terça-feira, 29 de janeiro de 2013

NOVO ANO, NOVAS PROMESSAS?

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Aproveita-se muitas vezes o fim de um ano e o começo de outro, para, fazendo uma espécie de exame de consciência, se reflectir sobre o que fizemos mal e precisamos, portanto, mudar no ano que vai começar.
 
Nós, cristãos católicos, a essa mudança “provocada” por um exame de consciência, iluminada pelo Espírito Santo, chamamos caminho de conversão.
 
Ao reflectirmos sobre esse caminho de conversão podemos deter-nos em duas passagens da Bíblia, que nos ajudam a perceber se queremos realmente fazer esse caminho, ou se pretendemos continuar a caminhar na “ilusão” de que estamos no caminho de conversão.
 
A primeira passagem bíblica que podemos ter em conta é narrada em Marcos 10, 17-22, (e também em Mt 19, 16-26 ou Lc 18, 18-27), e conta-nos a história do jovem/homem rico que se aproximou de Jesus para inquirir como fazer para alcançar a vida eterna.
Ele cumpria escrupulosamente a Lei, mas quando Jesus lhe disse para deixar tudo para O poder seguir, «retirou-se pesaroso, pois tinha muitos bens.»
Ora estes “bens”, podem não ser, para cada um de nós, bens materiais, mas sim outro tipo de atitudes a que podemos chamar “bens”, pois, tal como ao jovem/homem rico, nos impedem também de caminhar na conversão a que Jesus nos chama.
E esses “bens” podem ser a convicção de que cumprimos tudo o que nos é pedido, que não fazemos mal a ninguém, que rezamos o indispensável, que temos as nossas certezas sobre a Doutrina, sobre como interpretar a Palavra, enfim, a firme convicção de que estamos no caminho certo e como tal, não estamos abertos a mudar nada, porque é nessa vida sem mais exigências, que acreditamos seguir a Cristo.
Por isso, quando nos é pedido que larguemos tudo para O seguir, ou seja, que reflictamos no que precisamos mudar, olhamos para o lado e retiramo-nos pesarosos, embora querendo convencermo-nos de que estamos no caminho certo.
 
A segunda passagem bíblica encontramo-la em Lucas 6, 27-32, (e também em Mc 2, 13-17 ou Mt 9, 9-13), e descrevo-nos como Jesus chamou um cobrador de impostos, dizendo-lhe, «segue-me», «e ele deixando tudo, levantou-se e seguiu-o»
Encontramos ainda a mesma forma de proceder no chamamento de Zaqueu, relatado em Lucas 19, 1-16.
Estes homens não cuidaram de olhar para trás, não se detiveram a reflectir sobre o que estava certo ou errado nas suas vidas, mas “apenas” acolheram o chamamento de Jesus Cristo, e largando tudo, seguiram-No.
Sabendo-se pecadores, acolheram a salvação que Deus lhes proporcionava e seguiram-No, na convicção de que Ele lhes mostraria o caminho a seguir, com tudo o que era preciso mudar.
Por isso lemos, por exemplo, que Zaqueu logo emendou a sua vida e não só reparou o mal que tinha feito, como passou a fazer o bem.
 
Não fazer o mal é bom, mas não chega!
Fazer o bem é melhor e é seguir a Jesus Cristo, que “apenas” fez o bem.
 
Todos temos muitas coisas para mudar no nosso caminho de conversão, por isso mesmo, só na atitude de “deixar tudo”, “levantarmo-nos” e “seguirmos Jesus”, é que vamos encontrar as promessas a fazer neste novo ano, para fazermos o caminho diário de conversão.
 
E este “levantarmo-nos” não é despiciendo, porque significa sairmos da rotina, sairmos do “tanto faz” em que tantas vezes caímos, sairmos de uma vivência “religiosa” só para nós, para nos contentarmos a nós próprios, para “erguidos”, passarmos a ser cristãos activos, proclamadores da Palavra, em actos e orações, testemunhas de Cristo, guiados pelo Espírito Santo em Igreja.
 
Assim as “novas” promessas que fizermos de mudança de vida, terão sentido no Novo Ano, que o será todos os dias, porque em todos os dias Ele está connosco, e porque Ele «renova todas as coisas.» Ap 21, 5
 
 
Marinha Grande, 4 de Janeiro de 2013
 
 
 
Nota:
Editorial que escrevi para o "Grãos de Areia", Boletim Mensal da Paróquia da Marinha Grande, deste mês de Janeiro.
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terça-feira, 22 de janeiro de 2013

“DIÁLOGO” COM O DIABO (3)

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Diz ele:
Lá vais tu outra vez para a Missa!
 
Digo eu:
Pois vou! É na Eucaristia que eu me sinto mais perto de Deus e é n’Ela que me alimento d’Ele.
 
Diz ele:
Sim, está certo! Mas só precisas de ir ao Domingo. Não há necessidade de ir todos os dias!
 
Digo eu:
Aí é que te enganas! Claro que não é uma questão de necessidade, por força de lei. É uma necessidade, por força do amor. O que ama quer estar com o amado, e o amado quer estar com O que ama, para O amar também.
 
Diz ele:
Estás a ver a coisa mal. Podias muito bem aproveitar esse tempo para rezares em casa, ou leres a Bíblia, ou escreveres aqueles textos que escreves às vezes, para ti e para outros lerem.
 
Digo eu:
Estás tão preocupado com as minhas orações, leituras e escritas??? Para mim isso significa que a Eucaristia é algo de muito importante para a minha comunhão com Ele, senão, não te incomodava tanto!
 
Diz ele:
Estás a perceber tudo mal. O que eu quero dizer é que já tens a Missa ao Domingo, por isso podias aproveitar o teu tempo para melhor O conheceres na oração, na palavra e na escrita.
 
Digo eu:
Pois, pois, percebo-te! A verdade é que quando rezo em casa, ou leio a Bíblia, ou escrevo, tu tens muito mais oportunidades para andares à minha volta a atazanar-me a paciência. Quando estou na Eucaristia, a presença real d’Ele inibe-te de te aproximares de mim com tanta facilidade.
 
Diz ele:
Faz como quiseres, mas digo-te que estás enganado! Se assim não fosse, a tua Igreja teria como lei a Missa diária!
 
Digo eu:
Tu gostas muito da lei, pelos vistos! Percebo-te, porque se cumprimos apenas a lei, acabamos por cair na rotina, sem chama nem alegria. Mas para a Igreja a lei só tem sentido vivida no amor, e o amor vive-se todos os dias, não tem dia nem hora marcada, muito menos o amor d’Ele por nós e o nosso amor por Ele.
Não me enganas, porque estando Ele comigo e eu com Ele, não me podes enganar. Por isso é que não queres que O comungue! Agora vai-te e deixa-me em paz!
 
 
 
Marinha Grande, 21 de Janeiro de 2013
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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

NUMA FOLHA DE PAPEL BRANCO

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Olho para a folha branca em frente dos meus olhos e pergunto-me: Porque me dá esta vontade de escrever-Te se nada me parece ter para Te dizer?
 
Leio a frase e arrepio-me todo: Como é possível nada ter para dizer ao Senhor da minha vida?
 
Então Tu criaste as árvores e as plantas, os mares e os rios, as montanhas e as planícies, as pedras preciosas e as pedras da calçada, os animais selvagens e os animais domésticos, as nuvens e as estrelas, o Sol e a Lua, enfim criaste o mundo e o universo para nós, e nada me ocorre para Te dizer agradecendo-Te?
 
Então Tu criaste o homem e a mulher, as lágrimas e o riso, a tristeza e a alegria, o sentir e o prazer, o falar, o ver, o abraçar, o dar e o receber, e eu nada tenho para Te dizer louvando-Te?
 
Então Tu fundaste a Igreja, (seio em que me acolho), deste-nos os Sacramentos, (presença viva de Ti entre nós), fizeste-Te alimento divino para nós, e eu nada tenho para Te dizer adorando-Te?
 
Olha, meu Senhor e meu Deus, que ao menos eu acabe esta escrita dizendo: Amo-Te, amo-Te, amo-Te!
 
 
Monte Real, 16 de Janeiro de 2013
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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

“DIÁLOGO” COM O DIABO (2)

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Diz ele:
Lá vais tu novamente ler a Bíblia! Para quê? Já a leste tantas vezes que já a devias saber de cor! A história é sempre a mesma!
 
Digo eu:
Deixa-me em paz! Eu leio a Bíblia porque nela encontro caminho, porque nela encontro direcção para a minha vida.
 
Diz ele:
Estás enganado! Para encontrares caminho e direcção apenas tens que pensar por ti. Apenas tens que usar a tua consciência e vais ver que ela te dirige no que for necessário.
 
Digo eu:
Não me enganas, com essas falas mansas. Claro que a minha consciência é importante e que me devo ater a ela. Mas preciso primeiro de a iluminar pela Palavra de Deus.
 
Diz ele:
Pois, pois, até parece que as histórias da Bíblia são diferentes todos os dias. Lidas uma vez, estão lidas! São sempre iguais.
 
Digo eu:
Aí é que tu te enganas e me queres enganar. A Palavra de Deus é viva, e a história que hoje leio na Bíblia, discernida pelo Espírito Santo, fala-me o que preciso hoje, diferente do que precisava ontem.
 
Diz ele:
Tu é que sabes e te queres enganar. Mas digo-te que ela não te traz nada de novo. Precisas é de pensar pela tua cabeça e servir-te da tua consciência, e então sim encontrarás caminho.
 
Digo eu:
Não querias tu mais nada! Tu que és um manipulador por excelência, um mentiroso, preparavas-te então para subtilmente manipular a minha consciência, que sem a Palavra de Deus, facilmente se deixaria seduzir por ti e me conduziria para onde tu me queres levar.
 
Diz ele:
Estás enganado! Apenas quero que percebas que com todas as boas capacidades que tens, não precisas de te agarrar a um livro velho que diz sempre a mesma coisa. Tu, sozinho, és capaz!
 
Digo eu:
Lá vêm os elogios às minhas capacidades! Mas se dizes que é um livro velho e que nada traz de novo porque te incomoda tanto que O leia e me deixe guiar por Ele?
Vai-te mas é, afasta-te de mim, porque onde está a Palavra da Verdade, não pode estar a mentira e o engano.
 
 
Marinha Grande, 10 de Janeiro de 2013
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domingo, 6 de janeiro de 2013

"DIÁLOGO" COM O DIABO

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Digo eu:
Lá vens tu, com a conversa do costume:
Para que é que vais dar catequese! Eles não te ouvem, não prestam atenção ao que tu dizes! Quando receberem o Crisma, vão-se embora e não voltam!
Pois, até podes ter alguma razão, mas pelo menos alguns ouvem, e fica lá a semente!
 
Dizes tu:
Qual semente? Se não for regada, morre, e não dá fruto!
 
Digo eu:
Pois, mas esta semente não é como as outras sementes. Esta é semente de Deus! Pode ficar muito tempo sem dar fruto, mas também não morre.
 
 Dizes tu:
Isso és tu, a quereres convencer-te que fazes alguma coisa útil! Desilude-te! Gastas o teu tempo e eles não aproveitam nada!
 
Digo eu:
Cala-te, e vai tentar os que te dão ouvidos! De mim não levas nada!
 
Dizes tu:
Ah, ah, isso é que era bom! Já levei tanto de ti!
 
Digo eu:
Pois levaste, isso é verdade! Mas vês como a semente que foi plantada no meu coração deu frutos passados tantos anos? Julgavas-me teu, julgavas que me tinhas conquistado e afinal vê lá tu, ó mentiroso, o que eu vivo agora, o que eu faço agora, o que eu sou agora.
 
Dizes tu:
Mas de vez em quando ainda me ouves!
 
Digo eu:
Pois ouço, mas logo percebo o teu “cantar de sereia”, e arrependo-me, e volto para o caminho que me foi dado e que eu abraço em confiança.
 
Dizes tu:
Está bem, mas olha que muitos se hão-de perder!
 
Digo eu:
Isso é que tu pensas! Como não depende de mim mas d’Ele, muitos se hão-de salvar! Agora vai-te e deixa-me rever a catequese que vou dar.
 
Digo eu:
Olha, apetece-me dizer como Fernando Pessoa:
Aqui ao leme está muito mais do que tu, está muito mais do que eu, está o meu Senhor e o meu Deus, porque minha alma O teme, pois vive no Seu amor.
 
 
 
Marinha Grande, 5 de Janeiro de 2013
 
Nota:
Escrito ontem à tarde, quando me preparava para ir dar catequese.
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domingo, 30 de dezembro de 2012

A PAZ

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Desde o Papa Paulo VI que o dia 1 de Janeiro é o Dia Mundial da Paz.

Ao procurarmos a definição de paz nos mais diversos dicionários, encontramos sempre termos como estes: ausência de guerra; tranquilidade; repouso; silêncio; sossego; boa harmonia; conciliação; pachorra; paciência; etc., etc.
Por estes significados consigo perceber melhor o que Jesus nos quer ensinar, quando diz aos Seus apóstolos:
«Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz. Não é como a dá o mundo, que Eu vo-la dou. Não se perturbe o vosso coração nem se acobarde.» Jo 14, 27
 
É que, curiosamente, em nenhum daqueles significados para paz, encontrados nos dicionários, se encontra a palavra amor!
E no fundo, ou melhor, em verdade, onde há amor verdadeiro, existe sempre a paz!
 
Já se nos remetermos aos significados acima referidos, podemos constatar, que mesmo que se verifiquem alguns deles, ou até todos, a paz verdadeira pode não existir.
Realmente pode haver “ausência de guerra” e não haver paz entre as pessoas!
Podem acontecer todas aquelas premissas e não acontecer a verdadeira paz, pois, por exemplo, pode haver “boa harmonia” e a pessoa ou pessoas não estarem em paz, porque essa “boa harmonia” pode ser resultado de um esforço de contenção para que a mesma aconteça, o que não significa que estejam “resolvidos” conflitos interiores, que continuam a “atormentar” intimamente aqueles que os vivem.
 
Por isso mesmo a paz, a verdadeira paz, só se encontra no amor.
Porque o amor é dar-se sem medida, é sempre a procura de fazer o outro feliz, e ao amar-se assim, também assim se é amado, e por isso mesmo se recebe e se é feliz.
E mesmo quando não se é amado por todos, (porque a todos se deve amar), o amar torna-se de tal modo vida, que mesmo não se sendo amado, se vive na certeza de que o amor vencerá, e assim se vive a efémera felicidade presente, na confiante espera da felicidade eterna.
 
Jesus Cristo de tal modo ama assim, com este amor único e total, que se entregou inteiramente por aqueles que O amam e também por aqueles que O não querem e até rejeitam, mas como o amor vence e vencerá, assim no amor de Deus somos felizes, apesar de todas as provações e dificuldades.
 
Por isso a paz que Jesus nos dá é total, completa e “inteira”, porque é fruto do amor, e o amor, sabemos bem, vem-nos de Deus que nos amou primeiro.
«Nós amamos, porque Ele nos amou primeiro» 1 Jo 4, 19
 
E assim como o amor não se alcança num momento, mas se vive numa vida, também a paz não se encontra num só dia, mas se constrói no amor ao longo de uma vida.
 
Esta é a paz que deveríamos esperar, querer e viver, porque é a paz que vem de Deus, (não é a paz dos homens, assente em tratados e concessões colectivas ou individuais), é a paz de Quem ama primeiro, porque “apenas” pode amar.
 
É esta Paz, que a todas e todos que por aqui passam, desejo queiramos viver neste Novo Ano que vai começar.
 
 
 
Marinha Grande, 30 de Dezembro de 2012
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terça-feira, 18 de dezembro de 2012

CONTO DE NATAL 2012

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A tarde chegava rapidamente ao fim.
Era Inverno, e por isso mesmo, muito cedo o Sol baixava por entre as árvores.
Estava cansada, muito cansada!
Tinha passado todo o dia à beira da estrada, à espera, numa vida em que se tinha embrenhado e a envergonhava, mas da qual não arranjava forças para sair.
E diziam que a prostituição era uma vida fácil!
Pior ainda, pois tinha que à noite ir para aquele bar, fazer de conta que estava bem-disposta e gostava daquela vida!
 
Reconhecia que o enorme cansaço que sentia era muito mais psíquico, do que físico.
Há tempos que a ideia de sair daquela vida, era um constante pensamento, que em todos os momentos lhe tirava o descanso e o pouco bem-estar que ainda pudesse sentir.
 
Lembrava-se bem do namoro com aquele rapaz, que parecia ter tudo o necessário para acabar num feliz casamento. Depois engravidou, e começaram as complicações.
Ele apresentou-lhe aquele “amigo” e quando deu por si estava num bar a beber taças de suposto “champagne”, com homens que não conhecia. Daí até ao sexo pago foi um instante!
Vá lá, tinha resistido ao aborto, e aquela filha que estava em casa, era agora a sua única razão de viver.
 
Ao princípio tudo pareceu fácil, e até se convenceu que não fazia mal nenhum a ninguém, nem a ela própria. Já que tinha aquele corpo, aproveitava-o para ganhar dinheiro e depois …
Depois haveria de sair daquela vida.
 
Tantas promessas daquele patife!
Era preciso agora ganhar dinheiro, dizia ele, e depois quando tivessem um “pé-de-meia”, partiriam para outras paragens onde não os conhecessem, e haviam de viver felizes.
Mas não era possível fazer nenhuma poupança, porque ele tirava-lhe tudo o que trazia para casa, para gastar com os amigos. E quando o que trazia deixou de chegar para tudo o que ele queria, começou a obriga-la a ir para a estrada, onde ainda se sentia mais aviltada e destruída.
Há já há algum tempo que sentia vergonha de si própria e agora que os anos iam passando preocupava-se muito mais com o futuro da sua filha, e com o facto de um dia ela poder saber o que era a sua vida.
 
Veio-lhe à memória a casa dos seus pais.
Não era gente com dinheiro, mas era gente de amor e lembrava-se bem do carinho com que a tratavam, (era filha única), e dos exaustivos conselhos do seu pai acerca daquele namorado que, dizia ele, não prestava para nada. Mas a juventude que julga tudo saber, tinha-a levado a sair de casa para seguir o seu grande amor!
 
Grande amor???
Se pudesse agora ver-se livre dele, seria o melhor presente de Natal que alguém lhe podia dar, porque, lembrou-se, era dia 24 de Dezembro, véspera de Natal, a noite dos presentes em casa dos seus pais.
 
Uma tristeza profunda estremeceu-a!
Não, não iria passar mais esta noite de Natal naquele bar, vivendo aquela vida!
Tomou uma decisão e disse para si mesma: Vou passar por casa à hora que ele não está, (deixo um recado com uma desculpa qualquer), pego na menina, e vou passar a noite de Natal a casa dos meus pais, pois tenho a certeza de que me hão-de receber.
 
Tomada a decisão, pareceu-lhe sentir um alívio imenso no cansaço que a assolava.
Chegou a casa, tomou um banho rápido, desejando que mais do que o corpo, lhe fosse lavada a “alma” para se poder encontrar com os seus pais. Escreveu uma qualquer desculpa num papel, pegou na filha e saiu rapidamente para a casa da sua infância, que ficava numa terra muito próxima.
 
Passado pouco tempo já batia à porta da casa onde tinha crescido e brincado com tanta felicidade. A porta abriu-se, e, ao espanto inicial, sucederam-se quatro braços que a apertavam e esmagavam de amor!
Já na sala começou a ensaiar um discurso de desculpas, de justificação, mas os seus pais disseram-lhe com carinho para se calar, sentar no sofá, pôr os pés em cima da mesa pequena e descansar, porque se tinham apercebido do seu enorme cansaço.
Pegaram na neta e foram para o quarto ao lado.
 
Ela sentiu-se num casulo de amor!
Um calor inexplicável fazia-se sentir no seu coração e ela fechou os olhos desejando que aquele momento nunca mais acabasse.
Sem saber como, viu-se de repente no meio da praça da sua terra e muita gente à sua volta, gesticulando e gritando.
Percebeu que a insultavam, lhe chamavam prostituta e que a queriam expulsar da sua terra.
Cheia de medo e vergonha, as lágrimas corriam-lhe pela cara abaixo.
Viu então um homem que se destacou do meio de toda aquela gente, e com uma voz cheia de força, mas de carinho também, disse: Aquele que de vocês que nunca errou ou cometeu nenhum mal, pegue no braço dela e leve-a até aos limites aqui da terra.
 
E ao dizer isto, aquele homem olhava-os nos olhos, firmemente.
Lentamente deixaram de se ouvir gritos, todos aqueles homens e mulheres baixaram as cabeças e começaram a sair da praça, em silêncio.
Então o homem aproximou-se dela, enxugou-lhe as lágrimas com os seus dedos e disse-lhe:
Pelos vistos ninguém te expulsou! Também eu não te expulso, antes te abraço! Vai à tua vida, mas muda-a enquanto podes!
 
Pareceu-lhe que o homem lhe pegava no braço, mas quando acordou percebeu que era o seu pai que delicadamente lhe dizia: Anda, vem comer, a ceia de Natal está na mesa!
 
Lembrou-se da catequese em criança e da passagem bíblica em que queriam apedrejar a mulher adúltera, e percebeu que num sonho Deus lhe tinha “falado”, e dado uma nova oportunidade para a sua vida.
Tinha finalmente a força de que necessitava para pôr fim àquela vida!
 
Soube naquele momento que tudo tinha mudado e que não voltaria a fazer da sua vida a desgraça que até então vivia.
E alegrou-se, por ela, pela sua filha, pelos seus pais.
Feliz aproximou-se da mesa e a sua mãe disse-lhe: Como estavas a dormir, foi a tua filha que colocou o Menino Jesus no presépio.
 
Olhou para os seus pais com todo o carinho de que era capaz, pegou na sua filha ao colo e disse:
O Menino Jesus já não está no presépio. Está no meu coração!
 
 
 
Marinha Grande 10 de Dezembro de 2012
 
 
Com este Conto de Natal, desejo a todas as amigas e todos os amigos que lêem este blogue um Santo Natal, na paz e no amor de Deus em suas famílias.
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