quarta-feira, 13 de novembro de 2013

CAMINHO DE CRESCIMENTO

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Alguém amigo, comentava há uns dias comigo que não percebia porque é que no inicio da caminhada de fé, a oração era fácil, a alegria era sempre presente, as consolações eram muitas, o mundo, a vida, tudo lhe parecia tudo bom, e agora, passado um tempo, tornava-se difícil a oração, muitas vezes a tristeza atacava, em tantas coisas se deparava com o mal.
Às vezes quase apetecia desistir, porque a luta era muita, e se deixasse a vida prosseguir sem se preocupar com a comunhão com Deus e com os outros, tudo seria muito mais fácil.
Não entendia porque é que por causa de tudo isto, às vezes até se revoltava “contra” Deus!
 
Ao tentar responder a estas inquietações, foi-me inspirada a seguinte resposta que aqui deixo para reflexão.
 
O caminho de Deus é uma aprendizagem, com tudo o que implica aprender, desde a consolação, ao desânimo, passando muitas vezes por uma falta de acreditar em nós próprios, nos outros e até em Deus.
 
Quando uma criança nasce, é rodeada de carinho, de ternura, e tudo o que ela faz é objecto de compreensão, até de alegria, (até mesmo coisas que parecem “más”), ou seja, quantas vezes as mães não se alegram porque o bebé sujou as fraldas, o que é sinal que tudo está bem...
Assim o bebé é só consolações, tudo o que faz é bem aceite e fonte de alegria, está totalmente protegido para que nada de mal lhe aconteça. Tudo quanto sejam agressões ao seu bem-estar são imediatamente afastadas porque a sua ligação/comunhão com os pais é total e permanente.
 
Mas depois começa a crescer e já se aventura a decidir algumas coisas por si só, sem atender àquilo que os pais lhe dizem, e começam as "dores", (porque mexeu no lume e se queimou), porque fez isto ou aquilo e lá chegam também as primeiras reprimendas.
Continua a crescer e cada vez mais acha que já sabe tudo, há até um momento em que se quer afastar dos pais, por achar que aquilo que lhe dizem não serve a sua vida.
Agora muitas vezes os erros são maiores e as suas consequências mais pesadas.
Por vezes sente um desejo enorme de se recolher nos braços dos pais, mas o orgulho e muitas vezes uma sensação de culpa, de vergonha, impede-o de o fazer, ou de ser inteiramente verdadeiro com eles, acatando aquilo que eles lhe dizem para o seu bem.
 
E a vida vai continuando e as coisas boas vão alternando com as menos boas e vai descobrindo que afinal as coisas que os pais lhe diziam eram coisas boas, e até as vai ensinando aos seus filhos.
À medida que se vai aproximando da idade mais avançada vai-se dando conta de que tem de confiar naqueles que o amam e assim vai-se deixando conduzir, ajudar, e vai redescobrindo as alegrias e consolos de esperar e confiar em alguém que o ama verdadeiramente e o ajuda a viver a sua vida.
 
Claro que esta descrição é a de uma vida em termos gerais, que acontece, mais parecida ou menos parecida, com muitas pessoas.
 
Com certeza já reparaste na similitude daquilo que te quero dizer.
 
Nesta vida voltada para Deus, ao princípio tudo são consolações, alegrias, descobertas, sentimo-nos protegidos, parece que nenhum mal nos pode acontecer e isso porque a nossa vida é então uma descoberta e é sobretudo uma oração constante, uma constante comunhão com Deus, na Eucaristia, na Confissão, na entrega, enfim, não queremos viver mais nada.
Em tudo O queremos encontrar, em tudo seguimos a Sua Palavra, o mal nada pode contra nós, e espantamo-nos como é possível que os outros não percebam esta maravilha, não queiram viver esta descoberta, esta vida cheia e plena.
Mas depois há que descer do Tabor!
 
É Ele mesmo que quer que comecemos a enfrentar a vida do dia a dia, que enfrentemos o mal que corre o mundo, e então começamos a reparar em tanta coisa má que acontece e questionamo-nos, perguntamos-Lhe até: Como é possível, porque deixas isto acontecer!!!
E Ele na Sua bondade infinita vai-nos mostrando às vezes dolorosamente que não interfere na nossa liberdade e por isso aquilo que fazemos sem pensarmos tem as suas consequências.
 
É o tempo de crescimento, de percebermos que temos também a nossa parte para fazer, a nossa vida a construir.
Então por vezes o nosso arrebatamento já não é tão intenso, o nosso acreditar tão real, e assim isso reflecte-se na nossa entrega, na nossa oração, na nossa comunhão.
 
Ai as dores de crescimento!
Estou a ver os meus filhos a barafustarem quando mais pequenos começaram a comer a sopa com "coisinhas" como eles diziam, ou seja, com bocados de batata ou legumes...
Não queriam a sopa assim! Queriam-na sempre moída, mais fácil de comer, sem dar trabalho!
 
E nós também somos assim!
Antes a oração fluía, a alegria era constante, tudo era fácil e nós nem conseguíamos descortinar as coisas más, pois passavam-nos ao lado.
Mas agora, Santo Deus, parece que o mal nos entra pelos olhos adentro, parece que envolve a nossa vida, e temos dores e dificuldades e não conseguimos rezar, não queremos comer a sopa com "coisinhas"...
 
Mas Ele sabe que nós precisamos desse crescimento, para nos fortalecermos, para podermos enfrentar todas as dificuldades, contrariedades, provações que vão chegando conforme o mundo se torna mais egoísta e a nossa idade vai avançando e tornando mais penoso o nosso viver.
 
A Fé está lá, mas parece não querer dar sinais de vida, parece que o alimento que lhe damos não chega...
É o tempo de lutar, lutar contra nós próprios, lutar contar tudo aquilo que dentro de nós grita: Desiste, não vale a pena!
Lutar sempre! Se não consigo rezar o terço, digo apenas: Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim pecador!
E repito e volto a repetir sempre em todo o momento porque Ele me ouve, e sente a minha angústia, porque Ele não deixa de me responder!
Lembramo-nos então daquilo que Ele nos dizia quando começámos nesta vida e percebemos que já nessa altura Ele nos avisava dos perigos que estavam para vir, das dificuldades que havíamos de viver...
 
E procuramos mais comunhão, mais entrega, com mais perseverança, na confiança e na esperança de que Ele nos está a provar, porque nos ama com amor infinito e nos quer preparar para o que há-de vir: «Vigiai, pois, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor. Ficai sabendo isto: Se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão, estaria vigilante e não deixaria arrombar a casa.» Mt 24, 42-43
 
E então louvamos!
Louvamos por estas dificuldades, por estas provações e acabamos por não as entender como um mal, mas sim como um bem que nos ajuda a crescer.
E Ele responde-nos e exorta-nos à luta constante, exorta-nos a darmos testemunho dessa luta para que aqueles que a estão a viver saibam e percebam que é na perseverança, na comunhão de oração que Ele responde, mesmo que pareça escondido de nós...
 
Então passada a luta, (quanto tempo demorará?), Ele vem, toma-nos ao Seu colo e diz-nos cheio de amor: Descansa agora nos meus braços de eternidade e goza o louvor e a alegria para sempre!
 
 
Monte Real, 4 de Fevereiro de 2008
 
 
Nota:
Por vezes "revisito" textos que escrevi e encontro neles o que precisava no momento. Este texto, hoje, deu-me o que precisava ... hoje.
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quinta-feira, 7 de novembro de 2013

DUAS PALAVRAS APENAS…

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Na Missa deste Domingo, (que incluiu a celebração do Sacramento da Confirmação na minha paróquia), chamaram-me a atenção duas pequenas palavras do Evangelho que conta o episódio do chamamento de Zaqueu, atenção essa reforçada durante a homília do nosso Bispo D. António Marto.
 
Costumo servir-me, no dia-a-dia, da Bíblia, dita dos Capuchinhos, que nesta passagem sobre Zaqueu, (Lc 19, 1-10), tem o seguinte versículo 3: «Procurava ver Jesus, e não podia…»
Ora as pequenas palavras que me chamaram a atenção na leitura do Evangelho e depois quando o nosso Bispo O citou novamente, foram: «quem era»
Recorri à “Bíblia de Jerusalém”, bem como à “Bíblia Anotada pela Faculdade de Teologia da Universidade de Navarra”, e lá estava o mesmo versículo, mas com a seguinte redacção: «Procurava ver quem era Jesus…»
 
E estas duas pequenas palavras fazem uma diferença extraordinária na percepção da conversão de Zaqueu.
 
Com efeito, Zaqueu não queria “apenas” ver Jesus!
O desejo, a vontade de Zaqueu ia mais longe, ou seja, ele não queria “apenas” ver, queria saber quem era Jesus, queria saber o que fazia daquele Homem um homem diferente dos outros, um homem que transformava as pessoas em que tocava, quer pela Sua Palavra, quer pelas suas acções, quer pelo seu toque pessoal.
 
Ora «quem procura, encontra», (Mt 7, 8), e assim Zaqueu ao procurar “ver quem era Jesus” é tocado, não só pela figura de Jesus, mas sobretudo por quem Jesus era/é, e esse encontro pessoal com Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, não o poderia deixar indiferente, e por isso mesmo a sua vida mudou, as suas prioridades mudaram, o seu modo de proceder mudou, deixou de ser apenas ele, para passar a ser ele e os outros como irmãos, e, claro, a conversão aconteceu.
 
Também hoje em dia há muitos que querem «ver Jesus», mas não querem «ver quem era/é Jesus»!
 
Querem ver uma figura “mediática”, um homem histórico, um homem diferente, um homem que marcou a humanidade, um homem “revolucionário”, um homem que “terá” feito uns milagres, mas não querem «ver quem era/é Jesus», verdadeiro Deus e verdadeiro Homem.
É que, se apenas queremos ver uma pessoa, vemo-la, e pronto, está vista, vamos adiante, assim "a modos" como ver uma “estrela” mediática do cinema ou do desporto.
Uma vez vista, fica “completo” o conhecimento, porque apenas saciámos os olhos, e por isso mesmo rapidamente esquecemos esse acontecimento.
Agora se queremos ver uma pessoa, porque ela nos chama a atenção para o que diz e o que faz, porque há outros que a acham interessante, com ideias interessantes, etc., então não a queremos só ver, mas também a queremos ouvir, também queremos saber o que pensa e como pensa, também queremos saber o que faz, como faz e porque faz, ou seja, queremos saber “quem é” essa pessoa, e muito provavelmente partilhar das suas ideias e imitá-la naquilo que ela tem de bom.
 
Então, se procuramos apenas «ver» Jesus Cristo, ficamos pelo Jesus histórico, pelo homem diferente, pelo homem que fazia coisas magníficas, etc., mas não vamos mais longe no conhecimento, e assim esse pouco conhecimento rapidamente se perde, e não tem qualquer efeito nas nossas vidas.
 
Mas se queremos, se desejamos, «ver quem era/é» Jesus Cristo, então já estamos predispostos a escutá-Lo, a entende-Lo, a segui-Lo, a imitá-Lo.
Então, como a Zaqueu, Ele toca-nos, transforma-nos, conduz-nos, não porque se introduziu como alguém que força a entrada, mas porque nós desejámos, porque nós quisemos, «ver quem era/é» Jesus Cristo.
 
Apenas duas palavras fazem uma diferença tão grande, sobretudo se essas palavras são Palavra de Deus, e por isso mesmo vão para além do seu entendimento meramente literal.
 
 
Marinha Grande, 7 de Novembro de 2013
Joaquim Mexia Alves
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segunda-feira, 4 de novembro de 2013

ORAÇÃO

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E continuas a “espantar-me”, Senhor!
 
Estava ali, na celebração do Crisma, e vi aqueles quatro jovens que colocaste nas minhas mãos no último ano para com eles fazer caminho para Ti, e não senti orgulho, não senti vaidade, senti apenas esse espanto de Te perguntar:
Mas Senhor, porque quiseste servir-Te de mim, pecador empedernido, de passado duvidoso, para falar a estes jovens. Que temeridade, Senhor!
 
E tudo somado ao Evangelho, (Zaqueu), levou-me a pensar ainda:
Mas, Senhor, eu ainda nem desci da “minha” árvore! Eu ainda só comecei a mudar de ramo, um pouco mais para baixo, é certo, na Tua direcção, mas ainda estou tão agarrado à “minha” árvore!
 
Pois, eu sei, o Teu amor, o Teu perdão, são infinitamente maiores do que o meu pecado, infinitamente maiores do que o meu passado, infinitamente maiores do que a minha fraqueza, e Tu gostas de Te servir dos pecadores!
 
Agora, Senhor, são Teus, como sempre foram, desde que lhes deste o dom da vida.
 
Que o Espírito Santo os ilumine, os fortaleça, os conduza, e eles se deixem iluminar, fortalecer e conduzir, para que saibam que o Teu amor é constante e mais forte do que todas as provações, do que todas as fraquezas, do que todos os momentos de desânimo, e que é em Ti, por Ti e conTigo que encontrarão a felicidade dos amados filhos de Deus.
 
 
 Marinha Grande, 3 de Novembro de 2013
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segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A COMUNHÃO DOS CASAIS EM “SITUAÇÕES ESPECIAIS”

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Depois dos vários textos sobre as “situações especiais” dos casais divorciados e “recasados”, cabe uma palavra de confiança, uma palavra de fé.
 
Não vamos analisar novamente os textos aqui publicados, mas vamos tentar “mostrar” caminho que os casais que vivem essas situações podem fazer, vivendo a Igreja, em Igreja, sendo Igreja.
 
Sabemos pela experiência, (e também por experiência própria), que uma, (ou talvez a maior), das dificuldades que se lhes apresentam, é o facto de não poderem comungar o Corpo e Sangue do Senhor, na hóstia consagrada.
É realmente um “peso” grande que vivem estes casais, e que compreensivelmente os incomoda e por vezes até revolta de algum modo.
Obviamente, falamos, dos casais nessas situações que querem viver a fé em Igreja e em comunhão de Igreja.
 
Poderíamos escrever sobre as diversas condições que a cada um se apresentam, (pois sabemos bem que cada caso é um caso), mas vamos apenas reflectir sobre a generalidade desta situação, que impede doutrinalmente a comunhão eucaristica aos casais nestas situações.
Não vamos também escrever sobre as razões de tal impedimento, até porque as mesmas já foram de alguma forma explicadas nos textos anteriormente publicados.
 
Ora se aos casais referidos é vedada a comunhão eucarística, não é de modo nenhum vedada a participação/celebração na Eucaristia, nem a sua participação construtiva e activa em Igreja e na Igreja.
Estes casais, ao participarem/celebrarem a Eucaristia, podem e devem, na altura da comunhão eucarística, fazer a sua comunhão espiritual.
E esta comunhão espiritual, bem vivida e participada, tem um valor intenso e os seus frutos são também visíveis na vida daqueles que a praticam.
 
A comunhão espiritual pressupõe, ou melhor deve conter, três elementos que lhe são essenciais:
 
1 – O desejo de se alimentar de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, que assim se quis dar ao homem como alimento divino.
Ao desejar a comunhão como alimento divino, aqueles que vivem esta forma de comunhão vivem um intenso acto de desejo de Deus, de Jesus Cristo.
E «quem procura, encontra»!
Não podemos nós adorar a Deus, mesmo sem estarmos frente ao sacrário ou numa igreja?
Não é fruto do nosso profundo desejo de Deus essa adoração?
E não acreditamos nós que Ele não deixa de nos ouvir, que Ele não deixa de nos acompanhar, que Ele não deixa de se unir a nós, se esse é o nosso profundo desejo em «espírito e verdade»?
 
2 – É uma vivência da fé, porque aqueles que vivem esta forma de comunhão acreditam profundamente que Jesus Cristo está presente na hóstia consagrada e como tal, crêem no Mistério maior da nossa fé.
Não O podem ver, mas Ele é-lhes mostrado com os “olhos” da fé, e portanto, torna-se presente naquele acto de profundo desejo de Deus, quase podendo afirmar que ainda somos mais atraídos por Ele e para Ele.
Não acreditamos nós que Jesus Cristo se faz realmente presente na consagração das espécies, na Eucaristia?
E no entanto não O tocamos, não O vemos, mas se n’Ele acreditamos, também com Ele vivemos e d’Ele nos alimentamos, ainda que seja espiritualmente.
 
3 – É assim também, porque O desejamos, porque n’Ele acreditamos, um acto de amor.
Um acto de amor não só ao nosso Deus, mas também um acto de amor aos nossos irmãos, porque neste desejo de Deus provocado pelo amor, vem sempre um desejo de amar os outros como Ele nos ama.
 
Reparemos que mesmo a anteceder a comunhão, todos dizemos a frase do centurião: «Senhor, eu não sou digno que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e eu serei salvo.»
O centurião acreditou, mesmo sem a presença física de Jesus junto do seu servo!
E diz-nos o Evangelho que Jesus Cristo ficou admirado com a fé daquele homem!
E diz-nos ainda que o servo ficou curado!
 
Os frutos da comunhão espiritual são por demais evidentes e ainda mais se nos lembrarmos que não há verdadeira comunhão eucarística se não houver ao mesmo tempo comunhão espiritual.
 
Mas há ainda um fruto da comunhão espiritual que gostaríamos de deixar para reflexão, e que é a obediência, o acto de obedecer à Doutrina que a Igreja nos ensina.
 
Obediência é hoje uma palavra mal vista, quase como um sinónimo de fraqueza, quando afinal a obediência é um extraordinário acto de humildade, de maturidade e de entrega.
E ainda mais, porque esta obediência em Igreja e na Igreja, é um profundo acto de amor a Deus e à Igreja que Ele mesmo quis instituir para nos guiar.
E o caminho da obediência torna-nos dóceis à vontade de Deus e à Doutrina da Igreja, e, sendo dóceis por amor, encontramos nessa docilidade obediente a alegria de nos sabermos filhos de Deus, membros da Igreja, testemunhas de Cristo, mesmo apesar das “situações especiais” que possamos viver.
E nesse testemunho de obediente alegria, ajudamos os outros que estejam na mesma situação a perceberem que o caminho que a Igreja nos propõe, é o caminho de Deus, rico de amor e misericórdia, que se faz presente naqueles e para aqueles que O procuram de todo o coração.
 
Sou testemunha na minha vida daquilo que aqui escrevi.
 
 
Marinha Grande, 16 de Outubro de 2013
Joaquim Mexia Alves
 
Nota:
Na sequência de vários documentos da Igreja, (sobre as situações especiais vividas por casais), publicadas no "Grãos de Areia", boletim da paróquia da Marinha Grande, foi publicado este meu texto no número do boletim saído este fim de semana.
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terça-feira, 22 de outubro de 2013

MINISTRO EXTRAORDINÁRIO DA COMUNHÃO

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Neste Domingo dia 20, na Paróquia da Marinha Grande, foi confirmada na Eucaristia das 19.00, pelo Ritual próprio, a minha nomeação como Ministro Extraordinário da Comunhão.
 
E o que senti eu nesses momentos?
Não sei muito bem como definir o que senti e como senti, essa graça a que o Senhor me chamou.
 
Confesso que tive muitas dúvidas sobre a “minha” Fé que afirmo professar, sobre a constância da minha entrega, sobre a minha conversão contínua, sobre tudo aquilo que sou e sinto, enfim, resumindo, sobre a minha falta de dignidade para assumir tal serviço em Igreja.
Obviamente que dignidade nunca a terei, (sou pecador), por isso só Ele ma pode conceder nos momentos em que se quiser servir de mim.
Mas existiam também em mim as dúvidas, os “medos”, de aceitar tal nomeação, conhecendo eu o meu orgulho, a minha, por vezes, ânsia de protagonismo.
Mas na Confissão e conversa tida com o meu Pároco, pouco antes da Eucaristia, de uma “penada”, ele afastou de mim tais dúvidas e receios.
Perguntou-me se eu me tinha proposto, se eu tinha querido, se eu tinha feito algo para ser nomeado, e perante a minha resposta negativa, apenas me disse qualquer coisa como: «aceita porque a vontade não é tua.»
 
O que senti então naqueles momentos em que pela primeira vez foi colocada nas minhas a píxide contendo as hóstias consagradas, contendo realmente o Corpo e Sangue de Jesus Cristo?
 
Senti-me um nada útil, ou usando as palavras do próprio Cristo, um servo inútil!
Por uma imensa graça, (como é que Ele faz estas coisas?), pela primeira vez na minha vida senti-me o mais pequeno entre todos, e juro que se pudessem ver o meu coração, acredito que veriam o amor a verter-se sobre todos, não o meu pobre amor, mas o amor que Ele, o Senhor do Amor, colocava em mim.
As minhas mãos, tantas vezes trémulas, estavam firmes apesar do tremor, e parecia-me ouvir em cada momento a minha voz forte, mas sobretudo convicta, a afirmar: «O Corpo de Cristo!»
Não era eu que ali estava, mas o Joaquim que só Ele conhece e ao qual nem eu tenho acesso quando quero, mas apenas quando Ele quer.
 
No fim vieram dar-me os parabéns algumas pessoas amigas e outra vez me admirei.
Eu tão orgulhoso, eu que me julgo tantas vezes mais do que os outros, eu que me acho em tantos momentos mais importante do que os outros, senti-me uma criança “apanhada” num acto de ternura e ia jurar que até corei.
 
Que caminho, meu Deus, que caminho me fazes percorrer!
Desde o afastamento total de Ti e da Igreja, até à dependência total e voluntária de Ti, em Igreja!
 
“Apenas” Te posso dizer, com o coração repleto de amor: Glória a Ti, Senhor, glória a Ti!
 
 
 
Marinha Grande, 22 de Outubro de 2013
Joaquim Mexia Alves
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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

CONTINUAÇÃO DA PARÁBOLA DO FARISEU E DO PUBLICANO

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Quando o fariseu terminou a sua oração, meteu a mão no bolso e com aparato tirou uma moeda de ouro que deixou cair com barulho, na caixa das esmolas.
Voltou-se para sair do templo e reparou que o publicano de cabeça baixa mexia num saco de pano, de onde tirou uma pequena moeda, que com delicadeza depositou na caixa das esmolas.
 
O Fariseu saiu então do templo e ficou a aguardar o publicano.
 
Quando este saiu, humilde e contrito, o Fariseu perguntou-lhe com um ar importante:
- Quanto deste, ali no templo?
O publicano com a cabeça baixa, respondeu:
- Dei tudo quanto aqui tinha. Tudo o que tenho me veio do Senhor e Ele nunca me falta com o indispensável à minha vida.
Levantando a cabeça, fitou o Fariseu com uns olhos límpidos e calmos, com um sorriso alegre e tranquilo, e dizendo-lhe:
- A paz do Senhor esteja contigo! afastou-se, caminhando.
 
Reparou o fariseu na paz e tranquilidade que emanava daquele homem, no amor com que lhe tinha falado e sobretudo na leveza do andar, parecendo que quase não tocava o chão.
No entanto não se deixou comover e pensando para si próprio, disse em voz alta:
- Coitado, pobre homem inculto. Não sabe que eu como sou, praticando a lei rigorosamente, tenho sempre a paz do Senhor comigo.
 
Começou então a andar no caminho para sua casa, cabeça erguida, nunca dando atenção àqueles que na rua pediam, que o cumprimentavam, que lhe sorriam.
Mas o episódio passado não o deixava sossegado. Que possuía aquele pobre homem, (que ele considerava tão mal), que ele próprio não tinha!
Nunca na sua vida, pensou, tinha conseguido ter tal olhar, tal sorriso ou apresentar aquela paz, aquela tranquilidade, aquele amor.
Parou e sentou-se à beira do caminho com a cabeça entre as mãos, pensando em tudo o que tinha visto e sentido.
 
De repente, tocaram-lhe no ombro e ao levantar os olhos, deparou com o publicano que com uma voz doce lhe perguntava:
- Sente-se mal, precisa de ajuda, posso fazer alguma coisa por si?
Mal refeito da surpresa, (e por tanto amor vindo de quem tinha tratado tão mal), deu por si a agradecer e a dizer que não, não precisava de nada, pois entretanto, tinha tido resposta à sua inquietação.
Levantou-se e começou a caminhar em direcção ao templo.
 
A um pobre homem quase sem roupa, deixou a sua túnica, a outro que tinha fome, deixou as moedas que levava, a um que estava descalço, deixou as suas sandálias, a uma mãe com filhos famintos, como não tinha mais nada com ele, deixou os seus anéis e colares.
À porta do templo, parou e não entrou. Ajoelhou-se, baixou a cabeça e disse:
- Perdoa-me, meu Deus, que nada sou. Não sou nem digno de entrar no Teu templo, como o publicano, porque sou muito maior pecador. Acredito na Tua misericórdia e sei que me perdoas, por isso Te peço que me ajudes a mudar de vida, pois também eu reconheço agora, que tudo o que tenho, me vem de Ti e a Ti pertence e que mo deste não só para mim, mas também para ajudar os que precisam. A Ti, Senhor, confio a minha vida, pois sei que com nada me faltarás.
 
Levantou-se e sentiu imediatamente que o seu olhar era diferente, mais limpo, percebeu que tinha um sorriso alegre na cara e deixou-se envolver por uma paz e tranquilidade, que nunca tinha sentido.
Louvando a Deus, regressou a casa, espalhando alegria e paz pelo caminho e ao chegar, deu a Boa Nova a todos os seus.
 
No Céu a alegria era imensa e o Bom Pai, nosso Deus, acompanhado do sorriso alegre do Espírito Santo, disse a Jesus Salvador:
- Foi boa ideia, Meu Filho, teres-te feito passar por publicano. Já salvaste mais um homem.
 
Nota:
Escrito em 7 de Março de 2000
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