mesmo empenho com que agradecemos, intercedamos por aqueles que sofrem, porque não têm trabalho, porque não têm férias.

Senhor,
dou-Te graças pelo trabalho que colocas nas minhas mãos e pelas férias que me permitiste ter.
Mas custa-me, Senhor, que tantas irmãs e tantos irmãos, teus filhos, não tenham trabalho, não tenham férias.
Por eles Te peço, Senhor, para que na tua infinita bondade lhes concedas a dignidade do trabalho, que lhes permita umas merecidas férias.
Peço-Te, Senhor, por aqueles que estão à frente dos destinos das nações e das empresas, para que tenham o necessário discernimento, entendendo que sem trabalho o homem não se realiza, não se completa.
Que aqueles que muito ganham, se preocupem em ganhar menos, para que chegue o trabalho e o justo salário àqueles que nada têm.
E que nós, que usufruímos desses “bens”, saibamos sempre dar graças e interceder constantemente por aqueles que deles não beneficiam.
Amen.
.
.

domingo, 22 de julho de 2012

APRESENTAÇÃO DO LIVRO "ORANDO EM VERSO"

.
.
Apresentação do livro «Orando em Verso», na Capela das Termas de Monte Real, em 7 de Julho.

Palavras do Padre José Carlos Nunes, Superior dos Paulistas em Portugal

.



Saúdo os presentes com grande amizade e estima.

Manifesto a honra e alegria em ter publicado e apresentar esta obra em Monte Real, lugar que me é tão querido.

Sobre o autor deste belíssimo livro tenho apenas a sublinhar o que foi escrito na Introdução, pelo Pe. Armindo Castelão Ferreira (Pároco da Marinha Grande) e no Prefácio, pelo Dr. Mário Pinto (Professor Universitário Jubilado): «todos os escritos que conheço dele são um hino de louvor e ação de graças ao Senhor», «A poesia de Mexia Alves chama-nos para o dizer e o gozar abertos e peregrinos da Beleza e do Bem infinitos que estão no Outro», «Joaquim Mexia Alves tem uma vocação forte, como forte são nele a natureza e o carácter: na estatura, na voz, no gesto, na actividade, no destemor, na exuberância», « a oração do Joaquim Mexia Alves ganha beleza poética formal a partir da beleza da substância da oração que está dentro».

O homem reza desde que o mundo é mundo, e algumas orações foram transmitidas de uma língua para outra e de uma época cultural para outra.

Se é verdade que deve haver momentos em que nos dediquemos completamente à oração, também é verdade que nenhum momento da nossa vida se pode considerar desligado da oração. Se estamos habituados a rezar para que nos corra bem um exame ou para que tenhamos saúde, não sentimos necessidade de rezar quando não temos nenhuma necessidade importante. Mas afinal o agradecer não é também uma necessidade? E cada instante da nossa vida não é um tempo propício para agradecer? Se nos consideramos como o centro de tudo, achamos que os outros é que nos devem agradecer. Mas se sentimos que fazemos parte da família humana, se somos bons companheiros de viagem para os outros, e se os outros o são para nós; se temos alguma sensibilidade e conseguimos ver o bem que nos rodeia, então é fácil interpretarmos a ordem que nos impele a rezar sempre e a irmos para além da vida que estamos a viver sobre a terra, e a dilatar a nossa oração, transformando-a numa atitude de agradecimento por nós e por quem nos rodeia.
Pág. 13 – “Rezar”

A Bíblia é o principal ponto de referência para toda a forma de oração cristã. Ela explica-nos porque razão devemos rezar, quando devemos rezar, como rezar, a quem rezar, não através de indicações teóricas, mas seguindo a experiência de homens e de mulheres que, tendo encontrado Deus na sua vida, passaram momentos com Ele.
Pág. 55 – “Salmo de louvor ao meu Senhor”

Na Bíblia encontramos facilmente grandes exemplos de oração, e nomes de grandes “orantes”: Abraão, Moisés, Jeremias, Job… O Livro dos Salmos pode definir-se todo ele como uma rica e variada recolha de orações, capaz de exprimir todas as situações em que o orante se possa vir a encontrar. E o Joaquim Mexia Alves segue esta linha.
Pág. 44 – “Tenho o coração nas mãos”

No Novo Testamento encontramos sobretudo as atitudes e as orações de Jesus, Filho de Deus e mediador privilegiado de toda a relação entre nós e o Pai Celeste. Se é verdade que do nosso modo de rezar se pode compreender o que pensamos de Deus, e qual a imagem que temos de Deus, quando nos aproximamos de Jesus e da Sua oração aprendemos o caminho para uma oração completa e gratificante.

Jesus rezava. Ele pertencia a um povo que sabia rezar, o povo que criou o Livro dos Salmos e encontrou na prática de oração de Israel a norma que modelou a própria fé. A oração de Jesus é uma oração muito pessoal, na qual Ele Se dirige a Deus chamando-Lhe «Papá», com a intimidade e confiança contida no termo aramaico Abba e, o Pai responde entrando em diálogo com Ele: «Tu és o Meu Filho, Eu hoje Te gerei».

Foi a partir da Sua experiência de oração que Jesus ensinou os Seus discípulos a rezar, e fê-lo através de uma interpretação autorizada do ensino relativo à oração contido na Escritura e na Tradição por Ele recebida. É, portanto, essencial para a oração autêntica acolher os conselhos para a oração dados por Jesus aos discípulos e escutados por estes, conservados, transmitidos às comunidades cristãs, e por isso vividos pelos crentes até serem depositados como Escritura nos Evangelhos. Estas indicações são ainda hoje as linhas espirituais e pastorais necessárias à oração cristã. Jesus resumiu o Seu ensinamento na oração do «Pai Nosso», definido com razão «compêndio de todo o Evangelho» (Tertuliano, A oração, 1,6). Na verdade, o Pai Nosso – que nos foi transmitido em duas versões por Mt 6,9-13 e Lc 11,2-4 –, mais do que uma fórmula rígida, constitui uma síntese das indicações de Jesus espalhadas como sementes nos quatro evangelhos: é um traçado, uma matriz, um cânone capaz de recapitular o essencial da oração cristã. Pág. 64 – “Pai Nosso, no Filho”

«Fizestes-nos para Vós, Senhor, e o nosso coração não descansa enquanto não descansar em Vós.» (Confissões, I,1,1) Esta afirmação de Santo Agostinho, tão célebre e repetida de geração em geração, pode resumir bem o fundamento colocado à oração cristã pela época dos grandes Padres até aos nossos dias. Nesta perspectiva, a oração exprime o desejo do bem supremo que habita o homem, e é entendida como movimento do coração em direcção ao infinito, ao eterno, ao absoluto.

A oração cristã é, em primeiro lugar, escuta para chegar ao acolhimento de uma presença, a presença de Deus Pai, Filho e Espírito Santo. A operação é simples, mas nem por isso é fácil; pelo contrário requer a capacidade de silêncio interior e exterior, sobriedade, luta contra os múltiplos ídolos que nos ameaçam.

A oração brota onde há escuta: «Fala, Senhor, que o Teu servo escuta» (1Sm 3,9): é este o primeiro acto da oração que nós, infelizmente, somos tentados constantemente a inverter para «Ouve, Senhor, que o Teu servo fala.» Sim, a escuta é oração e tem primazia absoluta, enquanto reconhece a iniciativa de Deus, o facto de que Deus é o sujeito do nosso encontro com Ele: não é passividade, mas resposta activa, acção por excelência da criatura perante o Seu Criador e Senhor.
Pág. 103 – “Advento”

«A oração não é apenas o respiro da alma mas, para usar uma imagem, é também o oásis de paz no qual podemos ir buscar a água que alimenta a nossa vida espiritual e transforma a nossa existência. E Deus atrai-se a Si, faz-nos subir ao monte da santidade, para estarmos cada vez mais próximos dele, oferecendo-nos luz e conforto ao longo do caminho.» (Bento XVI, Audiência Geral, 13.06.2012)

«Quando rezamos, abre-se o nosso coração, entramos em comunhão não só com Deus, mas precisamente com todos os filhos de Deus, porque somos um só. E quando nos dirigimos ao Pai no nosso ambiente interior, no silêncio e no recolhimento, nunca estamos sós. Quem fala com Deus não está sozinho. Estamos na grande oração da Igreja, fazemos parte de uma grandiosa sinfonia que a comunidade cristã espalhada por todas as partes da terra e em todas as épocas eleva a Deus; sem dúvida, os músicos e os instrumentos são diferentes — e este é um elemento de riqueza — mas a melodia de louvor é uma só e está em harmonia. Então, cada vez que clamamos e dizemos: «Abbá! Pai!», é a Igreja, toda a comunhão dos homens em oração, que sustém a nossa invocação, e a nossa invocação é a invocação da Igreja.» (Bento XVI, Audiência Geral, 23.05.2012)

«Na oração nós experimentamos, mais do que noutras dimensões da existência, a nossa debilidade, a nossa pobreza e o facto de sermos criaturas, porque somos colocados diante da omnipotência e da transcendência de Deus. E quanto mais progredimos na escuta e no diálogo com Deus, para que a oração se torne o suspiro quotidiano da nossa alma, tanto mais compreendemos também o sentido do nosso limite, não apenas diante das situações concretas de cada dia, mas inclusive na própria relação com o Senhor. Então, aumenta em nós a necessidade de nos confiarmos, de nos entregarmos cada vez mais a Ele; compreendemos que «não sabemos... rezar como convém» (Rm 8, 26). E é o Espírito Santo que ajuda a nossa incapacidade, ilumina a nossa mente e aquece o nosso coração, orientando o nosso dirigir-nos a Deus.» 



«A oração do fiel abre-se também às dimensões da humanidade e de toda a criação, assumindo a «criação, que aguarda ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus» (Rm 8, 19). Isto significa que a oração, sustentada pelo Espírito de Cristo que fala no íntimo de nós mesmos, jamais permanece fechada em si própria, nunca é uma oração apenas para mim, mas abre-se à partilha dos sofrimentos do nosso tempo, dos outros. Torna-se intercessão pelo próximo, e deste modo libertação de mim mesmo, canal de esperança para toda a criação, expressão daquele amor de Deus, que é derramado nos nossos corações através do Espírito que nos foi comunicado (cf. Rm 5, 5). E precisamente este é um sinal de uma oração verdadeira, que não termina em nós mesmos, mas abre-se aos outros e assim liberta-me, e deste modo contribui para a redenção do mundo.» (Bento XVI, Audiência Geral, 16.05.2012)
Pág. 137 – “Entraste na minha vida”

Obrigado Joaquim Mexia Alves por esta partilha e boa leitura a todos!
.
.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

É TÃO BOM AQUI NO CÉU!

.
.



Éramos nove irmãos!

Realmente ainda o somos, porque mesmo aqueles que partiram para o Pai, estão connosco como presença real e verdadeira de Cristo, a Quem eles seguiram nas suas vidas, inteiramente.

Estão connosco também nas recordações de uma ligação indestrutível, cimentada pelo amor dos nossos pais, que se faz sempre mais forte do que as eventuais divergências e desentendimentos, normais entre pessoas de personalidades fortes, como todos sabemos ser.

Todos gostávamos e gostamos da vida, mas a Mena, de todos nós, era aquela que exaltava a vida, com uma força e uma vontade de viver, que nunca vi em mais ninguém.

Lembro-me desde pequeno de a ver e ouvir afirmar, com uma convicção imensa, recheada de um sorriso, que nunca haveria de morrer.

E a gente dizia-lhe: mas ó Mena todos temos de morrer!
Mas ela respondia invariavelmente: pois está bem, mas eu não! Eu nunca vou morrer!

Tive sempre a sensação que ela dizia isto muito mais porque amava profundamente a vida, do que propriamente por algum “medo” de morrer.

Lamentava-se disto ou daquilo, como qualquer um de nós, mas esses lamentos acabavam normalmente com uma graça qualquer e com um sorriso, ou mesmo uma gargalhada cheia de alegria.

Tantas histórias que eu poderia contar da Mena que, sei bem, fariam rir todos os que me lessem à conta do seu humor e da sua alegria, mas guardo-as, (desculpem os meus eventuais leitores), para as desfrutarmos em família.

A Mena amava a vida, dizia que não iria morrer, e agora descobriu finalmente o porquê desse amor exaltante à vida.

É porque a descobriu agora, naqu’Ele que é a vida, e sabe que agora, verdadeiramente, nunca mais morrerá, mas sim viverá a vida como sempre a quis viver: na alegria, na paz, no amor e para sempre!

E eu vejo o seu enorme sorriso, junto àqueles que a esperavam, e ouço a sua voz a dizer: Ai Joaquim, é tão bom aqui no Céu!


Monte Real, 19 de Julho de 2012
.
. 

quarta-feira, 18 de julho de 2012

COMO SE PARTE ... FICANDO?

.
.





Como se parte,
ficando?

Há um tempo,
que se vive agora,
mas é curto,
muito mais curto,
que o tempo de cada vida.

Quem parte definitivamente,
não parte,
nem vai embora.

Apenas acaba o tempo
o tempo curto da vida
porque o tempo mais longo
e eterno,
só começa quando se parte.

Parte-se então,
mas ficando,
numa presença constante,
presença naqu’Ele que vive
na vida que foi levando.

É coisa de coração,
não se pensa,
não se vê,
apenas se sente,
e vive,
na vida que foi ficando,
naqu’Ele que se faz presente.

Como se parte,
ficando?

Basta viver a vida,
naqu’Ele que tudo é,
porque em partindo
se fica,
vivo e presente
na Fé.


Marinha Grande, 17 de Julho de 2012


Para a minha querida irmã Mena, que hoje partiu ... ficando!
.
. 

terça-feira, 10 de julho de 2012

«NÃO É ELE O CARPINTEIRO…?»

.
.




Ao ler e ouvir este versículo do Evangelho de Domingo, não pude deixar de estabelecer um paralelo com frases que tantas vezes pronunciamos no nosso dia-a-dia, quando alguém nos chama a atenção para as nossas falhas, os nossos erros, as nossa fraquezas, as nossas atitudes.

“Quem é ele para me dar lições?”
“Era o que mais faltava, não aceito lições de qualquer um!”
“Mas quem é que ele se julga para me dar conselhos?”
“Essa é boa, então o sujeito é um zé-ninguém, e vem para aqui dar conselhos?”
“Coitado, não tem instrução e julga que sabe da vida!”

E podia repetir dezenas de frases idênticas, que eu já pensei ou pronunciei em tantas ocasiões, em que alguém me chamou a atenção para algum erro ou falha minha.

E porquê?
Porque verdadeiramente aqueles a quem dirigi tais frases, em pensamento ou vocalmente, não poderiam fazer-me tais reparos ou dar tais conselhos, ou porque o meu orgulho me impedia de os ouvir e me incomodava seriamente o que me estavam a dizer, por ser real e verdadeiro e exigir de mim uma mudança de atitude?

Seriamente, tenho que reconhecer que na esmagadora maioria das vezes em que tal aconteceu, os outros tinham razão em chamar-me a atenção e dar-me conselhos, para eu questionar as minhas atitudes e formas de proceder.

Mas se eu acredito que Deus está em mim e está no meu próximo, e se acredito que se Ele se serve de mim para dar testemunho, então tenho que acreditar que também se serve dos outros em relação a mim.

Eu acredito, sem dúvidas, que Deus me/nos fala de muitos modos, e que um deles é através dos nossos irmãos, sejam eles sacerdotes, ou leigos como eu.

E acredito também que, não fazendo Deus acepção de pessoas, se serve de todos, desde os mais simples aos mais instruídos, para nos fazer chegar a sua Palavra, a sua mensagem, a sua exortação.

Não eram os primeiros Apóstolos simples pescadores?
Não nos admiramos nós, por exemplo, com a sabedoria de vida dos mais velhos em tantas coisas, (como por exemplo a agricultura), e afinal muitos deles não têm nenhum “curso superior”, ou “instrução elevada”?

Quando não queremos ouvir, nem aceitar o que os outros nos dizem sobre os nossos comportamentos, (que interiormente sabemos estarem errados), não estamos a fazer mais do que estes de que nos fala o Evangelho:

Os numerosos ouvintes enchiam-se de espanto e diziam: «De onde é que isto lhe vem e que sabedoria é esta que lhe foi dada? Como se operam tão grandes milagres por suas mãos? Não é Ele o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E as suas irmãs não estão aqui entre nós?» E isto parecia-lhes escandaloso. Mc 6, 2-3
.
.

terça-feira, 3 de julho de 2012

"ORANDO EM VERSO"

.
..




Uma nova Apresentação do meu livro “Orando em verso” .

A apresentação será feita pelo Padre José Carlos Nunes, Superior dos Paulistas em Portugal, depois da celebração da Santa Missa, às 11 horas e 30 minutos, na Capela das Termas de Monte Real, no dia 7 de Julho.

A receita da venda do livro reverte totalmente para a construção do Centro Pastoral da Marinha Grande, obra de importantíssima necessidade nessa paróquia.

Todos estão obviamente convidados.

Finda a apresentação autografarei os livros àqueles que assim o desejarem.
.
.
.
.
.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

CRISMA, UM INÍCIO DE FUTURO

.
.






Este Domingo, 1 de Julho, os jovens a quem tenho dado catequese nos últimos quatro anos, foram crismados.
Foi um dia de muita alegria, para eles e também, e muito, para mim.

No Sábado, dia de ensaio geral para a cerimónia, surpreenderam-me, (verdadeiramente), com um trabalho feito por eles, no qual, em redor de uma fotografia em grupo, impuseram as palmas das mãos, escrevendo os seus nomes no interior.
Ofereceram-me ainda uma caneta, gravada com “Catequizandos 2008/2012”.

No quadro acima referido, escreveram:
«Joaquim. Ao longo destes 4 anos foste amigo, conselheiro, “pai” e catequista.
Ensinaste-nos a viver de outra forma, com a partilha de experiências, conhecimentos e emoções.
Contigo crescemos na Fé.
Obrigada por tudo! Ficarás para sempre no nosso coração.»

Poderão, os que me lerem, perceber o meu orgulho!
Poderão talvez perceber, sobretudo, o meu orgulho nestes jovens e, talvez mais do que isso, o amor que lhes tenho.
Escolhi a palavra amor, porque é mesmo amor que lhes tenho, como uma pertença deles a mim e eu a eles.

Talvez devesse sentir-me pelo menos um pouco realizado nesta missão que Deus quis colocar nas minhas mãos.
Mas não, não sinto essa “realização”!
Sinto sim que acabou uma etapa, mas reconheço que começa agora outra, bem mais difícil, bem mais exigente, que é conseguir levar por diante o grupo de oração e partilha, que lhes propus e que eles me disseram querer aceitar.

Mas é agora este caminho, que já não almeja uma meta prevista no tempo, (como o Crisma, por exemplo), que exige deles e de mim novas vivências, novos saltos na fé, novas dúvidas e desânimos, e sobretudo, muita tenacidade e fortaleza.

Mas dou graças a Deus porque não estaremos sozinhos, porque não caminharemos sozinhos, porque o Espírito Santo agora derramado, se faz presente em cada sua/nossa oração, em cada sua/nossa alegria, em cada sua/nossa vitória, e também, em cada seu/nosso tropeçar, em cada seu/nosso fraquejar, em cada seu/nosso duvidar, para nos levantar, para nos dar forças, para nos dar o discernimento da e na Fé.

O Espírito Santo fará com que cada oração, cada vitória, cada alegria, seja de todos, e vivida por todos, e assistirá a todos, no tropeçar, no fraquejar, no duvidar, que será de todos e não apenas de um.

Muitos dirão que estou a sonhar!
Mas eu respondo que não, não estou a sonhar!
Estou a acreditar que se abrirmos decididamente as portas dos nossos corações a Deus, em comunhão de oração e partilha, (seja qual for a vida que cada um vai viver no futuro), poderemos ultrapassar as dificuldades, as armadilhas do mundo, e encontrarmos já nele, a alegria da presença de Deus em nós e connosco.

Apetece-me gritar como João Paulo II, para eles e para mim: «Não tenhais medo!»


Marinha Grande, 2 de Julho de 2012
.
.