quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A LUZ E AS TREVAS

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Este tempo da Quaresma, é um tempo particularmente indicado para meditarmos na nossa caminhada com Deus e para Deus.

Assim e mais uma vez me coloquei perante esta incrível constatação, que consiste em que quanto mais caminho, mais me falta caminhar, quanto mais tento resistir ao pecado, mais me parece que o pecado me tenta e ainda, que ao vencer, pela graça de Deus, algumas fraquezas do meu dia-a-dia, logo surgem outras que anteriormente não me parecia importante combater.

E, claro, lembro-me de algumas pessoas que me questionavam por isso mesmo, ou seja, que na caminhada que vão fazendo com Deus e para Deus, aquilo que dantes não lhes aparecia como fraqueza, se torna agora pecado a vencer.

Veio então ao meu pensamento esta imagem de me saber num quarto escuro, sem luz, escolhendo uma peça de roupa para vestir, mas que pretendo “perfeita”, não só na conjugação da cor, mas também numa perfeita qualidade de confecção.

A verdade é que, no meio das trevas, nada consigo distinguir e, portanto, ao toque, a minha sensação é de que aquela peça de roupa será a mais indicada pois parece-me não ter defeitos, e até posso acreditar que a cor é a mais perfeita para o que desejo.

Trago então a peça de roupa para um local com um pouco mais de luz, uma penumbra, e se ainda não consigo distinguir bem a cor, nem qualquer imperfeição, percebo sem dúvida uma mancha, que me parece uma nódoa, pois destoa na uniformidade do tom da peça que consigo ver. Mas não tem problema, julgo eu, pois com uma simples lavagem a nódoa sairá.

Passo então para um lusco-fusco e já me é dado perceber que a nódoa é efectivamente grande, mas mais do que isso detecto um pequeno buraco na peça de roupa que me parece um buraco feito por uma traça.
Ainda não me preocupo em demasia, porque um pequeno ponto de costura dado no sítio certo, fará com que tal buraco desapareça.

Aproximo-a então da luz de um candeeiro, o que já me permite perceber que a cor é de um tom indeterminado, e que talvez existam algumas imperfeições de confecção da peça de roupa.
Ainda não desanimo, porque provavelmente são coisas que não se notarão muito.

Saio então para a luz do dia e aí consigo já ver que o tom da cor não tem grande definição, ou seja, não é uma cor definida que eu possa conjugar com facilidade com o resto da minha roupa.
Confirmo também que se a nódoa é grande, sairá no entanto com facilidade numa lavagem simples e que o buraco da traça não se notará, depois de cosido.
Mas, àquela luz natural, a peça de roupa não me agrada muito, pois parece-me carregada de pequenas imperfeições que eu ainda não tinha conseguido identificar.
Se fosse para usar em ambientes fechados, com luz artificial, até poderia passar, mas para usar assim, à luz do dia, julgo que não me agrada, nem agradará a outros.

Sou então levado pela curiosidade de perceber até que ponto aquela peça de roupa tem defeitos e aproximo-a da luz do sol, para que incida totalmente sobre ela e eu possa descortinar os mais ligeiros defeitos.

Então, sob essa luz, já não ligo sequer à nódoa e ao buraco da traça, que facilmente serão eliminados, mas percebo perfeitamente pequenos defeitos na confecção da peça de roupa, que assim vistos e percebidos, retiram toda a graça, toda a beleza daquela peça de roupa que eu tinha escolhido para vestir.
Aquela peça de roupa que me parecia perfeita nas trevas, foi ganhando defeitos à medida que a luz incidia nela, de tal modo, que agora percebo que a não posso usar todos os dias, porque não só não me agrada, mas também porque com certeza não agradará àqueles que comigo se cruzam.

Connosco, na nossa caminhada com Deus e para Deus, sucede o “mesmo”.

À medida que nos afastamos das trevas para a Luz de Deus, vamos percebendo primeiro os grandes defeitos, os grandes pecados, que por Sua graça, combatemos com êxito.

Mas depois, à medida que nos vamos “examinando” à Luz de Deus, vamos descobrindo os nossos “defeitos”, as nossas fraquezas, que dantes não nos incomodavam, mas que agora, numa caminhada de verdade, percebemos que é necessário combater, para nos “fazermos” mais conformes à imitação de Cristo.

Por isso na nossa caminhada com Deus e para Deus, iremos sempre descobrindo na nossa vida terrena, “montes” para aplanar, “curvas” para endireitar, “espinhos” para aceitar, mas vivendo ao mesmo tempo a certeza inabalável que Ele está sempre connosco, e nos dá forças e “ferramentas” para a caminhada.

Por isso mesmo, ao contrário da peça de roupa que já não quero vestir, porque não a posso emendar de todos os defeitos, nós podemos sempre, pela graça de Deus, ir nascendo de novo pelo seu perdão, e purificando-nos do mal pelo seu amor.

E este é o caminho de conversão que nunca está acabado, enquanto não formos por Ele chamados, e pela sua graça, vivermos no seu gozo, eternamente.


Monte Real, 29 de Fevereiro de 2012
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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

«PEGA NO TEU CATRE E ANDA»

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Evangelho segundo S. Marcos 2,1-12.

Quando Jesus entrou de novo em Cafarnaúm e se soube que estava em casa,
Juntou-se tanta gente que nem mesmo à volta da porta havia lugar, e anunciava-lhes a Palavra.
Vieram, então, trazer-lhe um paralítico, transportado por quatro homens.
Como não podiam aproximar-se por causa da multidão, descobriram o tecto no sítio onde Ele estava, fizeram uma abertura e desceram o catre em que jazia o paralítico.
Vendo Jesus a fé daqueles homens, disse ao paralítico: «Filho, os teus pecados estão perdoados.»
Ora estavam lá sentados alguns doutores da Lei que discorriam em seus corações:
«Porque fala este assim? Blasfema! Quem pode perdoar pecados senão Deus?»
Jesus percebeu logo, em seu íntimo, que eles assim discorriam; e disse-lhes: «Porque discorreis assim em vossos corações?
Que é mais fácil? Dizer ao paralítico: 'Os teus pecados estão perdoados’, ou dizer: 'Levanta-te, pega no teu catre e anda’?
Pois bem, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder para perdoar os pecados,
Eu te ordeno disse ao paralítico: levanta-te, pega no teu catre e vai para tua casa.»
Ele levantou-se e, pegando logo no catre, saiu à vista de todos, de modo que todos se maravilhavam e glorificavam a Deus, dizendo: «Nunca vimos coisa assim!»



No Domingo passado foi-nos dado ler e meditar nesta passagem tão conhecida do Evangelho de São Marcos, que nos é referida também em São Mateus (Mt 9, 1-8), em São Lucas (Lc 5, 17-26) e, de uma forma diferente, em São João (Jo 5, 1-18).

Procurando algo mais do que tudo aquilo que eu já tinha reflectido e meditado nesta passagem, (porque a Palavra de Deus é viva e sempre nova), detive-me no pormenor do “catre”, e no facto de Jesus dizer àquele homem para levar o “catre” consigo.

Em Marcos três vezes é feita menção à ordem de Jesus «pega no teu catre e anda», em Mateus apenas uma vez, em Lucas duas vezes e em João nada menos do que cinco vezes.

Fiquei a meditar no que queria dizer para mim, para a minha vida, este pormenor tantas vezes repetido nestes Evangelhos?

O “catre” significou então para mim, não só os pecados daquele homem, mas também aquilo que o prendia e não o deixava andar, falando espiritualmente, claro.

O “catre” era assim também o passado daquele homem, um passado de pecado e paralisia que não o deixava ser verdadeiramente livre.

Porquê então a necessidade de, depois de curado, levar consigo o “catre” e “andar”?

Deus não quer apagar o nosso passado, nem nós devemos querer apagar o nosso passado, ou tentar fazer que ele deixe de existir.
O nosso passado, com o que teve de bom, mas também com o que teve de mau, faz parte de nós e não o podemos apagar, porque a nossa vida seria então incompleta.
O nosso passado deve então ser vivido como um ensinamento permanente daquilo que fizemos bem e tudo aquilo que devemos evitar porque fizemos mal.
Pela graça de Deus, «os teus pecados estão perdoados», o nosso passado está perdoado, mas não deixa de fazer parte da nossa vida, apenas que, pelo perdão de Deus, já não nos magoa, já nem sequer nos deve envergonhar, mas apenas ser uma memória que nos ensina o que evitar para não voltar a pecar.

Sei, por experiência própria, o que é viver isto mesmo que agora aqui reflicto.

Com efeito, nos muitos anos em que andei afastado de Deus, da Fé, da Igreja, também “ganhei” um “catre”, um pesado “catre”, que não me deixava ser livre, que não me deixava caminhar na vida ao encontro de Deus, o Único que nos dá a vida completa, a «vida em abundância», e que nos faz inteiramente livres.
Durante algum tempo foi muito difícil carregar o “catre”, porque ele pesava muito, e por isso eu queria deixá-lo, queria apagá-lo da minha vida.
E pedi muito a Deus que me ajudasse a esquecê-lo, que me ajudasse a libertar dele, para que me sentisse livre para caminhar.

Até que um dia, em adoração e suplicando mais uma vez a graça de me ver livre do meu “catre”, percebi intimamente, por graça de Deus, que eu só poderia ser livre quando aceitasse o meu “catre” com tudo aquilo que ele tinha de mau, mas aceitando-o com a certeza de que ele já não me poderia pesar, pois Deus no Seu perdão, o tinha aliviado desse peso do pecado.
Mas mais do que isso, teria de o carregar, já não como um peso, mas como um ensinamento de tudo o que deveria evitar na minha vida, para não mais paralisar a minha caminhada.
E mais ainda, que esse “catre” deveria servir também para eu dar testemunho a outros, de como o perdão de Deus é infinito, como o encontro pessoal com Ele muda as nossas vidas, e como não há nada que Deus não perdoe, perante o nosso sincero arrependimento.

Percebi então como era importante aquele homem, nós homens, transportarmos os nossos “catres”: nós somos um todo com o nosso passado, com o nosso presente, com o nosso futuro.
Mesmo quando no passado, por qualquer razão nos afastámos de Deus, Ele não deixou de nos amar, de estar connosco, e até de carregar o nosso “catre” connosco.

Perdoados os pecados, ficamos curados da paralisia espiritual e podemos então caminhar livres, com tudo aquilo que fomos e somos, pois o “catre” já não nos pesa, pela graça do perdão de Deus.


Marinha Grande, 22 de Fevereiro de 2012
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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O MACARÉU

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O facto de ter estado na guerra da Guiné, entre 1971 e 1973, é algo que, obviamente, vem muitas vezes ao meu pensamento.

Recentemente, estando em oração na igreja, veio à minha memória um fenómeno natural, a que assisti muitas vezes num destacamento militar nas margens do rio Geba, chamado Mato Cão, em que estive “aquartelado” durante cerca de 9 longos meses, e que é conhecido por macaréu.

O macaréu para explicar em palavras simples e concisas, é uma onda marítima, sobretudo nas marés mais cheias, que pela sua força, galga a corrente do rio, desde a sua foz em Bissau, até perto de Bafatá, já no interior da Guiné.

Este fenómeno acontece noutros rios, noutros lugares, como por exemplo no Brasil, e é muito curioso, pois podemos dizer que enquanto a onda marítima galga o rio e sobe por ele acima, o rio vai continuando a correr para a sua foz, por baixo da onda do macaréu.

Perguntei-me então o que tinha esta memória a ver com a oração que fazia?

Eis aquilo que fui reflectindo:

O rio corre sempre para o mar, como nós homens, acreditando ou não, “corremos” para o nosso encontro final com Deus.

O mar é uma imensidão, um “todo”, e a sua onda, portanto, tem um enorme poder.
O nosso Deus é o Todo, e o seu poder não tem limites.


A onda do mar, o macaréu, vence o rio, mas não o anula, pelo contrário o rio continua a correr para o mar em toda a sua “identidade”.
O amor e a vontade de Deus, (se o homem quiser), também vence o homem, mas não lhe retira a sua humanidade nem as características próprias de um ser individual e irrepetível, como o são todos os homens.

O macaréu muda o aspecto exterior do rio, torna-o maior, mais caudaloso.
O amor de Deus e a sua vontade, (aceites pelo homem), muda o homem no seu interior, que depois se reflecte na sua imagem exterior, no testemunho que dá como cristão e católico.
E também o torna mais activo, por força dos dons, dos talentos que Deus vai dando a cada um que O procura em «espírito e verdade».

Quando passa o macaréu o rio deixa de se ver, (embora saibamos que ele lá está), pois reflecte apenas a onda marítima que o domina.
O amor e a vontade de Deus, (conformados no homem), faz com que ele reflicta mais Deus do que a sua própria vontade, embora saibamos que é o homem que ali está em todo o seu ser.

O macaréu é muitas vezes aproveitado pelos barcos para subirem e descerem o rio, a fim de chegarem aos seus portos de destino.
O amor e a vontade de Deus, (testemunhado pelo homem), também leva outros homens ao encontro com Deus, que é o seu eterno porto de salvação.

A força do macaréu arranca por vezes árvores das margens do rio, e no seu regresso traz consigo muito lixo que o rio contém.
O amor e a vontade de Deus, (vividos pelo homem), também arranca dele o pecado, e limpa o que está mal e não presta na sua vida.

O macaréu em toda a sua força, dá uma nova vida ao rio, agitando as suas águas e fornecendo mais alimento aos animais que do rio vivem.
O amor e a vontade de Deus, (queridos pelo homem), renovam a sua vida, alimentando-o da Eucaristia, dando-lhe mais vida, e «vida em abundância»*.

Há, pelo menos, duas diferenças muito grandes, no entanto, nesta comparação, embora estas sejam “coisas” que não são comparáveis.

O macaréu impõe-se ao rio, quer o rio queira quer não.
O amor e a vontade de Deus nunca se impõem ao homem, pois quer precisar que o homem se abra por vontade própria a receber tudo o que Deus tem para lhe dar.

O macaréu é periódico e tem graduações de intensidade.
O amor e a vontade de Deus, são eternas, e a sua “dimensão” é o Todo de Deus, no Tudo que em nós quer fazer.


Senhor,
abre o meu coração ao teu amor e à tua vontade,
para que eu seja sempre um homem novo,
na plenitude da vida que amorosamente me queres dar.
Amen.


*Jo 10,10


Marinha Grande, 13 de Fevereiro de 2012
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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

CINCO CHAGAS DO SENHOR

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Cinco são as Chagas do meu Senhor,
que na carne as suportou,
para que eu pudesse viver.

Cinco é o tudo que me faz viver,
o Pai, o Filho, o Espírito Santo,
a Mãe e a Igreja,
e eu espero que assim sempre seja.

Cinco são os dedos de cada mão
e quando os conto um a um
são menos que os meus pecados.

Cinco são os meus sentidos
e em cada um que eu sinto
me deixo pecar e perder.


Muito mais que cinco vezes
hei-de bater no meu peito,
bem junto ao coração,
hei-de baixar a cabeça,
num acto de contrição,
hei-de contar os meus pecados,
em perfeita confissão,
para viver o teu amor,
Senhor,
alcançando o teu perdão.



Monte Real, 7 de Fevereiro de 2012
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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

“O PREÇO A PAGAR”

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Há uns dias atrás indicaram-me um livro e insistiram que o devia comprar e ler.
Confesso que não era minha vontade, até porque tenho um pouco a mania de comprar livros, que por vezes acabo por não ler.

Mas acedi e comprei “O preço a pagar por me tornar cristão”, de Joseph Fadelle, editado por Paulinas Editora.

Enquanto esperava no carro que o meu filho mais novo acabasse as aulas, folheei o livro e dei comigo muito interessado em saber mais da história que o mesmo conta.

Assim que cheguei a casa não descansei enquanto não comecei a ler o livro, primeiro por curiosidade, depois empolgado, (é o termo), porque não conseguia deixar de querer levar aquela história toda até ao fim.
Não o li todo nessa noite, mas não passou o outro dia sem que o tivesse acabado de ler.

Em primeiro lugar fiquei com uma admiração profunda por aquele homem, que arrostando contra todos e contra tudo, decidiu dizer sim na sua vida e tornar-se cristão no meio mais hostil para tal decisão.
Não vou obviamente descrever a história contada, porque apagaria a surpresa, e sobretudo porque nunca conseguiria colocar nas palavras escritas por mim a descoberta daquela narrativa, a força daquela vontade, o destemor de um homem que “persegue” Cristo para O comungar, (leiam o livro e perceberão porquê), a perseverança que Deus dá aqueles que O procuram em «espírito e verdade».

Em segundo lugar percebi um pouco a dificuldade imensa porque passam os cristãos naquele ambiente e como por vezes até pode parecer que rejeitam os que os procuram, mas como tudo isso tem por detrás um enorme “preço” a pagar.

E depois …
Depois senti-me nada, senti-me pecador até ao mais profundo do meu ser!
Não pecador de pecados diários “normais” no nosso conceito de pecado, mas pecador verdadeiro, um pecador que não sabe aproveitar e fazer render os “talentos”, as facilidades que Deus permanentemente lhe dá.

Envergonhado, (e não é a primeira vez que me sinto envergonhado por testemunhos vindos daquela parte da terra), por ter tanto e dar tão pouco.

Num meio profundamente hostil, (tão hostil que o resultado para quem procede como o narrador, é a morte), aquele homem procura incessantemente Jesus Cristo, arrostando com todos os perigos, desistindo de uma vida confortável e estável, colocando de lado até o poder social, sem desistências, nem concessões a si próprio ou à sua própria família.

E eu vejo-me a encontrar desculpas para não participar da Eucaristia, (presença viva de Cristo), numa qualquer igreja a 100 metros de minha casa, ou até a alguns quilómetros, sem ter que me esconder de ninguém, nem de nada.
Dou por mim a pensar quantas vezes me reduzi ao silêncio quando diziam mal do meu Deus, da minha Igreja, para não dar nas vistas, ou por medo de alguma represália.
Quantas vezes deixei que fosse apenas o meu voto, (no segredo da urna), a combater fracamente as leis iníquas que o meu país vai aprovando contra Deus, contra a Igreja, contra a família.

Recordo os meus comodismos, os meus confortos, e que, por causa deles, tantas vezes fiquei calado não dando testemunho da fé que afirmo viver, não fosse por qualquer razão “cair em desgraça” aos olhos de outrem.

«Falta-te apenas uma coisa: vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me.» Mc 10, 21

Este homem nem vendeu o que tinha! Desistiu do que tinha para seguir Jesus!
Mas eu não, eu dou apenas do que me sobra e mesmo assim dou muito menos do que poderia dar, com medo de que algo me falte.

Uns percorrem quilómetros, escondidos entre muros e árvores, para poderem chegar a uma celebração da Eucaristia.

Nós que temos estradas e bons caminhos, e podemos caminhar “às claras” pelas ruas, arranjamos razões para deixar de celebrar a Eucaristia.
Às vezes até escolhemos este ou aquele padre, porque celebra mais rápido, porque fala mais ao nosso gosto!
E protestamos porque o padre falou muito, porque os avisos são demorados, porque isto, porque aquilo … perdendo totalmente o encontro pessoal e comunitário com Cristo que se faz presente em cada Eucaristia.

A lista seria tão longa que fico por aqui.

Mas tenho que deixar vivas em mim as palavras de Jesus na “parábola dos talentos”:
«Servo mau e preguiçoso! Sabias que eu ceifo onde não semeei e recolho onde não espalhei. Pois bem, devias ter levado o meu dinheiro aos banqueiros e, no meu regresso, teria levantado o meu dinheiro com juros. Tirai-lhe, pois, o talento, e dai-o ao que tem dez talentos. Porque ao que tem será dado e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. A esse servo inútil, lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes.» Mt 25, 26-30

Leiam este livro e sintam-se incomodados como eu, nem que seja apenas por uns dias!

Pela graça de Deus alguma coisa há-de mudar em nós.

Glória ao Senhor, que tais filhos chama para d’Ele darem testemunho!



Marinha Grande, 30 de Janeiro de 2012
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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A MÃE

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Sim,
palavra tão pequena
e no entanto,
por ela tudo se realizou.

Cabeça baixa,
não de vergonha,
mas de humildade,
aquela que tudo aceitou,
disse sim,
fez-se mãe da humanidade.

E Ele nasceu,
viveu e cresceu,
e Ela,
mãe incomparável,
percebendo a cada momento
que o Filho não era só dela,
mas se tinha feito Carne,
para cada um,
para todos.

Ele dá-se aos outros,
nem A recebe,
quando O procura,
mas não há ciúme,
apenas e só oração,
como quem tudo guarda…
no coração.

Buscam-no,
para O matar,
com o beijo da perfídia,
como se fosse possível,
matar a própria vida.

Ela a tudo assiste,
quieta, calada
tranquila e em paz.
Não há sequer um queixume,
um ai,
um lamento,
por ver o Filho de Deus
sofrer um tal tormento.

Aos pés da Cruz,
levanta finalmente a cabeça,
para olhar para a humildade,
que ali se faz presença.

O seu coração,
abre-se num grito mudo,
já não por Aquele que morre,
mas por aqueles que nada tendo,
não querem perceber,
que naquela Cruz,
está o Todo,
está o Tudo.

Mãe de infinita graça,
Mãe da humildade serena,
Mãe de Cristo,
Mãe de todos,
Mãe de mim.

Que o Nome do teu Filho,
e o teu minha doce Mãe,
estejam na minha boca,
e no meu coração,
também,
quando chegar a hora,
de eu ir para o Pai,
oh Mãe!



Monte Real, 23 de Janeiro de 2012

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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

MATERNIDADE DE SUBSTITUIÇÃO? BARRIGAS DE ALUGUER?

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Adicionar legenda





Há coisas que eu realmente não consigo entender, por muito esforço que faça.

Maternidade de substituição? Barrigas de aluguer?

O que é que isto quer dizer?
Só a nomenclatura usada já devia “assustar” qualquer um!

O que é que nós andamos a fazer com a vida humana, quando já falamos em “substituição” e ”aluguer”?

Uma mãe que entregou o seu filho para a adopção pode até, talvez, ser “substituída” por outra que aceita aquela criança como sua filha, mas a maternidade nunca pode ser substituída, porque faz parte da mulher que vai ser mãe, pois só ela pode viver as alegrias e as dificuldades que uma maternidade comporta.

Assisti ao parto dos meus dois últimos filhos.
Já tentei descrever esses momentos e nunca consegui tocar ao menos ao de leve o que eles foram e representaram para mim.

É fácil perceber então como para uma mulher grávida é absolutamente única e indescritível a sua gravidez, a sua maternidade.
É, portanto, algo que não é substituível e que marca profundamente toda e qualquer mulher.

As histórias repetem-se ao longo da história da humanidade, sobre mães, sobre filhos que, (separados à nascença), não tendo “conhecido” os seus filhos, as suas mães, (aquelas que os transportaram no seu ventre), os/as procuram incessantemente, mesmo que tenham uma vida estável e boa socialmente.
É um apelo interior, íntimo, avassalador, que provoca essa procura, quer da parte das mães, quer da parte dos filhos.

Se tal lei for aprovada, quanto tempo temos de esperar para vermos as “mães de aluguer” a procurarem os seus filhos porque não os conseguem obviamente esquecer, ou dos filhos assim gerados, à procura das suas mães de maternidade.

E não é por não haver um qualquer pagamento pelo “aluguer” que o acto se torna mais ou menos digno ou formalmente aceite, porque a verdade é que há direitos humanos que são inalienáveis.

Para nós, cristãos, ainda se torna mais impossível a aceitação de tal legislação, por todas as razões que seria fastidioso explicar e são tão nitidamente compreensíveis.

Basta-nos esta passagem da Palavra de Deus:
«Acaso pode uma mulher esquecer-se do seu bebé, não ter carinho pelo fruto das suas entranhas?
Ainda que ela se esquecesse dele, Eu nunca te esqueceria.» Is 49, 15
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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

«NÃO SÃO OS QUE TÊM SAÚDE QUE PRECISAM DE MÉDICO, MAS SIM OS ENFERMOS.»

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Evangelho segundo S. Marcos 2,13-17.

Naquele tempo, Jesus saiu de novo para a beira-mar. Toda a multidão ia ao seu encontro, e Ele ensinava-os.
Ao passar, viu Levi, filho de Alfeu, sentado no posto de cobrança, e disse-lhe: «Segue-me.» E, levantando-se, ele seguiu Jesus.
Depois, quando se encontrava à mesa em casa dele, muitos cobradores de impostos e pecadores também se puseram à mesma mesa com Jesus e os seus discípulos, pois eram muitos os que o seguiam.
Mas os doutores da Lei do partido dos fariseus, vendo-o comer com pecadores e cobradores de impostos, disseram aos discípulos: «Porque é que Ele come com cobradores de impostos e pecadores?»
Jesus ouviu isto e respondeu: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os enfermos. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores.»


Ao escutar este Evangelho na Missa de Sábado passado, detive-me na frase de Jesus:
«Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os enfermos. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores.»

Fiquei a pensar no médico e na necessidade de a ele recorrer se nos encontramos doentes.

E daí reflecti também que o médico não trata só da doença, mas antes, e talvez prioritariamente, deve tratar da prevenção da doença.
Por isso mesmo, e porque com certeza ninguém quer estar doente, devemos recorrer ao médico, se por qualquer razão percebemos que podemos estar em perigo de contrair uma doença.

Por pequenos sinais, por ligeiros sintomas, percebemos muitas vezes que poderemos estar a ficar doentes e assim, aconselha o bom senso, que rapidamente consultemos um médico, para que possamos iniciar um tratamento que impeça a doença de progredir e até talvez, quem sabe, se não o fizermos, podermos chegar a uma situação de falta de saúde irreversível.
É pensamento mais ou menos aceite, que a doença é uma coisa latente em nós, ou seja, que de alguma forma os “provocadores” de doença estão em nós, e é apenas uma questão de se manifestarem ou não, (às vezes porque estamos mais débeis física ou mentalmente), e a doença acontecer, privando-nos da saúde que todos devemos e queremos ter.


Comparativamente, se há coisa que um cristão reconhece e aceita, é que o pecado o envolve, é que a tentação está sempre presente, e que, por isso mesmo, a queda no pecado é algo que devemos sempre encarar, sobretudo se estamos mais frágeis na fé, mais débeis espiritualmente.

Ora como esta é uma constante da nossa vida, devemos usar das mesmas precauções que usamos para nos defender da doença.

Com efeito, para protegermos a nossa saúde, somos capazes de nos esforçar dando grandes caminhadas, fazendo dietas saudáveis, recusando certas práticas que não são aconselháveis, desistindo até, por vezes, de certos “prazeres” que sabemos são momentâneos, e que acabam por nos conduzir a estados de má disposição e até falta de saúde.
Tomamos vacinas, fazemos exames, por vezes muito incómodos e desagradáveis, mas não deixamos de cuidar da nossa saúde, que amiúde até afirmamos ser o nosso maior bem!

Claro que para fazer tudo isso, despendemos muito do nosso tempo, das nossas posses financeiras, da nossa paciência, em filas de espera, em marcações a longo prazo, e vivemos também uma grande incerteza sobre se o que estamos a fazer é o melhor e, sobretudo, se vai dar resultado.

Voltemos então à comparação com a nossa vida espiritual, e podemos perceber que não dedicamos nem um décimo do nosso tempo e das nossas energias, a precavermo-nos das tentações, a proteger-nos do mal, enfim, a evitarmos a todo o custo cair no pecado.

E no entanto o nosso “médico das almas” está sempre disponível, e os “exames” e “tratamentos” que nos prescreve, são de imediato acesso e não têm nenhum custo financeiro.
Poderemos até dizer, e permitam-me a comparação mais uma vez, que são “genéricos”, no sentido de que servem a todos, e todos lhes têm acesso.
São realmente um “serviço de saúde espiritual mundial”, em que todos são efectiva e rigorosamente iguais na capacidade da sua “utilização”.

E todos os conhecemos, porque o “Médico” é sempre o mesmo e desde logo nos ensinou o que era preciso.

São os exames de consciência, com os respectivos resultados sempre alcançados na Confissão.
São os “comprimidos” da oração individual e colectiva.
São os “alimentos saudáveis”, que é sem dúvida a Comunhão, o alimento divino.
São as “caminhadas” na fé, que nos fortalecem perante os ataques dos desânimos, das provações, dos desesperos.
É a Palavra de Deus, que não tem nenhuma contra-indicação.
São os Sacramentos, “vacinas” poderosíssimas contra as tentações e o mal.
É, no fundo, a presença constante, viva, sensível de Jesus Cristo, o “médico das almas”, que não só está connosco, mas em nós, se assim o desejarmos e quisermos.

E, melhor ainda, porque se estamos precavidos, ou seja, se “usamos” estes “tratamentos” constantemente, no dia-a-dia, então estamos fortes e bem espiritualmente, e se estamos fortes e bem espiritualmente, em comunhão com Deus, as doenças do mundo que nos tocarem, deixam de ser sofrimento, para passarem a ser entrega de amor a Deus, por nós e pelos outros.

Como eu não posso saber se vou contrair alguma doença, vou tentando tudo fazer para que tal não aconteça, seguindo alguns conselhos médicos.

Mas como eu tenho a certeza que sou pecador, tenho também a certeza que vou cair na tentação, que me vou deixar tocar pelo pecado em algum momento da minha vida, por isso, tenho que tentar com todas as minhas forças, todos os dias e em todos os momentos, ouvir as “prescrições” do meu Senhor e seguir os “tratamentos que Ele mesmo sempre nos ensina.


Monte Real, 17 de Janeiro de 2012
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